30.11.06

Os melhores blogues

Juarez Machado
Atelier em Montmartre com a Presença de Malhoa, 2006


Ainda a propósito do concurso do Geração Rasca, o meu obrigada ao António Branco Almeida do Luminescências, pela nomeação do Divas & Contrabaixos como um dos melhores blogues femininos.
Lembrei-me deste quadro do Juarez Machado quando li o post sobre o tributo de Guus Slauerhoff ao universo do Fado. Talvez não conheça, António. Vocês, se ainda não viajaram até ao Luminescências, aproveitem esta passagem. É um lugar raro.

Allen Ginsberg's First Blues acaba de sair

* Release Date: 2006 * Genre: Spoken Word * Label: Water

É o opus de Allen Ginsberg. esse mesmo, o poeta da Beat Generation. o mito beatnik. Canções escritas e interpretadas por ele, entre 1971 e 1981. O LP saiu em 1983 mas o compact disc teve que esperar por este século. First Blues conta com a participação de David Amram, John Scholle, Happy Traum, e, é claro, Bob Dylan, que sempre o encorajou a escrever e que foi o primeiro a levá-lo a um estúdio de gravação. Anne Waldman, poetisa e co-fundadora com Ginsberg da Escola Jack Kerouac de Poéticas Desincorporadas, também aparece como vocalista. Cultivem o lema beat: art in everyday life. se vos apetecer. mas uivem sempre:


Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa

(fragmento do poema continua aqui)
(um estudo sobre Uivo)



Adenda - Jimmy Berman

de Allen Ginsberg - canta Bob Dylan

29.11.06

Cocteau


Jean Cocteau, poête, écrivain, peintre a été le premier artiste à utiliser le phonogramme non comme un moyen de témoignage mais comme un véritable outil de création à part entière. Il Invente le théâtre sonore, qui donnera plus tard les dramatiques radiophoniques. Link

Temos estado a ouvir Cocteau a declamar La Toison d'Or, um poema retirado do seu livro Opera. Esta leitura foi gravada a 12 de Março de 1929. É acompanhada pela Orquestra de Jazz de Dan Parrish: Vance Lowrey no banjo, Dave Peyton na percussão, James Shaw no clarinete, Crickett Smith no trompete e Dan Parrish no piano.

28.11.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍCIOS

VIII

Constantino era guardador de marijuana e de sonhos. Tinha os cabelos pretos tão encaracolados que ela, do alto ou do vale dos seus treze anos, pensava todo o tempo em prendê-los entre os dedos e depois enrolá-los à volta do indicador. Mas nunca ousava. Entre os dois estabeleceu-se um laço de magia e de pudor. Falavam pouco, não por falta de assunto, mas porque os dois só mereciam ouvir o que era importante. Seguiam o olhar do outro e por isso, muitas vezes, descobriam-se face a face, e despertavam.

No início ela só sabia que: um, ele era rapaz; dois, ele era um rapaz dali. Era um conhecimento rudimentar, mas provocou uma revolução. O primeiro dado activou a consciência do género, feminino; o segundo activou a consciência de classe, ela era turista. Sem se aperceber, Constantino provocou um enorme embaraço. Mas depois, os cabelos dele, o tom de voz, de confissão urgente e rara, de sedução que grita carência, e um cheiro de pele novo, mas gostoso, a maresia e a homem, fizeram com que esquecesse a política. Escutava-o com atenção quando dizia o mar, a pesca, o café do pai, um dia, partir, e olhava o mar para o ver como ele o via, conversava com o pescador Luís para saber ainda mais, fixava o café com o seu telhado de colmo, imaginando como teriam sido os dias e noites que ele vivera antes dela o conhecer. Pareciam-lhe quentes e livres. Se um dia partir, ele vai voltar. Constantino era um rapaz feliz com os olhos tristes. Podemos ser felizes e não o saber. ou talvez seja manha.

O pai dele aproximou-se. Queixou-se do desinteresse do filho pelos estudos e pediu para ela o influenciar. Quando os via juntos, piscava-lhe o olho para ela se lembrar do trato.
Mas isso não era importante. A verdade é que ele passou a ser o guia dela naquelas semanas. Deve ter acontecido sem querer, que é o mesmo que dizer com querer mas suavemente. Vais ali dizer à menina onde ficam os cavalos, e ele foi e ficou. E a menina aprendeu equitação, e do trote passou ao galope, e em pouco tempo corriam os dois lado a lado, sem medo. Uma vez ela descobriu uma passagem sob as rochas entre duas praias. Rastejou para o outro lado e esqueceu o tempo, até a maré subir e ela ficar prisioneira. Ele ficou horas a vigiá-la no cimo da falésia. De resto, desde esse dia, não fez mais que vigiá-la e protegê-la. Ia à frente em todos os caminhos, testando o equilíbrio das pedras, resguardando-a de todos os perigos.

