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21.3.08

Sangue Sábio


Nessa noite caiu uma chuva ventosa e gelada. Deitada na cama, acordada à meia-noite, a senhora Flood, a senhoria, começou a chorar. Ela queria sair a correr para o meio da chuva e do frio, persegui-lo, encontrá-lo encolhido nalgum parco abrigo e trazê-lo de volta, dizer-lhe: senhor Motes, senhor Motes, você pode ficar aqui para sempre, ou então vamos os dois para onde você quiser, vamos os dois. Ela vivera uma vida dura, sem dor e sem prazer, e achava que agora, quando estava a chegar à última parte dessa vida, merecia um amigo. Se ela ia ficar cega depois de morrer, quem melhor para conduzir a cega senão um cego, que sabia como era? (...)
Dois dias depois, dois jovens polícias que andavam a patrulhar a rua de carro encontraram-no deitado num rego de escoamento perto de um estaleiro de obras abandonado. O condutor parou o carro perto da valeta e ficou olhando-o durante algum tempo.
«Não temos andad'à procura dum cego?», perguntou ele.
O outro consultou um bloco de papel.
«Um cego c'um fato azul, que nã pagou a renda», respondeu ele.
«Pois ele tá'li», disse o primeiro, apontando para a valeta. O outro polícia debruçou-se mais e olhou também pela janela.
«O fato desse nã é azul», comentou.
«É azul sim senhor», respondeu o primeiro. «E nã te ponhas em cima de mim. Sai lá do carro qu'eu já te mostro qu'é azul.»

pp. 176-177

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Amiga, não são 20; são 24 anos de partilha. Nos livros então, é impressionante: tu gostas, eu gosto, e vice-versa. Este foi o terceiro livro da americana Flannery O'Connor que a Cavalo de Ferro publicou. Ainda falta o seu segundo romance, mas os que lemos recomendamos. Concordo contigo, prefiro a contista à romancista, e o segundo volume de contos, Tudo o que sobe deve convergir, é o mais impressionante, o mais cru e duro. O que andas a ler agora?

9.3.08

Preguiça & emoções


Ontem começou o FAMAFEST'08 mas não pude ir à Cerimónia de Abertura que incluía um espectáculo da MARIZA. A Mariza emociona-me. É a fadista que me faz chorar. quando canta Gente da Minha Terra, por exemplo. E parece que o show foi fantástico, único e que deixou todos de rastos: exactamente o que eu queria para essa noite. Para me sentir menos mal fui aqui ao lado ver A preguiça ataca de ALDARA BIZARRO, uma das nossas coreógrafas mais interessantes. Já agora, «É mau sentir preguiça? Isso de não fazer nada existe? Quando estás a praticar o nada, o que estás a fazer? Um ser humano existe sem preguiça?
Quando não nos apetece fazer nada, será porque nos apetece fazer tudo? Ou outra coisa? O trabalho liberta? E a preguiça? Prende? Será que a preguiça é igual para todas as pessoas? Se a preguiça nos ataca, como é que o faz? Lentamente? Ou tão rapidamente que quando damos por nós já se instalou? O que nos tenta dizer, a preguiça? » (texto da peça)

AINHOA VIDAL e PETER MICHAEL, os bailarinos, contaram-nos histórias, ao sabor dos corpos e da imaginação, ora com preguiça ora com muita energia. Soube-me bem o momento. O público riu, saíu bem disposto e encantado da sala. Mas depois tinha que continuar. Procurar emoções é dizer Não à preguiça? E hoje fui ver o
P.S. I love You enquanto as minhas filhas estavam numa festa. Bastou-me saber que a HILARY SWANK andaria por lá. Mas devia ter-me informado. Ver este filme foi um exercício de puro masoquismo, chorei litros, solucei, dei cabo do pacote de lenços e, à saída, ainda andei a fugir de qualquer eventual conhecido porque seria difícil explicar que os olhos inchados não queriam dizer nada, nenhuma depressão, apenas fraqueza face a filmes piegas.

Não sei como vai acabar o dia. Ontem, deu-me para
isto. Hoje, depois de as deitar, não sei se me vai apetecer A Mulher Certa do SÁNDOR MÁRAI, Sangue Sábio da FLANNERY O'CONNOR, ou Alabama Song de GILLES LEROY, os três livros que ando a ler consoante o estado de espírito. que anda instável e furioso porque o quero sujeitar a estímulos e domá-lo ao mesmo tempo.

27.12.07

Tudo o que sobe deve convergir


Já chegou ao mercado o segundo volume de contos de Flannery O'Connor. Eu aguardava e não perdi pela espera. Cada conto é um murro no estômago. Absolutamente obrigatório ler e sofrer. Compreendemos melhor a América rural de hoje (d)escrita por ela entre 1956 e 1965. O'Connor é simplesmente genial na construção dos personagens e ambientes.

