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27.4.14

Vasco Graça Moura

Há muitos anos, a Anabela Mota Ribeiro tinha uma programa televisivo em que entrevistava casais. Vasco Graça Moura e a mulher de então, Rosarinho, foram um dos casais convidados. Nunca mais esqueci a crítica da minha homónima, que se queixava de que ele era demasiado pró-Cavaco (Primeiro-Ministro na altura!?), demasiado, demasiado! E eu a gostar tanto dela. Porque era verdade, era verdade! Mas dep...ois ele começou a falar das filhas e leu alguns poemas que escrevera para elas. Belíssimos! Quanta sensibilidade, quanto amor! Vasco Graça Moura era grande na sua arte e imenso no seu saber humanista e erudito. De resto, preconceito meu, era essa imensa Cultura que me fazia não aceitar a sua associação àquele pequeno poder cinzentão e deprimente (que se perpetua...). E comprava os seus livros e admirava as suas épicas traduções, sempre segura da qualidade, sempre ligeiramente irritada. A morte lava as pequenas fúrias. Estou triste pela sua morte.


As meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,

a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:
entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.
a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.
e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

1.5.13

«Eu devia ter sido um ferro de duas garras/ A rasgar o fundo desses mares de silêncio.»


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos...
de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes "Qual será?"
Vem lá comigo fazer a tal visita.
(...)
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho as vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam nas sarjetas,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
(...)

Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio
(...)


T.S. Eliot, "A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock",
Prefácio e tradução de João Almeida Flor, Assírio & Alvim, 1985

P.S.: O poema foi publicado pela primeira vez em 1917 no livro intitulado "Prufrock and other observations".
Imagem: Bill Brandt (1904-1983). Primeira Foto: Misty evening in Sheffield, 1937; Segunda Foto: Rainswept roofs in Sheffield, 1937.

26.4.13

Éramos deuses

Éramos deuses
e fizeram-nos escravos.
Éramos filhos do sol
e consolaram-nos
com medalhas de lata.
Éramos poemas
e puseram-nos a
recitar uma esmolinha
por amor de Deus.




GONZALO ARANGO (1931-1976)

20.2.13

É o mais certo

Bea Emsbach


I
é o mais certo. mesmo que os rebentos se puxem. pelo menos os pés, continuam agarrados à cabeça das mães.
e elas agarram-se umas às outras. que condói este parto. de cortar o cordão ao longo das vidas.


II
é o mais certo. mesmo que Pentesileias e batalhas com Ulisses, mesmo que arco-flecha e lança, de seios comprimidos queimados cortados, nunca seremos a-mazós amazonas mulheres sem peito. varonis e robustas em Termodonte batalhas que perdemos, vingamo-nos com sangue e inocência. movidas pelo desespero da beleza.



MRF
2005

20.1.13

Pensamentos

Ives Netzhammer


aconteceu-lhe ter dois pensamentos simultâneos ao olhar para ele.
o primeiro nasceu do odor da sua voz do som da sua pele da cor dos sentidos do silêncio sinfónico. cresceu no presente do indicativo mais pessoal. e era premente. fazes-me querer viver.
fractal, o segundo. como duas ilhas, não sendo certa a força que os fazia pertencerem ao mesmo arquipélago. quero no futuro que digam de nós que somos velhos e fragéis de força mas sempre amantes. como se o calor dos nossos corpos hoje transbordasse até os nossos corpos vergados desse muito depois de amanhã.

e então ela ascendeu aos céus. para congelar o momento. e afinal não viveu.


MRF
2005



7.1.13

Migração

Daqui a algumas horas vou mudar de Estado. Vou juntar-me a todos os que migram para deixar de ser o que eram. Não sei se falo a língua do meu destino.


MRF,
Ágora(fobia)

