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21.5.07

E depois do adeus e venham mais cinco!


Cinco divas já responderam ao desafio lançado por mim e pelo Afinador de Sinos.

Depois da Ivamarle, foram o João Francisco, a J.P., a Elipse e o Bagaço Amarelo que nos ofereceram os seus Princípios. Todos eles já estão publicados no Livro! Muito obrigada a todos!


Eis o início dos últimos Princípios de romances sem-fim milagrados:

LII
A paisagem parecia ser imutável. As ondas iam e vinham da mesma maneira tranquila e quase silenciosa do passado. O sol era, quando entrava lentamente no mar, do mesmo laranja intenso e quase perfeito.

LIII
Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes.

LIV
Disse-lho depois do sexo. Disse-lhe enquanto o mirava no espelho grande quando se afastou até à porta do quarto, nua. Memorizou-lhe as costas curvadas em harmónio os pés enclavinhados no tapete a testa luzidia apoiada nos nós dos dedos, adivinhando-lhe os tremores e nada mais que isso.

LV
Há tanto tempo que vivia com o gato que deixara de lhe dar a importância da vida. Sabia que aquele aglomerado de massa e energia respirava, mas não se dava conta dos seus movimentos calculistas nem dos seus instintos felinos.



E agora venham mais cinco para chegarmos à última página!


P.S. - o email desta casa é: divasecontrabaixos@hotmail.com

17.5.07

O Livro dos Bons Princípios continua depois do adeus


Talvez não tenham chegado ao último parágrafo, mas deixei-vos lá um convite, em meu nome e em nome do Afinador de Sinos. A proposta é a seguinte: depois dos nossos 50 Princípios de romances, sejam agora vocês a milagrar inícios tramas enredos que estimulem a imaginação dos leitores e os levem, quiça, a continuar a história.

A Ivamarle foi a primeira a responder ao desafio. O início do seu texto é assim:

"De repente estacou, ao aperceber-se que caminhava como quem tem pressa. Que disparate, pressa de quê ou para quê? Nem os seus dias tinham pressa, passavam devagar e pausadamente; ele sempre achou que destoava do resto da multidão, precisamente pela calma dos seus passos."

Para o ler do princípio até ao fim-que-não-o-é, já sabem, devem ir à página 51 do Livro.

15.5.07

O poder de Eva

Ora bem, vamos lá ver se consigo alinhar meia dúzia de palavras (saibam que não há palavra que não volte atrás para corrigir). estou com os copos, ou melhor estou com um jarro de sangria ---feita pela Eva, no Clandestino---, bebida lentamente, com mordidelas às maças, durante umas horas à conversa. Se estivesse em Lisboa, e que saudades que sinto de Lisboa, acabava a noite no Jamaica, mas aqui não há Jamaica e já não tenho 20 anos, nem trinta, entrei nos "entas" e por isso já estou chez moi e daqui a umas horas ponho o meu ar respeitável e levo as crianças à escola. e na verdade nem troco isso por nada. porque elas, as filhas, são mesmo a coisa mais perfeita que fiz e tenho na vida. Enfim, lá estou eu, mas vi O Caimão de Nanni Moretti e depois apeteceu-me mesmo espairecer. que me doeu mais a "história" da vida daquele realizador que a Itália do Berlusconi. Coisas da vida, pois! Talvez quem não conheça a figura se revolte, mas eu já disse aqui que estou longe do "so close", e do "por um fio", e a insanidade democrática e os jogos de manipulação política são tantos que ficamos cada vez mais imunes--- vocês não? Mas sim, Moretti forever, para sempre, cada vez mais depressivo, é certo, mas depois de O quarto do filho, sei que a loucura é catarse. Vão ver, mas digam-me lá se aquela música do Damien Rice pode aparecer ali, na assinatura do divórco, se aquilo não é uma prova de que o Moretti anda mais atento à política do que aos top ten musicais (e ainda bem, mas ele deveria saber que aquele sucesso comercial podia cair mal n'O Caimão). Eu imaginei logo um filho a dizer-lhe: "pai, aquela música do Damien Rice fica bem aqui" e ele a dizer que sim, rendendo-se à suposta ignorância da sua geração--- ou talvez não, talvez ele nos quisesse fazer sorrir e ironizar com a dor que acontece todos os dias.

