31.1.05

Dizer toda a verdade ou não dizer nada?


Anna (Julia Roberts) e Larry (Clive Owen)

(1) No regresso de uma viagem de trabalho, Larry confessa que foi infiel. Dormiu com uma mulher que encontrou no hotel onde ficou alojado.
(2) Anna tem um amante há mais de um ano e quer viver com ele. Nesse dia, decidiu contar ao marido. Descreve todo o romance: desde quando, que houve uma paragem pelo meio, e agora... (ele vai querer saber ainda mais)
(3) Já separados, Larry faz-lhe um último pedido. que ela aceita. De volta ao amante, confessa que dormiu com o ex-marido.
São três situações de Closer, o filme - descritas sucintamente. E agora, nós, como reagiríamos? Vá lá, respondam:
(1) Contamos-lhe sobre o encontro ocasional?
(2) Damos-lhe os pormenores do nosso romance ilícito?
(3) Confessamos a recaída ao amante?
Nota:
Não, isto não é um teste de personalidade. seria muito redutor. Dizer tudo ou nada ou assim-assim é uma opção de vida. no Divas não queremos saber de escolhas certas ou erradas. queremos apenas compreender a vossa percepção do risco de ficar (ou não) perto demais.

Dormir Acordado III


Enildo Amaral

Memórias. de letras e de histórias.

... trouxe-me à memória a infância feliz que tive. Morava, naquela altura, no Algueirão, pequena localidade no sopé de Sintra, onde as estações do Ano se sentiam como em mais lado nenhum. Fui sempre de compleição miúda, por isso, não era difícil ao meu Pai, colocar-me em cima do nosso enorme cão (naquela altura, parecia-me mais um pónei que um cão...) e rumavamos encosta acima. Debaixo do braço, levava sempre um livro e, chegados ao local de sua preferência, um jardim enorme, de que não me recordo o nome, sentava-me nos joelhos e lia-me uma história... foi assim que comecei a amar as palavras.

do Jorge:
Lembro-me que a partir dos 2 anos, passei muito tempo a desenhar. deitado no chão, horas a fio. a riscar. tentar copiar, passar por cima, pintar. uma das coisas que mais cedo comecei a gostar de desenhar foram letras. copiava-as, pintava-as, e talvez me perguntasse que coisas eram aquelas que, ao contrário dos pássaros ou dos aviões, que via para além dos bonecos onde pintava, não existiam em mais lado nenhum sem ser nos livros de onde as copiava. bom, não devo ter pensado estas coisas. mas a memória do prazer daquelas tardes sem tempo, de cores e traços, essa está aqui de onde a transcrevo.

Vénus em forma de rapaz


Toni Catani

O primeiro texto para a Björk musicar. Autora: Shadow

Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…
Ele, era como o planeta… era Vénus, o mais brilhante e sagaz…
Era filho do céu e do mar… Sobrinho da espuma, das ondas, do sol, das estrelas…
Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…

Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…
Ele saía ao pai… que de amar, era de todo, incapaz…
Sim saía ao pai… tinha cabelo loiro do lado do sol… Olho azul do lado do mar…
Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…

Ele nascera do mar… vivia no mar e para o mar… era Vénus em forma de rapaz… passaram dias… primeiro em forma de anos… depois de séculos… até que…

Ela acabara de nascer… em breve iria tornar-se numa menina linda e morena de olhos pretos… Ele, era há muito um menino… sim… era Vénus em forma de rapaz… cabelo loiro… olhos azul celeste… era o mais brilhante e sagaz…

Ela crescera e em breve iria decidir o seu futuro… mesmo nos seus primeiros anos de vida… ele pela primeira vez, também…Os seus futuros coincidiam… os seus desejos e sonhos também… tudo batia certo… mas ele era mais velho… iria chegar primeiro e nunca se conheceriam…

Ele era inteligente, brilhante, preguiçoso, despassarado, irresponsável, carinhoso, charmoso, rico, despegado, simpático, feliz, amigo… Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…

Ela era inteligente, brilhante, preguiçosa, atenta, calculista, responsável, teimosa, impulsiva, intempestiva, amiga… ela.. ela era…

Ela tinha o futuro planeado… ele não… eles nunca se encontrariam… apesar de sonharem o mesmo… Mas ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz… Era livre e rebelde… e por isso um dia decidiu viajar com as ondas…

Ela ia realizar o seu sonho… sem nunca ter sabido da existência dele…

Ele também, ele havia voltado no momento certo… O destino tinha agora acertado os seus sonhos no tempo… o espaço? Esse era há muito o mesmo no sonho de ambos …

Mas o destino falhara… ela tinha-se atrasado em segundos… num prova que mudaria toda a sua vida… ela não ia mais naquele tempo… Ele havia passado com distinção… e eles nunca se conheceriam… mas eu disse no início que ele era distraído e despassarado… ele não havia levado o papel na candidatura e ia partir para viajem do dia seguinte… assim nenhum iria realizar o sonho… não ali… não no Porto… não naquele ano…

Ele, bem... ele não tinha medo… e perseguiu o sonho fora do porto… ela? Ela tinha medo… e o sonho sempre fora no porto… mas no último dia… algo a fez mudar de ideias… e perseguiu o sonho no mesmo sítio que ele…

Era uma questão de tempo até se encontrarem… aliás… desde que ela nascera que era uma questão de tempo até ao momento em que o iria ver pela primeira vez… ela iria parar.. e algo aconteceria nela porque ela não conseguiria deixar de olhar para ele.. ela tentaria de tudo para deixar de olhar… mas os olhos dele lembrar-lhe-iam o mar que ela tanto amava… ela diria então a medo boa noite… e…

Ele sorriu… começaram então a falar… falar… caminhavam com o grupo enquanto falavam… falavam do porquê estarem ali e não no porto, no sonho de ambos… falavam… falavam…

Eles tinham conseguido algo que impossível… tinham conseguido perder-se de mais de 80 pessoas que caminhavam com eles desde o momento em que se viram… não sabiam como… sabiam apenas que não restava agora ninguém… Era de noite.. ouvia-se a serenata ao longe… e estavam junto ao rio…

Ela não sabia quem ele era… Ele ainda não sonhava com ela… Decidiram então separar-se para encontrar os que com eles caminhavam…

Ela sabia que ele era loiro, tinha os olhos azuis mais bonitos que algum dia vira e mais nada… Ela não sabia o nome… a idade… a turma… Ela não sabia ainda que se tinha apaixonado…

Ele não sabia nada dela… apenas que ela o havia confundido com um Doutor e que por isso teve medo de olhar para ele directo… Ele não sabia que ela nunca iria esquecer o seu sorriso e o olhar…

Eles não sabiam quem era o outro… não sabiam se tinha sido sonho… tinham-se encontrado de noite… e tinham caminhado até ao rio para ouvir a serenata ao luar, no meio de uma multidão de novos amigos, dos quais haviam perdido o rasto…

Eles não se tinham fixado…sim, encontraram aqueles que procuravam… mas naquela noite não mais se viram…

Ela passaria as próximas semanas procurando por ele… sem sorte… porque ele? Ele era Vénus… Vénus em forma de rapaz…

O destino…. O destino voltaria… mas mais tarde…

(continua)

Este "continua" é da Shadow. em forma de música teremos uma maratona, ao estilo de os cavalos também se abatem (gosto tanto desse livro do Horace Mc.Coy!). A Shadow acrescentou que, dado o mote, começou a escrever e que não quis reler. apeteceu-lhe assim. Obrigada pelo teu texto.