29.12.06

Rol de leituras de 2006

Janeiro
Comecei com Bilhete de Identidade da Maria Filomena Mónica, um livro que confirma a teoria da transmissão dos genes culturais! Dei uma revisão ao L'arrache-coeur de Boris Vian. Sim, esse, esse mesmo. Mas o primeiro baque do ano veio com Predadores de Pepetela. À míngua de edições traduzidas, ou nem isso, de Júlio Cortázar, experimentei, acho que pela primeira vez, ler uma obra via net: Rayuela. Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo... (aqui). O ano terminou sem que tivesse notícias que pudessem alterar esta desolação. Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío.(aqui)

Fevereiro
Autor, Autor de David Lodge, a que se seguiu A Volta no Parafuso de Henri James.

Março
O dia está a chegar ao fim. Mas se calhar ainda é um bocado cedo para a minha canção. Cantar cedo demais é funesto, sempre achei. Por outro lado, às vezes deixa-se passar a altura. Em Os Dias Felizes de Samuel Beckett. Uma das leituras feitas a pensar nisto. E apenas porque era outro dos autores celebrados no Famafest '06, fica o pensamento: depois de conhecer o "seu" cinema, era tempo de ler Harold Pinter!

Abril
De Haruki Murakami, Kafka à Beira-mar. Seguiu-se Norwegian Wood do mesmo autor. Foi a minha revelação do ano e quase não disse nada.
Este foi também "o mês" de Paulo José Miranda. Oficialmente li apenas A Voz Que Nos Trai. Para quando a publicação de outras obras, Paulo?

Maio
Visões de Cristo no Cinema foi um dos vários livros que Lauro António escreveu e que foram editados pela Biblioteca Museu República e Resistência. É bom tê-los na nossa biblioteca.
Ah, afinal referi o Murakami e o Paulo José Miranda e tantos outros. Mas este foi o mês de Philip Roth. Li Pastoral Americana e A Conspiração Contra A América, continua a faltar-me Casei Com Uma Comunista. E já tenho o último dele, O Animal Moribundo. Serão leituras para 2007.
De assinalar como um dos meus melhores livros do ano, Dias Exemplares, de Michael Cunningham. A primeira parte do livro, Dentro da Máquina, deixou-me uma marca (que espero seja) indelével.

Junho
As leituras continuaram até porque "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler". Mas não referi nenhum livro. Oh não, também me deixei ir na onda do Mundial! E nem li Kenzaburo Oe, apesar de ter anotado o seu nome.

Julho
A Possibilidade de uma Ilha, de Houellebecq, aparece finalmente nas nossas livrarias. Mas esse livro do meu autor de culto já tinha sido devorado e partilhado aqui no ano anterior. Traduzi algumas páginas para despertar o vosso desejo. Houllebecq é (possivelmente) um homem execrável e um escritor maravilhosamente inteligente. (...) o ciúme, o desejo e a vontade de procriação têm a mesma origem, que é o sofrimento de ser. É o sofrimento de ser que nos faz procurar o outro, como um paliativo; devemos ultrapassar esse estádio a fim de alcançar o estado em que o simples facto de existir constitui por si mesmo um motivo de alegria permanente ... (aqui). Eu não queria tornar-me um autómato, e foi isso, essa presença real, esse sabor de vida viva, como teria dito Dostoïevski, que Esther que ofereceu. De que serve manter em estado de marcha um corpo que não é tocado por ninguém? (aqui)
Em Julho li O Fim da Aventura, de Graham Greene. De vez enquando é bom reler um clássico para saber que (quase) tudo já foi inventado e demonstrado com mestria. Na escrita de um romance, isso significa perceber a sensibilidade de hoje igual à de ontem. ou o contrário.

Agosto
O que li eu estas férias? Peguei no Cuidado com a Doçura das Coisas de Raphaëlle Billetdoux, para descobrir que já o tinha lido. Li La Poursuite du Bonheur, e não gostei pela primeira vez de um livro do Michel Houellebecq. enfim, vou dizer não à sua poesia. Comprei vários outros livros, aproveitando a estadia em França, em que ainda não peguei. Comecei a ler Arno Gruen, e continuo. Agora é A Traição do Eu que está pousado na mesa de cabeceira. E li O Mar de John Banville! Leitura que inspirou vários posts em Setembro. vários. uns três ou quatro, ou cinco ou seis.

Setembro
... foi o mês em que eu nunca mais acabava de ler A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón. Quando acabei a leitura não me apeteceu dizer-vos nada. Mas parece que são poucas as pessoas que não ficaram "apanhadas" por esta obra, um cruzamento de romance histórico e policial, bem escrito e... pueril.

Outubro
ah, Villa Amalia, de Pascal Quignard!

Novembro
Bom mês! A descoberta de Flannery O'Connor e a leitura do assombro que é A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares. E poesia, muita.

