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27.4.14

Vasco Graça Moura

Há muitos anos, a Anabela Mota Ribeiro tinha uma programa televisivo em que entrevistava casais. Vasco Graça Moura e a mulher de então, Rosarinho, foram um dos casais convidados. Nunca mais esqueci a crítica da minha homónima, que se queixava de que ele era demasiado pró-Cavaco (Primeiro-Ministro na altura!?), demasiado, demasiado! E eu a gostar tanto dela. Porque era verdade, era verdade! Mas dep...ois ele começou a falar das filhas e leu alguns poemas que escrevera para elas. Belíssimos! Quanta sensibilidade, quanto amor! Vasco Graça Moura era grande na sua arte e imenso no seu saber humanista e erudito. De resto, preconceito meu, era essa imensa Cultura que me fazia não aceitar a sua associação àquele pequeno poder cinzentão e deprimente (que se perpetua...). E comprava os seus livros e admirava as suas épicas traduções, sempre segura da qualidade, sempre ligeiramente irritada. A morte lava as pequenas fúrias. Estou triste pela sua morte.


As meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,

a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:
entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.
a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.
e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

6.8.12

Chavela Vargas

"Silêncio, silêncio: a partir de hoje, as amarguras voltarão a ser amargas... morreu a grande senhora Chavela Vargas".


Chavela Vargas, "Las simples cosas"


... y a las cosas simples las debora el tiempo.

29.6.12

Dulce Maria Cardoso

Foto MRF

Conheci Dulce Maria Cardoso em Setembro de 2010, por intermédio de Elsa Ligeiro (Editora Alma Azul) que, em Portugal, deve ter sido das primeiras pessoas a "galardoar" a escritora. Nesse dia, o encontro foi marcado na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Conversámos sobre Hélia Correia, que dela disse ser "Uma assombrosa criadora" (citação na badana de um livro) e de outros escritores, e de livros, e de cada um dos seus livros.... No final da tarde, DMC recebeu o Prémio Ciranda, numa cerimónia muito simples e simpática (tal qual as duas senhoras protagonistas, na foto).

Em 2009, já recebera o Prémio Europeu de Literatura pelo romance “Os Meus Sentimentos”. A imprensa portuguesa, contudo, só começou a dar-lhe algum destaque em 2011, quando publicou “O retorno”, sobre a experiência dos retornados e da descolonização de Angola. O romance foi então considerado pela crítica como o melhor do ano e venceu ainda o prémio especial da crítica nos Prémios LER/Booktailors 2011. 


Ontem, ficamos a saber que o Ministério da Cultura francês a distinguiu com a condecoração da Ordem das Artes e das Letras, uma das mais altas distinções honoríficas da República Francesa.

A maioria dos portugueses não deverá sequer reconhecer o seu nome. Triste fado! E depois, é claro, este não é um caso isolado...

2.5.12

Fernando Lopes (1935-2012)

Foto: Ângela Camila Castelo-Branco/Grand Monde

I. Belarmino [1964], uma longa-metragem sobre a vida do pugilista Belarmino Fragoso, considerada obra-chave no movimento do Novo Cinema português, ao lado de Dom Roberto (José Ernesto de Sousa) e Os Verdes Anos (Paulo Rocha).


II. Uma Abelha na Chuva [1972], baseado no romance homónimo de Carlos de Oliveira.


III. Nós por cá todos bem [1976]. Argumento, escrito por Fernando Lopes. «O filme mistura actores profissionais com habitantes de uma pequena aldeia portuguesa. Possui uma forte componente documental, quebrando com os mecanismos convencionais da ficção que também utiliza. Conta a história de uma pequena equipa de filmagens numa aldeia entretida com alguns dos aspectos do seu dia-a-dia.»


IV. Crónica dos Bons Malandros [1984], baseado no romance homónimo de Mário Zambujal.


V. O Delfim [2002]. Argumento escrito por Vasco Pulido Valente, baseado na obra homónima de José Cardoso Pires.


VI. 98 Octanas [2006], uma longa-metragem de ficção de Fernando Lopes, co-escrito pelo crítico de cinema João Lopes. É famoso por ter o diálogo: "- Vamos para onde? - Longe. - E onde é que isso fica? - Perto."