Escrever para a Björk

Não se esqueçam do mote que a Björk nos deixou, Venus as a Boy. A Shadow já respondeu, o primeiro texto a ser revelado é o dela. Mas queremos MAIS.

O Fino da Bossa

É tão bom receber um prémio! Amou o seu prémio como se fosse o único. Este veio da outra margem. Tanto mar, tanto mar. Durante 24 horas o Divas & Contrabaixos fica em destaque. O que será que será... Mais um bom pretexto para um fado tropical. Obrigada Gazeta do Blogueiro. Um bom samba do carioca, um bom samba de negro, um bom samba de Orly desta falsa bahiana que adora o vosso país.

30.1.05

Closer


Nathalie Portman, Alice?

E foi assim que vi um filme que se vai tornar de culto. As relações amorosas na pós-modernidade. Encontros casuais, atracções à primeira vista, traições repetidas. Linguagem de vida e de chats. corrente e crua. E a verdade, obsessiva. como perdão para todas as tentações fruidas. Dizer tudo para que me ames como eu sou ou para que me abandones. ou para sofreres comigo. Como chegar ao fundo do teu pensamento. o que sentiste, deixa-me ser voyer da tua traição. Ofereço-te tudo menos o meu nome verdadeiro e quando te estiver a dizer a verdade, não vais acreditar e vais esbofetear-me. descobrirás tarde demais que pouco sabias. Somos livres mas és minha (ou meu). Acabamos assim, sós, ou com uma história que nos afasta, mesmo que te dê um beijo e te cubra ternamente à noite.
Mas não basta existir para ter uma vida dupla?


29.1.05

Um longo domingo de noivado


Audrey Tautou

Para a melhor definição de amor é preciso aguardar (e guardar) a última imagem deste filme. um filme de Jean-Pierre Jeunet.
que gostei de ver, mesmo se o espectro luminoso de Le Fabuleux Destin d' Amélie Poulain (2001) e de Delicatessen (1991, ainda com Marc Caro), ensombrou o meu espanto. com Jeunet, queremos sofrer choques de emoções e de "inovação estética".
neste filme, uma ode ao romantismo, elevada pelo realismo cru e húmido das trincheiras, absorvemos ainda alguma da poeira mágica do Fabuleux Destin. os personagens muito franceses e pitorescos, os detalhes finos, as vidas simples, os acasos que trazem grandeza ou dor, o campo e Paris do início do século, o enredo em espiral, as pequenas grandes decisões. e uma Mathilde igual à Amélie, ou Audrey Tautou igual a si própria. ou seja, doçura.
fantástica a fotografia de Bruno Delbonnel.
encantamento. mas. um mas pequenino.

Encontro de bloggers IX


Björk

A Björk prometeu aplicar todo o seu army of me e compôr uma hyperballad para a melhor pagan poetry. O mote é: Venus as a boy. Convivas, it's in our hands!

Encontro de bloggers VIII


Ralph Fiennes

Lembram-se da música que Luis Bacalov compôs para o filme O Carteiro (Il Postino)? O meu paciente inglês vai recuperar a tempo para, no dia 18, nessa atmosfera musical, nos ler a Ode ao Mar de Pablo Neruda. Até lá, ouçam os Fiennes (também há o Joe) a declamar Shakespeare.

Encontro de bloggers VII


Win Wenders e Peter Falk, Columbo

Mais duas presenças confirmadas.
Já repararam, sigo as asas do meu desejo !

28.1.05

Estranheza familiar


Francis Bacon

Ainda a entrevista ao Gonçalo M. Tavares. Um último instar ao apetite. Como sobrevive um livro ao tempo?

RF: Há uma citação do (Paul) Valéry de que gosto muito. "Os livros têm os mesmos inimigos que o homem – o fogo, a humidade, os bichos, o tempo e seu próprio conteúdo".
GT: O conteúdo é fundamental desde o tempo em que os livros eram memorizados. As pessoas sabiam os livros de cor mas, para isso acontecer, o conteúdo tinha que ser interessante. Aí, a associação entre o homem e o livro ainda era mais evidente.
RF: É engraçado, eu associava o conteúdo ao tempo, saber se um conteúdo pode gerar interpretações válidas em diferentes contextos sociais e históricos. É a questão do que é universal ao longo dos tempos.
GT: O que pode ser universal são aqueles conteúdos que não apresentam uma solução e que hoje já geram várias interpretações. Uma das coisas que mais me agrada é perceber que há diferentes interpretações dos vários livros que escrevi. Os livros que são flexíveis e que duram são os livros que nos deixam sempre pensar que podia ser sobre o dia de hoje.
RF: E não são também aqueles que tocam os sentidos? Que falem de medo ou de amor.
GT: Sim, há uma expressão que o Freud utilizava e que gosto muito que é a "estranheza familiar". A estranheza familiar é sentirmos que alguma coisa não está certa mas que, ao mesmo tempo, há uma parte dessa coisa que reconhecemos e que nos é familiar. Sinto-me em casa mas sinto-me ameaçado. Essa sensação pode, eventualmente, ser uma das marcas dos livros que resistem ao tempo. O familiar permite que exista essa ligação porque, se não houver um fio que me ligue, aquilo é outro mundo. Mas, se me é totalmente familiar, já não interessa, já está assimilada.
Esse conceito do estranho familiar é isso: há uma parte que me agarra mas há também outra parte que ainda não entendi. E é essa parte que ainda não entendi, que me permite continuar a olhar para o livro. Como escritor, uma coisa que também adoro é – e os livros saíram há pouco tempo – dizerem-me "já li este livro várias vezes". Prefiro ter releitores que muitos leitores.
(mais do GT ali ao lado, na coluna da direita)

As guerras são quase naturais


Francis Bacon

Ontem, dia 27, despertamos a nossa memória colectiva. Evocamos a máquina do horror e celebramos o seu fim. Há 60 anos o campo de concentração Auschwitz-Birkenau foi libertado pelo exército soviético. Lia A Fábrica e recordava-me da entrevista com o Gonçalo M. Tavares. A bestialidade é um mistério. O horror não foi exterminado. Este mundo continua em guerra. Decidi transcrever aqui parte dessa entrevista. Até para me "despedir" do Gonçalo, uma vez que na próxima semana vai ser lançada nova entrevista. Neste fragmento ele levanta algumas questões. Todos os domínios do conhecimento congregados - mas sobretudo a biologia e a genética, poderão decifrar o mistério e libertar-nos?

