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12.3.13

Manifesto pela Democratização do Regime

A tragédia social, económica e financeira a que vários governos conduziram Portugal interpela a consciência dos portugueses no sentido de porem em causa os partidos políticos que, nos últimos vinte anos, criaram uma classe que governa o País sem grandeza, sem ética e sem sentido de Estado, dificultando a participação democrática dos cidadãos e impedindo que o sistema político permita o aparecimento de verdadeiras alternativas.

Neste quadro, a rotação no poder não tem servido os interesses do Povo. Ela serve sobretudo para esconder a realidade, desperdiçando a força anímica e a capacidade de trabalho dos portugueses, bem como as diversas oportunidades de desenvolvimento que o País tem tido, como aconteceu com muitos dos apoios recebidos da União Europeia.

A obsessão do poder pelo poder, a inexperiência governativa e a impreparação das juventudes partidárias que, com inusitada facilidade e sem experiência profissional ou percurso cívico, chegam ao topo do poder político, servem essencialmente objectivos e interesses restritos, nacionais e internacionais, daqueles que utilizam o Estado para os seus próprios fins.

O factor trabalho e a prosperidade das pessoas e das famílias, base do progresso da Nação, são constantemente postos em causa pela austeridade sem desígnio e pelos sacrifícios impostos aos trabalhadores, como se fossem eles, e não os dirigentes, os responsáveis pelo desgoverno do Estado e pelo endividamento excessivo a que sucessivos governos conduziram Portugal.

Como se isso não bastasse, o poder político enveredou pela afronta de culpar os portugueses, procurando constantemente dividi-los: os mais novos contra os mais velhos, os empregados contra os desempregados, os funcionários públicos contra os trabalhadores do sector privado.

A Assembleia da República, sede da democracia, desacreditou-se, com os deputados a serem escolhidos, não pelos eleitores, mas pelas direcções partidárias, que colocam muitas vezes os seus próprios interesses acima dos interesses da Nação. A Assembleia da República representa hoje sobretudo – com honrosas excepções – um emprego garantido, conseguido por anos de subserviência às direcções partidárias e de onde desapareceu a vontade de ajuizar e de controlar os actos dos governos.

A Nação portuguesa encontra-se em desespero e sob vigilância internacional. Governos sem ideias, sem convicções, sem sabedoria nem estratégia para o progresso do País, colocaram os portugueses numa situação de falência, sem esperança, rumo ou confiança.  O Estado Social está a desmoronar-se, mais do que a racionalizar-se, deixando em angústia crescente centenas de milhares de desempregados e de novos pobres.

E não é apenas o presente que está em desagregação. É simultaneamente o futuro de dezenas de milhares de jovens sem emprego ou com salários que não permitem lançar um projecto de vida.

Só por incompetência partidária e governativa se pode afirmar que os portugueses têm vivido acima das suas posses -como se as posses de milhões de famílias que recebem menos de mil euros por mês fosse o problema- ou que não existem alternativas aos sacrifícios exagerados impostos aos mais pobres e à classe média.

É urgente mudar Portugal, dando conteúdo positivo à revolta e à crescente indignação dos portugueses. As grandes manifestações já realizadas mostraram de forma inequívoca o que milhões de portugueses pensam do sistema político e da nomenclatura governativa.

Há uma diferença dramática entre os políticos que pensam na próxima geração e os que pensam sobretudo na próxima eleição. A sociedade portuguesa tem naturalmente respeito pelas figuras políticas e pelos partidos que foram determinantes no regresso do País a um Estado de Direito Democrático. E pelos políticos que, com visão, souberam recolocar Portugal na Europa.

O que está hoje em causa já não é a opção pela democracia, mas torná-la efectiva e participada. Já não está em causa aderir à Europa, mas participar no relançamento do projecto europeu. Não está em causa governar, mas corrigir um rumo que nos conduziu à actual crise e realizar as mudanças que isso implica.

Todavia, nada será possível sem um processo de reformas profundas no Estado e na economia, reformas cujos obstáculos estão, em primeiro lugar, nos interesses de uma classe política instalada e na promiscuidade entre o poder político e os interesses financeiros.