O pai dela foi falar com ele. Constantino, a minha filha tem treze anos, disse-lhe. e Constantino chorou. Por que choraste? porque é uma injustiça só teres treze anos. Um silêncio novo apareceu. Foi no dia seguinte que ela nadou pelo mar adentro, até a praia e os braços que chamavam perderem nitidez, e uma alegria cada vez maior crescer, impulsionando braçadas cada vez mais vigorosas, até aquele barco aparecer e o pescador Luís, um velho de trinta anos, lhe perguntar se queria subir, ver as grutas que o mar escavou, e a resgatar.

Um dia, às seis da manhã, ele bateu-lhe à janela para lhe dizer adeus. Assim, a janela acabada de abrir, ele, adeus, ela, vê-lo subir a rua com a mochila às costas. Chamou-o. Não consigo despedir-me. e acelerou o passo.

Fazia a mala lentamente. Os braços pesavam. Mas antes da partida, a notícia. Constantino fugira de casa. Foi ter com os amigos da droga, chorava o pai dele.

*

Cinco anos depois, em pleno Inverno, ela entrou no café.

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Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.


Todas as semanas saiem novos textos:
Às segundas, n' O Afinador de Sinos
Às terças, aqui
Às quartas, no Ponto.de.Saturação


27.11.06

Conheci o César há anos através de um amigo que trabalhava no mesmo jornal, mas passaram outros tantos anos, mudei de terra(s), e nunca mais o voltei a ver. E agora dou-me conta que respiramos o mesmo ar daqueles que lemos, mesmo que por breves momentos. Lembro-me sempre das mesmas palavras. Sei que as fixei quando uma amiga morreu, pouco tempo depois de acabarmos o curso, qualquer dia fará 20 anos. Podemos pouco por nós e por aqueles que amamos. Não encontro nenhum consolo na fatalidade. Mas face a qualquer resgate cruel são sempre estas as palavras que me aparecem na mente, na boca. Podemos tão pouco por nós e pelos outros.

MCy

"Se o diabo aparecesse aqui ao meu lado e me puxasse a orelha, eu não ficaria mais admirado do que já estou."

Mário Cesariny
Documentário de Diogo Collares Pereira
Dia 26/11/06 na 2:

26.11.06

Cesariny

MÁRIO DE CESARINY DE VASCONCELOS
1923-2006

Foto: Manuel Luis Cochofel
Série Pessoas, 2004


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


O Navio de Espelhos, 1965
in A Cidade Queimada
Ed. Assírio & Alvim, 2000

Voz de Cesatiny: no álbum Os Poetas - Nós e as Palavras com música de Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Margarida Araújo e Francisco Ribeiro.


A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua


Daniel Filipe
(1925 - 1964)
A Invenção do Amor e Outros Poemas, Lisboa, Presença, 1972



P.S.: Já tinham reparado que o Público nos oferece Um Poema Por Semana?

25.11.06

Uma visita da boa sorte


Teria sido uma boa mulher, disse O Inadaptado, se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela.
Grande programa!, disse Bobby Lee.
Cala-te Bobby Lee, disse O Inadaptado. Não há verdadeiros prazeres na vida.
in Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, pp. 26

Minha Senhora, disse ele, as pessoas já nem se importam com a qualidade das suas mentiras. Talvez o melhor que eu posso dizer-lhe seja, sou um homem; mas escute, minha senhora, disse ele e fez uma pausa e tornou o seu tom de voz ainda mais eloquente, o que é um homem?
in A Vida que Salvar Pode Ser a Sua, pp. 52

Bill Hill e ela não comiam nabiças há cinco anos e ela não ia começar a cozinhá-las agora. Tinha comprado estas por causa do Rufus, mas só ia comprá-las uma vez. Pensar-se-ia que, depois de dois anos nas Forças Armadas, Rufus voltaria preparado para comer como uma pessoa de um verdadeiro sítio; mas não. Quando lhe perguntou o que é que gostaria de comer em especial, ele não tivera o espírito empreendedor de pedir um verdadeiro prato civilizado - dissera nabiças.
in Uma Visita da Boa Sorte, pp. 66

Mrs. Hopewell não tinha características pessoais que fossem muito más, mas era capaz de usar os defeitos dos outros de uma forma tão construtiva que nunca sentira a falta delas.
in A Gente Sã do Campo, pp. 165

O velho riu delicadamente. Sim senhor, disse ele. Ah, ah!
O mais novo não disse nada. Só parecia taciturno mas quando ela foi para casa disse, A Barriga Grande comporta-se como se soubesse tudo.
Não lhe ligues, disse o velho. O teu lugar é demasiado baixo para que alguém queira disputá-lo contigo.
in A Pessoa Deslocada, pp. 203



Fragmentos de contos de Flannery O'Connor, reunidos na obra Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Ed.Cavalo de Ferro, Abril 2006

Acabei a leitura. Negro. Negro. Without blood (à excepção do primeiro conto). Tive pesadelos. Mas há momentos de perfeição.

