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20.2.13

É o mais certo

Bea Emsbach


I
é o mais certo. mesmo que os rebentos se puxem. pelo menos os pés, continuam agarrados à cabeça das mães.
e elas agarram-se umas às outras. que condói este parto. de cortar o cordão ao longo das vidas.


II
é o mais certo. mesmo que Pentesileias e batalhas com Ulisses, mesmo que arco-flecha e lança, de seios comprimidos queimados cortados, nunca seremos a-mazós amazonas mulheres sem peito. varonis e robustas em Termodonte batalhas que perdemos, vingamo-nos com sangue e inocência. movidas pelo desespero da beleza.



MRF
2005

20.1.13

Pensamentos

Ives Netzhammer


aconteceu-lhe ter dois pensamentos simultâneos ao olhar para ele.
o primeiro nasceu do odor da sua voz do som da sua pele da cor dos sentidos do silêncio sinfónico. cresceu no presente do indicativo mais pessoal. e era premente. fazes-me querer viver.
fractal, o segundo. como duas ilhas, não sendo certa a força que os fazia pertencerem ao mesmo arquipélago. quero no futuro que digam de nós que somos velhos e fragéis de força mas sempre amantes. como se o calor dos nossos corpos hoje transbordasse até os nossos corpos vergados desse muito depois de amanhã.

e então ela ascendeu aos céus. para congelar o momento. e afinal não viveu.


MRF
2005



1.11.12

Vida Sempre




Vida Sempre

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito, in "Poemas da Solidão Imperfeita", Faro, Edição do Autor, 1957



 [Imagem: Cruzeiro Seixas. "O que vos digo é que antes de voar, o homem já sabia voar". 1985. Tinta-da-China, Lápis s/ Papel. 23x37 cm]

1.7.12

Sequências




INOCÊNCIA

No pórtico da casa, entre lilases,
o par de namorados brincava de apertar-se as mãos
e de contar os dedos.
Havia sempre um dedo a mais.


SABEDORIA

Tarde da noite, o «party» terminava
num desabar de bêbados
e de falsos bêbados.

O bêbado despiu-se lentamente,
os falsos bêbados rodearam-no.

No dia seguinte, ninguém conseguia lembrar-se do que acontecera.


JORGE DE SENA in "Sequências", Série «América, América, I Love You", colecção Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1ª ed. de Julho de 1980
(Os dois poemas foram escritos a 12/Ago/1969)

Ilustração: Cruzeiro Seixas (1969), "Anda espreitar o que há dentro de um desejo", Tinta-da-China s/ papel, 20x15 cm

21.6.12

Meninas à janela



Dalí pintou um óleo de que gosto muito, chama-se "Menina à Janela". Nele, Ana María Dalí, a irmã que foi o seu modelo preferido durante muitos anos, é pintada de costas, debruçada numa janela, olhando Cadaqués. Nesse quadro, pintado em 1925, o pintor introduz um novo paralelismo entre o ser humano e a arquitectura. Há um conceito quase onírico da realidade circundante. Mas o que mais retenho é a p...ostura da figura feminina e as várias tonalidades de azul. Muito jovem, viajei até Cadaqués. Trouxe de lá essa imagem, emoldurei-a, e deixei que me fizesse companhia durante anos.

Naquele dia (2005), o mar de Cadaqués reapareceu entre as minhas meninas. Era um fim de tarde no reino dos Algarves. A temperatura estava amena, corria uma ligeira brisa, cheirava a mar e a erva molhada, e elas foram conversar para a varanda. Descobria-as assim, entretidas a comentar a paisagem e as proezas do dia. Eu adorava "espiá-las" e registava as conversas. É por isso que sei que falaram de castelos de areia, de mergulhos com os olhos fechados e com os olhos abertos, de conseguir atirar a bola para muito longe, de biquinis cor de rosa como os da Barbie e de penteados como os da sereia Ariel, dos dois gelados que eram mesmo frios, do gato no jardim...

