Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

5.6.14

Passagens

"(...) São sempre os outros que vemos morrer, mas também um dia a morte bate contra nós: um carro que se despista numa curva, um pneu que rebenta (...). Num segundo acabou, tudo aconteceu muito depressa. Há coisas que não podemos controlar.

(...) Um dia não controlamos o que nos acontece e subimos no elevador a caminho do quarto de um motel.

(...) Podíamos escolher sim ou não, mas escolhemos sim. Estamos vivos, conscientes. (...)

A vida pulsando, indiferente ao bem e ao mal. O coração batendo, o sangue circulando, o corpo vivo.
E no entanto a realidade vem sempre outra vez ter connosco. "

in
Teolinda Gersão, PASSAGENS, Sextante Editora, 2014, p. 138

19.5.14

Triunfo do Amor Português

O amor é sempre trágico quando atinge o seu estado mais puro. (Agustina Bessa-Luís)
Os grandes dramas de amor vivem-se na vizinhança da morte. Isso dá imediatamente uma trepidação ao diálogo amoroso que o torna, muitas vezes, insustentável. Essa insustentabilidade do amor é a grande condição da sua dignidade, é o requisito para a sua grandeza. O amor não é uma existência de pantufas; é uma exi...
stência descalço.
Às histórias de amor felizes falta-lhes o ensejo de serem grandes histórias de amor. Muitas delas nascem da rotina, do cálculo, da obrigação... As relações felizes são sempre assustadoramente miseráveis. Mas é possível admirar também a paciência com que as pessoas levam a sua cruz ao calvário, através de um matrimónio baço, de um companheirismo silencioso... O que se admira são outros sentimentos: a paciência, a conformação... (Mário Cláudio)

Não há amor sem culpa. (Agustina Bessa-Luís)
Nos matrimónios baços a culpa não é vivida, não empolga a relação. Então é como se não estivesse lá. Mas está e às vezes rói, rói, rói durante anos e anos e anos até que as pessoas morrem felizes. (Mário Cláudio)


[Entrevista ao escritor Mário Cláudio. Programa BAIRRO ALTO. RTP2. 18-05-2014]

27.4.14

Vasco Graça Moura

Há muitos anos, a Anabela Mota Ribeiro tinha uma programa televisivo em que entrevistava casais. Vasco Graça Moura e a mulher de então, Rosarinho, foram um dos casais convidados. Nunca mais esqueci a crítica da minha homónima, que se queixava de que ele era demasiado pró-Cavaco (Primeiro-Ministro na altura!?), demasiado, demasiado! E eu a gostar tanto dela. Porque era verdade, era verdade! Mas dep...ois ele começou a falar das filhas e leu alguns poemas que escrevera para elas. Belíssimos! Quanta sensibilidade, quanto amor! Vasco Graça Moura era grande na sua arte e imenso no seu saber humanista e erudito. De resto, preconceito meu, era essa imensa Cultura que me fazia não aceitar a sua associação àquele pequeno poder cinzentão e deprimente (que se perpetua...). E comprava os seus livros e admirava as suas épicas traduções, sempre segura da qualidade, sempre ligeiramente irritada. A morte lava as pequenas fúrias. Estou triste pela sua morte.


As meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,

a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:
entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.
a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.
e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

28.1.14

Lis, no peito

A única entrevista filmada a Clarice Lispector. "Tímida e ousada". "Triste e solitária". Clarice fala, morta, no seu túmulo. "Lis no peito".





Woolf

Virginia Woolf, reflectindo sobre escrita, criação de palavras e de beleza e sobre crítica literária. A gravação áudio é uma raridade: datada de 1937 (BBC), foi a única de VW que sobreviveu.

Com o seu " old upper class British accent", ela soa a páginas de um livro que se folheia.

