Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro. Mostrar todas as mensagens

16.6.12

Incompreensão inteligente



Lembrei-me de mim, com 18, 20 anos. Muita curiosidade por tudo e, não sei se era armanço, mas havia avidez. Uma vez fui ver O Público, peça de Garcia Lorca, no Teatro da Cornucópia (encenação de Luís Miguel Cintra). Não estava a perceber patavina mas olhava à minha volta e todos pareciam seguros de uma particular compreensão. Eu começava a gostar de uma personagem e ela desaparecia. Fixava os movimentos dos actores. Lembro-me com nitidez do rosto do LMC iluminado de-baixo-para-cima. Daria uma bela fotografia. Mas qual o sentido daquela fala? Perguntei à minha amiga: "estás a perceber?" - Ela respondeu-me simplesmente: "não". Depois a peça acabou e fui ler as críticas da imprensa fixadas nas paredes do Teatro. O conceito do teatro egoísta de Lorca. O surrealismo a centrar o teatro em si mesmo. Queriam lá saber do público e da sua necessidadezinha de entender tudo! Fiquei mais tranquila. Fui tão bom público daquela peça. Quão eficaz o Lorca e o encenador na provocação de uma agitação interior!

Mas outras vezes, só a sensação do bom. e olha, vai ver. ou ouve, ou lê. Não te sei explicar, é bom.

30.5.12

Phèdre

Katia Chausheva

Je le vis, je rougis, je pâlis à sa vue;
Un trouble s'éleva dans mon âme éperdue;
Mes yeux ne voyaient plus, je ne pouvais parler;
Je sentis tout mon corps, et transir et brûler.


in Racine, Phèdre (1677)
(Phèdre quando encontra Hippolyte pela primeira vez)



Phèdre Maria CASARES 1958 Théâtre National Populaire

17.5.12

the old Ritz Club

O Ritz Club reabriu e lembrei-me, entre muitas coisas (ou muitas noites de dança africana), de ter lá visto a adaptação de O Baile pela companhia A Barraca. Encontrei a imagem do cartaz com a ficha técnica da peça via Museu do Teatro: «Peça que teve a sua estreia a 11 de Fevereiro de 1988 (...) no Ritz Club e reposição a 15 de Maio de 1990». O filme é fantástico e essa peça, inspirada na ideia de J. C. Penchenat e no filme de Ettore Scola, foi um estrondo. O cenário era o ideal!


Continuem a ver este filme. de culto!

15.5.12

«Strindberg, en el teatro de la locura»