Não sei nada. O que é óbvio, às vezes funciona bem! Por exemplo, este fim de semana vi o espectáculo "A Música no Coração" do Filipe La Féria, no Politeama e pensei que ele não inovou, ele reproduziu, num palco, um filme. Mas foi tão profissional (e teve orçamento para satisfazer os caprichos de director perfeccionista) no décor, na encenação, no casting, na selecção das traduções, que convenceu. Eu teria comprado o CD com as músicas em português para as filhas decorarem Dezasseis, quase dezassete, que é o que elas andam agora a cantarolar, ou Edelweiss, a canção sobre a flor nacional austríaca--- mas não havia à venda. Eu sei, é parolice, no original é melhor, mas olhem que elas têm sete anos e livrá-las do monopólio Floribella ou Docemania era uma conquista e tanto! (sim, elas sabem de cor "fecha a porta, apaga as luzes, vem sentar-te a meu lado..." --- e eu até me divirto, que uma das minhas diversões aos vinte era cantar isto com sotaque do norte: "feicha a puorta, apaga a luz, bem sentar-te a mueu lado"--- pelo que a gente dá sempre uma no cravo e outra na ferradura).

Enfim, gostava de andar agora na bicicleta voadora do Pavilhão do Conhecimento! Já experimentaram? Não dá nenhuma adrenalina, nunca sentimos que podemos cair. Mas talvez depois de um jarro de sangria eu pudesse cair e balançar-me na rede de protecção. Andei lá para a frente e para trás e nada!

Antes de terminar: vocês nunca continuaram--- mentira, a JP fê-lo ---mas O Livro dos Bons Princípios já reune 50 princípios possíveis de romances. Agora, eu o Afinador de Sinos decidimos pôr um fim no Livro. ou melhor, queremos que sejam vocês a fazê-lo. Eu volto a lembrar-vos do desafio, que muitos nunca vão chegar a ler este último parágrafo! Mas é assim: o que vos propomos desta vez é que sejam vocês a escrever um Bom Princípio para um romance. O Bagaço Amarelo já disse que o fará. Serão publicados os 10 primeiros Princípios enviados por email para mim ou para o Afinador. Passem a palavra e terminem este Livro em glória.

Agora, se não se importam, vou ali ver o tecto do meu quarto balançar. e sentir os meus olhos fecharem à luz de O Sol dos Scorta de Laurent Gaudé, o meu actual livro de cabeceira.

24.4.07

O Livro dos Bons Princípios

XLIX

A sola do sapato roto e a mãe. Foram eles os culpados. Ou um maldito orgulho.

Ela escreveu na primeira página do caderno: Pergunta 1 - Como te chamas, Pergunta 2 - Que idade tens, Pergunta 3 - Qual a tua disciplina favorita, Pergunta 4 - O que queres ser quando cresceres, e por aí adiante, com uma dose igual de inocência e de malícia, ou não fosse o único objectivo do inquérito vê-lo responder também às últimas perguntas.
- Pergunta 9 - Gostas de alguém, Pergunta 10 - Descreve-o/a.

A regra era responder primeiro e depois fazer circular o caderno entre os amigos. Todos saberiam que se chamava Ângela, tinha 13 anos, mesmo que faltassem ainda alguns meses, gostava de geografia, queria ser analista, mas não dizia de quê, enfim, agradava-lhe a ideia de trabalhar num laboratório, gostava dos Bee Gees, mais especificamente do Maurice Gibb mas isso ali não dava jeito nenhum dizer porque afinal ele ia ler tudo, e gostava dele, do Alberto do 10° ano que, por agora, para não passar por tontinha, pois uma coisa é provocação e outra é humilhação, ai dele, era apenas simpático. E de repente, antes de ter tempo de recuar na decisão, a Manuela tirou-lhe o caderno e foi a correr entregá-lo ao Ramiro, que foi a correr entregá-lo ao Alberto, e lá estavam os dois, Ângela e Alberto, em pontos separados do polivalente, ela sentada ao pé do bar a fazer de conta que está na maior e ele ao pé do palco, rodeado de amigos, a ler o inquérito.
O toque para as aulas, uma troca de olhares, ela cheia de certezas, ele também gostava dela; ela sabia, por causa daquela maneira que ele tinha de lhe dizer coisas sem usar palavras, e no fim das aulas, o encontro, todos em manada a descer a rua da escola, ele a pegar a mão dela, ela a querer andar mas o corpo todo parado, ele a dizer - Lê!, ela leu, 9 - Ângela, 10 - Muito bonita, e pronto, namoravam, já sabiam os dois, e todos os amigos.

Tinham educação física nos mesmos dias e à mesma hora e combinaram faltar a essa aula para namorar, dizendo namorar a rir mas sem enganar ninguém, muito menos o outro, que ele tinha mais certezas sobre aquele amor dela e ela mais certezas sobre aquele amor dele, do que cada um deles sozinho, sobre o que sentia. Sentavam-se atrás do Pavilhão 2 e conversavam. A Manuela, que entretanto também começara a namorar com o Ramiro, contara-lhe em pormenor o primeiro beijo que tinha dado, na boca, e todos os dias ela esperava a vez dela, a vez dele. À noite, deitada na cama, e a bem dizer, demanhã ao acordar, e até nas aulas, quando se distraía, imaginava todas as formas possíveis do acontecimento. Sem querer esbarravam de frente e não resistiam, ele avisava-a por carta da premência de se beijarem, um dos dois adoecia gravemente e o outro dedicava-se sem limites à tarefa do consolo. Mas quando estavam sozinhos e ele começava a olhar muito sério para os lábios dela, ela virava o rosto, mais encarnada que sei lá o quê, e puxava outro assunto. E os dias foram passando, com as fugas ao sábado para o ir ver jogar andebol, os ensaios do ballet em que ele aparecia e lhe levava o saco até casa, as mãos dadas nos momentos mais íntimos nos tais dias de educação física, muitos mimos e olhares doces, e o desejo de beijos na boca.