Os melhores blogues

Estive a ler os blogues individuais masculinos do (actual) ranking do Geração Rasca.
Se eu pudesse fazer constelações juntava o O
Abrupto, A Origem das Espécies e o Miniscente. São estrelas solares. Passava-os definitivamente à categoria de one man write show.
Depois agregava o
Estado Civil com A Voz do Deserto, chamava-lhes "sacanas de homens inteligentes, ainda por cima com bom ouvido" e dava-lhes o Oscar se eles prometessem continuar a girar à volta, um pouco acima, do seu only planet. Emitem e não imitam. Têm um registo mais blogosférico que jornalístico.
Os outros (espreitem a lista) eram englobados no planeta dos blogues-filtro-media. com a devida vénia, em alguns casos.


Mas esquecerem-se do Escrita em Dia ___que vive neste planeta, circula entre vários continentes, e não comenta notícias. vive os factos e transmite-nos a memória. é uma injustiça!

24.11.06

Os melhores blogues

Estive a ler os blogues individuais femininos do (actual) ranking do Geração Rasca. De longe, o melhor é o da Rititi. Mas esquecerem-se da Isabela! Mesmo sabendo que o mundo não é perfeito, não aguento a injustiça!

De Poesia falemos



Falemos da natureza e espécies da poesia. Aristóteles inspirou o título da palestra do Professor Luís Serrano. Retive:

Existem mais reflexões sobre o acto da criação poética que definições de poesia. Nenhuma definição de poesia abarca a história da poesia. A noção de poesia é instável e variável no curso do tempo (Roman Jakobson). Literatura em geral e Poesia em particular deveriam ser consideradas como artes, fugindo à clássica divisão Artes & Letras. Falar de linguagens diferenciadas. Linguagem de dominância simbólica___ e a obra de arte: alia um fazer (uma técnica, um estilo) a um saber (Pedro Barbosa, Metamorfoses do Real, 1995). O poeta parte de uma certa realidade (exterior a si ou não) e transforma-a, com a ajuda das palavras, no poema. Carlos Oliveira e o poema filtro: o poema/ filtra/ cada imagem/ já destilada/ pela distância,/ deixa-a/ mais límpida.

Sophia de Mello Breyner retratada por Arpad Szenes

A Poesia é a
minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens (Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética, 1967).
Ou é uma forma de compensação.
O artista, dizia-o já o eminente Valéry, compensa-se como pode naquilo que a vida lhe negou (Eugénio Lisboa, Crónica dos Anos da Peste, 1996).

Passagem discreta entre poesia e prosa. Certos textos de René Char, Jorge Luís Borges, Herberto Helder, Tonino Guerra,... são poesia ou prosa? Num tempo de mistura a noção clássica de géneros perdeu importância.

Didáctica: a palavra como possuidora de significado; a palavra como suporte físico desse significado; o modo como as palavras se articulam; o aspecto gráfico. O que distingue um poeta é a sua capacidade de relacionar livremente o que aparentemente não é relacionável (António Ramos Rosa).
Palavra, significado, múltiplos significados, diferente leituras, obra aberta (Umberto Eco). Significado, subversão, poesia. A metáfora é O procedimento linguístico.

Massaud Moisés: A poesia é a expressão do eu por meio de metáforas.

Significante: condiciona aspectos formais, musicalidade, ritmo. Paul Verlaine: a poesia é música avant toute chose. T.S.Elliot, Four Quartets: Words move, music moves/ Only in time; but that which is only living/ Can only die. Words, after speech, reach/ Into the silence ....

Paul Valéry: a poesia é uma hesitação prolongada entre o sentido e o som.

Aspecto gráfico. 12 sílabas, inferior a uma linha, alinhado à esquerda. alinhamento ao centro : século XIX e hoje com os computadores é tão fácil. excepções à regra: poetas barrocos. movimento concretista. Ana Hatherly, Melo e Castro, Jaime Salazar Sampaio, Salette Tavares, APOLLINAIRE.
Alexandre O'Neill (No Reino da Dinamarca, 1967):
que a regra é não haver regra... João Cabral de Melo Neto (Poesia e Composição, 2003): Cada poeta tem a sua poética.

E o leitor? - Ainda J.C. de Melo Neto:
Pois o homem que lê quer ler-se no que lê, quer encontrar-se naquilo que ele é incapaz de fazer.





Nota: Imagens retiradas de Ana Hatherly, Outra Poesia Virtual, Cadernos e Catálogos da Poesia Experimental Portuguesa

Le Pont Mirabeau







Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine.

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Guillaume Apollinaire (alcools)

Os melhores blogues

O concurso mais badalado do momento é promovido pelo Geração Rasca. Cada blogger deve nomear seis blogues para seis categorias. Agradeço ao Papo-Seco e à O'Sanji, dois bloggers excelentes, as nomeações.

