31.5.09

Extensão do Cine’ Eco - Lisboa

[Clicar na imagem para aumentar]



De 31 de Maio e 4 de Junho (Domingo a Quinta-feira) na sala 3 do Cinema São Jorge. Será uma boa oportunidade para verem ou reverem TODAS AS OBRAS PREMIADAS da última edição do Cine’ Eco – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente de Seia.

29.5.09

Poesia na Publicidade


Foram vários os poetas que trabalharam em Publicidade. Em 1928, a Coca-Cola entra no mercado português e Fernando Pessoa fica encarregado de criar um slogan para o produto: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». A bebida entranha-se mas a Direcção de Saúde entende que o slogan é o próprio reconhecimento da sua toxidade (enfim, a origem americana também era tóxica para o regime) e é proibida a sua representação em Portugal. Não obstante, o slogan quase se converte num provérbio. O mesmo acontece mais tarde com o famoso «Há mar e mar, há ir e voltar» de Alexandre O'Neill, encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos. Mas, de O'Neill, desconhecia outros slogans, nomeadamente os que não foram aceites pelas agências ou anunciantes. Por exemplo, para a mesma campanha do ISN, teria havido a versão - «Passe um Verão Desafogado». Absolutamente divinal é o slogan que propôs para uma campanha da Bosch: «Bosch é Brom». Que pena o risco azul! Ou este, que não terá passado de uma brincadeira para o Metro de Lisboa: «Vá de Metro, Satanás».
Ary dos Santos também foi um famoso copy-writer: na memória ficou «Cerveja Sagres, a sede que se deseja» inventado em finais dos anos 1960.


Alguém conhece outros slogans criados por poetas/escritores portugueses?


Publicidade na Poesia #1

Mário Vitória, Anulamento
Acrílico sobre tela - 150x150 cm - 2008



Marketing

Aqui a meu lado o bom cidadão
escolheu Sagres
que é tudo tudo cerveja
a pausa que refresca
a longa pausa de um longo cigarro King Size.
atenção ao marketing.
Eu não gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para não contrariar os fabricantes de cerveja.
atenção ao marketing.