VII. Os Sorrisos do Destino [2009].«Carlos é um famoso jornalista de 55 anos. A sua esposa, Ada, é, ao contrário do marido, uma mulher com uma vida social agitada, alegre e sedutora. Certo dia, Carlos apanha acidentalmente uma mensagem no telemóvel de Ada. Um novo mundo revela-se diante dos seus olhos quando descobre que a sua esposa tem outro homem. Com a ajuda de um amigo com quem vai viver, descobre esse universo de amores virtuais e adultérios electrónicos...»


VIII. Em Câmara Lenta [2012], o último filme de Fernando Lopes. «Um longo mergulho no mar transforma-se numa intensa travessia pela vida de Santiago e pelas suas relações. A paixão por Constança. O casamento com Laurence. A cumplicidade do amigo Salvador. O mais recente filme do realizador Fernando Lopes abre-nos a porta para uma intrincada teia de relacionamentos. Ao inevitável "quem eu sou?", as personagens de "Em Câmara Lenta" respondem com "não sei quem tu és." »

18.4.12

Francisco Madeira Luís

O meu amigo Francisco Madeira Luís faz hoje 79 anos. É um dos pioneiros do associativismo em Portugal, participou na criação e gestão do projecto dos Centros Culturais Regionais na década de 70 e 80, ao serviço da Direcção Geral de Acção Cultural. Foi ainda impulsionador de iniciativas locais para criação de emprego, para combate ao insucesso escolar, para implementação de políticas locais de salvaguarda do património edificado, para valorização e preservação do património industrial, entre outros. A partir dos anos 60 iniciou uma recolha de documentação gráfica orientada para as áreas do Teatro e das Artes Plásticas, com destaque para os cartazes. Reúne de igual modo material da produção pré-industrial nos domínios do vidro, da cerâmica e do ferro fundido, sendo membro activo da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial. Madeira Luís escolheu a cidade de Aveiro, e especificamente a sua Universidade, para doar a maior parte dos acervos constituídos ao longo de uma longa vida.
Os tantos anos são uma grande proeza. Acontece que, para além do muito viver, ele também pensa muito, e eu acho que pensa extraordinariamente bem. Ouçam-no nesta pequena grande entrevista e imaginem o prazer que é conversar com ele à mesa do café, com ou sem tertúlias. Conhecê-lo fez-me bem, já lá vão uns dez anos ou mais. Nunca me senti mais jovem do que ele. É um amigo, uma pessoa boa e alguém que admiro imenso. Parabéns, Francisco!

Madeira Luís
Aveiro 17-04-2012
Foto: MRF

27.3.12

Poesia Matemática

 
 
POESIA MATEMÁTICA
Millôr Fernandes (1923-2012)

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
...
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


[Imagem: Wassily Kandinsky. Decisive Pink. 1932. Oil on canvas. 80.9 x 100 cm]

16.3.12

«pensar num animal manietado que, na sombra, durante séculos, olfacteasse a liberdade»

Ilustração da Biblioteca Nacional de Portugal: "Não percas a rosa: diário e algo mais, Natália Correia,[ant. 1978] BNP Esp. D9/cx. 61"


"Enchem-se as ruas de júbilo. Destemem-se os corpos. Apertam-se mãos desconhecidas. Trocas de sorrisos e cravos gravam a marca da liberdade nesta hora de prata. […] os seios das mulheres despejam-se nos olhos encadeados dos soldados.[…] A agitação do povo pelas ruas faz pensar num animal manietado que, na sombra, durante séculos, olfacteasse a liberdade. […] Soltem-se as rolhas do champanhe desde há muito engarrafado na nossa esperança."

in Natália Correia. NÃO PERCAS A ROSA. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 — 20 de Dezembro de 1975). Publicações Dom Quixote. Lisboa: 1978.


Na madrugada de 16 de Março de 1993, Natália Correia morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim.