5.1.13

...de la intolerable opresión de lo sucesivo


Poco diré da la singular "historia de la eternidad" que da nombre a estas páginas. En ele principio hablo de la filosofia platónica; (...) No sé cómo pude comparar a "inmóbiles piezas de museo" las formas de Platón y cómo no entendí, leyend...o a Schopenhauer y al Erígena, que éstas son vivas, poderosas y orgánicas. El movimiento, ocupación de sitios distintos en instantes distintos, es inconcebible sin tiempo; asimismo lo es la inmobilidad, ocupación de un mismo lugar en distintos puntos del tiempo. Cómo pude no sentir que la eternidad, anhelada con amor por tantos poetas, es un artificio espléndido que nos libra, siquiera de manera fugaz, de la intolerable opresión de lo sucesivo?

in JORGE LUIS BORGES, "Historia de la eternidad", Debols!llo, 2011, p. 9  

 (Publicado pela primeira vez em 1936, um ano depois da "História Universal da Infâmia". Uma nova edição anda agora nos escaparates das livrarias portuguesas.)

7.12.12

Em Louvor da Alemanha


Imperiais, burgueses, grosseria
como de duques de uma Idade-Média
sonhada por românticos no vómito
da cervejaria a mais - e todavia
a pompa de sentir que a realidade
é como esse equilíbrio de ser besta
à beira de sonhar-se o universo.

7/Dez/1870

Jorge de Sena
in "Sequências", colecção Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1ª ed. de Julho de 1980

1.11.12

Tristano morre

Tristano morre.
Tabucchi morre.

O seu último romance.


“[…] Disparates, as pessoas não morrem, assiste-me o dever de informar, ficam encantadas, apenas… como disse um escritor que havias de conhecer, ficamos encantados por aqueles que nos amam muito muito muito, e pairamos no ar a meia altura como uns balõezinhos mas ninguém nos vê, vêem-nos apenas aqueles que nos amam muito muito muito, e eles, erguendo-se em bicos dos pés, com um ligeiro impulso, um pulo de nada, agarram-nos pelas pernas que entretanto já são feitas de ar e puxam-nos para baixo, não nos largam, para que não recomecemos a voar, a levitar, mas dando-nos o braço seguram-nos mais rente ao chão, tão rente ao chão quanto eles próprios, como se não tivesse acontecido nada, tal como em certos faz-de-conta da vida, por conveniência social, para não se fazer má figura à frente do dono da retrosaria, ou da tabacaria, que te conhece desde sempre e diria coisa estranha este tipo a passear de braço dado com a mulher e ela a meia altura… E foi o que sucedeu a Tristano, era domingo, e mesmo que não fosse tanto faz porque eu decidi que as coisas importantes de Tristano aconteciam aos domingos, e se tu o escreveres no livro que hás-de escrever passa a ser verdade, porque depois de escritas as coisas tornam-se verdade… e estava-se em Agosto, porque eu decidi que as coisas importantes da vida de Tristano aconteceram num domingo de Agosto, e se tu o escreveres também isto passa a ser verdade, verás… […]”.

1.10.12

Literatura & Arquitectura

[No Dia Mundial da Arquitectura____________________, celebrado em Portugal no dia que as Nações Unidas destinaram ao dia mundial do habitat, 1ª segunda-feira de Outubro.]

25.8.12

Jesus Cristo bebia cerveja

«Ao fundo, Antónia e a neta caminham de mãos juntas. Junto à estrada há uma estátua da Virgem, com as mãos postas em oração. Quando tinha três anos, Rosa, ao ver a estátua com as mãos naquela posição, julgava que a Santa batia palmas. Agora, claro, já não pensa assim.»

in Afonso Cruz, "Jesus Cristo bebia cerveja"
Editora Objectiva, 2012

19.8.12

Lorca





Em «La Casada Infiel», de Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936), um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar a sua honra de “cigano legítimo”. A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos.

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(…)
yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(…)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(…)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

in Federico García Lorca, "ROMANCERO GITANO" [1924-7]


P:S.: Uma curiosidade relativa à métrica do poema. Todos os versos têm 8 sílabas, com excepção do primeiro, que tem nove.