ninguém contraria os fabricantes da Opel e da Super Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suíça
nem o homem da capa negra que virou costas ao Palmolive.
Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a ver as procissões a passar mesmo sem anjos mesmo sem anjos
que são agora selvagens e voam numa Harley.
Deito-me e obedeço aos fabricantes do Clarim
que é uma alta onda ou uma onda alta
sem esquecer as fitas do John Wayne e a chama viva do Butagás
e se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa fatia de pão.
atenção ao marketing.
Vitonizo-me desodorizo-me atravesso as ruas nas passagens de peões
louvo quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e dos blousons noirs que não usam Lux
e não compram um frigorífico a prestações
e com o meu escudo invisível
protejo-me dos vírus subversivos
sou um bom cidadão sou um bom cidadão
obedeço ao marketing à General Motors e ao Pentágono.
Dantes tinha problemas era o odor corporal
e eu não o sabia até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete das estrelas
e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e o talco Cadum que ama demoradamente roucamente tepidamente
os corpos que merecem ser amados…
Obedeço ao marketing não contrario.
Ninguém contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que é o da cor do sol
ninguém pisa os riscos brancos do tráfego
nem chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro concorro e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de Scotchgard
ninguém sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no Dardo que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música no Coração.
Fazendo Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não contrario obedeço obedeço e meto os meninos na cama
quando me dizem vamos dormir.
atenção ao marketing.
Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário que é detergente
e eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e até já consigo adormecer com hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeinado
e no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para me banhar na Torralta
cidadão perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre Solaire.
Também vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com um pó azul de que não me lembra o nome
não me lembra mas a culpa já não é minha
porque na mesma noite
massajado com Aqua Velva
fiz a barba com Gillette e Schick e Nacet
e fui não sei aonde com a mesma lâmina
e oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes de eu descer no aeroporto
onde me esperava um agente de marketing.
Os produtores viram-se à descida do avião
primeiro julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou o Onassis mas era eu
e gostaram da minha barba bem feita.
(Da barba bem feita
ou do casaco Dralon que não se amarrotara
durante a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso que já não me lembra mas a culpa não é minha
pois na mesma noite
fui o homem de não sei quê que marca o rumo
por vestir regras ou camisas ou calças que não se enrugam
e fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e fiz-me mecânico de automóveis
só para que o cavaleiro da armadura branca
me tocasse com a sua lança mágica
e me pusesse branco branco branco
três vezes branco como as páginas do Reader’s
de cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos locutores da televisão pela oratória dos políticos
e passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que talvez fosse — ou não? — uma enceradora Philips.
Tudo coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que eu devo ao marketing
e me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas panelas de pressão
de todo o bom cidadão.
E no intervalo bebi café puro o do gostinho especial
Sical Sical que é um luxo verdadeiro
por pouco dinheiro.
Vitonizado esterilizado comprando e concorrendo
esqueci-me de amar do amor das árvores e do rio
esqueci-me de mim tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me do rio e dos barcos
e da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e esqueci-me de sonhar que era marinheiro.
Concorra concorra foi por isso que não reparei
que uma rapariga cortou as veias
talvez fosse com uma Diplomatic
que tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No programa só havia bombeiros
nem uma rapariga a cortar as veias (não não era a Caprília)
nem o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se mágoa sentia era a de ter esquecido
dar murros no espião da Missão Impossível
(atenção ao marketing)
e já não saí de casa para ver o rio
só pelo gosto de me aquecer com uma Ignis.
E na mesma noite noite boa noite branca
fumei Estoril Valetes Kayakes e bebi Compal
depois da Salus e da Schweppes
fumei quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros e mais quilómetros — há um Ford no meu futuro —
mais facturas mais fomes mais prazer
e agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me soube melhor.
Foram todos foram todos de certeza
pois se me dizem que preciso do Omo
do Ajax do Estoril do Dralon
do esquentador e das alcatifas sem nódoas
não me preocupo não te preocupes
o Meraklon não preocupa ninguém
mando para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não me preocupo não me preocupo
digo pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.
E na mesma noite
vi umas bombas que caíam muito ao longe
numa lonjura mais longe que a Lua
onde as pessoas podiam estar quietas a fumas Marialvas
e a lavarem-se com Rino que lava lava lava
lava três vezes mais lava ou mata que se farta
e me ajuda a ser bom cidadão.
atenção ao marketing.
Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inaguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado no conforto de um Lusospuma
vi os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem longe nas ruas de Estocolmo
mesmo a pedirem uns safanões
dos homens que acariciam crianças
e têm todas as verdades na mão
só para que eu seja um bom cidadão.
É isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso e gosto de uma data de coisas
e só agora o sei.
Menos da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.
E tudo graças ao marketing.

Fernando Namora
in Marketing
Publicações Europa-América, 2002, pp. 11-16



Alguém conhece outros poemas abordando a temática da publicidade?

Massa Crítica às 18h00

Mesmo vivendo na cidade das Bugas, desconhecia por completo a existência deste movimento:

Uma Massa Crí­tica (MC) é um passeio no meio da cidade feito em transportes não poluentes. Realiza-se sempre na última sexta-feira de cada mês às 18h00, partindo de um local pré-determinado.

As MC também são conhecidas nos países lusófonos como bicicletadas porque a maioria dos participantes desloca-se em bicicleta. O termo Massa Crítica é mais apropriado porque se encoraja a participação de pessoas que se deslocam de outras formas não-poluentes: patins, skate, trotinete, etc.

As Massas Críticas são passeios auto-organizados e independentes - geralmente apenas o local de encontro, o dia e o horário são definidos. Em algumas cidades, o trajecto, o ponto de chegada e as actividades ao longo do percurso são decididas somente quando o evento já esta ocorrendo. Claramente existe um carácter de protesto nesses eventos: os participantes demonstram, reunindo-se em público, as vantagens de usar a bicicleta como meio de transporte nas cidades e alertam para as mudanças necessárias no espaço urbano para melhor acomodar os ciclistas.