August Strindberg. A cidade. 1904

El miedo y la ira de August Strindberg acabaron el 15 de mayo de 1912, hace ahora un siglo. Ese día, un cáncer de estómago ponía fin a la vida de un escritor que, pese a los tortuosos fuegos cruzados de su carácter, construyó una obra que le convierte no solo en un titán de la literatura nórdica sino en uno de los padres indiscutibles del teatro moderno. Temeroso de todo, y pese a no creer nunca en nada, pidió que le enterraran con una Biblia sobre el pecho. “Salve cruz, única esperanza”, fueron sus últimas palabras. Tenía 62 años y vivía recluido en su casa, sin apenas recibir visitas, acechado por la esquizofrenia que marcó no solo su vida sino también su obra. La suya era una personalidad quebradiza y enferma, la hipersensibilidad flageló su niñez y juventud, y su vida adulta fue la de un hombre de temperamento tan vehemente como inseguro.
En Genio artístico y locura (Acantilado), Karl Jaspers estudia el caso apoyado en sus propios textos. En Inferno, Strindberg tampoco escatimó detalles. La enajenación no le impidió construir una obra prolífica y dispar: pintor, fotógrafo, dramaturgo Ingmar Bergman, que llevó a escena sus obras hasta 30 veces, dijo que leerle le gustaba tanto como escuchar música. Su sueco, afirmaba el director de Persona, es incomparable. También lo eran su rabia —“y yo la entendía”, confesó el cineasta—. Es difícil no ver la conexión entre estos dos tótems de la cultura sueca. La frase más célebre de Bergman sobre Strindberg ilustra libros y hasta la web de la fundación del cineasta: “Me ha acompañado toda la vida: lo he amado, lo he odiado y he lanzado sus libros contra la pared. Lo único que no he podido hacer nunca es deshacerme de él”.
“Sencillamente, es el mejor escritor sueco de la historia”, afirma Jesús Pardo de Santayana, traductor al español de todo su teatro contemporáneo y de su demoledora novela de juventud El salón rojo (Acantilado). “Aprendí su lengua solo para leerle. Internacionalizó el sueco, que antes de él solo era un idioma pintoresco de un país escandinavo, con una literatura mona y poca cosa más. Pero Strindberg lo cambió todo. Puso a Suecia en el mapa de la cultura europea. Nosotros no tenemos esa experiencia porque Cervantes no creó el castellano, ya existía antes que él. Pero la literatura sueca cobró el empaque de gran literatura de su mano”. Pardo recuerda que, paradójicamente, el gran hombre de las letras suecas jamás obtuvo el Premio Nobel: “Vivía rodeado de gente con la que había reñido. Era superior a todos los demás, y lo sabían, pero fue una figura muy incómoda. Vivía en contraposición a los demás pero sobre todo a sí mismo”.
El duelo entre si es Casa de muñecas, de Henrik Ibsen, o La señorita Julia, de Strindberg, la obra que marca el inicio del teatro europeo moderno se decanta para muchos a favor del sueco y esa trágica y absurda historia sobre un terrible malentendido entre una mujer y su criado. “Strindberg era un misógino que no podía vivir sin mujeres y eso marca toda su obra”, afirma el traductor. Lo cierto es que, frente al feminismo de Ibsen, Strindberg desarrolló una feroz animadversión a la feminidad, de la que, a sus ojos, el hombre era siempre víctima. Casado tres veces, en sus obras, la mujer aniquila al hombre. El 29 de septiembre de 1888 envió a su editor otra de sus piezas más conocidas, Los acreedores. En una nota decía: “Le envío esta obra más sutil que La señorita Julia, en la que la nueva fórmula está realizada de una manera más estricta. La acción es penetrante, como puede serlo un asesinato psíquico; nada ha sido desdeñado en el carácter de las conductas”. Estas sombras de Strindberg han ocultado para el gran público sus luces. “Era misógino, sí, y muy complejo, pero su obra también está llena de otro Strindberg mucho más amable, chispeante y divertido”, explica Diego Moreno, cuya editorial, Nórdica, arrancó el año con una edición facsimilar de los cuentos del autor y lo cerrará con un libro sobre su pintura acompañada de fragmentos de su Diario oculto.


____
Foi no Teatro da Cornucópia. Sentaram-me num sofá, deram-me uma manta, apagaram as luzes da sala e iluminaram o palco. O Pai estava em cena. Deveria ter uns 20 anos. No centenário da morte de Strindgerg, há algum programa que evoque o grande dramaturgo? Passado outro quarto de século, quantos poderão, como eu, hoje, recordar uma ida ao teatro e a descoberta de Strindberg? Não há dinheiro ou andamos a deixar cair, sem pena, a memória do futuro?