Até que. há sempre um até que. até que o professor de ginástica comentou com a tia dela as faltas às aulas e o namorado, a tia comentou com a mãe, e um dia, atrás do Pavilhão 2, apareceu a mãe. Se lhe bateu logo ali ou só em casa, se foi buscar a chibata e a marcou ou se isso foi noutra vez qualquer, são pormenores sem importância. No dia seguinte, ele esperava-a, e ela não queria vê-lo.

Estavam sentados na relva, ela agarrada aos joelhos, o Alberto a espreitar-lhe o rosto escondido pelos cabelos. Ele nunca ia directo ao assunto mas nesse dia quis saber, logo, o que tinha acontecido, qual tinha sido o castigo, se lhe tinham feito mal. Ela choro não choro, mas depois virou-se e disse-lhe que estava tudo bem. Deitou-se e disse-lhe, irritada - nunca me beijaste! Cruzou uma perna sobre a outra e ia distrai-lo com mais qualquer coisa quando o viu olhar para o sapato. Um dos pares dos seus sapatos bordeaux, de camurça, com dois centímetros de tacão, e uma fivela pequenina de lado, tão lindos que os usava todos os dias, tão imprescindíveis que nem queria levá-los ao sapateiro, tinha um buraco na sola.
...



Às segundas, n' O Afinador de Sinos, às terças aqui, os Princípios continuam. O Livro vai-se compondo. Participem!

17.4.07

O Livro dos Bons Princípios

XLVII


No terramoto de 1998 a minha casa foi parar ao meio da estrada. A mercearia, que me dava tantas noites de insónia pelas fissuras que cresciam mesmo sem grandes tremores, foi poupada. Pareceu-me um milagre. Não fora isso e nunca teria arranjado forças para voltar a levantar muros e desenhar janelas a fio de prumo. Veja as minhas mãos! Venha cá, apague o cigarro nas minhas mãos! Apague! Não dói nada! A enxada que usei para fazer cimento deu-me e tirou-me todas as dores. Misturar bem aquela massa, juntar-lhe a areia, a água, volver, revolver, entremeá-la entre os tijolos, sem contar com a ajuda de ninguém, só com os meus braços e o dinheiro poupado a custo, muito custo, muita fome. E depois, veja lá, tipos que estavam no desemprego, que nunca trabalharam, a viver à custa da Segurança Social, abriam a boca e metiam-lhes a comida pela goela dentro, pedinchavam e tinham casas novas, móveis, tudo. Até vieram emigrantes, gente que nem vivia nas casas, pedir dinheiro. Deram-lhes tudo. A mim ninguém deu nada, nem madeira, nem tintas, nem um pincel! Não tenha medo, apague o cigarro nas minhas mãos!

Atrás do balcão, num canto, as netas, gémeas, faziam desenhos, aparentemente alheias à conversa. Mas quando o avô fez uma pausa no desabafo, levantaram o rosto e olharam-me com antipatia, ou mesmo raiva.



Os Princípios continuam a sair n'O Afinador de Sinos às segundas e aqui às terças.
Para ler sem interrupções desde o Princípio I, abram O Livro.

10.4.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XLIV

Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e deu-se conta de que o tempo parara. O ponteiro dos segundos estava enredado nos dos minutos, presumiu que a hora seguinte nunca chegaria.

Em baixo, na praça, um homem parou quando a avistou. Olhou para o relógio da torre e não convencido da inevitabilidade da paragem do tempo, sobressaltou-se. Durante um minuto, o movimento dos seus olhos quase enjoou do balanço. Os sinos, ela, o relógio, os sinos, ela, o relógio. Anteviu o movimento súbito, lento, vigoroso, do bronze pesado, afinado, mortal. Os braços abertos sobre a saia que esvoaçava. Não via o rosto. Quis gritar: - Afaste-se!

Sentindo-se abençoada, ela permanecia imóvel, obedecendo à ordem do tempo. Estranhou sentir o rosto formar um sorriso, um pequeno sorriso que deveria ter permanecido interior. O olhar pousou então um pouco, o suficiente para avistar um homem que, tal como ela tantos dias, estancara face à visão da torre cantante.