26.12.12

Quem assim tem o verão dentro de casa

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Eugénio de Andrade

21.12.12

Príncipe

Rui Guerra, Un prince


daqui deste lado da história já todos sabemos que é Natal, mas meu príncipe nunca percebe o que é óbvio. em meados de dezembro fui buscar luzinhas e enfeites ao sotão. (as pessoas nunca falam desses adereços como seus, mesmo que os tenham comprado no ano anterior. parece-lhes sempre que pertenceram à mãe ou à avó. mas pertencem a filhos, porque - não sei se vos acontece pensar assim - nós somos pais e avós daqueles que fomos nos anos passados). como me deprimem os pinheiros decepados e os pinheiros de plástico (é desnecessário explicar-vos porquê, estou certa), costumo decorar taças e janelas e cantinhos da casa com eles. e foi o que fiz. meu príncipe aceita todas as minhas decisões desde que elas me façam feliz. e feliz eu estava. des-envolver bolas de natal coloridas encanta-me. des-enlaçar fios cravejados de flores luminosas apazigua-me. e o mesmo acontece quando penduro anjinhos gabriel em prateleiras ou vãos de escada e ajoelho reis magos sobre a lareira e enrodilho palha para o menino que escondo debaixo dos travesseiros da casa até o dia 25, porque me revejo criança e outras crianças, e mergulho a mão na meia de lã pendurada na porta e agarro o pó dourado e parece magia quando ele chove, e menina rio e todas as crianças que não estão ali riem comigo. meu príncipe gosta da festa que faço. então ontem pegou na máquina fotográfica e disse queres um espelho redondinho? muitos espelhos redondinhos? e fez flash flash flash flash e depois mostrou o que os relâmpagos tinham feito a minhas bolas. havia um príncipe lá no meio. zanguei-me. meu príncipe não sabia que era quase Natal? devíamos ser dois nas bolinhas. para ver se um nosso menino nasce e ri mais alto que os irmãos que partiram antes de todos os Natais.

MRF
Dez' 2005

20.12.12

Com asas

com asas sobrevoar o teu corpo em flor

homem

transformar a tua saliva em pólen

pousar as patas nos teus lábios
sugar-te
fazer-te mel

e nem saberes

MRF
2005

7.12.12

Em Louvor da Alemanha


Imperiais, burgueses, grosseria
como de duques de uma Idade-Média
sonhada por românticos no vómito
da cervejaria a mais - e todavia
a pompa de sentir que a realidade
é como esse equilíbrio de ser besta
à beira de sonhar-se o universo.

7/Dez/1870

Jorge de Sena
in "Sequências", colecção Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1ª ed. de Julho de 1980

1.11.12

Vida Sempre




Vida Sempre

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito, in "Poemas da Solidão Imperfeita", Faro, Edição do Autor, 1957



 [Imagem: Cruzeiro Seixas. "O que vos digo é que antes de voar, o homem já sabia voar". 1985. Tinta-da-China, Lápis s/ Papel. 23x37 cm]

24.10.12

Existir

Calvino dizia:
saber poemas de cor é bom
porque os poemas fazem boa companhia

e porque se deve treinar a memória.

Os poemas são úteis.

Cunningham diz:
há pessoas que são mais do que úteis
e ser mais do que útil é ser belo.

como alguns poemas.

Outro homem dirá que saber de cor é trazer no coração.
(by) heart
(par) coeur

transportamos a memória no centro do nosso corpo. poemas, às vezes.
que podem ser melhor companhia do que uma pessoa mais do que útil.
ou não (depende dos dias, e do número de dias sem pessoas).

Calvino também dizia que é importante saber fazer cálculos simples à mão, sem calculadora.
por exemplo, saber fazer divisões.
a cabeça calcula o que a mão vai traçando.

É complicado existir.

Finalmente, ele que via cidades invisíveis a nascer dos sonhos das cidades invisíveis, concluía da absoluta necessidade de saber que tudo o que temos podemos perder a seguir
numa nuvem de fumo.

método de sobrevivência: estar junto
instrumento: a música
lugar: a praça

abrir a vida à folia.
amar.

ruído: fazer o quê com o menos que útil?

Não tenho ideias fixas. (logo, como ele, não poderei ser político)
tenho instintos. querer adiar o inabitar.
Decidi decorar poemas.

Começando:
"Comigo me desavim
minha senhora
de mim..."

(Depois continuo. No livro da Maria Teresa Horta.
por exemplo)

Adio muito
existir.
 
 
MRF
2006

20.10.12

Não faças milagres por amor de mim

Ernesto Timor, Just Mary


Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke

Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie nem a minha direcção assuma o sentido do teu sopro.
ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. silencioso aproximas-te como um animal feroz e sou a corça que salta antes de ficar encurralada e te olhar suplicante. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo-sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar-o-teu-medo de não seres grande.
ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.

MRF
2005

7.10.12

Tive, em vez de uma longa vida de doçura

Tive, em vez de uma longa vida de doçura,
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez de perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota nocturna cercado de lobos e de génios
em vez do espectáculo de um rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.



IBD DARRAJ AL-QASTALLI
nasceu em Cacela em meados do séc. X, e foi considerado em todo o al-Andalus, o maior do seu tempo.

Fica o passar do tempo na paisagem

Fica o passar do tempo na paisagem
 -- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.



ANTÓNIO DE NAVARRO (Vilar Seco, Nelas, 1902 -- Lisboa, 1980)

18.9.12

Lês os contornos do meu corpo


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
a mão pousa
diz Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



Certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
Num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe.