19.12.11

Václev Havel (1936-2011). Cartas a Olga

Nascido em Praga (1936), Václav Havel trabalhou no Teatro da Balaustrada, onde foi técnico de luzes, secretário, assistente de encenação, leitor e autor residente. As suas duas primeiras peças, Garden Party (1963) e Notificação (1965), granjearam-lhe de imediato o reconhecimento internacional como dramaturgo. Finda a Primavera de Praga, em 1968, passou a ser um autor proibido na sua pátria e, devido ao estatuto de co-fundador e porta voz da «Carta 77», veio a sofrer inúmeras condenações e penas de prisão que acabaram por desencadear uma onda de protestos a nível internacional, incluindo os países de Leste. As Cartas que escreveu a Olga Havlová (1933-1996), sua esposa (desde 1964 até 1996), constituíram «o único meio que possuo para comunicar contigo e com o mundo».
Václev Havel viria a ser o último presidente da Checoslováquia (1989-92) e o primeiro Presidente da República Checa (1993-2003). Em 1997 casou com a actriz Dagmar Havlová. Em 2008, "viu subir à cena uma nova peça sua De saída, que dava conta dos dilemas de um líder político no momento de abandonar o cargo. A obra foi aclamada pela crítica." Václev Havel morreu ontem durante o sono, na sua casa em Hrádecek.


1ª CARTA
Querida Olga:

Os astrólogos tinham razão, como se está a ver, quando me predisseram de novo cadeia para este ano e quando anunciaram um Verão quente. Aqui faz realmente um calor horrível, uma sauna imparável. Custa-me que esta minha nova «base» te venha a, com certeza, trazer muitas contrariedades. Na minha opinião devias permanecer em Hrádecek [1], aí administrar a casa, embelezá-la, tratar da horta, ir com os cães ao lago, etc. Sempre poderia alguém da família fazer-te companhia, ou os amigos que aí quisessem ir passar férias. De nada serve estares em Praga - aqui em nada me podes ajudar, e, depois, com que irias ocupar o teu tempo? Lá, ia certamente ser necessário começar a conduzir o carro, para poderes ir às compras e coisas do género. E não ficarias sempre dependente de outras pessoas. Enfim, devias viver como se eu tivesse partido de viagem, ou seja, fazer uma vida normal. É a melhor maneira de me ajudares: saber que estás bem e que nada te falta. (...)

4 de junho de 1979

5ª CARTA
Querida Olga:

Antes de mais: esqueci-me, como, aliás, é costume, de te mandar os parabéns pelo teu aniversário. Só me lembrei uns minutos depois de entregar a carta anterior. Desculpa! Quanto a esta minha falta de memória, parece que já não há nada a fazer. Então, aqui, vão atrasados os meus parabéns! Compro-te um presente quando estiver em liberdade, já que presentes da prisão (feitos de migalhas) não são os que mais te agradam, tanto quanto me lembro... Recebeste as minhas últimas cartas - com os nº 3 e 4? Era, com certeza, bom que confirmasses através de um postal, na volta do correio, a recepção de cada carta, para não perder o controlo... Da última vez acusei a recepção da tua primeira carta; desde então chegaram mais duas. A primeira deu-me grande alegria e despertou-me a vontade de escrever (nela contavas-me como vocês tinham lido as minhas peças). Agradeço-te do coração! Em contrapartida, a segunda (e também a terceira) deixou-me um pouco inquieto. Dizias que não me mandavas um beijo - que eu já sabia a razão. Eu não sei a razão! O que sei é que não deves escrever-me essas coisas, fico mal por sei lá quantos dias. As cartas são a única coisa que temos, aqui lemo-las uma dezena de vezes, ponderamos todas as implicações em todos os sentidos, alegramo-nos com o mínimo pormenor ou com ele também sofremos e tomamos consciência de como estamos manietados - em conclusão, deves escrever-me cartas amáveis! E numera-as, escreve a data, e, principalmente, escreve de forma clara e legível! Afinal, não deve custar muito sentares-te de vez em quando à máquina e escreveres tudo o que acontece contigo! (...)

P.S. Apercebi-me de uma coisa estranha: este mundo aqui dentro tem muito mais verdade que o mundo aí fora. As coisas e os seres humanos mostram-se aqui na sua verdadeira dimensão. A mentira e a hipocrisia esaparecem. Quando estiver outra vez aí fora, hei-de contar-te coisas interessantes sobre este tema.

Segunda-feira, 23.7.1979
(...)

Manhã de terça-feira, 24.7

Hoje sonhei contigo! Tínhamos alugado um palácio em Veneza! Continuo com boa disposição. Escreve-me cartas e postais bonitos para poder guardá-los!