A Massa Crítica evoca uma situação comum na China: por exemplo, num cruzamento, quando um ciclista pretende atravessar por entre uma linha de tráfego para seguir o seu caminho, espera que se junte a ele um grupo numeroso de outros ciclistas que queiram ir no mesmo sentido, para que possa então dar seguimento ao seu sentido de circulação.


Massa Crítica em Aveiro
- Acontece sempre na última sexta-feira de cada mês;
- Hoje: início de encontro na Praça Joaquim de Melo Freitas (ao lado dos Arcos) a partir das 18h30; saída às 19h00.


Em Coimbra, Lisboa e Porto
Em Chaves
Em Portimão
Boa Bicicletada! :)

Mário Tendinha - Gandaqueda
Nankim acrilico sobre papel - 38x46cm

27.5.09

Adenda 2

... quase amanhã. mas depois, depois, depois....

Escolha Múltipla


Em 1ª instância o Tribunal Judicial de Barcelos tinha uma opinião em relação aos factos. Depois veio o Tribunal da Relação de Guimarães (2ª estância) e entendeu o contrário. Duas interpretações completamente distintas para o mesmo caso. Lendo uma e outra sentença, não tenho dúvidas sobre o bom senso da primeira ou da sua menor leviandade. Parecer vão: prevaleceu o direito da mãe biológica, mesmo se os pais não têm direitos mas deveres em relação aos filhos. Sentença nada-vã: não é a lei mas a interpretação de um corpo de juízes que decide sobre o destino de uma vida, duas vidas, três vidas... e a Alexandra é só mais um caso.



[Imagem: Joana Rêgo. Multiple Choice II.
Instalação de 9 caixas - madeira de 63x55 cm - Impressão, acrílico, vinil - 2007]

Adenda

...ou depois de depois de amanhã.

23.5.09

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


«Apesar das aparências, a melancolia não é essencialmente a expressão da nossa derrota, como seres simbolicamente imortais, às mãos do tempo, mas a última encenação de todo o nosso ser para aliviar o luto das nossas esperanças desfeitas, dos nossos anseios perdidos, dos nossos amores defuntos. Há entre a melancolia e a nostalgia uma profunda afinidade. Confundimos talvez amiúde uma com outra, ou há entre elas tal entrelaçamento que não é fácil distingui-las. Uma poema de Álvaro de Campos pode ler-se em qualquer dos dois registos:


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

[...]
Hoje faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
[...]
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!»

in Eduardo Lourenço, Mitologia da Saudade
Gradiva, 2001, pp. 98-99



«O tempo em que festejavam o dia dos meus anos» está de volta. Parabéns Eduardo Lourenço! Gosto da sua data de nascimento: 23 de Maio de 1923. Somaram-se apenas alguns dias. e sabemos, mais do que a quantidade, o importante é a tradição da qualidade dos dias.

22.5.09

Poemas no cinema


David, em The Reader (Stephen Daldry, 2009), Michael Berg (Ralph Fiennes) lê para o gravador «The Odyssey by Homer». Escutamos os primeiros versos na cela de Hanna Schmitz (Kate Winslet):

Sing to me of the man, Muse, the man of twists and turns
driven time and again off course, once he had plundered
the hallowed heights of Troy.


Mas há mais...
Como elogio fúnebre, gosto muito do «Funeral Blues» de W. H. Auden, poema lido em Quatro Casamentos e Um Funeral (Mike Newell, 1994). Mas este já está na tua lista. Lembrei-me então de outra morte na tela. em África Minha (Sydney Pollack, 1985). e daquela cena que nos faz chorar até às lágrimas (esta expressão é estranha...). Karen Blixen (Meryl Streep) lê de pé, sobre a sepultura de Finch Hatton (Robert Redford), um poema. Este:

XIX - To An Athlete Dying Young

The time you won your town the race
We chaired you through the market-place;
Man and boy stood cheering by,
And home we brought you shoulder-high.

