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15.2.20

Dia dos namorados

Encostado ao muro, mesmo ao lado do portão principal, está um rapaz que não tem mais de 15 anos. Segura com as duas mãos um frasco de vidro, daqueles das salsichas Nobre, tamanho xxl, cheio de água e duas rosas vermelhas. É magrinho, está muito quieto, ar circunspecto, ninguém daria por ele, não fora as flores, o recipiente e o dia. De repente, vira a cabeça e tudo se agita.

Seguimos o olhar. Um rapaz da mesma idade, mas com o dobro da altura, caminha a passos largos na sua direção. Tem a coluna curva e, à medida que avança, olha à volta, depois salta, sorri, volta a parecer incomodado, volta a sorrir, abraçam-se. Começam a conversar, falam alto, o que chega gesticula imenso. E dá entrada o movimento: o frasco que se estende, a mão que o rejeita; as rosas que lhe tocam o rosto, o braço que afasta as rosas. Muitas vezes.
Ouvimos os argumentos: as flores custaram dois euros e meio, não te pedi nada.

Até que o rapaz alto entra na escola. Novamente sozinho no passeio, o mais miúdo baixa a cabeça, sempre com as duas mãos a agarrar o frasco de vidro, e fica ali parado uns instantes. Depois fixa as rosas e começa a andar em linha recta. Parece hipnotizado pelo balanço das flores.

Sentados na esplanada do outro lado da rua, os clientes do café, a maioria alunos da mesma escola, assistem à cena. Partilham sorrisos, cúmplices na comoção ou no escárnio. Um pouco depois do rapaz dobrar a esquina e desaparecer, ouve-se o comentário: é por causa de cenas destas que às vezes sou homofóbico.

[não se indignem. a mim, sossegaram-me logo: quem falou foi o D., que é porreiro e é gay]

(e agora é tarde na noite e estou aqui a pensar que talvez o rapaz das duas flores nunca mais esqueça este dia em que era um rapaz enjeitado com duas flores.que talvez o amigo nunca mais esqueça este gesto e se comova sempre com o gesto e consigo.que talvez o D., porque é porreiro, deixe de dizer merdas nos dias merdosos de São Valentim dos outros. ou nada disso. porque nem eu sei por que razão não deixo de pensar no miúdo do frasco)


14 fevereiro 2019

2.11.14

Não sei se é uma porta nem adivinho as cores da casa, mas bato. Passei nessa rua tantas vezes. Tantas vezes a encenar a mão a fechar e os nós dos dedos a bater. Mas era sempre não. Estou velha, não existem sítios ávidos, só paragens. O amor é uma natureza morta. Tantas vezes a sentir essa força ligeira, ligeira morte, desapercebida. Entretanto a carne e a sua maneira de falar. Mas não foi por isso. Tentei sobre-viver hoje. Sobre-vivo pouco mas ando sempre meia atenta à sobre-vivência e hoje estive de um lado de cá de mim. Bati à porta como quem vende bíblias fingindo que é livre. E afundei abarrotada de vazio. Podia falar do tremor que sentia ou do teu silêncio mas não vale a pena. O tremor pertence-me e o teu silêncio dói. Eu, sentada à beira da mesa, estendida, a dizer que sim, pois que sim, o peso da contingência, mesmo assim à espera
de compreender se haveria um momento em que a doçura entrasse, com ou sem vestes de volúpia. Faço de ti matéria macia e doce e não entrevejo dentes que possam ferir-nos. Mas existe o Bem e o Mal e arrancaste-me o Mal da boca. Eu ia muito longe buscar imagens. Afundei. Não faz mal. Sou rica em abrigos oceânicos. Mas estou aqui. A ver-te libertar-te de mim, sem saber se te dói pouco ou nada.

Toca uma campainha. Eu atendo. Não convém perdermo-nos das contingências. O céu quebra-se vezes demais.


MRF
2007

18.6.14

o que mais desejo é oferecer-lhe tesouros
hoje perdi a cabeça: comprei-lhe um trompete
ele dedilha, sopra, toca toda a noite
uma música que não abre janelas
vagueia dentro de nós em círculos e nos
perde no voo, beija no ar, afaga ambos...

na casa da noite compreenderam
anjos solitários com fome de mim: afastaram-se
as suas costas quentes, húmidas, curvam-se, erguem-se
no comboio, cabeça cansada contra tarde escura
adivinho que está à minha espera e já ouço
alone together, almost blue, lets's get lost

até que exaustos mas leves, asas flectidas, patas recolhidas
fechamos os olhos, adormecemos comigo
deixando a noite imaginada fechar o dia

MRF
2006

17.6.14

partíamos para as nossas vidas e de tempos a tempos, em pequenos compassos, pensava em ti, o que farias naquele preciso momento, se alguém te abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que fosses feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.