Quando estalou um ruído seco de alavanca …


Este Princípio já foi editado no Livro, a semana passada. Esta terça faço gazeta. Mas O Afinador de Sinos não fez e esta semana propõe um romance com um protagonista muito especial, Bernardo Soares.

Para ler sem interrupções desde o Princípio I, buscando inspiração para o Vosso Prémio Saramago, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

27.3.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XLII

Sempre que atravessava aquela praça olhava a torre. Por vezes os sinos repicavam no exacto momento em que ela passava e então parava, sustinha os movimentos, hipnotizada. Uma torre assim nos Paços do Concelho era engraçado. Em vez de Deus, era o poder laico que ditava o horário, advertindo a população sobre o momento do despertar ou do recolher, ou apenas da pausa, das pausas, ou da necessidade de se apressar, de correr ao som do quarto de hora para não chegar atrasado ao encontro à hora certa.
Sempre que cruzava a praça, olhava para o relógio. gestos irreflectidos, de estender o braço, puxar a manga, olhar sem ver, quase, com a intenção arcaica de se certificar que o mecanismo continuava saudável. Ou fazia apostas infantis. chegaria à floreira antes do primeiro toque, dobraria a esquina antes da última badalada, ou adivinharia o exacto momento em que começariam os sinos a repicar. agora não, não, ainda não, agora sim... sem que tivesse alguma importância acertar ou não. Às vezes, compassava pensamentos ou palavras com o som.

Foi pois com uma alegria excessiva, despropositada, que aceitou entregar a encomenda naquele local. Logo à entrada do edifício, o segurança orientou-a. A secção que procurava ficava no último andar, deveria subir no elevador até ao segundo piso e depois ir a pé, utilizando as escadas à esquerda. Seguiu as instruções. Quando chegou ao lance de escadas, tosco, irregular, apertado, percebeu que estava precisamente no alto da torre. Como num velho castelo, equilibrava-se apoiando-se nas paredes. A meio percebeu uma porta mas decidiu não entrar. Os sinos estavam ali ao seu alcance. Continuou a subir. O corredor estreitava, os ângulos apertavam, até uma corrente de ar fresco ganhar corpo, adensar, e uma luz intensa quase a cegar. E de súbito, ei-los, gigantes, compactos, poderosos. Aproximou-se devagar, deslizou silenciosa pelas traseiras do primeiro, depois avançou, colocando-se entre os dois primeiros sinos, e estancou. O horizonte distante, o mar ao longe, e ainda o outro lado da baía, mais próxima a paisagem de telhados e arvoredo, até chegar à praça que conhecia tão bem, ali em baixo, com as suas floreiras e o empedrado geométrico. Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e...


Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui. Para ler sem interrupções, escolher um, e escrever o próximo Prémio Saramago, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

13.3.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXXIX

Ele discorria sobre a colecção de arte do Ministério da Cultura. Sentia um verdadeiro prazer quando dominava os temas, e era o caso, ou não tivesse trabalhado lá durante mais de vinte anos. O pretexto era a nova exposição na Galeria nova. O Ministério doou algumas obras, quer dizer, não doou, estabeleceu um protocolo com as entidades locais, e durante, sei lá, 15 ou 20 anos, os cidadãos da terra podem usufruir, fruir, desfrutar, gozar, troçar, zombar de uma parte da colecção.
Mesmo com a Galeria fechada e a televisão do café acesa a passar imagens do MTV, os olhos dele ainda estão pregados em cada quadro, gravura, peça da colecção. - Alguns devem vir do Palácio da Foz onde era o SNI!

- Ah, nisso somos irmãos, no Brasil também teve o SNI - tenta interromper o João Brasa.
- O que era o SNI? - pergunta a ouvinte mais nova, mas não tão nova assim!
- Pois, não é do tempo dela! - Ele perdoa, para prosseguir. O Secretariado Nacional de Informação, e Cultura, e Turismo - cada pausa, como uma vírgula, para uma gargalhada. Então não conhece a maior obra de António Ferro? Depois do Secretariado de Propaganda Nacional, inventaram este nome, que sempre era mais discreto. Alguns destes quadros estavam no SNI, no Palácio da Foz. E há gravuras que aposto que vêm da Cooperativa de Gravadores Portugueses com quem a Secretaria de Estado tinha um protocolo. É fácil de ver, as gravuras têm sempre o mesmo número. Enfim, por onde andarão todas essas obras! Em gabinetes de ministros, embaixadas..., o Museu do Chiado, Serralves,... e numas Câmaras, depois de acordos como este! Mas é preciso fazer uma espécie de sociologia da arte! Não se pode atirar a colecção às pessoas... e diga-se que à excepção de um ou dois exemplares, neste caso, são tudo obras menores!
- Mas deve ter havido um critério na escolha das obras... - adianta a jovem não tão jovem, cheia de lógica.
Ele ri-se. - Não!
O Brasa explode: - Pôxa pá, então denuncia a fraude, que a coisa está a ser vendida como fantástica.
- Não há fraude, na verdade as intenções devem ter sido muito boas!
- Pura incompetência, não é? - diz a tal que foi jovem há pouco tempo, cheia de certezas.
- Eu acho que se pode transformar aquela colecção num tesouro... se a virmos por outro prisma. Era preciso fazer uma História da arte em Portugal. É que a culpa do logro não é só de quem o escolheu agora, também é de quem investiu nele há dezenas de anos. Voltando ao SNI....