To-day, the road all runners come,
Shoulder-high we bring you home,
And set you at your threshold down,
Townsman of a stiller town.

Smart lad, to slip betimes away
From fields where glory does not stay,
And early though the laurel grows
It withers quicker than the rose.

Eyes the shady night has shut
Cannot see the record cut,
And silence sounds no worse than cheers
After earth has stopped the ears:

Now you will not swell the rout
Of lads that wore their honours out,
Runners whom renown outran
And the name died before the man.

So set, before the echoes fade,
The fleet foot on the sill of shade,
And hold to the low lintel up
The still-defended challenge-cup.

And round that early-laurelled head
Will flock to gaze the strengthless dead,
And find unwithered on its curls
The garland briefer than a girl's.

O livro que Karen abre é A Shropshire Lad (1896) do poeta inglês Alfred Edward Housman. A obra é composta por 63 poemas. Finch Hatton tinha a alma do XIX.

21.5.09

João Bénard da Costa (1935-2009)

É assim...

Play the guitar, play it again, my Johnny
Maybe you're cold, but you're so warm inside
I was always a fool for my Johnny
For the one they call Johnny Guitar

Play it again, Johnny Guitar

Whether you go, whether you stay, I love you
What if you're cruel, you can be kind I know
There was never a man like my Johnny
Like the one they call Johnny Guitar

JOHNNY GUITAR
(Victor Young / Peggy Lee, 1954)

E assim...

Joan Crawford e Sterling Hayden numa das mais belas cenas do filme de Nicolas Ray (1954)

O "cinefils" João Bénard da Costa morreu. O filme da vida de Bénard: Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Num inquérito de jornal em que lhe pediam para dizer qual o seu filme preferido, Bénard respondia: Johnny Guitar, de Nicholas Ray; porque era ele; porque era eu.



[Mas havia tantos filmes na sua vida...]

20.5.09

Património Ambiental e Cultural e Desenvolvimento Local

Seminário
Património Ambiental e Cultural e Desenvolvimento Local

Sala de Actos da Reitoria da Universidade de Aveiro
22 de Maio de 2009 - 14h30 – 16h30

Programa
14h30 – Nuno Martins – Património, Paisagens Culturais, Turismo e Projecto do Território – O caso do Parque Patrimonial do Mondego
Nuno Martins é Arquitecto, docente da ESAP – Escola Superior Artística do Porto e Coordenador do Projecto Parque Patrimonial do Mondego.

15h – Paulo Ferreira da Costa – Património Imaterial, Identidade e Mudança Social
Paulo Ferreira da Costa é Antropólogo e Director do Departamento de Património Imaterial do Instituto de Museus e Conservação.

15h30 – 16h30 – debate moderado por Elisabete Figueiredo e Celeste Eusébio
Elisabete Figueiredo é Socióloga, Doutorada em Ciências Aplicadas ao Ambiente e Professora Auxiliar na Secção Autónoma de Ciências Sociais, Jurídicas e Políticas da Universidade de Aveiro.
Celeste Eusébio é Licenciada em Gestão e Planeamento em Turismo, Doutorada em Turismo e Professora Auxiliar no Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial.

Informações: Elisabete Figueiredo. elisa@ua.pt. Telf. 234372492

18.5.09

Morin


Segundo Edgar Morin, nós somos Homo sapiens sapiens mas é redutor possuirmos um sapiens ou dois. Seria necessário acrescentar um demens. Na verdade, somos Homo sapiens sapiens demens. A Humanidade contém essa duplicidade.


O filósofo e sociólogo, autor de O[s] Método[s], Sociologia, O Paradigma Perdido, Ciência com Consciência e tantas outras obras que fizeram o meu deleite nos anos 80, vem a Portugal na próxima sexta-feira participar num colóquio (Instituto Piaget), prosseguindo a sua batalha pela mudança de paradigmas de conhecimento. Os Sete saberes para a Educação do Futuro, Educar para a Era Planetária serão mais uma vez explanados. Morin propõe um reforma profunda no sistema de ensino mundial, na qual as disciplinas seriam integradas como parte de um todo e incluiriam os princípios formadores da consciência individual, social e planetária. Fixemos um dos seus princípios: tornar possível apreender a condição humana (transformando um sistema escolar que, actualmente, desintegra a unidade complexa da natureza humana).