Dezembro
Começou com O Mesmo Mar de Amos Oz, outro nomeado para a secção dos meus livros do ano. Li o último do Gonçalo M. Tavares. Depois fui forçada a permancer em repouso e rejubilei, lembram-se? António Franco Alexandre, Maria Teresa Horta, Al Berto, António Ramos Rosa e Possidónio Cachapa foram os eleitos. Além de Süskind.
Neste momento tenho em mãos "Romance Negro e Outras Histórias" de Rubem Fonseca.


Muita coisa escapou. Mas não me apetece levantar e procurar. mesmo não confiando totalmente neste auxiliar de memória que é o blogue. De repente lembrei-me de uma agenda pequenina que eu tive (e ainda tenho. aonde?) e onde comecei a apontar os livros lidos. Teria uns 12 ou 13 anos. Nele constavam partes da Bíblia, Enid Blyton, cada número da colecção discriminado, Memórias de uma Menina Bem Comportada de Simone du Beauvoir (que li, à espera de que a menina fosse mal comportada, mas sem nenhum conhecimento sobre a autora), Michel Vaillant, e tantos outros, numa amálgama deliciosa que chegou aos 300 e tal livros. Depois dessa lista, acho que não voltei a fazer outra. até hoje. Mas dou-me conta de que a falta de critério se mantém, ou é um critério em si. Pegar num livro e partir. para um novo dia, ou noite. ou ano. "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler"

25.11.06

Uma visita da boa sorte


Teria sido uma boa mulher, disse O Inadaptado, se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela.
Grande programa!, disse Bobby Lee.
Cala-te Bobby Lee, disse O Inadaptado. Não há verdadeiros prazeres na vida.
in Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, pp. 26

Minha Senhora, disse ele, as pessoas já nem se importam com a qualidade das suas mentiras. Talvez o melhor que eu posso dizer-lhe seja, sou um homem; mas escute, minha senhora, disse ele e fez uma pausa e tornou o seu tom de voz ainda mais eloquente, o que é um homem?
in A Vida que Salvar Pode Ser a Sua, pp. 52

Bill Hill e ela não comiam nabiças há cinco anos e ela não ia começar a cozinhá-las agora. Tinha comprado estas por causa do Rufus, mas só ia comprá-las uma vez. Pensar-se-ia que, depois de dois anos nas Forças Armadas, Rufus voltaria preparado para comer como uma pessoa de um verdadeiro sítio; mas não. Quando lhe perguntou o que é que gostaria de comer em especial, ele não tivera o espírito empreendedor de pedir um verdadeiro prato civilizado - dissera nabiças.
in Uma Visita da Boa Sorte, pp. 66

Mrs. Hopewell não tinha características pessoais que fossem muito más, mas era capaz de usar os defeitos dos outros de uma forma tão construtiva que nunca sentira a falta delas.
in A Gente Sã do Campo, pp. 165

O velho riu delicadamente. Sim senhor, disse ele. Ah, ah!
O mais novo não disse nada. Só parecia taciturno mas quando ela foi para casa disse, A Barriga Grande comporta-se como se soubesse tudo.
Não lhe ligues, disse o velho. O teu lugar é demasiado baixo para que alguém queira disputá-lo contigo.
in A Pessoa Deslocada, pp. 203



Fragmentos de contos de Flannery O'Connor, reunidos na obra Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Ed.Cavalo de Ferro, Abril 2006

Acabei a leitura. Negro. Negro. Without blood (à excepção do primeiro conto). Tive pesadelos. Mas há momentos de perfeição.

4.11.06

Breves

Flannery O'Connor

A novíssima Magna Editora lança o livro "12 anos" de Rui Barroso.

Na Antena 2, há um espaço dedicado à poesia recitada. Intitula-se "Os Sons Férteis" e é da responsabilidade de Paulo Rato que, conjuntamente com a actriz Eugénia Bettencourt se encarrega da recitação dos poemas. É transmitido de segunda a sexta-feira, sempre às 11 horas da manhã. Para quem não puder ouvir em directo estas emissões de poesia temperada com música, existe a possibilidade de consultar o arquivo da semana. Esta informação foi-me enviada por Álvaro José Ferreira, animador do grupo Amigos do Lugar Ao Sul.

A Invenção de eu Morel aconteceu ali (e que o Adolfo Bioy Casares lhe perdoe).

Ando a ler "Um bom homem é difícil de encontrar" de Flannery O'Connor. E não, ela não é uma escritora divorciada, com boas pernas e excelente sentido de marketing. É um dos maiores nomes da literatura americana do século XX e relata situações de extrema violência física e mental, num tom tão absolutamente casual! A boa nova é que a editora Cavalo de Ferro decidiu publicar todas as obras, seguindo a organização da própria autora. O livro que tenho em mãos agrupa 10 dos 32 contos que O'Connor coligiu. "Everything that rises must converge" é o segundo volume de contos e deve aparecer brevemente no mercado, assim como os dois romances, " Wise blood" e "The violent bear it away".

Existem grandes prazeres minúsculos!

Ando a pensar no regresso do Escritor Famoso. Chamo este senhor mal humorado, ou não?