RF: Vamos falar de algumas das tuas constantes. Escreveste vários livros (Um Homem: Klaus Klum; A Máquina de Joseph Walser; Jerusalém) centrados no tema da guerra e parece que vão sair ainda outros ("livros negros").
GT: Interessa-me perceber o fenómeno.
RF: Um pouco como o personagem do médico Theodor em Jerusalém…, ele especializava-se no horror!
GT: Perceber por que é que é quase natural aparecerem as guerras é algo que me interessa, e é uma estranheza. Parece ser algo cíclico mesmo que, em cada momento, pensemos que não é aceitável. Em cada geração, as pessoas surpreendem-se mas é quase como nos surpreendermos com o nascimento de uma criança. Parece inevitável, natural.
RF: E no pós-guerra, que mudanças podem ocorrer? Nos teus livros ficamos com a impressão de que nada avança, de que tudo se mantém. Pode haver mobilidade – as pessoas são peões, mas a estrutura mantém-se. A guerra não provoca revoluções.
GT: Só o facto de as guerras se irem sucedendo, por maior que seja a evolução tecnológica e intelectual, é já uma demonstração de que não há avanço. Se lermos qualquer tragédia grega centrada numa guerra, percebemos que as causas desses tempos são semelhantes às de hoje.
RF: O Edgar Morin falava muito bem disso, mantêm-se as questões de definição de território.
GT: Há a sensação de que existem dois mundos em desenvolvimento: o mundo material, em que claramente, o homem progride. O homem tem cada vez menos dor e vive de uma forma mais confortável de modo geral. Todo o progresso evolui no sentido de aumentar o tempo de vida com menos dor. Temos pois, de um lado o desenvolvimento da cidade, no seu conjunto. A grande invenção humana não é nenhuma tecnologia, é o conceito de cidade, o conceito de pessoas a viver juntas não se matando umas às outras.
Depois, paralelamente a isto, há o indivíduo sozinho. O que sinto é que se pensarmos no progresso desde há 2000 anos, houve nitidamente uma grande evolução ao nível material mas individualmente – em termos do que é o homem, dos medos que tem, da agressividade – quase que podemos traçar uma linha recta. Platão compreenderia perfeitamente o homem de hoje mas ficaria muito espantado com um frigorífico. E eu acho que este é um dos grandes mistérios.
RF: Do ponto de vista biológico, neurológico, não progredimos!
GT: Sim e, nesse aspecto, uma das coisas mais familiarmente estranhas, porque muito ameaçadoras e perigosas mas, ao mesmo tempo, mais estimulantes, é realmente a questão de mexer na genética. O que se percebeu até agora é que, por mais que se mexa na parte exterior, material, ou no acesso à cultura e educação, a conflitualidade e a agressividade não desaparecem. Pela primeira vez agora, vai haver uma junção entre a biologia e a genética. Esta possibilidade tanto assusta como entusiasma.
RF: No limite, se se pudesse fazer uma pequena manipulação genética para que não nos matássemos uns aos outros, tu concordarias?
GT: Sim, não me choca. Choca-me mais as pessoas estriparem-se umas às outras. E não percebo as resistências às alterações genéticas porque o homem está sempre a ser alterado – com antibióticos, corações artificiais, etc.. Se alterarem a nossa biologia para as pessoas viverem melhor no seu conjunto, eu concordo.
(Se quiserem continuar a leitura usem os links à direita, "entrevistas on line")

27.1.05

Spectrum 1


MRF, spectrum1, Aveiro, Hotel Arcada

Era uma vez um rapaz que se chamava Patrick Noel Süskind. Tornara-se alvo de troça na aldeia onde vivia, por razões que eu não vou inventariar, nem inventar. Rumou à cidade mais italiana de que ouvira falar. Arranjou emprego num Hotel, onde também pernoitava. Ocupava o quarto com o número 24. O quarto ainda hoje mantém essa identidade. E também mantém a orientação: virado para o mar (pressupomos, porque a vista não o alcança). O rapaz é que deixou de ser o mesmo. Houve alguma ocorrência extraordinária? Sim, conheceu uma pomba.
Já quase transpusera a soleira, levantara já o pé, o esquerdo, a perna já começara a dar o passo - quando a viu. Estava pousada diante da porta, a menos de vinte centímetros da soleira, iluminada pelo pálido reflexo da luz matinal que entrava pela janela.
Uma imagem, quantos espelhos e labirintos.

25.1.05

Toys

O Japinho chegou a Aveiro e começou logo a distribuir presentes envenenados. É claro que a culpa não é só dele já que, antes, a amada Didas lhe dera o mesmo presente só para ver o que é que o rapaz respondia! Agora ela já diz que vai repensar a vida, ele há com cada uma! Culpa do Pé de Meia que, assaltado pelo Papagaio que fugiu da casa do Vizinho, desata a falar em inglês não fosse o papagaio perceber! Ainda se fosse em francês, que a Didas deixou de estudar há mais tempo! Mas o que dizia, ou melhor, o que perguntava, também não era novo - limitou-se a reproduzir grandes questões que uma candidada eleitoral, de seu nome Gotinha, arremessou, só para confundir as massas! O pior é que aquilo começava com uma ameaça mais poderosa que a do voto em branco do Saramago. Ora vejam lá:

Se alguém quebrar esta corrente, o Santana Lopes ganha as eleições.
1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?

Como não sabia o que eram toys fui ao dicionário. mas como é um dicionário antigo, só lá dizia brinquedos, o que não tem a ver com sex. fui a outro de sinónimos ver o que poderiam ser os brinquedos e li: joguete, brinco, brincadeira, folguedo, divertimento, jogo. A resposta é: YES, OF COURSE! (corrijo: gosto de tirar os brincos)

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?

Mas se é só isso, eu espero que sim. Já o Dildos, só conhecendo!