14.5.12

Mesas redondas difíceis de encontrar

«O Prémio Pessoa é uma iniciativa conjunta do jornal "Expresso" e da empresa "Unysis", cuja primeira edição data de 1987. É um galardão concedido anualmente à pessoa de nacionalidade portuguesa que se distinga como protagonista de uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida literária, artística ou científica do país. Reconhecido como o mais importante prémio atribuído em Portugal na área da cultura, o Prémio Pessoa inspira-se no nome do poeta português Fernando Pessoa e não pode ser concedido a título póstumo. O Professor José Mattoso foi o vencedor da primeira edição, em 1987, e entre os galardoados estão ainda os nomes da pintora Menez (1988), do poeta António Ramos Rosa (1989), da pianista Maria João Pires (1990), do arqueólogo Cláudio Torres (1991), do casal de investigadores Hannah e António Damásio (1992), do Professor Fernando Gil (1993), do poeta Herberto Helder (1994), do escritor Vasco Graça Moura (1995), do Professor João Lobo Antunes (1996), do escritor José Cardoso Pires (1997), do arquiteto Eduardo Souto de Moura (1998), do poeta Manuel Alegre e do fotógrafo José Manuel Rodrigues (1999), do compositor Emmanuel Nunes (2000), do crítico e historiador de cinema João Bénard da Costa (2001), do Professor de Anatomia Patológica Sobrinho Simões (2002),  do jurista e Professor Gomes Canotilho (2003). Foram ainda premiados: Mário Cláudio (2004), Luís Miguel Cintra (2005), António Câmara (2006), Irene Flunser Pimentel (2007), João Luís Carrilho da Graça (2008), D. Manuel Clemente (2009) e Maria do Carmo Fonseca (2010).

Por ocasião da entrega do Prémio Fernando Pessoa a Eduardo Lourenço, a SIC organizou três mesas redondas com alguns destes premiados. Neste vídeo, só temos uma pequena amostra do que será uma emissão televisiva a não perder. De tempos a tempos, gosto da televisão portuguesa!

28.4.12

Onde estavas quando criei o Mundo?

Preparem-se para este julgamento. Mal se sentam, sentem a exigência. Nem o Livro de Jó vos acudirá!


Uma mulher defende-se em tribunal, após ter despedido o seu advogado oficial, iniciando as suas alegações finais com o propósito de explicar o seu crime. Embora não seja claro de início as circunstâncias do crime pelo qual a mulher responde, ato mais hediondo não parece haver: a ré é acusada de filicídio. O que leva uma mãe a este ato extremo? E como explicá-lo? Com a progressão da peça, que se divide entre as últimas declarações da mãe/arguida para o tribunal e, em jeito de flashback, os momentos que antecederam o ato pelo qual está a responder, percebemos que a morte do filho poderá ter sido um ato de piedade devido ao sofrimento deste numa circunstância em que a eutanásia não é legal ou aceitável.

O público será colocado no papel tanto de juiz como de confessor, ao seguir o texto que pretende abordar as racionalizações por detrás de atos extremos e as suas apologias -- desde o livro de Jó e a historia de Isaac na Bíblia, aos fatores sociais e familiares que são comuns universalmente -- numa montanha russa de emoções misturadas com questões pertinentes sobre religião, matrimónio, maternidade, morte, desenvolvidas no tom ligeiramente esquizofrénico da personagem principal, entre o erudito e o popular.

de Artur Ribeiro
versão cénica e encenação João Mota
figurinos Carlos Paulo
desenho de luz José Carlos Nascimento
sonoplastia Hugo Franco
interpretação Manuela Couto
produção TNDM II
M/16

17.4.12

E(n)xame

Foi hoje a estreia e foi bom estar lá. Encenação de Jorge Fraga. Não percam! É uma das peças (produzidas por companhias de teatro de Aveiro) que mais prazer me deu assistir nestes últimos anos! Aqui têm a ficha técnica mas ao vivo é só surpresas!