MRF
Março 2006

3.4.14

Manhã

Está a chover a potes, o que não dá jeito nenhum para levar os ténis novos e a t-shirt verde que condiz tão bem, os primeiros presentes de aniversário... Diziam que hoje ia melhorar e é isto! Se tem algum jeito vestir impermeável por cima desta roupa! Mas vá, vamos, já estamos atrasadas... Na rotunda, a nossa saída está tapada por um carro que decidiu estacionar ali. De tempos a tempos, acontece. ...É por ser uma rua estreita, deve ser, não percebem!? Apita e ele sai. Obrigada, pá! Em frente à escola, a Ana ainda não tinha conseguido por a écharpe bem... Mãe, põe! Estamos atrasadas, diz a Sofia! Pára o carro que não dá para o pé ficar no travão enquanto te torces toda para lhe chegar ao pescoço... Olha, deixa estar! Ai é? Até logo, meninas! Avança e estaciona ao pé do mercado. Nada como comprar fruta, legumes e flores pela manhã! Ao entrar, ups, salta que ainda levas um pontapé! O senhor da banca onde vou está em plena acção. Agarra um homem que grita, esperneia, ameaça, sem resultado, que o rapaz é forte e prendeu-o bem. Rua daqui! Apanhado a roubar outra vez! Todos falam. Afinal quem foi apanhado é mesmo mau, só quem não vai à Caixa Geral de Depósitos quando ele vai receber a pensão, é que não sabe. Ficam todos cheios de medo, menos o senhor que o vê sempre, ele não! Mas olha rapaz, diz outro, não é preciso ser herói para pegar nele... Dá-se um empurrão e ele cai logo. Pois, mas tu fugiste, não foi? Vá, vá, mudemos de conversa! Quem deixou aqui o Correio da Manhã? Está toda a gente, incluindo eu, a colocar os sacos com as compras para pesar em cima do jornal. Não importa, diz o mesmo-assim-herói, esse jornal é só escândalos! É, não é? Está a perguntar-me? Pois, não é bem a melhor referência de jornalismo. Ora, diz as verdades, isso é que é, contrapõe bem alto uma senhora. Pois! Que os outros escondem as verdades e esse, pelo menos, diz as coisas como elas são! As narinas abrem e fecham, a senhora ficou irada em dois tempos, olha para mim com ar de "deves achar que me enganas". Paga e diz que sim. Bom dia e vai à banca das flores. Levo estas. Pois nem acredita, há uma senhora que compra sempre essas flores, dessa cor, há várias semanas. É que parece que nem gosta de mais nada, santo Deus! Quer que corte o pé ou a altura está boa? Corte um bocadinho! Estas aguentam-se bem se a água estiver fresquinha. Com este tempo duram mais! Bom dia e vai ao quiosque. Olha lá vem ele? Diga!? Devia ser proibido assustar assim as pessoas! Está a ouvir? Olhe, olhe! Então? Passa por aqui a esta hora todos os dias. A sirene inunda a praça. Não há urgência mas o motorista da ambulância liga-a sempre para passar nos sinais da Avenida. Faz isso duas vezes por dia. Não há direito. Sobressalta. Pensa-se logo o pior pela manhã! Essa não sabia! Pois, mas é verdade. Uma vergonha! Chega-se ao carro e escapou-se à multa da Polícia Municipal. Sorriso. A esta hora ainda não saíram para a rua. É só depois das 9h/9h30 que os carros são varridos a papelinhos. Arranca. Outra rotunda. Camião avariado mesmo no meio. Livra! Mas pronto, o dia só começou agora.