3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?

Outra vez o dicionário. Kink (foi o mais próximo que encontrei): retorcimento, mania. anh? Mas há fantasias que não sejam retorcidas? E não, não tenho a mania das fantasias. A não ser que ter muitas seja ter a mania. What is? Eles devem querer dizer "What are?" Bem, isso agora, só confesso no dia 18 se beber além da conta!

4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?

Outra vez o Dildo! Mas eu já disse que não o conheço! E olha, o Japinho parece que também não! Mas que lata!

E os 4 nomeados para responderem ao questionário a seguir são:

Alguidar Pneumático - Batatas for the People - Esquerda Volver - O Eixo do Mal

Dormir acordado II


George Papadopoulos, Blue Eye



Lembro-me de quando comecei a pensar que não saber ler era um grande impedimento. Sentada ou em bicos de pés, era sempre minúscula face aqueles adultos que falavam tão depressa. Olhava para cima tentando seguir as conversas, concentrava-me, mas havia sempre qualquer frase que eles atropelavam depois de uma aceleração, e eu perdia o sentido, deixava-me ultrapassar. Como me impressionava a velocidade com que expeliam palavras! Lembro-me de fixar a mímica dos lábios. E de a reproduzir em frente ao espelho. Sonhava com eloquência. Convenci-me então de que ela ia nascer em mim quando aprendesse a ler, isto é, quando injectasse milhares de letras, pronomes, advérbios, formas verbais, substantivos. Chamava-lhes apenas letras e palavras, mas sei que tinha percebido a importância dos adjectivos. Essas pareciam ser as palavras mais importantes. E ler era como que engolir um dicionário ou muitos compêndios.
Teria quatro ou cinco anos.

Quem exercia maior fascínio sobre mim eram os locutores de televisão, nomeadamente os pivots dos telejornais. Desconhecendo a existência dos telepontos, ficava abismada com a capacidade daqueles seres eleitos, que fixavam discursos tão longos e nunca se enganavam!
Ainda não sabia ler. Quando me explicaram que eles liam um texto que era colocado à sua frente, não desarmei a minha veneração. E passei a treinar com o jornal do meu pai. Sentava-me à sua frente a uma distância digna de admiração e ia gritando as letras que já conhecia.

Às vezes ele acabava por me puxar para si, sentava-me ao colo e perguntava: "então, quantos a tem esta página?"
O meu pai. Chamo assim outras memórias.

24.1.05

O mar por cima


Paulo Castro

Eu tinha prometido mandar um postal da minha viagem aos Açores pela mão de Possidónio Cachapa. Só chegou hoje. Agora vai andar por aí e pode ser que, daqui a algum tempo, quando não tiverem planos, se lembrem de olhar para ele, e comprem o bilhete.

Antes de mais, esclareço que de possidónio provinciano ingénuo pretensioso vulgar, ele nada tem, e tão pouco se acachapa. É tão brutal o que acontece na terra que o mar por cima nos parece natural. Mas os personagens, os amigos Ruivo Rucas Rucãoforte e David, a mulher do primeiro, as mães dos dois, e até o Xuinga, não sabem deixar de ser inocentes, de temer, de não expressar, de sentir que é tudo grande demais para quem só quer ir vivendo com consolo. Foi isso que eu vi, movimentos desconcertados que se cruzam na busca de afectos que ninguém quer ou pode ver.
O homem do prazer inculto, fala-nos também de prazeres ocultos e outros mistérios. Cada um tem o seu. De resto o livro é dedicado a todos nós, aos que amam em silêncio.


"Balançando inquieta, a embarcação estava, agora, ao lado da corrente. David aproximou-a mais um pouco da rocha. Ele e o mar. Ele e o mar. Ele e a dor.
- Rucas, meu Rucãoforte - disse. E começou a chorar, mais por si que pelo que não tinha vivido. Sentiu-se ridículo por estar assim, exposto, à vista dos elementos que balançavam e do dia que continuava a correr.
No fundo do barco, os calhaus porosos brilharam mais. David baixou-se e, um por um, meteu-os no bolso."


(Cachapa, Possidónio, O mar por cima, Oficina do Livro, 2000, pp 179-180)

Operator


Gonçalo de la Serna

Anúncio: vou armar-me em operator e colocar Aveiro como spectrum das minhas fotografias. Spectators, invistam o vosso studium, deixem-se picar pelo punctum de cada imagem. A cidade merece essa entrega. Até à spectrum1 !
Para provocar a memória.
(unh, continuo à espera das vossas)
(i a men-i-na do c-i-rco do ivar já conhecem?)
Elis Regina. A minha diva brasileira. Vale pena comer esta sandes de atum.

22.1.05

Dormir acordado


Adelia Mostar

O que guarda a memória no seu saco? O que é que a leva a descobrir no imenso território do nosso passado aquelas imagens precisas, aquelas cenas precisas que ocupam o lugar das nossas recordações? Entre essas recordações, sempre mais ou menos retocadas, até inventadas, privilegiamos algumas. Raras e tão mais preciosas, aquelas que estão ligadas aos nossos primeiros anos; ainda menos numerosas as que pertencem aos anos posteriores. Como nós as acarinhamos, como nós as conservamos, evoquem elas momentos de felicidade ou de sofrimento, de triunfo ou de humilhação! Elas fazem-nos companhia e nós não queremos que elas nos deixem. Visitamo-las de tempos a tempos, correndo o risco de as repisar; o que preferimos é que elas surjam inesperadamente, prova de que elas, pelo menos, não nos esquecem.*


Hoje, a minha proposta é que as provoquemos, às memórias! Fazemos deste texto o mote, e vamos todos procurar as nossas memórias mais longínquas, felizes ou nem tanto. Se forem passíveis de partilha, guardem-nas aqui.
Vou deixar-vos umas das minhas, das mais antigas. ou talvez eu as tenha inventado.
(1) Tenho três ou quatro anos, estou sentada no chão da sala, e estou a brincar com outra criança. Ela esconde-se debaixo do tapete e faz barulhos que me fazem rir. Estou feliz. (a minha mãe diz que eu adorava imitações de animais e que esse amiguinho sabia "rugir" como os leões)
(2) Teria 2 anos e meio. A minha irmã ía nascer. Enquanto a minha mãe está na maternidade, fico em casa de um casal amigo dos meus pais. Eu acho que me lembro do momento em que eles me deixaram nessa casa. Querem que eu suba as escadas da entrada e eu choro imenso e resisto, não quero que me "abandonem" ali. "Lembro-me" perfeitamente das escadas.