Impõe-se uma ruptura, que a nosso ver passa por três passos fundamentais:

- Em primeiro lugar, por leis eleitorais transparentes e democráticas que viabilizem eleições primárias abertas aos cidadãos na escolha dos candidatos a todos os cargos políticos;

- Em segundo lugar, pela abertura da possibilidade de apresentação de listas nominais, de cidadãos, em eleições para a Assembleia da República. Igualmente, tornando obrigatório o voto nominal nas listas partidárias;

- Em terceiro lugar, é fundamental garantir a igualdade de condições no financiamento das campanhas eleitorais. O actual sistema assegura, através de fundos públicos, um financiamento das campanhas eleitorais que contribui para a promoção de políticos incompetentes e a consequente perpetuação do sistema.

 Esta ruptura visa um objectivo nacional, que todos os sectores da sociedade podem e devem apoiar. Alterar o sistema político elimina o pior dos males que afecta a democracia portuguesa. Se há matéria que justifica a união de todos os portugueses, dando conteúdo às manifestações de indignação que têm reclamado a mudança, é precisamente a democratização do sistema político.

 É urgente reivindicar este objectivo nacional com firmeza, exigindo de todos os partidos a legislação necessária. Queremos que eles assumam este dever patriótico e tenham a coragem de –para o efeito– se entenderem. Ou então que submetam a Referendo Nacional estas reformas que propomos e que não queiram assumir. Os portugueses saberão entender o desafio e pronunciar-se responsavelmente.

Entretanto, os signatários comprometem-se a lançar um movimento, aberto a todas as correntes de opinião, que terá como objectivo fazer aprovar no Parlamento novas leis eleitorais e do financiamento das campanhas eleitorais.

A Pátria Portuguesa corre perigo. É urgente dar conteúdo político e democrático ao sentimento de revolta dos portugueses. A solução passa obrigatoriamente pelo fim da concentração de todo o poder político nos partidos e na reconstrução de um regime verdadeiramente democrático.

 

Os signatários

Abílio Neves Marques Afonso, Economista, Lisboa
Álvaro Órfão, Aposentado, Marinha Grande
Amílcar Martins, Engenheiro, Lisboa
Ana Cristina Figueiredo, Jurista, Oeiras
André Fonseca Ferreira, Consultor de Inovação, Lisboa
António Cerveira Pinto, Publicista ,Cascais
António Curto, Bancário, Lisboa
António Gomes Marques, Bancário, Loures
António Mota Redol, Engenheiro, Costa da Caparica
Armando Ramalho, Gestor, Odivelas
Arsénio Mota, Escritor, Porto
Carlos Filipe, Empresário, Lisboa
Carlos Loures, Escritor, Mafra
Clarisse Aurora Marques, Agrónoma, Amadora
Dulce Mendes, Médica, Marinha Grande
Edmundo Pedro, Correspondente de Línguas, Lisboa
Eduardo Correia, Professor Universitário, Cascais
Elísio Estanque, Professor Univ., Sociólogo, Coimbra
Emerenciano, Artista Plástico (pintor), Porto
Eurico de Figueiredo, Prof. Cated. de Psiquiatria Jubilado da Univ. Porto, Porto
Fernando Lima Antunes, Engenheiro, Lisboa
Fernando dos Reis Condesso, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, Lisboa
Helena Ramalho, Tradutora e Docente, Carcavelos
Hélder Costa, Escritor e Encenador, Lisboa
Henrique Neto, Empresário, Marinha Grande
Herberto Goulart, Economista, Lisboa
Jaime do Vale, Empresário, Oeiras
João Gil, Músico, Cascais
Joaquim Ventura Leite, Economista, Grândola
Jorge Martins, Empresário, Marinha Grande
Jorge Veludo, Dirigente Sindical, Lisboa
José Adelino Maltês, Professor Catedrático da Univer. de Lisboa, Lisboa
José Almeida Serra, Economista, Lisboa
José Manuel C. S. Miranda, Bancário reformado, Lisboa
José Manuel Pereira da Silva, Arquitecto, Caldas da Rainha
José Quintela Soares, Economista, Lisboa
José Veiga Simão, Professor Catedrático da Universidade Coimbra, Lisboa
Júlio Marques Mota, Professor Universitário Aposentado, Coimbra
Luís Azevedo, Investigador Universitário, Lisboa
Luís Salgado de Matos, Cientista Social, Lisboa
Manuel G. Simões, Professor Universitário Aposentado, Amadora
Manuel Maria Carrilho, Professor Catedrático da Univ. Nova Lisboa, Lisboa
Manuel Nobre Gusmão, Advogado, Cascais
Manuela Menezes, Engenheira, Lisboa
Margarida Rocha e Costa, Economista, Lisboa
Maria Albertina B. Campos, Notária, Arcos Valdevez
Maria da Conceição Bapt. Silvestre, Investigadora e Prof. do Ensino Secundário, Lisboa
Maria José Mota, Jurista, Lisboa
Maria do Rosário B. S. Fardilha, Socióloga, Aveiro
Maria Perpétua Rocha, Médica, Lisboa
Maria Teresa S. F. Sampaio, Filósofa, Lisboa
Mário Montez, Docente E. S. Politécnico, Coimbra
Miguel Cambraia Duarte, Oficial de Marinha, Oeiras
Paulo Soares, Advogado, Lisboa
Pedro Teixeira da Mota, Investigador, Lisboa
Rómulo Machado, Advogado, Cascais
Rui Tavares, Historiador/Deputado Parlamento Europeu, Bruxelas
Telmo Ferraz, Empresário, Marinha Grande
Vasco Lourenço, Militar Reformado, Lisboa