MRF
do amor


às minhas duas filhas




... e ela disse que eu vos amava porque vocês são uma extensão de mim, como se o meu corpo e tudo o que eu sou se dilatasse, se estendesse, desdobrado nas duas que sois, e completo nas duas que sois, como se eu fosse com vocês um espaço contido em limites, como se eu fosse um tempo que não expirasse com a minha morte. e eu não consegui dizer que não mas é não. o meu amor por vós tem o fundamento da vossa estranheza, das vossas dores e fragilidades__ que não são minhas, da vossa inocência e esperança__ que não são minhas, da vossa beleza e encanto__ que não são meus. e é imenso. desmesurado. às vezes maior do que as minhas forças e competências. e o amor, esse amor, nasce de um dom que eu tenho e que não vou perder. um dom que se revelou face à vossa estranheza. de vos querer servir bem no amor. de vos dar o que sei ___ e às vezes até a minha ignorância. de vos dar cuidados e beijos. até à exaustão. até parecer que me extingo. e em dias bons, e são muitos os dias bons, até parecer que sou feliz. o que é meu é só esse amor, não vós.

20.2.13

É o mais certo

Bea Emsbach


I
é o mais certo. mesmo que os rebentos se puxem. pelo menos os pés, continuam agarrados à cabeça das mães.
e elas agarram-se umas às outras. que condói este parto. de cortar o cordão ao longo das vidas.


II
é o mais certo. mesmo que Pentesileias e batalhas com Ulisses, mesmo que arco-flecha e lança, de seios comprimidos queimados cortados, nunca seremos a-mazós amazonas mulheres sem peito. varonis e robustas em Termodonte batalhas que perdemos, vingamo-nos com sangue e inocência. movidas pelo desespero da beleza.



MRF
2005

20.1.13

Pensamentos

Ives Netzhammer


aconteceu-lhe ter dois pensamentos simultâneos ao olhar para ele.
o primeiro nasceu do odor da sua voz do som da sua pele da cor dos sentidos do silêncio sinfónico. cresceu no presente do indicativo mais pessoal. e era premente. fazes-me querer viver.
fractal, o segundo. como duas ilhas, não sendo certa a força que os fazia pertencerem ao mesmo arquipélago. quero no futuro que digam de nós que somos velhos e fragéis de força mas sempre amantes. como se o calor dos nossos corpos hoje transbordasse até os nossos corpos vergados desse muito depois de amanhã.

e então ela ascendeu aos céus. para congelar o momento. e afinal não viveu.


MRF
2005



7.1.13

Migração

Daqui a algumas horas vou mudar de Estado. Vou juntar-me a todos os que migram para deixar de ser o que eram. Não sei se falo a língua do meu destino.


MRF,
Ágora(fobia)

21.12.12

Príncipe

Rui Guerra, Un prince


daqui deste lado da história já todos sabemos que é Natal, mas meu príncipe nunca percebe o que é óbvio. em meados de dezembro fui buscar luzinhas e enfeites ao sotão. (as pessoas nunca falam desses adereços como seus, mesmo que os tenham comprado no ano anterior. parece-lhes sempre que pertenceram à mãe ou à avó. mas pertencem a filhos, porque - não sei se vos acontece pensar assim - nós somos pais e avós daqueles que fomos nos anos passados). como me deprimem os pinheiros decepados e os pinheiros de plástico (é desnecessário explicar-vos porquê, estou certa), costumo decorar taças e janelas e cantinhos da casa com eles. e foi o que fiz. meu príncipe aceita todas as minhas decisões desde que elas me façam feliz. e feliz eu estava. des-envolver bolas de natal coloridas encanta-me. des-enlaçar fios cravejados de flores luminosas apazigua-me. e o mesmo acontece quando penduro anjinhos gabriel em prateleiras ou vãos de escada e ajoelho reis magos sobre a lareira e enrodilho palha para o menino que escondo debaixo dos travesseiros da casa até o dia 25, porque me revejo criança e outras crianças, e mergulho a mão na meia de lã pendurada na porta e agarro o pó dourado e parece magia quando ele chove, e menina rio e todas as crianças que não estão ali riem comigo. meu príncipe gosta da festa que faço. então ontem pegou na máquina fotográfica e disse queres um espelho redondinho? muitos espelhos redondinhos? e fez flash flash flash flash e depois mostrou o que os relâmpagos tinham feito a minhas bolas. havia um príncipe lá no meio. zanguei-me. meu príncipe não sabia que era quase Natal? devíamos ser dois nas bolinhas. para ver se um nosso menino nasce e ri mais alto que os irmãos que partiram antes de todos os Natais.