Sei que vale a pena conhecer a Alma, uma mulher que está grávida, que quer ser a melhor mãe do mundo e que vai dar o nome de Aurora à filha. A Alma aprecia a vida! Mas também gostei muito da mulher que já é Mãe e que teve uma vida normal - apaixonou-se, viveu com um homem, teve um filho que era tudo. Vocês sabem, temos um filho e o nosso coração começa a caminhar noutra direcção... Com o filho, gostava de passear, de observar pássaros, faziam planos para voar, paravam para comer e para estudar a lição de amanhã, adormeciam juntos no sofá, até que ele desapareceu, nunca mais ninguém o viu e já passou tempo demais! Agora só há dor! Tem as pernas musculadas de tanto andar, os seus olhos são vigilantes como os de uma ave de rapina. À procura dele... De manhã veste-se e sai, à noite sonha que ele dome no quarto ao lado. Já a Eugénia vive num poço e odeia a sua mãe. A mãe dela atirou o pai para o fundo de um poço e abandonou-a. Movida pelo amor ao seu pai, Eugénia resolveu ir procurá-lo. Ela tornou-se uma pessoa arrogante, revoltada, e projecta todo o ódio que sente pela mãe em todas as mulheres do mundo. Um dia encontra-o mas... A Fátima é uma mulher jovem de coração apaixonado. O seu maior sonho é casar com o Augusto. Hoje é o dia do casamento e ela está no altar. Espera incessantemente por ele. Não há forma de ele chegar mas ela não perde a esperança. Já a Júlia tem uma paixão que é um vício: o jogo. Está sempre no casino! Vendo-se completamente falida, não olha a meios para alimentar o vício! Mas a Ida trabalhou a vida toda! Só que foi despedida e o marido deixou-a. Hoje decidiu comprar o bilhete mais caro, viajar para o lugar mais distante... para se matar. Está revoltada com todos os seres humanos e não sai do seu casulo, a não ser que apareça alguém cheio de bondade e com vontade de oferecer essa bondade. A Ida não é muito diferente da Mulher. A Mulher é casada mas o marido também a deixou e ela vive sozinha, muito sozinha há muitos anos. Ela ficou velha muito cedo! Dobra sempre a mesma camisa, a camisa do marido, porque ele há-de voltar, ela sabe. Absolutamente espantosa é a Violeta! É uma máquina escrava do seu trabalho, a sua função é servir. Tem erros de fabrico: anda para trás e tem parafusos soltos. Vive revoltada com a sua própria natureza artificial. Violeta deseja uma vida plena de humanidade. Mas o que é ser humana? Violeta ainda não entende mas aos poucos vai descobrindo... Não sei se a Ana poderá ajudá-la. A vida da Ana é muito organizada, tem sempre tudo muito bem limpo e ordenado, além de que, sendo consumista, escolhe sempre os produtos mais baratos. É claro que vai entrar em choque com o Pintor, que é um nómada. O Pintor abandonou a sua casa devido a problemas com a família. Ganha dinheiro tocando na rua. A liberdade é a sua casa. Ele atravessou o inferno e agora, nem do diabo tem medo! Enfim, não tem nada a ver com o Igor que vive numa câmara subterrânea, no Mosteiro da Ordem da Luz. Abandonaram-no recém-nascido às portas do mosteiro e acabou sendo criado e educado pelos monges. Igor abraçou a fé e as causas da Ordem, estuda há anos o caminho da perfeição. O que diria ele ao advogado Valério? Valério provinha de uma família abastada e sempre executou bem o seu trabalho. Nunca criou grandes laços com as pessoas. Agora atingiu um ponto de colapso, sente-se distante de qualquer emoção e vai cometer um ou mais homicídios. O Mário tem pensamentos suicidas! Apaixonou-se pela Cecília mas ela trocou-o por outro rapaz. O Mário é um poeta e está perdido. Vamos encontrá-lo ao pé da árvore onde ele e Cecília deram o primeiro beijo... E depois há ainda...esta e aquela, e aquele outro. Mas sabem uma coisa? É preciso conhecê-los mesmo. É que não há gente sem olhos, e boca, e braços, e pernas,... todo o corpo uno e divisível, para nos surpreender, para amarmos ou retalharmos. E depois, há a troca de mundos. É preciso ir lá ver. Eles estão numa sala de teatro. E esperam, esperam,... até ao dia 23 deste mês.