17.6.12

Hoje, Antígona, Creonte ou o Coro?

Slavoj Žižek. O filósofo esloveno participou na campanha da Syriza. Syrica representará o que designou como a "paixão pelo Real". Como Antígona, diria eu, quando decide transgredir as leis da cidade. Mas não é assim: como o Coro, a voz do povo, afirma Žižek, fazendo corresponder Antígona e Creonte, personagens da peça de Sófocles, aos partidos Pasok e Nova Democracia.
Este discurso vai contra todos os "significantes vazios" desta nossa era.
[Quem nos dera um Žižek num comício eleitoral! Quem nos dera ser o símbolo de qualquer pequena revolta para o merecermos!]

2.6.12

Crónica de um mega-problema anunciado

O último diálogo da rainha com Tony Blair no filme The Queen (Stephen Frears, 2006) é sobre educação. Eles conversam enquanto passeiam pelos jardins do palácio. A câmara vai fazendo um plano cada vez mais alargado enquanto Blair comunica a sua Majestade que os mega-agrupamentos estão fora de moda e que vai re-introduzir o conceito da escola de proximidade. Like in old times.

Também nós voltaremos a esse conceito. Com décadas de atraso, como sempre. Até lá, vai haver tempo para concluir da dificuldade de gerir espaços com milhares de alunos de diferentes idades (e várias dezenas/centenas de professores), do agravamento das relações professor/aluno, do aumento do insucesso escolar, da multiplicação dos casos de bulling, enfim, mais stress, stress, stress para toda a população escolar. Vamos ter mais tecnologia e menos afecto, quadros multimedia e assaltos aos cacifos, vigilância sempre insuficiente (nunca houve dinheiro para recrutar "assistentes operacionais" à medida das necessidades de cada escola, e muito menos para os formar), bandos em vez de grupos, e a lei do mais forte a prevalecer.

Tudo isto num contexto em que as crianças com necessidades especiais têm cada vez menos apoio pedagógico (neste país, não existem outros apoios)(neste país, os Agrupamentos podem ter 3000 alunos e um psicólogo).
stop. Rejeito o conceito da fábrica-escola para optimização dos recursos. Valham-nos os professores com vocação.

[Imagem: Paula Rego. Sem título. 1985. Tinta-da-china sobre papel. 34,5 x 25,5 cm]

30.5.12

Um sorriso pra ti, um sorriso pra mim e a vida sorri

Papa reitera confiança nos seus próximos e nega conspiração no Vaticano. Relvas comportou-se com "correcção e transparência", diz Passos.

Bento XVI e São Bento no seu melhor.

27.5.12

De braços cruzados

Daqui a uns anos, o Tribunal Penal Internacional servirá, novamente, para lavar a cara a este mundo que cruza os braços enquanto assiste ao massacre.

20.5.12

Are you ready boots?