MRF
Dez' 2005

20.12.12

Com asas

com asas sobrevoar o teu corpo em flor

homem

transformar a tua saliva em pólen

pousar as patas nos teus lábios
sugar-te
fazer-te mel

e nem saberes

MRF
2005

24.10.12

Existir

Calvino dizia:
saber poemas de cor é bom
porque os poemas fazem boa companhia

e porque se deve treinar a memória.

Os poemas são úteis.

Cunningham diz:
há pessoas que são mais do que úteis
e ser mais do que útil é ser belo.

como alguns poemas.

Outro homem dirá que saber de cor é trazer no coração.
(by) heart
(par) coeur

transportamos a memória no centro do nosso corpo. poemas, às vezes.
que podem ser melhor companhia do que uma pessoa mais do que útil.
ou não (depende dos dias, e do número de dias sem pessoas).

Calvino também dizia que é importante saber fazer cálculos simples à mão, sem calculadora.
por exemplo, saber fazer divisões.
a cabeça calcula o que a mão vai traçando.

É complicado existir.

Finalmente, ele que via cidades invisíveis a nascer dos sonhos das cidades invisíveis, concluía da absoluta necessidade de saber que tudo o que temos podemos perder a seguir
numa nuvem de fumo.

método de sobrevivência: estar junto
instrumento: a música
lugar: a praça

abrir a vida à folia.
amar.

ruído: fazer o quê com o menos que útil?

Não tenho ideias fixas. (logo, como ele, não poderei ser político)
tenho instintos. querer adiar o inabitar.
Decidi decorar poemas.

Começando:
"Comigo me desavim
minha senhora
de mim..."

(Depois continuo. No livro da Maria Teresa Horta.
por exemplo)

Adio muito
existir.
 
 
MRF
2006

20.10.12

Não faças milagres por amor de mim

Ernesto Timor, Just Mary


Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke

Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie nem a minha direcção assuma o sentido do teu sopro.
ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. silencioso aproximas-te como um animal feroz e sou a corça que salta antes de ficar encurralada e te olhar suplicante. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo-sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar-o-teu-medo de não seres grande.
ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.

MRF
2005

18.9.12

Lês os contornos do meu corpo


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
a mão pousa
diz Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



Certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
Num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe.


MRF
2005

20.8.12

Nada que exista

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!
Jorge de Sena


espantou-me encontrar-te assim tão de passagem na tua própria casa
e que houvesse sempre uma pequena luz (talvez benzida) a mantê-la iluminada
não obstante, pensei amar-te (libertar-te) da ponta dos dedos às ideias mais abstractas

a realidade revelou um corpo-defeito desfeito
que eu tocava com nomes pele água panos ternos jeitos
e um silêncio encalhado que me inspirava sonatas e me levava a beijar-te por falta de
palavras

decidi então assim: nunca mais te verei.
vais ser: o rasto dos aviões no céu, idênticos a si mesmos, não singulares.
serei: se quiseres ainda: o mamilo que toca piano. ou seja, nada que exista.

MRF
2005

20.7.12

Doroteia

Henk Braam,Tsunami,Sri Lanka

O Sol oprime a cidade com a sua terrível luz a prumo; a areia deslumbra e o mar resplende.
in Charles Baudelaire, O Spleen de Paris, XXV A Bela Doroteia


Apetece-me entorpecer, dormir a sesta. ou nada disso, e caminhar numa rua desta cidade ofuscante, assim muito segura no meu vestido quase transparente, que vai permanecer cristalino e engomado, sobre uma pele que se mantém serena e perfumada, sentindo o calor mas fazendo de conta que não. Fazendo de conta que me dirijo a um lugar determinado, ali ao pé da praia, naquela esquina entre os Correios e o café que está sempre cheio à noitinha, não agora. porque agora todos dormem a sesta no fresco dos quartos ou sobre a areia escaldante. Menos tu. que caminhas por outra rua desta cidade ofuscante, assim muito seguro nas tuas vestes de linho azul claro, que vão permanecer incólumes ao respirar da tua pele sob o céu da mesma cor. E debaixo desse céu, ouvindo o marulhar do mar, cruzamo-nos por acaso se o acaso existir, e paramos. E então eu abro a minha sombrinha e coamos a luz daquele lugar, ficando os dois pintados de reflexos sanguíneos. Por cada dez inspirações profundas, a brisa vai varrer-nos a compostura. O vestido esvoaça, os corpos estremecem, a cidade avança no tempo. mas nós prolongamos a admiração. e sem pressa aguardamos a maturidade. Um dia, a roupa vai ficar manchada. e há-de ser bom.

ou não. podemos ser surpreendidos por um tsunami. despedaçado pelo tempo, embriagas-te. com vinho, palavras, premências de prazer e depois depois depois. depois sentimos um tremendo fardo. e uma vaga surge do que parece nada e leva-te. e eu aninho-me na linha da rebentação com a minha sombrinha. e espero por ti para sempre.

ou alguém bate à porta e percebo que a cidade despertou.