17.5.09

The Song of the Earth


É um amor antigo. Inspirador. Descobri-o agora numa versão da Chicago Symphony Orchestra, com o poema apresentado em três línguas, incluindo o chinês: o poema original foi composto por Meng Haoran (孟浩然) e Wang Wei (王維) na Dinastia Tang (唐朝). A atracção pelo orientalismo atravessava Viena (e chegou até nós: lembram-se de O Mandarim de Eça de Queirós?). Ponham o volume no máximo. Na verdade, podem esquecer o poema e imaginar sentidos próprios. todos os sentidos. cor odor sabor pele da terra, dos quatro elementos.




Gustav Mahler
Das Lied von der Erde (The Song of the Earth)
Final Movement - Der Abschied (The Farewell)

Performed by Yvonne Minton - Conducted by Sir Georg Solti with the Chicago Symphony Orchestra


Meng Haoran
Staying at Teacher’s Mountain Retreat, Awaiting a Friend in Vain

Dusk sun passes the western peak
Valleys have suddenly darkened
moon above pine trees chills the night
wind, brook, filled with clear sound
woodcutters are almost all home
birds, in mist, are roosting
The man expected to stay the night has not yet come
lonely lute awaits at rattan trail

Wang Wei
Farewell

Dismount horse, drink your wine
Ask you: "Where to?"
You say: "At odds with the world
Return to rest by the South Hill."
Please go. Ask no more.
Endless, the white clouds.

Wang Wei
Farewell in the Mountain

Bid each other farewell in the mountain
Closing wooden gate at dusk
Spring grass green again next year*
Will the honored friend return?

[... e como as traduções do poema evoluíram]

16.5.09

Se esta praça tivesse 250 anos


No âmbito do projecto "Se esta praça tivesse 250 anos", dinamizado pelos Amigos d'Avenida e no qual participam várias associações e instituições culturais da cidade de Aveiro, realiza-se hoje, pelas 15h, na Praça Melo Freitas, mais um evento com a seguinte programação:

Concerto de canto e piano -
Renata Gomes e Marcus Medeiros

Pintura ao vivo (dinamizada por José Sacramento)

Workshop de pintura em azulejo (com o apoio
A Barrica).


À noite, não esquecer:
22h - Inauguração da exposição "TEATROS DE MADEIRA" da artista Carla Faro Barros na Galeria Nuno Sacramento
21-23h - Museu em festa - Noite dos museus (Museu Santa Joana) - arte ao som da música.

14.5.09

Teatros de Madeira

A Lebre e a Tartaruga
Acrílico s/ madeira - 100x100x30 cm - 2009


Rapariga com brinco de pérola
Acrílico s/ madeira - 100x100x30 cm - 2009


A Galeria de Arte Contemporânea Nuno Sacramento inaugura a exposição de pintura "TEATROS DE MADEIRA" da artista plástica CARLA FARO BARROS no próximo sábado, 16 de Maio, pelas 22 horas.

12.5.09

Morro de amor nesta rede que teço

«Menina da Ria» de Caetano Veloso. ou este «Fado Moliceiro». Neste dia da Cidade, cantemos Aveiro!

Morro de amor pelas águas da ria
Esta espuma de dôr eu não sabia
Sou moliceiro do teu lodo fecundo
Sou a Ria de Aveiro, o sal do mundo

Vara comprida
Tamanho da vida
Braço de mar
A lavrar, a lavrar

Morro de amor nesta rede que teço
E é no sal do suor que eu aconteço
Para além da salina
O horizonte me ensina
Que há muito mar
Muito mar p'ra lavrar
P'ra lavrar


"Fado moliceiro" é um fado com poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Carlos Paredes. Do ponto de vista musical é uma obra rara. É dos poucos temas que Carlos Paredes tem com letra e interpretação vocal. Em 1983, Carlos do Carmo publica "Um homem no país". A sétima faixa do disco corresponde a este "Fado moliceiro". O disco vem na sequência de "Um homem na cidade", sobre Lisboa, propondo este novo trabalho uma viagem por vários espaços de Portugal, falando das suas gentes, trabalhos, paisagens, maneiras de ser e falar. Por morte do poeta destes dois discos - José Carlos Ary dos Santos morreria um ano depois do lançamento do disco -, não pôde realizar-se o desejo de fazer um intitulado "Um Homem no mundo".