3.8.12

La chanson de Maglia

La chanson de Maglia

Vous êtes bien belle et je suis bien laid.
A vous la splendeur de rayons baignée ;
A moi la poussière, à moi l'araignée.
Vous êtes bien belle et je suis bien laid ;
Soyez la fenêtre et moi le volet.

Nous réglerons tout dans notre réduit.
Je protégerai ta vitre qui tremble ;
Nous serons heureux, nous serons ensemble ;
Nous réglerons tout dans notre réduit ;
Tu feras le jour, je ferai la nuit.

VICTOR HUGO (1802-1885)
.

1.8.12

And that’s how people burn to death in hotel rooms



After you’ve been to bed together for the first time,
Without the advantage or disadvantage of any prior acquaintance,
The other party very often says to you,
Tell me about yourself, I want to know
What’s your story? And you think maybe they really and truly do
Sincerely want to know your life story, and so you light up
A cigarette and begin to tell it to them, the two of you
Lying together in completely relaxed positions
Like a pair of rag dolls a bored child dropped on a bed.
You tell them your story, or as much of your story
As time or a fair degree of patience allows, and they say, Oh, oh, oh, oh, oh,
Each time a little more faintly, until the oh
Is just an audible breath, and then of course
There’s some interruption. Slow room service comes up
With a bowl of melting ice cubes, or one of you rises to pee
And gaze at himself with mild astonishment in the bathroom mirror
And then, the first thing you know, before you’ve had time
To pick up where you left off with your enthralling life story,
They’re telling you their life story, exactly as they intended all along
And you’re saying, Oh, oh, oh, oh, oh
Each time a little more faintly, the vowel at last becoming
No more than an audible sigh,
As the elevator, halfway down the corridor and a turn to the left,
Draws one last, long, deep breath of exhaustion
And stops breathing forever. Then?
Well, one of you falls asleep
And the other does likewise with a lighted cigarette in his mouth
And that’s how people burn to death in hotel rooms.

in Tennessee Williams, The Winter of Cities, 1956

Imagem: Nan Goldin, Jen's hand on Clemen’s back, Paris, 2001

17.7.12

Caligrafia dos Sonhos

"Tu bem sabes, aquilo que não temos dói."

"... que o inventado pode ter mais peso e credibilidade que o real, mais vida própria e mais sentido, e por conseguinte mais possibilidades de sobrevivência face ao esquecimento."

"...porque, embora o meu amor continue intacto, já não sou aquele que era nem estou onde estava. Faz de conta que sou um impostor..."

9.7.12

Filhas

A partir de hoje, 9 de julho, estará à venda, em Portugal, o mais recente romance de Paulo José Miranda, "FILHAS". Editado pela Leya/Oficina do Livro.

O tumulto das ondas



O irmão mais novo de Shinji regressara à ilha. As mães tinham ido todas ao fim do molhe esperar os filhos. Caía uma chuva fina e não se via o mar largo. O ferry-boat estava já a cerca de cem metros do cais quando irrompeu subitamente no meio da bruma. As mulheres puseram-se a gritar em coro pelo nome dos filhos. Conseguiam já distinguir claramente os bonés e os lenços agitados pelas crianças na ponte do navio.
O barco acostara. Mas, mesmo depois de já estarem em terra junto às mães, os jovens estudantes limitaram-se a sorrir-lhes ao de leve e começaram logo de seguida a brincar uns com os outros. Não lhes agradava terem que mostrar o seu afecto pela mãe em presença uns dos outros.
Nem depois de chegar a casa se acalmou a excitação de Hiroshi. O rapaz não parava quieto um momento. Na sua conversa não se referiu nem aos locais famosos, nem às velhas ruínas que visitara. (...) No dia seguinte, estava a cair de sono. É certo que trouxera da viagem profundas impressões, mas não era capaz de traduzi-las por frases. Quando quis contar alguma coisa, não conseguiu recordar nada (...). Mas então - e esses eléctricos e esses automóveis que rebrilhavam ao sol, novinhos em folha, e que, mal se conseguiam fixar, já tinham desaparecido, e esses edifícios altos e esses reclames de néon, onde estava tudo isso?
Em casa da mãe, vinha encontrar no seu lugar o aparador, o relógio de parede, o altar búdico, a mesa das refeições, o espelho no seu pé e, claro, também a mãe. Lá estavam o forno de cozinha e as esteiras sujas. Tudo sabia entendê-lo, mesmo que não falasse e, no entanto, tudo isso, até a mãe, tudo o incitava a contar a viagem. Hiroshi acabou por se acalmar, quando Shinji voltou da pesca. Após o jantar, abriu o caderno de viagem e narrou perfeitamente à mãe e ao irmão o que havia visto. Terminada a narrativa, ficaram satisfeitos e deixaram de o espicaçar com perguntas.
Tudo voltou ao normal. A sua existência era tal, que tudo se compreendia, mesmo sem palavras. O aparador, o relógio, a mãe, o irmão, o velho forno de cozinha cheio de fuligem, o rugir do mar... Envolto nessa atmosfera, Hiroshi deixou-se adormecer e caiu num sono profundo.