9ª CARTA
Querida Olga:

A tua visita deu-me muita coragem e alento; depois dela senti-me jovial. Fiquei especialmente feliz por termos a mesma opinião sobre a viagaem aos EUA e por me teres apoiado incondicionalmente sobre aquilo que penso de toda a questão. (...) Hoje à tarde comecei a confeccionar para ti uma jóia com bocados de pão. Mando-te um desenho para o caso de não a conseguir fazer chegar a ti pelo advogado. Não tinha ideia de que apreciavas este tipo de coisas ou já te tinha moldado outras há muito tempo.. (...)

Sábado, 8 de Setembro de 1979

(Continuação - Domingo)
Parece que acabei de conseguir algo que se pareça com uma jóia, mas não te vou fazer um desenho - quero que seja uma surpresa. Tentei insuflar-lhe um jeito de arte nova. (...) Não queria esquecer uma coisa: a água em Hrádecek fecha-se assim: 1. Desligas a bomba de água; 2. Abres a torneira que fica no canto da cave e deixas sair a água do cano; 3. Abres todas as torneiras da casa (não esqueças o celeiro) para o ar entrar na conduta.
Gostava de sublinhar outra vez o efeito benéfico da tua visita. Suporta-se melhor o cativeiro.
Ontem tentei, de determinada forma que me foi sugerida, entrar em contacto telepático contigo - mas parece que não resultou. não possuo (ao contrário do que acontece aos outros) os pressupostos necessários para isso.
(...)

P.S. Os meus companheiros consideram-me louco por causa da minha atitude «despegada» relativamente ao visto de saída para os EUA.[2]

[1] Casa de fim-de-semana de Havel, perto de Trutnov, na Boémia do Norte.
[2] V.H. rejeitou a oferta oficial de saída do país, que lhe fora feita ainda durante a sua prisão preventiva.
Nota: Os sublinhados são da autoria de V.H.. Mantive-os . 

Fragmentos de " Cartas a Olga". Edição Livros do Brasil, 1984, pp. 11-19 

17.12.11

«Não há ninguém que diga mal da Cesária»

Morreu uma diva! Acredito que, em Cabo Verde* e em muitos outros pedaços do mundo, todos sintam que estão de «pés descalços»! 


* Link para um fantástico filme promocional de Cabo Verde

6.10.11

Steve Jobs (1955-2011)

«...porque a Morte é provavelmente a melhor invenção da Vida. É o agente de mudança da vida. Ela tira o velho do caminho para dar espaço ao novo. Por enquanto, o novo são vocês...»
«Stay hungry, stay foolish.»


11.9.11

Salvador Allende



«Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Postales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la abuela que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clases para defender también las ventajas de una sociedad capitalista de unos pocos.
Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.
Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.»

22.6.10

Carlos Souto (1943-2010)

Difícil acreditar! Adorava o Engº Carlos Souto. Dia muito triste. Obrigada pelas conversas tão vivas e interessantes, pela boa disposição permanente, pela generosidade, pela cervejinha fresca há tão poucas semanas no Mercado Negro, pelas brincadeiras com as minhas filhas no Merendeiro, pelo dinamismo aquando da exposição de pintura no ciclo «Silêncio», obrigada mesmo! Encontrar alguém como o Engº Carlos Souto por essas ruas de Aveiro, com a sua boina, a sua presença imensa, era umas das razões que me fazia gostar desta cidade (por vezes tão cinzenta). Este é um dia muito triste.

[Fotos tiradas em Abril 2010]

18.6.10

José Saramago (1922-2010)


"Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto."

in As Intermitências da Morte (2005)
Editorial Caminho, pp. 158-159

13.1.10

Avant de disparaître, Amour...

Le Lignon


«Auprès de l'ancienne ville de Lyon, du côté du soleil couchant, il y a un pays nommé Forez, qui en sa petitesse contient ce qui est de plus rare au reste des Gaules. Depuis des temps fort reculés, les bergers se retrouvent sur les rives verdoyantes et fertiles du plus beau et impétueux des cours d'eau, Le Lignon. Celadon est follement épris d'Astrée et sa passion n'a d'égale que la haine que se vouent leurs péres Alcippe et Alcé. En societé, les amants feignent la distance mais vivent des rendez-vous secrets. Tant d'amour afflige le jaloux Sémire qui sème le doute dans l'esprit d'Astrée.