27.3.12

«the impression we exist»

POZZO: I am blind.
...
Silence.
ESTRAGON: Perhaps he can see into the future

(...)
ESTRAGON: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist?

(...)
VLADIMIR: Well? Shall we go?
ESTRAGON: Yes, let's go.
They do not move.

in Samuel Beckett, "Waiting for Godot" (original escrito em francês em 1948-49)

__________________


É o Dia Mundial do Teatro e não, não haverá espectáculos por todo o país. nem de longe nem de perto.
Continuamos à espera de Godot!

23.3.12

A voz humana

A quem interessar:
Sáb 24 Mar 22H00
A PARTIR DE "LA VOIX HUMAINE" [1930] DE JEAN COCTEAU:


«...Claro que é preciso desligar, mas custa muito...Sim. Ter a ilusão de estarmos abraçados um ao outro e de repente interpor caves, esgotos, uma cidade inteira entre nós...Lembras-te da Ivone, que não podia conceber como a voz passava através de um fio tão torcido? Pois tenho o fìo em volta do pescoço. A tua voz em volta do pescoço...»

19.12.11

Václev Havel (1936-2011). Cartas a Olga

Nascido em Praga (1936), Václav Havel trabalhou no Teatro da Balaustrada, onde foi técnico de luzes, secretário, assistente de encenação, leitor e autor residente. As suas duas primeiras peças, Garden Party (1963) e Notificação (1965), granjearam-lhe de imediato o reconhecimento internacional como dramaturgo. Finda a Primavera de Praga, em 1968, passou a ser um autor proibido na sua pátria e, devido ao estatuto de co-fundador e porta voz da «Carta 77», veio a sofrer inúmeras condenações e penas de prisão que acabaram por desencadear uma onda de protestos a nível internacional, incluindo os países de Leste. As Cartas que escreveu a Olga Havlová (1933-1996), sua esposa (desde 1964 até 1996), constituíram «o único meio que possuo para comunicar contigo e com o mundo».
Václev Havel viria a ser o último presidente da Checoslováquia (1989-92) e o primeiro Presidente da República Checa (1993-2003). Em 1997 casou com a actriz Dagmar Havlová. Em 2008, "viu subir à cena uma nova peça sua De saída, que dava conta dos dilemas de um líder político no momento de abandonar o cargo. A obra foi aclamada pela crítica." Václev Havel morreu ontem durante o sono, na sua casa em Hrádecek.


1ª CARTA
Querida Olga:

Os astrólogos tinham razão, como se está a ver, quando me predisseram de novo cadeia para este ano e quando anunciaram um Verão quente. Aqui faz realmente um calor horrível, uma sauna imparável. Custa-me que esta minha nova «base» te venha a, com certeza, trazer muitas contrariedades. Na minha opinião devias permanecer em Hrádecek [1], aí administrar a casa, embelezá-la, tratar da horta, ir com os cães ao lago, etc. Sempre poderia alguém da família fazer-te companhia, ou os amigos que aí quisessem ir passar férias. De nada serve estares em Praga - aqui em nada me podes ajudar, e, depois, com que irias ocupar o teu tempo? Lá, ia certamente ser necessário começar a conduzir o carro, para poderes ir às compras e coisas do género. E não ficarias sempre dependente de outras pessoas. Enfim, devias viver como se eu tivesse partido de viagem, ou seja, fazer uma vida normal. É a melhor maneira de me ajudares: saber que estás bem e que nada te falta. (...)