*in J.-B. Pontalis, Le Dormeur éveillé, Mercure de France, 2004, pp 25 (tradução minha)
Caras Editoras, é urgente publicar J.-B. Pontalis!
O livro i do Ivar já saiu. Não se esqueça de o ir buscar Aqui.

Encontro de bloggers VI


Juliette

Aveirô? Bien süre!

Encontro de bloggers V


Benicio

Olhos nos olhos. Confias em mim? Disseste Aveiro. Dia 18. Tu sabes que eu vou.

21.1.05

Seul avec lui


Guy Bourdin

Il y a des hommes interdits, des hommes devant lesquels on reste interdite. Je me demande parfois si cette pieuse distance traduit la nature exacte de l'amour - être ici et là, de part et d'autre - ou son impossibilité complète - comment s'aimer de loin, sans rien toucher en l'autre?
Le désir point de traverser, d'aller sur l'autre rive, le désir point, dût-on en mourir, de passer.


in Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 198

Dans ces bras-là II


Robert Zverina, Been There

"Tu vas me manquer", dit-elle - comme on manque un train.
Ela está sentada na Frégate, ela lê Le Monde.
E de repente, ainda que já há muito tempo tivéssemos passado os Bairros Sociais* de Mantes-la-Jolie - faltam menos de dez minutos de trajecto, os passageiros já se amontoam junto às portas -, ela agarra subitamente nas suas coisas e começa a avançar pela carruagem em sentido contrário, abre a porta enfolada, atravessa uma nova carruagem, depois outra, depois ainda outra - "oh mana, a saída é para o outro lado", lança-lhe um sujeito estendido no meio da passagem, ela passa por cima dele, ela continua, ela quer percorrer todo o combóio antes da chegada, antes da confusão da descida, ela quer ter a certeza de que está enganada.
As carruagens da cauda do combóio estão quase vazias, um simples olhar tranquiliza-a, não há ninguém.
Ela abre a última porta, ela passa. Através do vidro do fundo, vêem-se os carris, a estrada, as árvores que fogem. E mesmo ao lado, sozinho, vendo a paisagem, ele está ali, é ele.
Ela avança no corredor (esbofeteá-lo, arrancar-lhe metade dos cabelos, atirar-se de bem alto), a sombra da sua silhueta fá-lo levantar os olhos, ele sorri como se estivesse orgulhoso dela, bem jogado darling - o marido é muito fair-play, muito desportivo. Quando fica ao seu nível, ela atira-lhe a pasta com toda a força à cabeça, perdido meu amor, apanha com isto no nose, honey, never give all the heart , my tailor is rich and my wife is crazy. Depois ela desaparece, son of a bitch.


in Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 143-144
(* Bairros Sociais: no original les HLM - Habitation a Loyer Modéré)

20.1.05

Mulheres da América do Sul, hablando espanhol


Lila Downs

A primeira vez que ouvi Mercedes Sosa ficou para sempre. O mais forte não terá sido então aquele poema Gracias a la Vida nem o som grave e índio que parecia chegar das profundezas da Cordilheira dos Andes. Não, o que me tocou foi o silêncio cheio de lágrimas da Consuelo. Essa amiga dos 20 anos, colombiana, quase exilada, e que tinha uma beleza prima da de Lila Downs. Contava histórias que pareciam vindas dos romances de Gabriel Garcia Márquez, cheias de heróis que sobreviviam a terramotos e a armas e conservavam a pureza. Havia uma de um músico que arriscara várias vezes a vida pelo seu violino. Fiquei assim, observando e respeitando as lágrimas de Consuelo, que pareciam querer dizer "esta é a minha identidade" e estou longe, sinto saudades.
Passaram-se longos meses até esbarrar num álbum de Mercedes Sosa. Pensei que tinha de o levar para casa pela Consuelo. Mas, no meu silêncio, encontrei outras razões para nunca mais deixar de a ouvir. Mercedes conseguiu juntar as melhores influências e os melhores letristas-compositores daquele continente (Nicolas Brizuela, Victor Herédia, Silvio Rodrigues, Milton Nascimento, Chico Buarque, entre tantos outros). Um dos meus sonhos é ouvi-la ao vivo um dia. Quando passou por Portugal - deu um concerto na Aula Magna, eu vivia em França. Lembro-me de que nessa ocasião foi ao programa do Herman José. Eu via os canais portugueses e quis bater em alguém. Ele não conhecia a grandeza da diva, deu-lhe 5 minutos de emissão. À Amália Rodrigues de todo o continente sul americano.
Através de Mercedes Soza (argentina) cheguei a outras vozes e a outros músicos. Mas hoje só vou falar das mulheres. Violeta Parra (chilena), que compôs aquele Gracias a la Vida é um mito. Os temas populares e os problemas sociais são uma constante na sua música, e a imagem que temos dela bebe muito da sua forte militância política. Mas Violeta Parra é uma artista. e é raíz. é emoção. são todas as dimensões.
Em direcção ao Norte, damos um salto a Cuba para evocarmos Celina González. Chegamos ao México e à musa de Frida Kahlo, Chavela Vargas. É preciso ouvi-la cantar La Llorona. Almodovar foi buscar Luz de Luna e rendeu-se à sua personalidade forte. Chavela, que morreu recentemente com mais de 80 anos, deixou uma herdeira. Ela está ali, chama-se Lila Downs. Talvez a tenham visto e ouvido no filme Frida, de Julie Taylor.
Todas juntas numa mesma passion musical e política. Hijas de America Latina. Sangre caliente. Cantando la vida.

Arbol de la vida


Lila Downs (David Allen)

Mujer de Dios
profeta de hierba
mujer de la edad del tiempo
que hace honor a los muertos santos
mujer de Dios
mujer de la obscuridad
mujer de tiempos sagrados
diosa del mundo de muertos
venas y carne, tu fruto ha crecido
la tierra tu sangre siempre beberás
...

Feche os olhos e ouça o canto da deusa.

19.1.05

Dans ces bras-là


Thomas Schmidt

Um fragmento da escrita, feminina sensual sensível romanesca, de Camille Laurens.