Un matin de printemps, sur la rive gauche du Lignon, Astrée, se croyant trompée, répudie violemment Céladon. Incappable de prouver sa sincerité, le berger désespéré se jette les bras croisés dans les eaux tumultueuses de la rivière qui l'emporte, ne laissant surnager que son chapeau. Céladon gît, inconscient, sur l'autre rive du Lignon. Les nymphes Léonide, Galathé et Silvie décident de l'emmener au Palais d'Isoure pour le secourir...»

Honoré d'Urfé, L'Astrée, Livre 1 (1607-1628)
Ed. Communauté de Communes du Pays d'Astrée, 2000, p. 7
__________

Foi este Verão que conheci os amores dos pastores Astrée e Céladon. O filme de Eric Rohmer, de que me tornei fã depois de, há já muito tempo, passar noites no Quarteto a ver vários dos seus Contos (ah, primeiro a surpresa que foi Pauline à la Plage!), andava talvez pelo meu espírito. Mas Le Forez não era Rohmer, para mim. Ele era Sul de França, Marselha de preferência. Não, Le Forez era a França bucólica pintalgada de palácios inesperados, como por exemplo
Le Chateau de la Bastie d'Urfé, uma construção medieval que o avô de Honoré, Claude d'Urfé, transformou num faustoso monumento renascentista a partir de 1549. Foi aí, no seu Pays, mais precisamente em Saint-Etienne-le-Molard, que descobri L'Astrée. Rohmer terá andado por lá. Tomou uma bebida nos jardins. Visitou alguma exposição temporária. Certamente passou muito tempo no interior do palácio, local onde Honoré escreveu a sua mais famosa obra. Ou talvez não. Eric Rohmer partiu para o Palais d'Isoure e, contrariamente a Céladon, vai guardar o mistério da sua ausência.



Mas que importância teve a obra que inspirou Eric Rohmer no seu último filme?

L'Astrée conheceu um enorme sucesso literário na época do seu aparecimento (início século XVII). Os amores contrariados dos pastores de Lignon apaixonaram as cortes da Europa. Os seus cinco volumes contêm cerca de 5000 páginas. Honoré d'Urfé (1567-1625) terá deixado a obra inacabada e provavelmente terá sido Balthazar Baro (1600-1650), seu secretário, a redigir o final do V volume. A primeira edição completa do romance foi publicada em 1632 graças ao livreiro Augustin Courbé. Na altura, publicavam-se poucas obras de autor e os livros continham um simples frontispício. L'Astrée é o primeiro romance pastoral composto com retrato do autor e da heroína e um total de 60 gravuras. Em 1647, uma segunda edição inclui ilustrações desenhadas por Daniel Rabel. O sucesso da obra e das gravuras é tão grande que a sua influência se estende a outras artes. No final do século XVII, L'Astrée torna-se um dos motivos favoritos das
faianças de Nevers ou dos tecelões da Flandres. O interesse que Rohmer viu em L' Astrée? Não há nada como as suas próprias palavras:

«J’avais un préjugé contre ce roman pastoral comme on en a eu depuis le xix siècle alors que L’Astrée avait connu un succès immense depuis le règne de Louis XIV jusqu’à la Révolution française. Mme de Sévigné en parle avec chaleur, Rousseau, également, qui l’a lu avec délices dans sa jeunesse. L’Astrée est exactement contemporaine de Don Quichotte, qui est bâti sur une illusion, et les deux oeuvres ont des motifs communs. La vraie découverte que j’ai faite, c’est le style plus encore que la langue ou les thèmes. C’est la qualité des dialogues, leur caractère moderne, ou plutôt intemporel. Ces dialogues sont très compréhensibles aujourd’hui, davantage que ceux, pourtant postérieurs, de Corneille dont la langue est plus archaïque que celle d’Honoré d’Urfé» [Ler entrevista completa no
Magazine Littéraire]

«Une épaisse fumée sort de la fontaine. Um petit Amour brillant de clarté s'élève sur un socle de porphyre tenant une table de marbre noir tandis que lions et licornes se figent en figures de marbre. Avant de disparaître, Amour invite l'assemblée à revenir pour entendre l'oracle.

Astrée, Diane, Céladon et Silvandre perdent connaissance
.»(Ibid: Livre 9, p. 119)

Adeus, Eric Rohmer!


Fotos MRF
Agosto 2009