Canção dedicadíssima ao ainda ministro Miguel Relvas (temos que ir por partes):

«These boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you

You keep lying, when you ought...a be truthin'
and you keep losin' when you oughta not bet.
You keep samin' when you oughta be a changin'.
Now what's right is right, but you ain't been right yet.

These boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you.

You keep playin' where you shouldn't be a playin
and you keep thinkin' that you'll never get burnt.
Ha!
I just found me a brand new box of matches yeah
and what he knows you ain't HAD time to learn.

These boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you.

Are you ready boots? Start walkin'!»

Nancy Sinatra - These Boots Are Made For Walking (1966)

19.5.12

Demitam-no, s.f.f.!

Num telefonema à editora de política do jornal, na quarta-feira, Miguel Relvas ameaçou fazer um blackout noticioso do Governo contra o jornal e divulgar detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira, de quem tinha recebido nesses dias um conjunto de perguntas relativas a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

(O ministro pediu desculpas ao jornal e está tudo bem! ____ Este país que é o meu ___ envergonha-me.

17.5.12

Bósnia

 
Avistar a Stari Most (ponte velha), aproximando-nos a pé do centro de Mostar (viajamos num autocarro, carreira normal, a partir de Sarajevo). A Stari Most foi construída em 1566 e era considerada património da Humanidade. Foi completamente destruída no período de guerra (e em 2008 restaurada).

12.5.12

Bom dia, Santa Joana!

Hoje é dia da santa que não o é. É dia da beata. É dia da princesa. É dia da padroeira da cidade. Não consta que tenha apanhado moliço ou lido os ditos populares que enfeitam os barcos. Mas rezou e muito por estas bandas. Santa Joana Princesa, mais do que nunca, atende às preces das gentes da terra que te acolheu. O convento onde vivias, por exemplo, já só se adivinha. Mas não te zangues que foi tudo feito em nome do progresso e com fundos comunitários__que são públicos mas que tratamos como se fosse um gesto simpático de D. Afonso V, teu pai. A ti dedico estas imagens, quase históricas (para quando viver for recordar), porque o maior notável da urbe achou por bem construir uma ponte sobre o Canal Central. O povo não quer a ponte mas, já sabes, o progresso, os fundos de D. Afonso V,.... Já agora anuncio-te: de uma das janelas do convento poderás assistir à construção de outra ponte que unirá os dois parques da cidade. O povo também não quer essa ponte aérea, porque há passadeiras que servem muito bem o propósito, mas é o progresso, os fundos de D. Afonso V... Não poderias alertar o papá para o mau uso dos seus fundos?

Aveiro, Canal Central, Maio 2012
Foto MRF

3.5.12

Construção

Hoje, a Espanha parece aquela canção do Chico Buarque (Construção), "sentou pra descansar como se fosse sábado/comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe". Temos todos os jornais repletos de Real Madrid, Mourinho, Ronaldo e os seus "monumentos" (é o que El Mundo chama aos golos do madeirense). E depois a crise, a crise, a crise e os escândalos: «Calatrava cobró 94 millones de Valencia por la Ciudad de las Artes y las Ciencias». Afinal, somos mesmo hermanos!

«nouvelles coopérations»

Philippe Douste-Blazy é um homem de centro-direita. Apoiou François Bayrou na primeira volta. Não vai votar em Sarkozy e, num artigo do Le Monde, justifica a sua posição. O que é interessante é o conceito de "fronteira" que defende, assim como o seu ponto de vista sobre a regulação dos fluxos migratórios. Não inova. Mas há, neste artigo, valores que têm andado muito esquecidos.

«...car on ne règlera la question des flux migratoires que par l'aide au développement en inventant de nouveaux mécanismes de solidarité mondiale pour permettre aux plus pauvres de la terre d'avoir accès aux Biens Publics Mondiaux (nourriture, eau potable, accès à la santé, à l'éducation et à l'assainissement). L'accès d'un village au cœur du Mali aux médicaments anti paludisme, ce sont dix candidats de moins à l'exode. C'est ce que nous devrions faire, car on ne règlera pas la plupart de nos problèmes d'injustice sans la réelle mise en œuvre de financements innovants à l'échelle d'abord européenne puis mondiale avec, en pariculier, la mise en œuvre de la taxe sur les transactions financières, seul impôt adapté au monde global. C'est ce que devrait faire la France, pays des Droits de l'Homme, en montrant l'exemple, en proposant de dépasser la notion des vieilles frontières, en créant de nouvelles coopérations à l'échelon européen et mondial plutôt que construire des murs.»