MRF
2005

Antes que adormeça


Antes que adormeça quero dizer-te coisa.

Sabes, meu amor, andei muito tempo sozinha contigo.

Aconteceu-me falar-te e tu me responderes
sem que eu te visse,
mas sentindo os teus dedos cingindos nos meus.
E quando pressentia que estavas a sorrir ou que o poderias fazer
sorria também, para te fazer feliz.
Houve momentos em que a saudade foi maior do que eu.
Talvez me tenhas ouvido cantar what a wonderful world,
ne me quitte pas ou a canção de dalila. queria acordar-te.
E então não resistias a envolver-me com ternura e
o teu odor inundava o meu quarto.
Hoje vão descobrir-me agarrada ao tronco de uma árvore
e alguns dirão que enlouqueci
mas quero morrer nos braços de um ser vivo.


Logo depois de adormecer,
aparece e leva-me contigo.
 
MRF
2005

9.7.12

Snob

Acabo de ler que "snob" significa sine nobilitate, ou seja, "desprovido de nobreza". Lembrem-se disso da próxima vez que se cruzarem com um.

1.7.12

Tinha valido a pena

Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos
nervos:
Tinha valido a pena*


Tinha valido a pena, apesar de tudo. Pela ordem de pulsões e sentimentos desordenados em causa. Falo-vos de um amor, é claro.

Encontrámo-nos numa improvável taberna.
Habitavam-na velhos, galdérias
e miúdos
como nós
atraídos por cheiros fortes, formas feias, ideias complexas, política embaciada___ a nossa ideia de realidade.

Acho que estávamos um pouco cansados de representações porque
logo depois seguiu-se o caixote na cidade, despojado, simples,
tenro
como nós,
que nos abrigou e deixou febris
no amor durante anos,
determinados a calar o desejo e todos os ruídos.




ah os vizinhos se soubessem!

um dia caímos do sofá que era azul quente de veludo, lembras-te?
Sim, há sempre um compasso contenção travão que se acciona antes do fecho da porta do antigo amor, se era amor diz-se.
Mas ele arrepiava-me.
Cortámos os laços com o mundo.

Um dia surpreendi-me. Distraída, olhei para ele enquanto dormia

frágil e feliz.
Guardei-o assim.
tens um sinal pequenino numa pálpebra___ eu não sabia e soprei

Até que, coisa de jovens, começámos a medir desafios.
arrepiavas-me
Demorou muito tempo até sermos engolidos pela mágoa.
As pessoas não acreditam. Acham que os grandes amores são eternos.
Mas não são.
o bébé não nasceu. se tivesse nascido, estaríamos juntos?
uma vez bati-te, olhaste para o espelho e disseste: dói tanto!
Um dia esvaiem-se as pulsões.
Anos depois, os sentimentos cheios.
Mas não é isso que desejo.
tinha valido a pena, apesar de tudo, se hoje te encontrasse
e corresses para mim sem saber porquê
e me abraçasses

e até podias falar do teu trabalho da tua mãe que já morreu da tua irmã que não casou e daquele primo que sempre foi para arquitectura e os meus pais? vão bem, envelhecidos é claro, tenho dois e tu tens filhos?

e depois parares a olhar para mim e eu chorar
Eu quero sentir a pele a alma arrepiada mesmo depois da nossa morte.

Aconteceu assim.
Encontrámo-nos numa improvável fábrica.
Habitavam-na velhos, galdérias
e gente
como nós
habituados a cheiros fortes, formas feias, ideias complexas, política embaciada___ a nossa certeza de realidade.

Tinha valido a pena, apesar de tudo. Pela ordem de sentimentos e pulsões desordenados em causa.
Falo-vos de um amor, é claro, desses que no momento hoje nos precedem,
se cristalizaram sem consciência
e de repente nos acenam.

Acabam e não acabam.

Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes "Qual será?"
Vem lá comigo fazer a tal visita.*


Maria do Rosário Fardilha

*T.S. Eliot, A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock
que tu me declamavas