11.5.09

Rui Reininho & Companhia das Índias

Dia 12 Maio - 21H30 - Teatro Aveirense

Podia ser um filme, este disco. Mas difícil seria arrumá-lo num género: tem drama e comédia, tem acção e aventura, tem diálogos de primeira água, tem uma luz para cada cena, ora natural e crua, ora carregada de filtros e neons. Tem, às vezes, um ambiente de “film-noir”. E até consegue ter pedaços generosos de “biopic”, ou não fosse centrado na vida, nos impulsos e nas ideias do “actor principal”. Mas, se preferirem, vejam-no como um espectáculo de circo: os malabarismos são mais do que muitos, as forças combinadas são poderosas, há contorcionismo e feras à solta, à espera de um domador, há tempo para o trapézio voador, há – evidentemente – um intrincado número de magia. Só não há palhaços.

João Gobern

10.5.09

Estragédias


Alguns artigos do «arquivo de imprensa» do ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro (numa pesquisa que visava perceber a sua estratégia para a pasta da Cultura):






Pinto Ribeiro e Isabel Pires Lima têm certamente estilos diferentes mas a estratégia para a cultura anda muito próxima. Vejamos:
A ex-Ministra apontava como prioridade a Internacionalização da cultura portuguesa, partindo do princípio de que fazer diplomacia cultural é também fazer diplomacia económica. (Não podíamos concordar mais. Na verdade, já era tempo de alguém evidenciar esse aspecto). O problema é que Pires Lima não avançava com medidas concretas. Pinto Ribeiro pode erguer (para alguns) o acordo ortográfico e caiu bem o apoio às galerias na Arco 2009.
A ex-Ministra apontava a Conservação Preventiva como outra prioridade - não só do património edificado, como do livro antigo, por exemplo - ou seja, mudar a arquivística. (Não podíamos concordar mais). O problema é que Pires Lima não avançava com medidas concretas. Pinto Ribeiro já o fez. Um por cento das grandes empreitadas de obras públicas passarão a reverter para a recuperação de monumentos. Mas qual será o critério na atribuição do alvará para intervenção no património? O Igespar terá os recursos humanos para fiscalizar todas as obras de recuperação? Quem fiscalizará o Igespar? (desculpem, mas depois do processo de «requalificação» do Museu de Aveiro, acho que a última pergunta é legítima).

Outro grande objectivo do Ministério da Cultura, afirmava Pires Lima, era o de incluir Portugal na rota das grandes exposições da Europa. Nesse sentido ocorreram as negociações (que já tinham um histórico de dez anos) para a fixação da colecção de arte do comendador Joe Berardo em Portugal e a sua integração num novo Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa. Em 2006, a então ministra da Cultura noticiou também a celebração do
Protocolo Hermitage. (O Museu Hermitage é um dos maiores do mundo e faz circular as suas exposições na Europa e EUA. A partir de 2010, Portugal passaria a ser o terceiro ponto da Europa onde essas exposições poderiam ser vistas). Enfim, o Protocolo estava assinado e ainda não tinha sido criada uma comissão para orçamentar o projecto. O que veio a acontecer? - Em 2008 «Hermitage já não quer ter um pólo permanente em Portugal». Escusando-se a entrar em pormenores, o director do Hermitage [Mikhail Piotrovski] diz apenas que houve "demasiadas discussões" e "dinheiro que não chegava", "questões que normalmente correm sem percalços".
Outra grande aposta estratégica da Ministra era a Descentralização. (Excelente ideia dinamizar a rede de Cineteatros, concertando programação e oferta, optimizando recursos. Porque a cultura "é um veículo de qualificação dos portugueses", é excelente que o Estado aposte nos Serviços Educativos desses organismos e incentive programações para o público escolar). Pois o projecto "
Território das Artes", através do qual o Ministério pretende promover a "descentralização das artes e a formação de públicos", prossegue. Há apenas um senão: os Presidentes de Câmaras Municipais sacodem a vereação da Cultura para o Conselheiro Acácio do burgo (quando não para o Primo Basílio) e estes reproduzem o modelo, nomeando a seu bel prazer os Directores dos Cineteatros. Adeus competência, olá amigo político! É com o não-critério que se descentraliza a arte e qualifica público?