2.6.12

Crónica de um mega-problema anunciado

O último diálogo da rainha com Tony Blair no filme The Queen (Stephen Frears, 2006) é sobre educação. Eles conversam enquanto passeiam pelos jardins do palácio. A câmara vai fazendo um plano cada vez mais alargado enquanto Blair comunica a sua Majestade que os mega-agrupamentos estão fora de moda e que vai re-introduzir o conceito da escola de proximidade. Like in old times.

Também nós voltaremos a esse conceito. Com décadas de atraso, como sempre. Até lá, vai haver tempo para concluir da dificuldade de gerir espaços com milhares de alunos de diferentes idades (e várias dezenas/centenas de professores), do agravamento das relações professor/aluno, do aumento do insucesso escolar, da multiplicação dos casos de bulling, enfim, mais stress, stress, stress para toda a população escolar. Vamos ter mais tecnologia e menos afecto, quadros multimedia e assaltos aos cacifos, vigilância sempre insuficiente (nunca houve dinheiro para recrutar "assistentes operacionais" à medida das necessidades de cada escola, e muito menos para os formar), bandos em vez de grupos, e a lei do mais forte a prevalecer.

Tudo isto num contexto em que as crianças com necessidades especiais têm cada vez menos apoio pedagógico (neste país, não existem outros apoios)(neste país, os Agrupamentos podem ter 3000 alunos e um psicólogo).
stop. Rejeito o conceito da fábrica-escola para optimização dos recursos. Valham-nos os professores com vocação.

[Imagem: Paula Rego. Sem título. 1985. Tinta-da-china sobre papel. 34,5 x 25,5 cm]

26.5.12

Lama

Mário Vitória (2008). A caminho da macacada.
Acrílico s/ tela. 30x30 cm.

Ainda a pensar na poesia-denúncia de Laurie Anderson no espectáculo que vi no TA: Another Day in America, "histórias de Laurie Anderson sobre a vida na América contemporânea".

Uma (micro)história:
Desesperadamente à procura de inimigos que nunca mais chegavam, os EUA tornaram-se o seu próprio inimigo. Já não há um país, há um campo de batalha. Os campos de batalha têm leis próprias. A lei mais importante foi aprovada no final de 2011 pelo senado: é permitida a prisão por tempo indefinido.
Outra (micro)história:
As pessoas podem viver em casas que têm pianos brancos e cães que tocam piano. As pessoas podem não ter nada. Os que nada têm, normalmente já tiveram: uma casa sem pianos brancos e um trabalho.mas perderam tudo. Quando isso acontece, saiem das cidades e vão viver para florestas. Laurie tinha ouvido falar dessas pessoas e um dia decidiu visitá-las. Perto de Nova Iorque, mais precisamente em New Jersey. Chegou e disse Olá mas ninguém respondia. Enfim, acabou por aparecer uma mulher, uma assistente social que vivia naquele campo há cinco anos. Chorava muito. Laurie viu centenas de famílias que viviam em tendas na floresta.como há muitos anos atrás, antes de haver cidades.

Antes destas histórias, Laurie quis saber por que razão o nosso planeta se chama Terra. Não é um nome particularmente bonito. Sugeriu outros nomes. Um deles pareceu-me perfeito: planeta Lama. 

2.5.12

«Eu sou muitos»


[A exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, "Fernando Pessoa - Plural como o universo", terminará afinal a 6 de Maio. Carlos Felipe Moisés é o curador brasileiro da exposição que assinala o Ano do Brasil em Portugal]

Talvez a culpa seja da expectativa.demasiado elevada. A verdade é que esta exposição é fraca em termos de conteúdo. não por ser inexacta ou esquecer heterónimos. mas porque nos dá pouco mais que títulos. Cada um dos quatro heterónimos principais de Pessoa é um título e uma sinopse. Essa é a primeira sala. Sim, as "cabines" com os poemas projectados distraem e podem fazer sentir. stop. É a primeira sala. «Os curadores quiseram mostrar que "Pessoa é um poeta para todos" e fazer uma exposição para todas as idades. A exposição é lúdica, interactiva e labiríntica: não tem um percurso marcado para que os visitantes se aventurem no seu espaço». stop. Na segunda sala temos o famoso quadro de José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa"(1964). Momento de contemplação e escuta: a perspectiva, o cubismo, todas as partes num mesmo plano frontal em relação ao espectador, as mãos e o rosto iluminados na sombra, a folha ainda em branco que aguarda a escrita, a luz sobre Orpheu.