23.11.06

Do Brasil


Já faz tempo. Mas foi por causa de memórias que olhei para uma foto de (E)Nildo Amaral e me emocionei. Depois o fotógrafo descobriu essa minha fraqueza. Do Brasil, enviou-me mais fotos. Explosões de cor. E revelou-me uma Brasilia que eu desconhecia. Dizia que apesar do concreto e da aparente organização da cidade, se olharmos bem de perto veremos que Brasília pulsa. Enfim, de assombros da tecnologia que transformou em postais ilustrados, ao Vale do Amanhecer, (E)Nildo Amaral deu-me a conhecer o seu Brasil e a sua arte de jogar com o real e a imagem.

Agora voltei a ter notícias. Nildo Amaral aderiu à blogosfera. Vão lá ver esse espaço da alma.

22.11.06

IV. Pierre Desproges


Voltando às saudades que tenho do humor francês.

Pierre Desproges aplicava o seguinte lema ao humor: “On peut rire de tout, mais pas avec n’importe qui” (podemos rir de tudo, mas não com qualquer pessoa).
O título das suas obras reflecte o seu estilo: Chronique de la haine ordinaire, Vivons heureux en attendant la mort ou Manuel de savoir-vivre à l’usage des rustres et des malpolis (ed. Seuil, col. Points, Paris, 1981). A partir de 1984 deu vários espectáculos a solo que ficaram para sempre no imaginário do povo francês. Morreu em 1988 vítima de cancro, mas nem o pressentimento da própria morte escapou à sua ironia.

Era um falso misantropo. O riso, afirmava, dessacraliza a estupidez e permite exorcizar o sofrimento. Neste "documento", em que levou Jean Marie Le Pen a tribunal, expõe o seu tratado filosófico-político sobre o humor. Deixo a pergunta que legitima a sua defesa do humor aplicado a todos os temas, sejam eles a guerra, a miséria ou a morte: "a Morte não pratica humor negro?"

E termino com o link para a mais maravilhosa das petições: Desproges, reviens!



[posts anteriores: I, II, III]

Bienal internacional de arte contemporânea

Em quatro dias (de 4 a 8 de Setembro), receberam 516 obras de 258 artistas. O Júri seleccionou 77 peças de 48 autores e atribuiu o primeiro prémio ao pintor José Ramos.

Esta I edição da bienal, organizada pelo AVEIROARTE e pela CMA, ocupa agora quatro espaços da cidade: a Galeria da Antiga Capitania, o Museu da Cidade, a Galeria dos Paços do Concelho e a Galeria Morgados de Pedricosa.

Por agora só visitei a exposição na Antiga Capitania mas, até 30 de Dezembro, espero correr todas as capelinhas.
Paralelamente vão ocorrer uma série de eventos. Dia 23, às 22h, o Professor Luís Serrano, uma amigo de tertúlias, de quem gosto muito, vai apresentar uma palestra no Mercado Negro. Será acompanhado pelos músicos Rui Baptista (flauta) e Manuel Álvaro Martins (guitarra). "De Poesia Falemos" é o título da palestra, e eu quero lá estar, para presenciar o saber e entusiamo a que o Professor nos habituou.

21.11.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS


V

Ele vai a casa dela todas as terças-feiras demanhã.

Desde os primeiros encontros que pouco falam. A saciedade que buscam não se alimenta de palavras. Lançar um Bom dia sempre foi muito, porque inútil. Perguntar quanto tempo hoje, cínico, será o tempo que for possível. Pedir-lhe qualquer coisa, um abuso. Nem ilusões nem círculos. Há vontade de amor físico, de possuir. E porque são eles, de lembrar os sentidos, de os atiçar, tentar domar.
Começam sempre da mesma maneira. Ele mergulha a cabeça no pescoço dela e tudo cresce à medida que inspira. Às vezes cruzam o olhar sem querer. Então ela baixa-se e esconde o rosto no sexo dele. Mas geralmente rodam um dentro do outro, um à volta do outro, em movimentos de rotação e translacção em que ela é quase sempre o eixo da terra ou o sol. E de tempos a tempos, entregam-se a mortais e rodilhas. E de tempos a tempos apenas aquele desnudar prático, o estender dos corpos, dar as mãos e a cópula funda, gemida.

Depois respiram, arrefecem, e voltam a aquecer com o que for possível, os braços, as costas, as pernas, o lençol, dos dois, até ao fim do repouso.

Sem palavras, surge a ordem que os deixa com um ar sério. Ele veste-se silencioso, atento aos sinais. Mas raramente capta qualquer coisa nova nas pequenas distracções que acontecem entre a cama e a casa de banho. Ela percorre esse caminho já sozinha. Caminha devagar, passa uma mão pelo pescoço, levanta o cabelo, estica os braços, e despede-se. Do duche, lança-lhe no mesmo tom de sempre, baixo, calmo, um segundo adeus.

Ele não tem mais ninguém. Ela sabe. Ela não pode ter mais ninguém.