O marido sente uma pequena dificuldade em tornar-se o marido - ele diz-lhe olhos nos olhos na Closerie des Lilas, uma noite muito tarde: ele não é livre. Ele vive muito perto dali com uma mulher mais velha que ele, a quem se mantém unido. Mas ele vai romper, ele quer casar-se com ela; ela, ele adora-a.
Eles conhecem-se há três dias. Ela responde-lhe que também ela não é livre: ele chama-se Amal, partiu para viver em Nova Iorque e ela devia ir lá ter com ele, mas agora já não vai, acabou.
Eles apresentam-se: ela faz dança, ela tenta escrever, ela gosta de Guillaume Apollinaire; ele foi nadador de competição, ele compõe poemas que não interessam a ninguém, ele gosta de Yeats, T.S. Eliot, Shakespeare, de teatro, ele detesta a actualidade e roda num XK 120 branco, um dia ele vai levá-la, ela vai compreender. Nessa noite, na Closerie des Lilas, eles vão maravilhar-se com as suas semelhanças. A noite, em casa dela, uma imensa tempestade rebenta no momento em que se beijam - noites eléctricas, peles magnéticas. Os deuses ficam com ciúmes.
Eles casam-se. Ele ensina inglês em Rouen, ela é bibliotecária em Vernon, eles moram em Paris. Eles encontram-se no combóio quase todos os dias - é a mesma linha -, esgotados, apaixonados, eles fazem amor, eles não param.
Uma sexta-feira, ele avisa-a que não vem dormir a casa, que tem de acompanhar uns colegas ingleses a Havre. "Tu vais fazer-me falta", disse ela - como quando perdemos um combóio.*


A suivre...


* (Traduzido do francês: Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 142-143. Na última frase o duplo sentido da palavra manquer não é traduzível, pelo que deixo o original: "Tu vas me manquer", dit-elle - comme on manque um train.)

18.1.05

Mulheres de África


Quem tem um ovo no saco não dança (provérbio africano)

A África Negra produziu ao longo dos anos um número incomensurável de mulheres cantoras. A sua música sempre me perturbou. Isto quer dizer emocionar, impelir à dança, enlevar-se.
Se aqui vou deixar alguns nomes é porque me parece importante quebrar a imagem estereotipada da mulher e da música africanas. das duas. Ouvi-las cantar é atravessar linguagens e romper barreiras culturais.
Mirian Makeba, sul africana, é a Mama África. É uma lenda viva. Nasceu em 1932 e, devido à política de apartheid, passou os seus primeiros seis meses de vida numa prisão com a mãe. A mãe, curandeira, chamou-lhe Zenzi, diminutivo de Uzenzile, que significa "não podes culpar ninguém, a não ser a ti própria".
E Makeba é um exemplo de força. Em 1963 discursou nas Nações Unidas e tornou-se a porta-voz (não oficial) do movimento contra-apartheid, viveu exilada até à eleição de Nelson Mandela, em 1990.
Musicalmente, alcançou renome internacional muito cedo. Com apenas 21 anos tornou-se a vocalista dos Manhattan Brothers. Em 1959 consegue o papel principal em King Kong, um espectáculo da Broadway, e conquista a América. Cantou para o Presidente kennedy no dia do seu aniversário (não foi só a Marilyn Monroe). Trabalhou com Harry Belafonte, participou na digressão de Paul Simon com Graceland. Já actuou nas principais Salas deste mundo. Mirian Makeba é uma diva.
Canta em xhosa, zulu e inglês e o seu espectro musical é amplo, desde a música tradicional africana ao jazz.
As outras cantoras africanas que destaco também conheceram fama internacional. Angélique Kidjo (Benim), Yvone Chaka (África do Sul), Mbilia Bel (Republ. Democrática do Congo). E, é claro, Cesaria Evora, que em Portugal é sobejamente conhecida.
Um outro provérbio africano diz que "Deus soube esconder a nudez do milho sob folhas verdes". Retirem as folhas, uma a uma.

17.1.05

Arca de Noé


Miguel Torga

Hoje é dia para lembrarmos Miguel Torga. Ou é sempre dia. Basta querermos. Mas hoje fui buscar os livros dele, todos Edições Coimbra, com capas amarelecidas e gastas, folhas cortadas, alguns cheios de anotações numa caligrafia que foi mudando de idade.
Lembrei-me do primeiro livro que li, Bichos. E do impacto de Madalena nos meus 13 ou 14 anos. Miura, que continua a comover-me. Ainda são os meus contos.
E aquela linguagem. Frases simples, descrições de filigrana, plano sonoro rico, paisagens verdes ou secas e estaladiças, moçoilas, velhas, machos, vidas.
Pau para toda a colher em matéria de chanatos, o Rodrigo apareceu em Dailão num dia de feira a tocar a gaita dos sete ofícios - uma flauta de capador, que parecia um harmónio a cantar-lhe nos beiços.
- Temos chuva!
Sempre de ironia na ponta da língua, a Mathilde, que lavava a louça, antes mesmo de ver a cara do músico, atirou a dizedela. Depois é que chegou à varanda. E o Rodrigo, apenas a lobrigou, repenicou-lhe cá de baixo uma assobiadela afinada como um madrigal.
- O homem é doido!
Mas era por uma ave de arribação assim, exótica e atrevida, que o seu coração esperava.
(in Contos da Montanha)
Na Arca de Noé da literatura portuguesa, Miguel Torga será sempre um dos eleitos.

Como agradecer?


Complemento ao Troféu Farinha Amparo

Acabo de ganhar um troféu muito especial atribuído pela Didas e Japinho, excelentíssimo júri de um concurso "literário" do Farinha Amparo. O mote era excelente, o prémio é gostoso.

Não podia deixar de retribuir. Mas desta vez, com um texto do Artur Portela.