4 de junho de 1979

5ª CARTA
Querida Olga:

Antes de mais: esqueci-me, como, aliás, é costume, de te mandar os parabéns pelo teu aniversário. Só me lembrei uns minutos depois de entregar a carta anterior. Desculpa! Quanto a esta minha falta de memória, parece que já não há nada a fazer. Então, aqui, vão atrasados os meus parabéns! Compro-te um presente quando estiver em liberdade, já que presentes da prisão (feitos de migalhas) não são os que mais te agradam, tanto quanto me lembro... Recebeste as minhas últimas cartas - com os nº 3 e 4? Era, com certeza, bom que confirmasses através de um postal, na volta do correio, a recepção de cada carta, para não perder o controlo... Da última vez acusei a recepção da tua primeira carta; desde então chegaram mais duas. A primeira deu-me grande alegria e despertou-me a vontade de escrever (nela contavas-me como vocês tinham lido as minhas peças). Agradeço-te do coração! Em contrapartida, a segunda (e também a terceira) deixou-me um pouco inquieto. Dizias que não me mandavas um beijo - que eu já sabia a razão. Eu não sei a razão! O que sei é que não deves escrever-me essas coisas, fico mal por sei lá quantos dias. As cartas são a única coisa que temos, aqui lemo-las uma dezena de vezes, ponderamos todas as implicações em todos os sentidos, alegramo-nos com o mínimo pormenor ou com ele também sofremos e tomamos consciência de como estamos manietados - em conclusão, deves escrever-me cartas amáveis! E numera-as, escreve a data, e, principalmente, escreve de forma clara e legível! Afinal, não deve custar muito sentares-te de vez em quando à máquina e escreveres tudo o que acontece contigo! (...)

P.S. Apercebi-me de uma coisa estranha: este mundo aqui dentro tem muito mais verdade que o mundo aí fora. As coisas e os seres humanos mostram-se aqui na sua verdadeira dimensão. A mentira e a hipocrisia esaparecem. Quando estiver outra vez aí fora, hei-de contar-te coisas interessantes sobre este tema.

Segunda-feira, 23.7.1979
(...)

Manhã de terça-feira, 24.7

Hoje sonhei contigo! Tínhamos alugado um palácio em Veneza! Continuo com boa disposição. Escreve-me cartas e postais bonitos para poder guardá-los!

9ª CARTA
Querida Olga:

A tua visita deu-me muita coragem e alento; depois dela senti-me jovial. Fiquei especialmente feliz por termos a mesma opinião sobre a viagaem aos EUA e por me teres apoiado incondicionalmente sobre aquilo que penso de toda a questão. (...) Hoje à tarde comecei a confeccionar para ti uma jóia com bocados de pão. Mando-te um desenho para o caso de não a conseguir fazer chegar a ti pelo advogado. Não tinha ideia de que apreciavas este tipo de coisas ou já te tinha moldado outras há muito tempo.. (...)

Sábado, 8 de Setembro de 1979

(Continuação - Domingo)
Parece que acabei de conseguir algo que se pareça com uma jóia, mas não te vou fazer um desenho - quero que seja uma surpresa. Tentei insuflar-lhe um jeito de arte nova. (...) Não queria esquecer uma coisa: a água em Hrádecek fecha-se assim: 1. Desligas a bomba de água; 2. Abres a torneira que fica no canto da cave e deixas sair a água do cano; 3. Abres todas as torneiras da casa (não esqueças o celeiro) para o ar entrar na conduta.
Gostava de sublinhar outra vez o efeito benéfico da tua visita. Suporta-se melhor o cativeiro.
Ontem tentei, de determinada forma que me foi sugerida, entrar em contacto telepático contigo - mas parece que não resultou. não possuo (ao contrário do que acontece aos outros) os pressupostos necessários para isso.
(...)

P.S. Os meus companheiros consideram-me louco por causa da minha atitude «despegada» relativamente ao visto de saída para os EUA.[2]

[1] Casa de fim-de-semana de Havel, perto de Trutnov, na Boémia do Norte.
[2] V.H. rejeitou a oferta oficial de saída do país, que lhe fora feita ainda durante a sua prisão preventiva.
Nota: Os sublinhados são da autoria de V.H.. Mantive-os . 

Fragmentos de " Cartas a Olga". Edição Livros do Brasil, 1984, pp. 11-19 

11.12.11

É como diz o outro, pois!