Óleo sobre tela. 225 x 226 cm. Coleção Centro de Arte Moderna.

"Lisboa", de Carlos Botelho, avista-se do lado oposto. stop. Terceira sala: painéis com elementos biográficos, apresentados de forma cronológica. stop. Quarta sala: amálgama de tesouros & coisas para distrair: «No canto dedicado ao modernismo e à criação da revista Orpheu estão expostas três obras de Eduardo Viana, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor». Seis vitrines mostram documentos, manuscritos e cadernos: «Estão lá cartas que nunca foram mostradas em público, dois bilhetes-postais para Luís de Montalvor (um dos primeiros directores da revista Orpheu), o primeiro dos jornais fictícios de Pessoa, O Palrador, com notícias reais e fictícias, o caderno mais antigo de Pessoa (datado de 1901), onde ele registou as notas do liceu de Durban (era um estudante exímio). O caderno com a primeira mostra caligráfica de Fernando Pessoa e, um outro, onde nasceram os primeiros excertos do Barão de Teive». A famosa arca de madeira do poeta, que foi cedida para a exposição pelo anónimo que a arrecadou, em leilão, em 2008. Curtas metragens balofas (Limite, de Mário Peixoto, e Pessoas, de Carlos Nader). non stop.

Há tesouros. Há Pessoa. Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Mas, sinceramente, sem o fantástico guia que me calhou, teria saído dali com pouca mais-valia em relação ao meu mísero conhecimento do poeta.

25.4.12

Querer é poder

Querer é poder
...é o que dizem. não sei o que não fiz não fizemos. talvez estejam suspensos: os desejos. e há desejos que devem ficar assim. outros não. como estes, que agora vocifero. a ver se acontecem: quero que este país -que-não-é-uma
-democracia-porque-não-há-democracias (já dizia o Alain Tourraine) se aproxime mais do modelo democrático. porque o que existe são sociedades-que-aspiram-à-democracia e esse foi o direito que conquistámos em 1974, o direito a lutar por esse modelo, a obrigação de criar as bases que sustentem e desenvolvam um Estado e uma forma de estar que nos aproxime do modelo. que a democracia não é tesouro que se guarde em caixas. é uma ideia que se defende com ações. a assembleia da república como casa símbolo é frágil: é uma gaiola: sem corpo, as ideias entram e saiem por entre as grades. às vezes, a democracia foge e não a apanham. e então respira-se mal lá dentro.

é o dia. podem acrescentar os vossos desejos. da unanimidade de uns far-se-á força. da originalidade de outros, publicidade. dois bons meios para se chegar lá. às vezes.

[Imagem: Paula Rego]

15.4.12

Ilusionismo

Julião Sarmento
I Can't Live Without You, 2006
Mixed media on canvas 196 x 190 x 6 cm


Não sei o que te diga. E se soubesse
a quem o diria? Já não sei inventar os domingos.
Pode-se inventar tudo menos os domingos.
Começo a vestir-me para o outono, começo
por este dia que só de dizê-lo é inverno.
Ponho uma camisola clara para afugentar a noite.
E todas as horas. As que ficam no fundo
e arrasam a gaveta. O peso incontável
de terem partido os dias da semana
iguais entre si, iguais a ti e a mim.
Ficou um segundo esquecido na gaveta.
É com ele que farei o dia e todos os dias
que faltam para que não me faltes.