Ultimamente qualquer coisa mudou. Ele descobriu o nome dela e às vezes zanga-se. Quando se zanga, não aparece. Se ele pudesse vê-la nessas manhãs de espera, como continua a olhar-se ao espelho e se penteia mais uma vez, como mais tarde acelera o passo e as tarefas para o esquecer e como invariavelmente acaba a chorar sem muita pena de si própria, se ele pudesse vê-la, e ele quase a vê, levaria tempo a recuar, a voltar atrás, tocar a campaínha e afundar-se no pescoço dela. Levaria o tempo possível, uma semana.
Ultimamente ela tem sido mais generosa. Às vezes diz-lhe que quer dar prazer e dá-lhe prazer e depois abana a cabeça, ele não tem que retribuir. Parece-lhe muita generosidade, uma generosidade nova nela. Mas depois ela estende-lhe a roupa e diz-lhe adeus, e do duche ele ouve ainda o seu segundo adeus. A generosidade foi dele que ofereceu o corpo.

A um amigo ele falou da mulher das terças-feiras. O amigo disse que parecia um sonho e essa ideia fá-lo sempre sorrir. Hoje cruzou-se com esse amigo depois do trabalho. Estava cansado. Por isso disse-lhe que sim, que continuavam a ser amantes, mas que ela não precisava dele e que se sentia cada vez mais lixo.
Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.


*


Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.

Todas as semanas saiem novos textos:
Às segundas, n' O Afinador de Sinos
Às terças, aqui
Às quartas, no Ponto.de.Saturação


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Adenda: Foi criado o blog onde ficarão arquivados os BONS PRINCÍPIOS, assim como os TEXTOS ESCRITOS PELOS LEITORES-AUTORES. A JP do Faz de Conta inaugurou essa rúbrica.

Pausa

... para agradecer as vossas palavras no dia de aniversário do D&C. para agradecer os posts poéticos, bem simpáticos e reivindicativos. eu sei que tudo isto faz parte da praxe blogosférica, mas não deixa de saber muito bem. Obrigada!

20.11.06

Revisão do Estatuto do Jornalista

Jean-Sébastien Monzani
Great Commander


Pouco se ouve falar desta questão, o que é estranho. Às vezes podem existir dúvidas sobre se uma matéria é de interesse público ou não. Mas, neste caso, parece-me seguro o interesse público e até o interesse do público. E no entanto, poucos são os jornalistas e comentadores que animam o debate, nas colunas editoriais não se cospem indignações e, na blogosfera, o caso do plágio ou calúnia a Miguel Sousa Tavares parece ser mais relevante.

Acontece que a última proposta de lei do Governo para alterar o Estatuto do Jornalista, que deu entrada na Assembleia da República a 8 de Junho, está a provocar um imenso mal estar junto do Sindicato dos Jornalistas, mas não só. Centremo-nos na página 13 do ficheiro com o Parecer da Entidade Reguladora para a Comunicação Social sobre a Proposta do Estatuto do Jornalista. Pode ler-se que na nova formulação do preceito, o jornalista passa a reportar "a pessoa que não exerça estatutariamente funções de direcção ou chefia na área da informação, o que põe o acento tónico da lei no respeito pelas estruturas dirigentes das empresas".
Por outras palavras, esta proposta de lei introduz uma ambiguidade perigosa na relação de obediência do jornalista. Este reporta, já não exactamente aos chefes de redacção, mas, quiça, às direcções gerais dos grupos media. Mesmo que esta já seja uma prática corrente, que interesses políticos já tenham até levado à criação de (bons e maus) jornais, não quero acreditar que um governo PS institucionalize um princípio tão anti-democrático.

A actual proposta consagra ainda que os jornalistas não se podem opor a "modificações formais introduzidas nas suas obras" pelos seus superiores hierárquicos (Art.º 7.º-A, n.º 4); concede expressamente à estrutura hierárquica da redacção a faculdade de alterar, sem consentimento do autor, os trabalhos originais criados, desde que aquela invoque, "designadamente", "necessidades de dimensionamento (...) ou adequação ao estilo" do órgão de informação; confere à entidade proprietária e ao grupo económico em que esta se integra o direito à livre utilização, em todo e qualquer órgão de informação pertencente à empresa ou ao grupo, de obras destinadas ao meio a que o jornalista pertence (Art.º 7.º - B, n.º 3); etc..

Portugal é um dos países europeus em que a situação dos direitos de autor dos jornalistas é mais fraca, afirma um estudo da Federação Europeia de Jornalistas (FEJ). [ler o artigo na íntegra]
Não me parece que neste capítulo se estejam também a fazer avanços.

O Sindicato dos Jornalistas entregou na Assembleia da República uma Proposta de Correcção dos artigos que considerou mais negativos (e que não se esgotam na questão da ameaça à liberdade de expressão).

Este mês, o Sindicato dos Professores do Ensino Superior manifestou o seu apoio ao apelo que o Sindicato dos Jornalistas lançou.
Professores, criadores e autores de diversas áreas e, naturalmente, jornalistas, continuam a subscrever o apelo. O apelo pode também ser subscrito online, aqui.

Entretanto, fico à espera que os inflamadores habituais se pronunciem...