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6.3.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXXVII

Passaram em frente ao Café Palácio que, no seu tempo, pertencia ao senhor Eduardo. Ouviram as ondas ali perto bater contra o esporão, mas tratava-se de outra coisa. Não fora o mar que partira os vidros ou deixara a placa ainda com os néons, uns intactos, outros cortantes, pendurada por um fio, o vento a fazê-la oscilar. Já ninguém se sentava naquele lugar a ver passar os domingueiros do costume, ou o colega da Escola Industrial que casara cedo demais, ou o primo da vizinha. Uma sensação estranha. Não que fossem clientes habituais. Mas se nada tivesse mudado, poderiam sempre pensar que só eles tinham visto mundo, e uma superioridade pequenina poderia aflorar e confortar. Olhariam irritados um para outro e, sem palavras, sairia um resmungo sobre a cidade que parara no tempo e não evoluira. Mas se o Café Palácio fora vandalizado e já nem o senhor Eduardo andava por ali a queixar-se desta juventude que estava perdida, só Deus sabe o que mais teria acontecido na sua ausência. Normalmente eles iam para o Spinus, no andar de cima. Subiram as escadas. Ao chegar lá cima, no espaço "das mesas cá fora", uma corrente de ar frio encolheu-os, fê-los entrar bem para dentro dos casacos e espreitar de olhos cerrados. Um vulto embrulhado numa manta dormitava, encostado a uma das paredes. Quando ouviu passos, voltou-se. E eles puderam reconhecê-lo. É o Zé da Coroa! É o Zé da Coroa! O Zé da Coroa levantou-se num salto. Começou a abanar a cabeça e a dizer palavrões, insultou-os. Ria-se, louco. São vocês!


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27.2.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXXV


Os dois almoçavam numa tasca qualquer da cidade. Felizmente o Natal já passou! Finalmente voltavam à realidade, à relação e à discussão das decisões que teriam que tomar. O tempo do faz de conta acabara. Então já não há dúvidas! - dizia ele. Nunca tive dúvidas, mas agora é insuportável esperar mais. Ela falava baixo, olhava baixo. Um miúdo de dois ou três anos começou a chorar. Sorriram, derrotados. A João já marcou a consulta. Parece que a senhora é boa médica e, vê a ironia, tem consultório numa clínica de "reprodução assistida". E depois ele disse: Eu levo-te lá, não te preocupes com nada! Não respondeu. Apesar da sua muito boa vontade, sincera, ela teve a certeza que depois do pesadelo acabar, não queria voltar a vê-lo.

Qual foi o erro dele? Os anos não tinham enfraquecido o sentimento. O que é que ele fez ou não fez, disse ou não disse, que não pudesse ser perdoado?


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13.2.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXXII

Pedro só foi encontrado pela polícia por volta da meia-noite, no aeroporto de Faro. Estava em estado de choque, não dizia coisa com coisa, mas insistia na viagem. Trazia o pijama vestido por baixo da gabardine. Tinha andado de pantufas a correr todos os balcões. Dizia que queria comprar um bilhete de avião para Londres e, face a mais uma recusa, acabou por agarrar o pescoço de uma assistente da Companhia Aérea UKAL. Um turista deu o alerta. Quando o detiveram, não conseguiram algemá-lo. Tinha uma das mãos metida no bolso do impermeável e não a soltava. Via-se que amarfanhava um pedaço de papel. Só quando a equipa médica apareceu e conseguiram tranquilizá-lo, é que a polícia pôde ler a carta.


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6.2.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXX

Ela começa a peça, que é um monólogo, a desenhar letras com fita-adesiva. Na parede vão aparecendo frases como "eu respiro, escutem", "não descansem em paz", e depois engana-se e escreve "ela exite", ou talvez tenha sido intencional, que eu não consigo imaginar a existência sem muitas saídas, sem portas que se abram com correntes de ar ou que possamos empurrar, mesmo que pesadas. "Exite" pois, talvez um dia no nosso diccionário. E fala ao telefone com um amante, que ali não tem voz, nem nunca virá a ter corpo, a não ser na memória e nas palavras dela, a mulher que ele abandonou, e que está ali em forma de representação para o público ver. E a actriz é expressiva e convincente quando se esfrega de ânsia e atira mentiras. E eu digo que somos nós, fomos nós já, um dia qualquer, vamos ser. Mas chora mal.