Quer mais pão, obrigado, de trigo?, obrigado-obrigado, ou antes de centeio?, não-não, trigo, centeio, disse?. não, disse trigo, trigo torrado? como torrado?, torrado, centeio torrado, obrigado, mas não, trigo!, não trigo, portanto, centeio torrado?, não, trigo!, trigo torrado?, muito obrigado, embora, embora quê?, embora o pão torrado beba pior o azeite, beba pior?, sim, beba pior o azeite, quer dizer, seja mais difícil de embeber em azeite, nesse caso, não torrado, nesse caso, e manteiga?, obrigado, a manteiga, de facto é excelente, tem alho?, alho?, não sei, talvez ervas aromáticas!, sim, sim, ervas aromáticas, perfeitamente, perfeitamente, salsa-tomilho-coentros, obrigado, azedas-eruca-louro-alecrim, obrigado, verbena-cebolinho-estragão, obrigado, manjerona-hortelã, obrigado-obrigado, azeitonas?, sim-sim, azeitonas!, verdes?, pretas, obrigado, este vinho é óptimo, alho?, alho, o vinho?!, não-não, as azeitonas!, as verdes?, as verdes e as pretas, não, talvez ervas!, ervas?, sim-sim, ervas aromáticas!, manjericão-endro-cerefólio, como?, ce-re-fó-li-o!, a manteiga é excelente, aqui a tem, mais azeitonas?, obrigado-obrigado, verdes?, pretas, obrigado, disse verdes?, não, disse pretas, obrigado, de nada, pretas com ervas, por quem é, com ervas aromáticas, salsa-tomilho-coentros, o pão?, sim, e a manteiga, a manteiga, sim, mas o pão, eu referia-ma às azeitonas, as pretas?, não, as verdes, as ervas, as ervas!, manjericão-endro-ramo-de-cheiros, obrigado-obrigado, caiu-lhe o guardanapo, caiu-me, desculpe, por amor de deus, de Deus?, de deus?, não, de Deus, é indiferente, Deus ou deus, no caso, é indiferente!, completamente indiferente!, indiferente no caso, no caso, sem dúvida, pois, mas não tem guardanapo, caiu-me, desculpe, eu apanho, não-não, desculpe, apanho eu!, não, desculpe, mas apanho eu!, sim, mas eu insisto, apanho eu!, já estou a apanhar, não-não, eu apanho, eu!, isso não!, quem apanha o guardanapo sou eu, eu apanho, apanho eu!, com licença, com licença, agora caiu-me o meu!, procuramos os dois, não é necessário, eu apanho os dois guardanapos!, apanhamos os dois, os dois apanhamos os dois guardanapos!, um apanha um e o outro apanhas o outro, pois, mas eu faço questão de apanhar o seu!, e eu o seu!, com licença, tinham de estar, com licença, aqui, pois tinham, caíram-nos dos joelhos e só podiam estar aqui!, pois, mas, aqui está um!, é o seu!, por amor de Deus, é o seu!, de deus?, de deus não, de Deus!, é indiferente, Deus ou deus, no caso, é indiferente!, como é que sabe que é o meu guardanapo?, pode muito bem ser o seu guardanapo!, pois, mas e o outro guardanapo?!, é indiferente-é indiferente!, um guardanapo chega!, levantemo-nos!, depois de si, depois de si!, faço questão!, eu também faço questão!, temos é de tomar uma decisão, pois temos-pois temos!, e temos porque não cabemos os dois debaixo da mesa!

O Almoço, Artur Portela, Coluna do Jornal do Fundão, Os Peixes Voadores - 22, 23.04.04

Por onde tenho andado


Marcel Duchamp, Roda de Bicicleta

Não se choquem, mas às vezes penso que sou rica. Não que esta ideia me assalte com frequência. Acontece que às vezes, vou ali ou ali ou ainda acolá, sem sair de casa. Posso escolher a agência de viagens e o destino. As agências ficam no escritório, no quarto, no corredor e ainda no sótão. O destino é o que me parecer mais atraente. Desde o início do ano já fiz três grandes viagens. Ao Afeganistão, aos Açores e a Itália e França (estes últimos, cheguei a percorrê-los no mesmo dia) .
Começa com uma enorme leveza, "o que é que me apetece ler hoje?" E sinto o privilégio. Estendo o olhar, que às vezes tem de atravessar objectos, souvenirs, imagens e fotografias antes de a mão alcançar o bilhete de avião. Porquê este hábito de encher as estantes de livros e de pedaços de outras coisas? Umas estatuetas africanas, um velho mapa de angola, umas caixas de madeira, umas miniaturas de uns sapatos de Marie-Antoinette, fotografias dos que adoramos e nossas, sempre mais jovens e felizes, e outros testemunhos de vivências e amigos que queremos lembrar. Não se dê o caso de a memória nos falhar ou falsear.
Mas podemos deter-nos no obstáculo, e sorrir. E depois fugimos com o tesouro.
Os últimos já aguardavam há algum tempo que eu lhes pegasse. As Andorinhas de Cabul de Yasmina Khadra, O Mar Por Cima de Possidónio Cachapa e Le Dormeur Éveillé de J.-B. Pontalis.
Viajar assim, tendo como único critério a descoberta. Sou rica.
Para a viajem, costumo levar um banco, às vezes a cama, e a roda da minha imaginação. Sem ela era como se, chegada ao destino, não falasse com os nativos. E eu não gosto desses turistas.
Hei-de mandar-vos uns postais.

Apelo

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:

  • Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.
  • Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.
  • Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.
  • Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.
  • Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.
  • Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.
  • Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.
  • Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.
  • Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras


  • Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

    Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

    Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
    Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

    Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.

    Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

    Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação da Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

    Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!





    Idiomas

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    16.1.05

    Postal




    Viajei cá dentro. E quando se viaja, mandam-se postais aos amigos. Nas costas deste escrevi: "Votos de um Portugal livre".
    Achei que era oportuno. Este é um ano de eleições. Somos nós que abrimos a porta.

    14.1.05

    Canção para Carlos Paredes

    Acabo de assistir à apresentação do álbum Canção para Carlos Paredes, uma edição da artemágica. O resultado de um trabalho que começou ainda antes do desaparecimento de Carlos Paredes.
    Assisti a um verdadeiro recital pelas mãos de Luisa Amaro e Miguel Carvalhinho. A guitarra portuguesa e a guitarra clássica ora em diálogo, ora a solo. E pequenas estórias sobre o Mestre e as canções.
    Estórias. A visita a Aveiro, há muitos anos, um passeio ao pé da ria depois de um espectáculo, partindo do Hotel Arcada, e uma camioneta que passa do outro lado do canal com um condutor que grita OBRIGADA PAREDES!
    Verdes Anos, inspirados no Summertime de Gershwin, sabiam? E então um arranjo de Miguel Carvalhinho juntando as duas melodias. Soberbo.
    Canções.
    E os instrumentos. Formas, caixas, que também são beleza. Uma guitarra portuguesa abraçada, tacteada por uma mulher. Quase inédito. Uma guitarra clássica de 8 cordas, construída por Óscar Cardoso, nos dedos que serpenteiam de Miguel Carvalhinho.
    Embalo.
    Para rematar, o sentimento, a simplicidade e a simpatia dos dois.


    Mensagem URGENTE para o público do Porto, Gaia, Matosinhos e arredores longínquos:
    • Sábado, dia 15, Luisa Amaro e Miguel Carvalhinho vão estar na FNAC da rua Santa Catarina (Porto) às 15:30, e no GaiaShopping às 22:00 horas.
    • Domingo estarão no NorteShopping às 17:00.
    A entrada é livre. Mas o sentido é obrigatório.

    Encontro de Bloggers IV


    Al e Johnny

    ... sim, também estarão em Aveiro no dia 18 de Fevereiro. O Al só queria saber se era preciso vir de fato. É claro que não! (e please, esquece esse casaco da foto que me enviaste!)