in MISHIMA, "O Tumulto das Ondas", Relógio d'Água, Lisboa, 1985, pp. 93-94

Imagem: Yukikazu Ito

5.7.12

Os Cinemas da Europa

«O actual mapa da Europa é constituído por 47 países, dos quais 27 pertencem à União Europeia e 3 são candidatos a sê-lo. A resposta à pergunta “Que Europa é esta?” será, em termos de cinema, o tema de 47 sessões de uma “masterclass”, duran...te a qual Lauro Antonio, realizador, crítico e professor de cinema, irá tentar explicar de que forma a arte cinematográfica interage e se identifica com a originalidade de cada país, a sua história, cultura e valores mais intrínsecos.
Cada sessão abordará, pois, um país, uma cinematografia, e um filme específico.»

E assim aconteceu em Oeiras. Agora foi publicado o livro "OS CINEMAS DA EUROPA" (Ed. Município de Oeiras). É muito mais do que um catálogo. Temos, para cada país, uma "crónica" sobre a sua História, a História do seu Cinema e outros dados sobre a cultura nacional, a análise do filme selecionado e o perfil do seu realizador. Muito interessante! São 218 páginas que reflectem um saber profundo e um grande amor à Sétima Arte.
 
 

Da sebe ao ser



Ana de Peñalosa dialoga com a sua imagem em criança

1. "Eu estou à porta azul celeste, e bato" - ouviu.

2. Estou velha, pensa Ana de Peñalosa, e é agora que alguém diz "abandona tudo, mesmo a tua decrepitude, e vem".
...
Onde está é um sítio ávido, como são todos as paragens. No seu quarto só avança quando dorme, iluminada pela lamparina sobre

3. a cómoda, diante do ícone que veio da serra da Arrábida.
"Vamos ver a nostalgia do mar" - diz-lhe a criança de cinco anos que encontra quando repousa o seu próprio retrato. A força do seu rosto,
oculto
pelo chapéu de abas,
impele-a, para um litoral de maresia
através de passos desconhecidos que farão soar
pelo mundo.
(...)

A criança acordou-a no sonho e não podia
retardar__________
Tiveram de sulcar juntas muitos dias que faziam
parte do passado com uma imagem do futuro na
fímbria ou ponta. Tiveram de abrir a porta
passada do presente e
quem
o fez, foi a criança
que lhe tirou definitivamente a bengala.
(...)

in MARIA GABRIELA LLANSOL (1931-2008),
"Da sebe ao ser",
Edições Rolim, 1988



Imagem: Alessandra Sanguinetti (1968), ARGENTINA. Buenos Aires. 2001. Ophelias.

3.7.12

Ailitla

Katia Chausheva


AILITLA

mesmo quando está só
ailitla está na fila

 

in O'Neill, Alexandre, «As Horas já de números vestidas (1981)»,
"Poesias Completas", Assírio & Alvim, 2002