Le débat entre François Hollande et Nicolas Sarkozy


O que eu vi foi um debate de 2h30 que passou a correr___ pelo interesse das temáticas e a vivacidade (às vezes, forte agressividade) dos dois candidatos. E, fugindo ao que serão as opiniões mais radicais, voltei a encontrar um discurso diferenciado entre a Direita e a Esquerda. O que os separa: [1] não a necessidade de fortalecer a Europa Comunitária (ponto assente para Sarkozy e Hollande, apesar de isso os afastar dos eleitores do Front Nacional, os Marinistes) mas a orientação económica que nesta deve prevalecer; [2] a política fiscal; [3] a questão da imigração. Difícil acrescentar a política externa francesa como 4º tópico: Hollande apenas defendeu o regresso das tropas francesas no Afeganistão ainda em 2012, enquanto Sarkozy prefere terminar a missão estabelecida para a França e acordar a data com os aliados (provavelmente em 2013)__ e aqui pareceu-me que a atitude de Hollande era "forçada".

Portugal nunca foi mencionado, o que é bom e mau. Não somos dados como mais um terrível exemplo de contas públicas deficitárias, nem mencionados por qualquer boa política. Na verdade, desde a época em que vivi em França, sei que Portugal não interessa a ninguém. Mas Zapatero, Papandreou e Berlusconi não foram poupados! O mais curioso é que este último apoia Hollande___ por se ter sentido humilhado por Sarkozy. E Sarko repudia qualquer ligação ao italiano, apesar de pertencerem à mesma família partidária. Enfim, neste capítulo ambos estiveram mal! Mesmo se Hollande se distanciou, convictamente, do que foi a acção do eixo franco-alemão nestes últimos 3 anos. De resto, é aí que reside a maior diferença e a razão da grande expectativa em relação a estas eleições presidenciais.

Hollande propõe "crescimento" para combater a austeridade, em vez de planos centrados apenas na redução do déficit, nomeadamente por via do despedimento massivo de funcionários públicos. A França de Sarko já demitiu mais de 100 mil professores e auxiliares de educação. E mesmo se a premissa é: «Nous ne redistribuerons que ce que nous aurons fabriqué », Hollande prometeu estabilizar os efectivos da função pública e readmitir professores (a juventude e a melhoria da educação na República é uma das suas prioridades). As políticas fiscal e económica defendidas por cada um dos candidatos, centradas na França, podem ser lidas em pormenor 
aqui. Mas, para a Europa, são basicamente 4 as propostas de Hollande: (1) Criação de eurobonds para financiar projectos industriais, infraestruturas - com grande oposição de Sarkozy que acha que não compete à França ou à Alemanha pagar a dívida dos países "infractores"; (2) Baixar a taxa de financiamento da Banca (o BCE financia a Banca a 1%, os Bancos não podem depois exigir 5%); (3) Criação de uma taxa sobre as transações financeiras que servirá para financiar projectos de desenvolvimento; (4) Mobilizar os fundos estruturais europeus que estão actualmente inactivos.

Enfim, François Hollande afirma-se pela "mudança" e Nicolas Sarkozy bate-se pela continuidade numa França que, apesar do descontrolo do déficit, continua a crescer.

O mais arrepiante em Sarkozy é a sua aproximação à Front Nacional, em matéria de imigração. O seu discurso, associando os estrangeiros em França à comunidade islâmica (a propósito da proposta de Hollande de abertura das eleições municipais a estrangeiros residentes há mais de 5 anos), caiu mal e foi bem aproveitado por Hollande. Mas lá regressaram ambos aos véus e às burkas, o que era absolutamente desnecessário.