    Encontro de Bloggers III



    Ela vem com o Maddox. Disse-me só que, por causa do miúdo, é capaz de ter de sair um pouco mais cedo. Tudo bem, querida!

    Encontro de Bloggers II



    Tinha que ser, ela não vem! Armada em star!

    Encontro de Bloggers



    Ele já disse que vai lá estar. Vem sozinho.

    13.1.05

    Chamaremos a Deus, o tubo

    Serge Gainsbourg: "O Homem criou deus. O inverso ainda não foi provado"



    E finalmente quem é este deus de que fala Amélie Nothomb na sua Metafísica dos Tubos? É a própria Amélie, em bébé.


    "Os médicos diagnosticaram uma apatia patológica, sem se darem conta de que havia uma contradição nas palavras: A vossa filha é um legume. É muito preocupante." Neste livro, autobiográfico, Amélie descreve o estado em que permaneceu até aos dois anos. E "como explicar este nascimento dois anos após o parto? Nenhum médico virá a descobrir a chave do mistério. Foi como se tivessem sido necessários dois anos de vida extra-uterina para se tornar operacional." Depois desenvolve uma personalidade muito especial. A ama japonesa exercerá uma influência enorme sobre a criança Amélie, que começa a acreditar que é Deus. "Chegara finalmente o dia do meu terceiro aniversário.(...) Nishio-san foi perfeita: ajoelhou-se em frente da criança-deus que eu era e felicitou-me por essa proeza. Ela tinha razão: ter três anos não está ao alcance de qualquer um."


    Amélie Nothomb é espantosa na descrição da sua infância (no Japão) e consegue fazer-nos compreender e mergulhar nas percepções e estratégias mentais de uma menina de dois/três anos. Com contextos narrativos e históricos completamente distintos, essa capacidade literária de situar o leitor no mundo imaginado (mas credível) da sua infância, já me fez ficar rendida a outros escritores - como Albert Camus, em O Primeiro Homem, ou Simone Beauvoir, em Memórias de uma Menina Bem Comportada.

    E agora, porquê esta alusão a Serge Gainsboug? Pelas respostas que foram dadas à pergunta "quem imaginam que seja Deus?", a partir do primeiro capítulo da Metafísica dos Tubos. De alguma forma, o pensamento da maioria enquadra-se nesta frase de Gainsbourg.



    O Contrabaixo é atribuido ao Bhixma, que deu a resposta mais correcta (bébé). A menção honrosa vai para o Abulafia que cita John Lennon: "Deus é um conceito através do qual medimos a nossa dor".

    12.1.05

    Lançamento da entrevista a Gonçalo M. Tavares


    A morte aumenta a alma. Projecto: Aumentar a alma sem MORRER.

    É um prazer conversar com o Gonçalo M. Tavares. A palavra. Como nos seus livros, abrimos uma página, uma frase, e queremos guardá-la. Abrir assim, ao calhas. E gostamos.
    Podemos começar a ler esta entrevista pelo fim, pelo meio e finalmente chegar ao princípio. Somos nós que definimos a arquitectura.

    Livro da Dança


    Sokolsky

    Aqui ficam alguns fragmentos do Livro da Dança, o primeiro livro que Gonçalo M. Tavares publicou. Quando o escreveu, o autor não pensou "vou escrever um livro de poesia". Mas, mesmo quando ele escreve um romance, eu penso em poesia. e em filosofia. E vocês?
    42.
    Claro que podemos errar e não voltar atrás para corrigir o erro porque o erro não é o ERRO o erro só começa no corrigir, errar e avançar não é errar: é avançar; errar e corrigir não é corrigir: é errar.
    46.
    O sexo é a fenda dos Filhos
    mas é também o jardim dos brinquedos.
    Quem dança deve lembrar a Fenda quando exibe os brinquedos e os brinquedos quando exibe a Fenda.
    54.
    Exibição do que TAPA.
    Exibição da CORTINA.
    Exibição do PUDOR.
    Exibir o pudor é violência.
    o corpo que só é corpo e não é tudo o resto é um corpo que tapa que é cortina e um corpo que exibe o Pudor.
    É violento violento violento.
    65.
    Ouvi isto uma vez cá dentro, antes da dança (um pedido):
    - Por favor, dê-me um exemplar de deus!
    83.
    Dobrar-se de modo ao ouvido se encostar às próprias costas e ao Peito; ouvir o coração com o próprio ouvido.
    Não é acrobacia. Não é Flexibilidade.
    É colocar no átomo o "conhece-te a ti mesmo".
    (Livro da Dança foi editado pela Assírio & Alvim)

    11.1.05

    Temor e Tremor


    Amélie Nothomb


    No início dos anos 90, a belga Amélie-san é contratada pela Yumimoto, uma grande empresa japonesa. Ela vai então descobrir o implacável rigor das hierarquias e o sentido de autoridade da organização japonesa. Depara-se com códigos de comportamento que lhe parecem indecifráveis. Domina a língua japonesa mas não deve revelá-lo para que a empresa não perca a confiança dos seus clientes. A sua superiora hierárquica directa é Mori Fubuki, pelo que não deve falar com o senhor Tenchi, mesmo que este tenha um projecto em que ela pode ser útil. E não esquecer que o superior hierárquico de Fabuki é o Senhor Saito, e o deste, o Senhor Omochi, e o deste o Senhor Heneda,...
    Dia após dia, vai somando erros, faltas e fracassos e, como num pesadelo, vai descendo degraus na hierarquia. Até chegar ao nível de supervisora de casas de banho, a derradeira humilhação.
    Absurdo, cómico, angustiante, este romance ou esta sátira valeu a Amélie Nothomb o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa em 1999. O livro já foi adaptado ao cinema por Alain Corneau.
    Em Portugal o livro foi editado pela Bizâncio.


    - Mademoiselle Mori?
    - Chame-me Fubuki.
    Eu já não ouvia o que ela me dizia. Mademoiselle Mori media pelo menos um metro e oitenta, altura que poucos homens japoneses atingem. Ela era esbelta e graciosa, arrebatadora mesmo, apesar da dureza japonesa a que tinha de sacrificar essa beleza. Mas o que me petrificava era o esplendor do seu rosto. (pp 13, traduzido do original da Albin Michel)
    Gritam-me em cima. Abro os olhos e vejo detritos. Volto a fechá-los.
    Volto a cair no abismo.
    Ouço a voz meiga de Fubuki:
    - Eu conheço-a bem. Ela cobriu-se de lixo para não ousarmos sacudi-la. Ela tornou-se intocável. É assim o seu feitio. Não tem nenhuma dignidade! ( pp 85-86, idem)