ROSA ALICE BRANCO (n. 1950)
 
«Mestre em Filosofia do Conhecimento pela Universidade Nova de Lisboa. Ensina psicologia da perceção na Escola Superior de Artes e Design. Participou no Grupo de Estudos de Semiótica e Poética do Porto, tendo sido um dos responsáveis pela revista Figuras e pertence à direção da revista Limiar.
Com vasta obra publicada, a sua poesia, reflectindo sobre paradoxos filosóficos e linguísticos, ocupa um lugar único na poesia portuguesa contemporânea mais recente.»

8.4.12

Je ne me souviens pas plus loin que cette terre-ci et le christianisme

«(...) Je ne me souviens pas plus loin que cette terre-ci et le christianisme. Je n'en finirais pas de me revoir dans ce passé. Mais toujours seul; sans famille; même, quelle langue parlais-je? Je ne me vois jamais dans les conseils du Christ; ni dans les conseils des Seigneurs, — représentants du Christ. (...) À qui me louer? Quelle bête faut-il adorer? Quelle sainte image attaque-t-on? Quels cœurs briserai-je? Quel mensonge dois-je tenir? — Dans quel sens marcher?»

in Arthur Rimbaud, "Une saison en enfer", avril-août 1873.

Cette Terre-ci et le christianisme (Rimbaud)
© Nadir Afonso.

29.3.12

Linha d´Água - Tapeçaria de Portalegre e Arte Contemporânea

Quadros de Maria Helena Vieira da Silva, Almada Negreiros, Cruzeiro Seixas, Nadir Afonso, Júlio Pomar, Júlio Resende, José de Guimarães, António Charrua, Costa Pinheiro, Lourdes Castro ou Graça Morais foram reproduzidos pelos artífices das Tapeçarias de Portalegre, combinando as técnicas da tecelagem artesanal com a pintura moderna para criar obras originais. Composta por 13 tapeçarias que fazem parte da colecção da Fundação Millenium BCP, a mostra, inaugurada hoje, pode ser vista no MUSEU DE AVEIRO até dia 13 de Maio. São obras impressionantes. Adorei!

[Tapeçaria de Portalegre - Almada Negreiros, sem título, 1930]

27.3.12

Poesia Matemática

 
 
POESIA MATEMÁTICA
Millôr Fernandes (1923-2012)

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
...
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


[Imagem: Wassily Kandinsky. Decisive Pink. 1932. Oil on canvas. 80.9 x 100 cm]

11.12.11

Melancholia

oh God! oh God! Há imagens neste filme que evocam imagens criadas desde há séculos. que daqui a muitos anos vão evocar novas imagens. este filme tem quelque chose de "para sempre".
Ophelia (1852). John Everett Millais

18.11.11

Mensagem curta e cusca


Caro/a visitante com IP Address 66.249.67, a residir em Mountain View, California, não quer identificar-se? Segundo o "sitemeter", há já algum tempo que faz visitas diárias a este blogue. É português/portuguesa? Por que razão passa por aqui? (sorriso)(às vezes vou ver os relatórios das visitas e fico curiosa)(I can't see the whole room and there's so many people in it!)

Entretanto, obrigada pela preferência ___e um abraço!

11.10.11

Embraceable You

Olhar para esta pintura de Ruth Rosengarten, Embraceable You (1988), e ouvir Sinatra em dueto com Lena Horne. Bom exercício para um fim de dia.


Embrace me, my sweet embraceable you
Embrace me, you irreplaceable you

Just one look at you
My heart grew tipsy in me
You and you alone
Bring out the gypsy in me

I love all the many charms about you
Above all, I want these arms about you

Dont be a naughty baby
Come to papa, come to papa do
My sweet embraceable you

I love all the many charms about you
Above all, I want my arms about you

So dont you be, a naughty baby
Come to papa do
My sweet embraceable you

6.9.11

Eu quero uma licença de dormir

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Adélia Prado


[Imagem: Romaine Brooks (1874-1970). "La Venus triste" (The Weeping Venus). Modelo: Ida Rubinstein. Se vos apetecer, mais Ida]