Já tentei criar uma tipologia do choro. Depois desisti, é certo. Não consegui reduzir as categorias a um número operacional. Do pequeno soluço à prostação, passando pelo choro-lamento ou o choro-compulsivo, associados depois ao contexto - público, semi-público e privado, à frequência do comportamento - que pode ir de raro a habitual, variável importante para aferir uma atitude, para não falar da duração, características sonoras, efeitos na compostura física, etc., etc., enfim, são demasiados factores, e de difícil mensuração. Mas uma coisa é certa, pareceu-me que ela chorava mal. Quando não se vislumbra nenhuma possibilidade para além da dor que se sente, uma dor que nos quebra, nos parte em dois - sim, ela devia andar curvada -, como se chora? Imaginava um daqueles prantos que não conseguimos travar, desses que não nos deixam falar porque nem encontramos nada para dizer, que nos põem de joelhos e de braços estendidos? Quando morre alguém que nos é querido, é assim. Lembro-me da Alexandra me chamar a atenção para isso. Ela disse: "deram-me a notícia da morte da minha mãe e reagi como se me tivessem apunhalado, dobrei-me, caí". E tenho observado esse reflexo outras vezes. Mas ele não morreu. Ele só a deixou e ela sabe isso e tenta ser racional e aceitar. Mas também sabe que não vai conseguir sobreviver. Como deve a actriz representar o desespero? Tenho uma tia que chorava sem fazer barulho. O filho morreu e ela conversava e chorava, tirava os iogurtes da prateleira do supermercado e chorava, chorava sempre, sem parar, mas discretamente. Mas ele não morreu, ela é que acha que vai morrer, e chora por si. Raramente rimos alto de nós. Na verdade, sorrimos, e tentamos sintetizar numa frase a piada que somos. Sós os tolos riem alto de si próprios, sobretudo se estão sozinhos. Mas chorámos alto por nós. Eu faço-o às vezes mas depois canso-me e silencio-me. Ela chora durante toda a peça, sozinha, e sempre agarrada à mesma dor. Não é realista. Há sempre um momento em que desviámos o curso da dor, inventando outra dor, por exemplo. Ela "exite". Eu "exito". Digo sempre que se pode morrer por falta de amor, mas nunca de amor.

A Alexandra não concorda nada comigo.





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30.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXIX


Não sei bem quando começou a acontecer. Acordo completamente ensopado em suor, inundado. A testa fica húmida mas não tenho febre. Sento-me na cama para me refrescar, tenho arrepios de frio. Ponho a mão na camisola e o peito gela, puxo-a, espremo, e correm fios de água. Mergulho os dedos na nuca, sinto os cabelos encharcados. Coço-me, esfrego-me, e o desconforto não passa. As costas e nádegas colam-se ao lençol. Dispo-me completamente, apetece-me atirar o pijama para longe, cheira a mofo. Cada dois, três dias, vai tudo para lavar. As fronhas fedem e ando com vontade de mandar queimar a almofada, deve estar podre por dentro, quando pouso a cabeça sinto aquele odor próprio dos asilos de velhos. Onde nasce este liquido pestilento em que me afogo quase todas as noites? Que tumor é este que comprimo adormecido?



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23.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXVII

Encontraram-se no supermercado Atach. Numa secção qualquer ela reparou nele. ou que ele reparara nela. Talvez fosse quase impossível não se encontrarem novamente. Cruzaram-se muitas vezes, já sorriam. Na caixa ele ficou atrás dela. Enquanto os artigos deslizavam, continuavam a sorrir. De vez enquando, ela fazia de conta que se esquecera dele. E depois voltava a fixá-lo, olhos nos olhos, e sorriam. Espreitou o cesto dele. Uma embalagem de um pré-congelado, pão e bebidas. Vivia sozinho. Ele percebeu, fixou as compras dela. Legumes, fruta, leite com suplemento de cálcio, danoninhos, fraldas, etc.. Quis soltar uma gargalhada quando viu a expressão que ele fez involuntariamente.

Estava quase a chegar a casa quando ele passou por ela. Virou-se completamente e sorriu-lhe de novo, divertido por a surpreender. Ela não reagiu e ele acelerou o passo. Quando dobrou a esquina viu-o novamente. Estava parado em frente à sua porta, procurava as chaves. E foi com as chaves na mão que a viu aproximar-se e tirar também as chaves. Ele abriu-lhe a porta. Ela chamou o elevador. Ela carregou no botão com o número 4. Ele marcou o número 5. Olharam tímidos um para o outro. Mora aqui? Há dois meses. Não é francês? Não, turco. E você? Portuguesa. Então vamos encontrar-nos mais vezes. Sim, somos vizinhos. Casada? Sim. Eu só tenho um cão. Se ele ladrar de noite não se zangue. Não. E se for o bébé a chorar, também não se zangue. Não, ponho música.