O IV BOM PRINCÍPIO SAI HOJE

19.11.06

2004-2006

Lilya Corneli
lost of gravity


Hoje, o Divas & Contrabaixos faz dois anos. Primeira reacção da blogspot: You don't have permission to access on this server. ok. já a conheço. a seguir passa-lhe!


Mas o que eu vinha dizer era isto:
"Sempre que falamos de coisas que só podem ser experimentadas na privacidade ou na intimidade, trazemo-las para uma esfera na qual assumirão uma espécie de realidade que, apesar da sua intensidade, jamais poderiam ter tido antes."
in Arendt, Hannah, A Condição Humana, Relógio d' Agua, 2001, pp 64-65

Há dois anos andava a ler Hannah Arendt. Este blog é o meu diário dos 12 anos onde registava os livros lidos, é o meu álbum dos 13 anos de postais bonitos, é o meu gravador de cassetes da adolescência e é a minha actual televisão portátil com imprensa e vídeo incorporados.

E vocês são meus cúmplices. Sois o meu clube dos cinco, dos cem, dos duzentos ou trezentos (em dias bons). Obrigada.

17.11.06

Dia do Mar

Hoje é o Dia Nacional do Mar, mas todos os dias são bons para mergulhar nestas ondas ______
e para pensar a relação do ser humano com o mar.


Não resisto a evocar a história de Santiago, o velho. de Hemingway.
que John Sturges levou ao cinema, com Spencer Tracy.
ou que Alexander Petrov animou, com um desenho belíssimo.

Continua aqui (2ª parte).

16.11.06

Samuel Beckett


2006 é o ano em que se celebra o centenário do nascimento de Samuel Beckett. O autor de À Espera de Godot ou Dias Felizes, nasceu a 13 de Abril de 1906 em Foxrock, uma localidade a sul de Dublin.
Por ocasião do Famafest - Festival Internacional de Cinema de Famalicão, em Abril/Maio deste ano, tive oportunidade de ver os 19 filmes do projecto "Beckett on Film", idealizado por Michael Colgan, director artístico do Gate Theatre de Dublin. Este projecto reune pela primeira vez a gravação de todas as 19 peças de teatro do autor: Waiting for Godot, Krapp's Last Tape, Happy Days, Endgame, Not I, What Where, Catastrophe, Act Without Words I e II, Rough for Theatre I e II, Footfalls, A Piece of Monologue, Ohio Impromptu, Come and Go, Breath, Play, That Time e Rockaby.


Para minha surpresa, encontrei três destes filmes no Youtube. Leiam um pouco sobre o teatro do absurdo de Beckett, e aproveitem a oportunidade que a internet oferece.

Ohio Impromptu, de Charles Sturridge, com Jeremy Irons:


Play, adaptação de Anthony Minguella, com Alan Rickman, Kristin Scott Thomas e Juliet Stevenson. Play foi escrita por Beckett entre 1962 e 1963. O filme (em 2 partes): 1, 2 .

What Where, de Damien O'Dannell, com Gary Lewis e Sean McGinley (Parte 1 e 2)

Não pertencendo a esta série, não resisto a deixar aqui o link para:


Not I.
Vi esta peça adaptada ao cinema por Neil Jordan e interpretada por Julianne Moore. E guardo também na memória fragmentos de uma interpretação de Graça Lobo. Preferi a última___ que, na verdade, andava próxima desta versão.

Krapp's Last Tape
. Numa versão de Tom Skipp (1, 2).

15.11.06

Eu procuro dizer como tudo é outra coisa

Minha Cabeça Estremece

de Herberto Helder. pela voz de Herberto Helder


Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Now air is air and thing is thing. no bliss

Mais uma celebração. Outro poeta. E.E. (ou e.e.) Cummings. Por Evan Sornstein (Curium). 22 poemas musicados. declamados por vozes vindas de todo o mundo. personalidades distintas para manter a individualidade de cada poema.



agora o ar é o ar e a coisa é coisa:nenhuma alegria
da celestial terra ilude os nossos espíritos,cujos
miraculosos desencantados olhos
vivem a magnificante honestidade do espaço...

