
Nessa noite caiu uma chuva ventosa e gelada. Deitada na cama, acordada à meia-noite, a senhora Flood, a senhoria, começou a chorar. Ela queria sair a correr para o meio da chuva e do frio, persegui-lo, encontrá-lo encolhido nalgum parco abrigo e trazê-lo de volta, dizer-lhe: senhor Motes, senhor Motes, você pode ficar aqui para sempre, ou então vamos os dois para onde você quiser, vamos os dois. Ela vivera uma vida dura, sem dor e sem prazer, e achava que agora, quando estava a chegar à última parte dessa vida, merecia um amigo. Se ela ia ficar cega depois de morrer, quem melhor para conduzir a cega senão um cego, que sabia como era? (...)
Dois dias depois, dois jovens polícias que andavam a patrulhar a rua de carro encontraram-no deitado num rego de escoamento perto de um estaleiro de obras abandonado. O condutor parou o carro perto da valeta e ficou olhando-o durante algum tempo.
«Não temos andad'à procura dum cego?», perguntou ele.
O outro consultou um bloco de papel.
«Um cego c'um fato azul, que nã pagou a renda», respondeu ele.
«Pois ele tá'li», disse o primeiro, apontando para a valeta. O outro polícia debruçou-se mais e olhou também pela janela.
«O fato desse nã é azul», comentou.
«É azul sim senhor», respondeu o primeiro. «E nã te ponhas em cima de mim. Sai lá do carro qu'eu já te mostro qu'é azul.»
pp. 176-177
___________________________________________________
Amiga, não são 20; são 24 anos de partilha. Nos livros então, é impressionante: tu gostas, eu gosto, e vice-versa. Este foi o terceiro livro da americana Flannery O'Connor que a Cavalo de Ferro publicou. Ainda falta o seu segundo romance, mas os que lemos recomendamos. Concordo contigo, prefiro a contista à romancista, e o segundo volume de contos, Tudo o que sobe deve convergir, é o mais impressionante, o mais cru e duro. O que andas a ler agora?