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16.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍCIOS

XXIV

Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke


Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. Amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie.
Ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. Silencioso, aproximas-te como um animal feroz e sou corça que salta antes de ficar encurralada. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
Ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar o-teu-medo de não seres grande.
Ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.



Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui, às quartas no Ponto.de.Saturação. Para ler todos e seleccionar um, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

9.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXII

1.
Ele cicia um canto hondo enquanto mira a paisagem. De tempos a tempos, o sussuro musical desperta-a. Viajam no mesmo pequeno compartimento como se estivessem sós. De noites longas em noites longas, o cansaço apoderou-se dela. A pele continua lisa, é uma cara pálida que se deixa embalar pelo pouca terra muita terra. Ele tem um revestimento curtido pelo sol. Cicia. Os olhos são grandes, a memória longínqua.

O revisor faz deslizar a porta com brusquidão. Bilhetes um, dois. E cumprido o dever, vira as costas, deixando o corredor da carruagem à vista, os passageiros expostos. Ah, estes homens tão pouco gentis, diz bem-disposto, enquanto se levanta para garantir privacidade ao casulo. Qual é essa canção? Isso é flamenco? Unh, não sei, é a minha música. Gosto dessa música, diz ela. E ele responde Se tivesse uma guitarra, cantava-lhe uma canção a sério. Vem donde? De Espanha, mas é segredo. Desci o Guadiana. Os olhos dela arregalam. Todas as quintas carrego o barco com mantas, colchas, lençóis, tudo da máxima qualidade, para distribuir nas feiras. Onde estão as mercadorias? Ah, hoje não trabalho. Deixei ordens ao meu irmão. Vou p'ra um casamento. E sorri largo.

2.
A memória que não se perde.
Estás a ver a feira de Espinho, entre a avenida vinte e quatro e a rua vinte, ficava na vinte, entre as ruas trinta e três e trinta e cinco. Uma casa amarela, cheia de rachas, parecia que podia cair a qualquer momento. Não tinha porta, a entrada era por trás, havia um portão que dava para um carreiro, à esquerda. Ela levou-me lá. Andava na minha turma e começámos a conversar porque nos encontrávamos no trajecto para a escola. No início acho que nem gostava de mim, eu sentia alguma curiosidade. A mãe e a tia foram simpáticas. Queriam que eu lanchasse, e riam-se imenso. Eu estava admirada. As paredes estavam forradas com um papel que tinha cornucópias de veludo, os sofás e poltronas eram majestosos, todos em bourdeaux. Eu já os conhecia da feira mas não sabia que eram ricos.

E o imaginário que nos povoa.
As notícias hoje, as notícias todos os dias, este país é uma miséria. Vê o caso da escultura da Santa. O pároco cedeu-a por uns meses a um Museu e aconteceu um motim na aldeia. Um cigano foi baleado e está internado em estado grave. Na aldeia queriam bater no padre, no hospital insultaram os jornalistas, diziam que eles só sabiam dizer mal dos ciganos.

Nos hospitais têm medo dos ciganos. Quando uma mulher deita um ciganito ao mundo, ela dá pontapés, pragueja. E ai se corre mal, é tareia pela certa à saída.
Experimenta meter-te com um, ciganos e navalhadas, andam juntos. É claro que não são todos iguais. Há um que se formou. Era ele que ainda outro dia dizia "aproximam-se tempos maus". Se eles não podem vender contrabando e contrafacção, vão vender o quê? Drogas e armas!

Outro dia uma miúda seguiu-me. Apanhou-me ali na ponte e nunca mais me deixou em paz. Teria uns seis anitos. Queria que lhe comprasse leite em pó Nidina II para o irmão. Passámos pelo supermercado e comprei-lhe o leite. Era era tão bonita.

Pois, é um problema com a escola. Se os obrigam a ir, fogem.
Se querem ir, os pais dos outros alunos expulsam-nos. Os adultos vão aprender a ler para receber o Rendimento Mínimo Garantido. Levam os putos com eles para as aulas, e quem lhes pode dizer que não pode ser?

3.
Quando se olha do centro para fora, os ciganos são vistos no limite da fronteira. São portugueses e estrangeiros, ao mesmo tempo. Quando são eles que se olham, não são uma coisa nem outra, são ciganos. Agora ela está bem desperta e fala demais.
- Lembro-me de um casamento na minha terra. Vieram ciganos de todos os cantos do mundo. Vai ser assim, esse casamento?
- Não, só vem gente de Portugal e de Espanha. É quase só família!
- Uma vez, na minha terra, uma cigana casou-se com um homem que não era cigano.
- Pois, às vezes acontece, mas ela não deixou de ser cigana, ele é que passou a ser.
- Não sei.
- Mas eu sei.
- É mais fácil deixar de ser cigano que passar a sê-lo.
- Se ela nasceu e cresceu cigana, é mais forte, tem mais ganas do que ele. E se ele não quer ser largado, tem que gostar dela como ela é.
Sorri largo.