14.11.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍCIOS

II


Durante mais de trinta anos, os burgueses de S. Bartolomeu de Loure invejaram a Dona Agustina Dessa a sua criada Celinha. Por pouco mais de 2 contos de reis por ano, o suficiente para dar um bom presente à afilhada pela Páscoa e para viver sem grandes ilusões, tratava da lida da casa, lavava e engomava os cortinados no início de cada estação, e Deus sabe como aquele palacete era mais janelas que paredes, polia pratas todos os quinze dias, lavava os serviços de cristal com vinagre sempre que eram utilizados, cuidava da criação, sabia matar galinhas e esfolar coelhos, cozinhava que era uma benção, e manteve-se fiel à patroa - embora ela fosse pessoa de trato difícil e sorriso tíbio.
Muito nova casara com um rapaz da aldeia vizinha de Seixo. Quando o conheceu estava num altar, e ninguém foge ao destino, dizia depois. Foi num Domingo ou Dia Santo. Tinha quinze anos e cantava no coro da missa das oito. Ainda o padre não saíra da sacristia e já tinha dado por ele. Era novo por ali e tinha uma impertinência agravada pela altura. Com a cabeça acima dos outros, só quem fosse cego é que não via que sorria para ela o tempo todo. Desde o primeiro dia, Santo Deus! A vê-la rezar o Pai-Nosso ou o Acto de Contrição, a ouvi-la cantar a Avé-Maria, mas sobretudo nos momentos em que ela respondia ámen, soltava um olhar tão prazenteiro, que mesmo a fraca má língua começava a afiar. A Celinha nem caíu de amores à primeira desobediência do olhar, a bem da verdade até desdenhou. De tão magro, ele parecia que tinha um buraco no peito. Nem se lhe viam os botões da camisa! Mas acabou por se prender àquela presença e, quando deu por si, já mal dormia nas noites que antecediam a missa.
Não fosse ter-se casado com esse homem, que acabou por escavar-lhe também um buraco no peito, e nunca a Dona Agustina Dessa teria encontrado a criada Celinha que todos cobiçavam.


*

Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender. Inúmeras obras-primas foram já produzidas utilizando esta técnica, que é, não temamos a palavra, revolucionária.

Foi esta a ideia que O Afinador de Sinos decidiu lançar, convidando-me a mim e à Inominável para entrarmos no projecto. Vocês, caros amigos, respondam ao desafio, e peguem neste Princípio (II), no anterior (I) e naqueles que se vão seguir, e enviem-nos os vossos textos ou contos___ ou partam para a escrita do livro das vossas vidas.


Amanhã, quarta-feira, sai o III Princípio no Ponto.de.Saturação.

13.11.06

11.11.06

III. Élie Semoun... e tantos outros humoristas

Antes do sketch, uma explicação sobre o percurso de Élie Semoun e a forma como se encara o humor em França. É seguramente um dos países onde os humoristas têm maior liberdade de expressão. Governantes, dossiers políticos sensíveis ou problemas relacionados com a imigração (questão quente neste país) não escapam ao olhar crítico dos autores dos textos. Sente-se que o humor quer e pode incomodar a norma, o estabelecido, e são muitos os que o usam deliberadamente contra. Se o fizerem divinamente, as portas abrem-se, mesmo em territórios hostis. Sinto falta desse ambiente em Portugal. São raros os momentos de boa sátira. e sobretudo, não existem várias vozes que, distintas e talentosas, agitem águas diferentes.

Como humorista, Élie Semoun tornou-se conhecido fazendo duo com Dieudonné. Em França, existe uma longa tradição de duos cómicos, de duplas de "idiotas" que entram em diálogos alucinantes, na linha de Bouvard e Pécuchet (1881) de Flaubert. Nos anos 60, o género foi popularizado por Jean Poiret e Michel Serrault. Quem nunca viu uma encenação ou adaptação ao cinema da Gaiola das Malucas?
Neste duo, um deles representava sempre o papel do pateta ou ingénuo, chegando a situações de incompreensão mútua e a quiproquos que provocavam o riso pegado. Nos anos 70, Guy Bedos e Sophie Daumier compuseram o duo de maior sucesso, e Drague/engate ainda nos faz rir. Pierre Palmade e Michèle Laroque, mais recentemente, especializaram-se nas pequenas hipocrisias da vida conjugal. Nos anos 80, foi a vez de Chevalier e Laspallès se notabilizarem. Hoje, Eric e Ramzy fazem a festa.

Mas até 1997, Semoun e Dieudonné foram um duo que fez furor. Imaginem a acutilância deste humor a dois. Dieudonné é um fervoroso defensor dos direitos dos negros, já concorreu várias vezes às legislativas em França, os seus apoiantes chegaram a invadir um estúdio da France-3, manifestando-se contra o racismo anti-Negros que as televisões de serviço público fomentariam. O seu curriculum político passa ainda por uma detenção por apologia a actos de terrorismo: em Fevereiro de 2002 afirmou que preferia o carisma de Bin Laden ao de George Bush (o "tribunal correctionnel de Paris" deixou que saísse em liberdade). Talvez se lembrem dele como "Caius Céplus" no filme Astérix et Obelix - Mission Cleopatre, de Alain Chabat. A relação com Élie Semoun azedou quando começou a emitir opiniões anti-semitas ou interpretadas como tal.

Élie Semoun é ateu mas tem origem judia. Do ponto de vista político, as suas posições são moderadas. Apoiou Bertrand Delanoë para a Mairie de Paris nas eleições municipais de 2001 e Lionel Jospin para as presidenciais de 2002.