Comédia adapta textos de Frederico Pombares e Henrique Dias da rubrica do programa "5 para a Meia Noite"


Fui ver a peça "É como diz o outro" com Miguel Guilherme e Bruno Nogueira. O Teatro Aveirense (TA) estava com sala cheia. Muito público jovem apesar do preço dos bilhetes (17,5 euros na plateia)! O texto é muito mau. É uma comédia revisteira que usa anedotas de treta, lugares comuns e os palavrões da praxe___ que resultam sempre em extraordinárias gargalhadas. Boa nota para cenário/iluminação. De resto, constrangedor! Admiro o Miguel Guilherme desde há anos. A primeira peça que me recordo de ver quando cheguei a Lisboa, como universitária, era com ele e o João Perry. Foi no Teatro Aberto e chamava-se "Tu e Eu". Fiquei a pensar que os actores, enfim, têm que ganhar a vidinha, e uma peça destas vende bem!

Ontem estive também no TA a ver a Mostra de Cinema Português. Os estudantes podem pagar 4 euros pelo bilhete (5 euros, preço normal). Estavam 6 pessoas na sala. Os 3 filmes eram muito interessantes. O "48" da Susana Sousa Dias é um daqueles documentários que tinham que ser feitos, estranhamos que só agora (2009) alguém registe o testemunho de prisioneiros políticos (1926-1974). "A Felicidade" de Jorge Silva Melo é um instante de sensibilidade em que podemos ver o Fernando Lopes interpretar. E "North Atlantic", o primeiro filme de Bernardo Nascimento, deixou-nos todos silenciosos. O meu amigo Luís Mendes soltou um "tão bonito!" e era isso. Mas o que é belo não se vê. Seis pessoas na sala. Peças-produto de consumo rápido é o que está a dar! Ora merda!

11.3.10

Larilalá


Pra começar a contar

O meu nome é Larissa Latif Plácido Saré. Eu sou uma criatura cuja existência tornou-se possível graças às migrações. Avós migrantes de pai e mãe, pais migrantes, eu mesma, por mais de uma vez e agora, neste momento, migrante. Nasci em Belém do Pará, Brasil, um país de tantos percursos, tantas cartografias de chegadas e partidas. Vim a Portugal estudar festas populares. Festas católicas em homenagem a Maria, Meryan, uma mulher judia, nascida na Palestina que segundo a tradição cristã deu à luz o filho de Deus, Jesus, em Belém de Judá por uma circunstância histórica. O menino Jesus nasce migrante, como migrantes nasceram tantos meninos e meninas judeus e árabes numa região em que caminhar com as areias é o destino de tantos homens e tantas mulheres hoje como há dois mil anos.
Karine Jansen me pede para contar a história da minha família. Disponho-me a começar a narrativa e percebo que sei muito pouco. Um avô, Abdul’Latif Mohamed Saré, a quem devo o nome que assino com orgulho, como uma prova dessa identidade fugidia que me constitui: mestiçagem, migração, hibridação. Sujeito pós-moderno? Ou apenas mais uma mulher filha de tantos caminhos trilhados pelos ancestrais, caminhos de terra, caminhos de vento e de mar. Uma Latifa. Mais uma. Quantas haverá hoje espalhadas pelo mundo? Os árabes estão em toda parte.
Meu avô foi o meu ancestral mais próximo nascido no Líbano. Seu filho Ahmed, meu pai, me repetiu a história de sua vinda para as Américas durante toda a minha infância. Meu avô libanês, que não conheci, é um dos heróis recorrentes na formação de minha sensibilidade estética, histórica, geográfica, cultural, política. Ao escolher assinar Latif, longe de qualquer desprezo pelo Saré que identifica minha família, escolhi fortalecer um laço com meu ancestral naquilo que faz de mim ser o que sou, uma artista, uma narradora, uma viajante. O nome Larissa Latif para mim significa “Larissa, filha de Ahmed, neta de Abdul’Latif, o imigrante, o viajante, o narrador, o pai de Ahmed, o narrador, o viajante, o comunista, meu pai”.
O que sei de meu avô? Que nasceu em Hadara, um povoado montanhês no Líbano, na região de Trípoli, que perdeu o pai aos quatro anos de idade, vítima de hidrofobia depois de uma mordida de cachorro, que era um camponês pobre e tinha uma irmã chamada Nazira. Não lembro os nomes de meus bisavós. Aos dezoito anos, Abdul’Latif deixou sua aldeia, desceu até o porto de Trípoli e embarcou num navio para Marselha. Deixou sua mãe e sua irmã para não ser obrigado a alistar-se nas tropas turco-otomanas que ocupavam seu país. Sim, meu avô foi também fugitivo de um regime, como mais tarde seu filho Ahmed o seria. Deles penso que herdei essa sensação de estar em eterno sobreaviso, pronta para pular dentro ou fora de um trem a qualquer momento, em qualquer lugar, uma espécie de desconforto essencial, como se um gene andarilho e a necessidade de partir estivessem impressos em mim tal qual os traços que anunciam a qualquer um que vê meu rosto: Brasileiramente Árabe.