MRF
2005

27.8.12

J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

Prose du transsibérien (fragmento)

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de mon enfance
 J’étais à 16.000 lieues du lieu de ma naissance
 J’étais à Moscou, dans la ville des mille et trois clochers et des sept gares
 Et je n’avais pas assez des sept gares et des mille et trois tours
 Car mon adolescence était si ardente et si folle
 Que mon cœur, tour à tour, brûlait comme le temple
 d’Éphèse ou comme la Place Rouge de Moscou
 Quand le soleil se couche.
 Et mes yeux éclairaient des voies anciennes.
 Et j’étais déjà si mauvais poète
 Que je ne savais pas aller jusqu’au bout.

 Le Kremlin était comme un immense gâteau tartare
 Croustillé d’or,
 Avec les grandes amandes des cathédrales toutes blanches
 Et l’or mielleux des cloches…

 Un vieux moine me lisait la légende de Novgorode
 J’avais soif
 Et je déchiffrais des caractères cunéiformes
 Puis, tout à coup, les pigeons du Saint-Esprit s’envolaient sur la place
 Et mes mains s’envolaient aussi, avec des bruissements d’albatros
 Et ceci, c’était les dernières réminiscences du dernier jour
 Du tout dernier voyage
 Et de la mer.

 Pourtant, j’étais fort mauvais poète.
 Je ne savais pas aller jusqu’au bout.
 J’avais faim
 Et tous les jours et toutes les femmes dans les cafés et tous les verres
 J’aurais voulu les boire et les casser
 Et toutes les vitrines et toutes les rues
 Et toutes les maisons et toutes les vies
 Et toutes les roues des fiacres qui tournaient en tourbillon sur les mauvais pavés
 J’aurais voulu les plonger dans une fournaise de glaives
 Et j’aurais voulu broyer tous les os
 Et arracher toutes les langues
 Et liquéfier tous ces grands corps étranges et nus sous les vêtements qui m’affolent…
 Je pressentais la venue du grand Christ rouge de la révolution russe…
 Et le soleil était une mauvaise plaie
 Qui s’ouvrait comme un brasier.

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

 Blaise Cendrars (1887-1961)

 

20.8.12

Nada que exista

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!
Jorge de Sena


espantou-me encontrar-te assim tão de passagem na tua própria casa
e que houvesse sempre uma pequena luz (talvez benzida) a mantê-la iluminada
não obstante, pensei amar-te (libertar-te) da ponta dos dedos às ideias mais abstractas

a realidade revelou um corpo-defeito desfeito
que eu tocava com nomes pele água panos ternos jeitos
e um silêncio encalhado que me inspirava sonatas e me levava a beijar-te por falta de
palavras

decidi então assim: nunca mais te verei.
vais ser: o rasto dos aviões no céu, idênticos a si mesmos, não singulares.
serei: se quiseres ainda: o mamilo que toca piano. ou seja, nada que exista.

MRF
2005

19.8.12

Lorca





Em «La Casada Infiel», de Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936), um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar a sua honra de “cigano legítimo”. A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos.

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(…)
yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(…)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(…)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

in Federico García Lorca, "ROMANCERO GITANO" [1924-7]


P:S.: Uma curiosidade relativa à métrica do poema. Todos os versos têm 8 sílabas, com excepção do primeiro, que tem nove.

3.8.12

Il n'y a pas d'amour heureux

Il n'y a pas d'amour heureux

Rien n'est jamais acquis à l'homme Ni sa force
Ni sa faiblesse ni son coeur Et quand il croit
Ouvrir ses bras son ombre est celle d'une croix
Et quand il croit serrer son bonheur il le broie
Sa vie est un étrange et douloureux divorce



Il n'y a pas d'amour heureux


Sa vie Elle ressemble à ces soldats sans armes
Qu'on avait habillés pour un autre destin
A quoi peut leur servir de se lever matin
Eux qu'on retrouve au soir désoeuvrés incertains
Dites ces mots Ma vie Et retenez vos larmes



Il n'y a pas d'amour heureux


Mon bel amour mon cher amour ma déchirure
Je te porte dans moi comme un oiseau blessé
Et ceux-là sans savoir nous regardent passer
Répétant après moi les mots que j'ai tressés
Et qui pour tes grands yeux tout aussitôt moururent



Il n'y a pas d'amour heureux


Le temps d'apprendre à vivre il est déjà trop tard
Que pleurent dans la nuit nos coeurs à l'unisson
Ce qu'il faut de malheur pour la moindre chanson
Ce qu'il faut de regrets pour payer un frisson
Ce qu'il faut de sanglots pour un air de guitare


Il n'y a pas d'amour heureux


Il n'y a pas d'amour qui ne soit à douleur
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit meurtri
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit flétri
Et pas plus que de toi l'amour de la patrie
Il n'y a pas d'amour qui ne vive de pleurs


Il n'y a pas d'amour heureux
Mais c'est notre amour à tous les deux


Louis Aragon (La Diane Francaise, Seghers 1946)