Os opostos deixaram de se atrair mas, quando conheci Élie Semoun, os media ainda exploravam o tema da ruptura artística (e o fim da amizade) com Dieudonné.
Diga-se que Semoun, a solo, é excelente. Tem a seu favor a facilidade da escrita. Muito novo publicou dois livros de poemas, Le Poémoir e Le Plaisantriste. Alguns textos dos seus sketcks mais recentes podem ser lidos aqui. Por vezes comparam-no a Raymond Devos, sendo Semoun o novo poeta do absurdo. Ele agrada-me. Não existe tema que não aborde, mesmo os mais difíceis, e fá-lo com inteligência e muita graça.
No vídeo que deixo aqui, ele interpreta o papel de um agente funerário. É o extracto de uma peça em que toda a cena se passa num velório. Como ele diz, "a morte pode acontecer a toda gente". Então, por que não brincar com o teatro da vida?


10.11.06

II. O Humor de Rachida Kalil





Rachida Kalil é uma actriz francesa de origem árabe. Tem um humor profundamente engagé. Defende um conceito de Estado republicano e laico, mesmo se é muçulmana. Afirma que a maioria dos muçulmanos não são integristas mas que não pode negar que se sentiu, e sente, oprimida pelo Islão. A mulher é quase inexistente, diz. Os seus sketches combatem essa imagem. Ela quer avançar no sentido de uma sociedade mais livre.

Do espectáculo La Vie Révê de Fatna (2004), vejam:

A Gruta de Nazaré

Aïcha e Moloud

Feitiços

Roland Hayrabedian e Musicatreize estiveram ontem em Aveiro. Este ensemble vocal e instrumental de Marselha ofereceu-nos: "Três esconjuros, para coro a capella" de Lopes Graça e "As feiticeiras, cantata técnica", uma composição de António Chagas Rosa com texto de Maria Teresa Horta.

Gostei muito desta interpretação da peça de Lopes Graça. Mas "As feiticeiras" nasceram de um projecto mais ambicioso. Hayrabedian decidiu levar a cena sete contos musicais sobre libretos e composições originais, oriundos de sete países europeus. Cada conto propõe uma viagem a um universo específico, pela pena de um escritor vivo. Portugal inaugurou o ciclo. "Feiticeiras", um poema dramático original da poetisa Maria Teresa Horta, foi musicado por António Chagas Rosa. Se não conhecem, fixem o nome. É provavelmente o mais importante compositor contemporâneo português, e é já uma referência no panorama da música erudita no mundo.

Maria Teresa Horta escolheu o tema das feiticeiras, perseguidas e queimadas no fogo da Inquisição, por considerar que foram as primeiras feministas da História.


Os Musicatreize actuaram agora em Aveiro, no auditório do Departamento de Comunicação e Arte da UA, inseridos nos Festivais de Outono. Em Março de 2007 vão regressar para actuar em Lisboa (em Abril, a digressão vai levá-los ao Brasil). Este projecto inclui a publicação de um livro-CD, bilingue. "As Feiticeiras" tem ilustrações de Toni Casalonga. A edição é da Actes Sud. Guardei este livro como uma jóia.

Entretanto, os Festivais de Outono continuam! No próximo dia 14 vamos poder ouvir Maria João Pires.

Asneira!

... já são dois a queixar-se com razão, e se calhar houve mais! Mexi na moderação de comentários... e mexi demais! Sem querer, bani do Haloscan a Didas e o Francis. Talvez outros tenham sido vítimas do mesmo. Desculpem os tiros ao lado desta blogger que-continua-em-estágio! Fica aqui o meu pedido de desculpas. Quanto a estes dois meus mais-que-tudo criativos, nem sei que vos faça! Enfim, aproveito para dar os parabéns à padeira pelos três anos de serviço com muitas cabacas e obosmóis, e aconselhar a leitura da crónica excepcional de gente extra-ordinária do dono do Churrascos. e prometo vergastar-me. quer dizer, acho que tanto não.

9.11.06

I. O Humor de Raymond Devos

Eu falei de humor francês. Raymond Devos é belga, mas ninguém como ele torceu, espremeu em todos os sentidos a língua francesa, ou jogou de forma tão sábia e sabida com o sentido das palavras e o ritmo das frases. As suas estórias são absurdas, barrocas, surrealistas, devonianas! Num sketch intitulado "Sou parvo" (Je suis imbécile) saiu-se com esta: “Ele deu-me provas da sua imbecilidade com tal inteligência e subtileza que fiquei a pensar se ele não me tinha tomado por um imbecil". Acontece-me muitas vezes ter essa impressão. Ainda hoje, ao ouvir o Pacheco Pereira criticar as medidas "propagandistas" do Governo que incomodam a Banca. Mas enfim, eu prefiro o slogan: "Faites l'amour ne faites pas la guerre".

Espero que o vosso
francês permita compreendê-lo. Fiquei a pensar naquela do "Portugal para os portugueses" mas depois decidi não levar a mal. De facto, o cúmulo da xenofobia seria um país de emigrantes decidir não gostar de estrangeiros. Infelizmente, no período em que vivi em França, vi um cartaz no meu bairro com um apelo à "França para os franceses". Aí, levei a mal.

Apresento-vos Raymond Devos, um cómico a que chamavam poeta.