4.
A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos. Em La Casada Infiel, de Lorca, um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar sua honra de "cigano legítimo":

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(...)

yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(...)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(...)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.

Con el aire se batían
las espadas de los lirios.


Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

Garcia Lorca [1924-7]


5. ...



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2.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

Henk Braam


XIX

O Sol oprime a cidade com a sua terrível luz a prumo; a areia deslumbra e o mar resplende.
in Charles Baudelaire, O Spleen de Paris, XXV A Bela Doroteia


Apetece-me entorpecer, dormir a sesta. ou nada disso, e caminhar numa rua desta cidade ofuscante, assim muito segura no meu vestido quase transparente, que vai permanecer cristalino e engomado, sobre uma pele que se mantém serena e perfumada, sentindo o calor mas fazendo de conta que não. Fazendo de conta que me dirijo a um lugar determinado, ali ao pé da praia, naquela esquina entre os Correios e o café que está sempre cheio à noitinha, não agora. porque agora todos dormem a sesta no fresco dos quartos ou sobre a areia escaldante. Menos tu. que caminhas por outra rua desta cidade ofuscante, assim muito seguro nas tuas vestes de linho azul claro, que vão permanecer incólumes ao respirar da tua pele sob o céu da mesma cor. E debaixo desse céu, ouvindo o marulhar do mar, cruzamo-nos por acaso se o acaso existir, e paramos. E então eu abro a minha sombrinha e coamos a luz daquele lugar, ficando os dois pintados de reflexos sanguíneos. Por cada dez inspirações profundas, a brisa vai varrer-nos a compostura. O vestido esvoaça, os corpos estremecem, a cidade avança no tempo. mas nós prolongamos a admiração. e sem pressa aguardamos a maturidade. Um dia a roupa vai ficar manchada. e há-de ser bom.

ou não. podemos ser surpreendidos por um tsunami. despedaçado pelo tempo, embriagas-te. com vinho, palavras, premências de prazer e depois depois depois. depois sentimos um tremendo fardo. e uma vaga surge do que parece nada e leva-te. e eu aninho-me na linha da rebentação com a minha sombrinha. e espero por ti para sempre.

ou alguém bate à porta e percebo que a cidade despertou.




Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.

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26.12.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XVIII


A borboleta pousada ou é Deus ou é nada.
Adélia Prado


Comecei a ler sobre Darwin por causa de um filme.
Apaixonei-me por causa de um filme.
Provavelmente casei, tive filhos, fugi, por causa de um filme.
Queria ser uma deusa ou nada.

A evolução da espécie implodiu. mas a neurobiologia recuperou o conceito.
Meu amante curvou-se a uma sorte tirada com tanto cálculo e batota que sobrou pouco para o factor aleatório. mas peguei nele, refi-lo e saiu um quase homem.
Pouco tempo depois, perdi a aliança, símbolo de nosso jogo inter pares. mas no dia em que parti com as crianças, ela apareceu no fundo do armário.
Ser deusa pode ser ficar pousada. mas só depois de esvoaçar.

Eu acho que quando uma borboleta pousa, temos que ver primeiro donde vem. E depois decidimos se é deus.

*

Um leitor é uma borboleta pousada. Aquele lê...






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19.12.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XV

um dia
num passeio outonal depois de me ter des
florado toda em amena conversa com o Alberto Pi
menta perguntei a mim mesma qual a sorte do outo
no? a nossa vida é
como uma estação do ano ou como as quatro
estações ou as estações são como a nossa vida? O outo
no nem sabe porque começa mesmo naquele dia e não no dia
seguinte e não depende
muito dele se os dias são amenos ou chuvosos
sendo no entanto certo que vão ficando mais curtos
e que há sempre um ventinho a fustigar (sentirá o outono quando está
quase a terminar?)
absorta me deixei assim ir à deriva até que as folhas caí
das no chão e que eu ia triturando ganharam voz e essa voz era um murmúrio
tão doce que me apeteceu deitar
-me com elas
e ouvir as suas histórias sobre cama
leões e cores que iam conhecendo à flor da pele
(todos conhecem algumas das tonalidades das folhas outonais) e destas
histórias tão puras
fui percebendo que também podia ser uma folha (mas
é claro que não sou) e estava quase a adormecer quando o Alberto abriu um
afluente do seu largo rio e morri com elas antes do fim do outono
que balada exultante
ah!

no dia seguinte
...

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