No dia 17 de Abril, em Aveiro, «Larilalá». Larissa Latif dando vida ao silêncio.

21.3.09

Um dia em que 24 horas não vão chegar...

... tantos são os eventos a acontecer na cidade!

Demanhã e à tarde, no Mercado Negro: workshop «A arte de contar histórias», com Helena Almeida (clicar no cartaz para aumentar)

A partir das 15 horas, na Praça Melo Freitas, primeira sessão do projecto «Se esta praça tivesse ... 250 anos» dinamizado pela Oficina de Música de Aveiro e pelo CETA. O palco já foi montado e está à nossa espera. Vamos inundar a Praça!

Das 15h às 18h, comemoração do Dia Mundial da Árvore com a actividade «
À Descoberta do Parque Infante D. Pedro».

Às 21h30, no
Teatro Aveirense, o espectáculo «Quadrar a Roda» de Jens Altheimer.


Por volta das 22h, as galerias Má Arte, Kompass e Sacramento, inauguram novas exposições, no âmbito de uma actuação coordenada e regular para animar o panorama cultural da cidade de Aveiro. Com estas três exposições em simultâneo, mais uma vez a Rua do Gravito em Aveiro está em festa e à espera de todo o público que queira partilhar com estes artistas uma noite de cultura e animação.

Ao bater da meia-noite, café-concerto no
Performas. Actuam os Souls of Fire.

3.12.08

Nem tanto nem tão pouco


Nem toda a sede nos leva ao pote.
Nem toda a tosse é catarro.
Nem todas as verdades se dizem.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Nem tanto, nem tão pouco.


O projecto de formação para o Teatro Amador que a Efémero - Companhia de Teatro de Aveiro promove de dois em dois anos, terminou a sua terceira edição. Durante três meses, os 18 participantes que compuseram o corpo de formandos contactaram com as disciplinas de expressão dramática, voz, movimento e interpretação.

Daqui resultou “Nem Tanto Nem Tão Pouco”, um exercício final sob a forma de um espectáculo onde se abordam textos de autores de expressão portuguesa. Mais do que uma apresentação, “Nem Tanto Nem Tão Pouco” mostra-nos um grupo de pessoas que exprime na sua essência aquilo que a palavra amador significa: o que ama. Neste caso, os que amam o Teatro. As sessões decorrem nos dias 2, 3, 4 e 5 de Dezembro ‘08 às 21h 30.

O preço dos bilhetes é único, no valor de 4,00 euros cada, e a reserva pode ser feita para o número de telefone 234 38 65 24 ou para o email efemero@mail.telepac.pt, das 10h às 13h e das 14h 30 às 17h 30.