Última nota: anseio por um debate equiparável em Portugal numas futuras eleições, legislativas ou presidenciais. Gostaria de ver candidatos bem preparados para discutir matérias concretas, defendendo políticas com base em dados objectivos e ideias que estão para além do fait divers. E, se tentados ou levados a ataques pessoais, capazes de nomear claramente situações, datas e nomes. Hollande queixou-se da falta de justiça e de transparência no aparelho judicial francês (e apresentou medidas). Se ele desse um saltito a Portugal....
Segundo todas sondagens, François Hollande será o novo Presidente da República francês. Este debate era crucial. Nicolas Sarkozy deveria, não só bater Hollande aos pontos, como deixá-lo KO. Esteve longe disso.
Resta esperar pelo próximo domingo. Tendo como referência os resultados da primeira volta, continuo a pensar que nada está seguro.
São estas capas de hoje do gauchiste Libération e do pró-Sarko Le Fígaro:

2.5.12

Cegueira branca no 1º de Maio

Ler:

"...quando se encontrou diante de um supermercado. Lá dentro o aspecto não era diferente, prateleireas vazias, escaparates derrubados, pelo meio vagueavam os cegos, a maior parte deles de gatas, varrendo com as mãos o chão imundo, esperando encontrar ainda algo que se pudesse aproveitar, uma lata de conserva que tivesse rsistido às pancadas com que tentaram abri-la, um pacote qualquer, do que fosse, uma batata, mesmo pisada, um naco de pão, mesmo feito pedra."

JOSÉ SARAMAGO, in Ensaio sobre a Cegueira


ou:

"... Alexandre Soares dos Santos (...) revelou que 1.500 dos funcionários do grupo têm os salários penhorados por dívidas e alguns até roubam nas lojas Pingo Doce para matar a fome. (...) Soares dos Santos sabe que pode contar com a pobreza daqueles a quem paga."

JORGE COSTA, in Um grupo exemplar.

O assunto é o mesmo.

25.4.12

Donos de Portugal


Donos de Portugal from Donos de Portugal on Vimeo.

Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.

Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.

No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.

Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.

A estreia televisiva teve lugar na RTP2 a 25 de Abril de 2012. Desde esse momento, o documentário está disponível na íntegra em
donosdeportugal.net.

Donos de Portugal é baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas, editado em 2011 pela Afrontamento e com mais de 12 mil exemplares vendidos.

Querer é poder

Querer é poder
...é o que dizem. não sei o que não fiz não fizemos. talvez estejam suspensos: os desejos. e há desejos que devem ficar assim. outros não. como estes, que agora vocifero. a ver se acontecem: quero que este país -que-não-é-uma
-democracia-porque-não-há-democracias (já dizia o Alain Tourraine) se aproxime mais do modelo democrático. porque o que existe são sociedades-que-aspiram-à-democracia e esse foi o direito que conquistámos em 1974, o direito a lutar por esse modelo, a obrigação de criar as bases que sustentem e desenvolvam um Estado e uma forma de estar que nos aproxime do modelo. que a democracia não é tesouro que se guarde em caixas. é uma ideia que se defende com ações. a assembleia da república como casa símbolo é frágil: é uma gaiola: sem corpo, as ideias entram e saiem por entre as grades. às vezes, a democracia foge e não a apanham. e então respira-se mal lá dentro.

é o dia. podem acrescentar os vossos desejos. da unanimidade de uns far-se-á força. da originalidade de outros, publicidade. dois bons meios para se chegar lá. às vezes.

[Imagem: Paula Rego]

1.4.12

O discurso de Souhayr Belhassen. ou:

Imagem: Jean Gaumy.
Treino de mulheres voluntárias nas milícias iranianas em Teerão,
Irão, 1986.

«modernidade mutilada»

Souhayr Belhassen, activista tunisina dos direitos humanos, :

«A Tunísia tinha todos os ingredientes para fazer esta revolução. Temos a primeira Constituição do mundo árabe, o primeiro sindicato operário em África e no mundo árabe, o primeiro código de estatuto oficial evoluído, a primeira liga de direitos humanos no mundo árabe. A Tunísia foi o país que escolheu fazer da educação e não das armas a sua prioridade. Temos 90% da população escolarizada. A organização da justiça e do ensino determinava que o país tivesse escolhido a modernidade. Tinha todos os elementos de modernidade, mas essa modernidade estava mutilada. Porque tínhamos modernidade económica e social, mas não política. E esta modernidade mutilada serviu de terreno aos islamistas.»