Enfim, não me digam que não há uma estratégia clara para a Cultura. É claro que há! Falta é... acuidade, responsabilização, avaliação? As generalizações são grosseiras mas: pouca coisa se fez bem; o que se fez, fez-se muitas vezes tarde; quer (des)fazer-se o que está (bem) feito. Se Isabel Pires Lima se atolou com as exposições, Pinto Ribeiro está a enterrar-se com os Museus. Se a primeira mudou Direcções (as mais polémicas: Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional de São Carlos, Museu Nacional de Arte Antiga) porque "
as instituições precisam de se renovar", o actual (já) exonerou algumas dessas Direcções. E, Senhor Ministro, o Plano Nacional de Leitura está mesmo a correr bem? Como é feita essa avaliação? Para começar, não seria melhor rever a lista dos livros recomendados (ou convém manter boas relações com todas as editoras e mais uma)? Não será melhor acertar agulhas com o Ministério da Educação antes de lançar essa ideia top ten do Plano Nacional de Escrita? Outra coisa: quem não vive em Lisboa (ou Porto), como pode aceder aos filmes da Cinemateca?


P.S.: Que não se conclua destas palavras que responsabilizo unicamente o Estado, ou o PS ou o PSD, pelo «atraso» português em matéria de produções e consumo culturais. O Estado deve regular, legislar, intervir, «democratizar», salvaguardando a identidade histórica mas também projectando novos valores artísticos, sociais, políticos! A um outro nível, a Escola tem também esse papel! E os Media, pois! Mas, na verdade, acho que é tempo de nos responsabilizarmos todos por este estado de situação. Quando escolhemos a TVI, ou a novela brasileira, ou os Circos das Celebridades, quando deixamos o Teatro lá da terra às moscas, não sabemos onde fica o Cineclube local, não lemos mais que um ou dois livros por ano, fazemos uma opção em termos do país (e do mundo) que queremos para nós, ou não? :P


Adenda: Este post já se chamou: «Com o programa das Festas do Munícipio à minha frente, quando se comemora «Aveiro 250 anos», deu-me uma fúria e decidi culpar toda a gente»

9.5.09

Tentando o impossível

René Magritte. Attempting the Impossible
1928. Oil on canvas. 105,6x81 cm
Hoje, compreendo que laborava num erro. A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas duas artes faríamos vida. Felizmente é impossível...

Mário Sá-Carneiro, Loucura
Ulmeiro, 1ª Edição, 1994, p. 18

wonder woman

8.5.09

250 vozes

Jan Brueghel the Elder. Allegory of Hearing. 1618
[Vale a pena aumentar a imagem]


Hoje, 21h30, na Praça da República em Aveiro: Concerto 250 Vozes, comemorativo dos 250 Anos da Cidade de Aveiro. Para além da Orquestra Filarmonia das Beiras e da soprano Isabel Alcobia, este concerto conta com a participação da Associação Musical e Cultural São Bernardo, Associação Recreativa Eixense, Banda Amizade, Banda e Escola de Música da Quinta do Picado, Coral Polifónico de Aveiro, Pequenos Cantores do Coral São Pedro de Aradas, Coral Vera Cruz, Coro do Departamento Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, Coro do Porto de Aveiro, Coro Infantil e Juvenil de Santa Joana e Coro de Santa Joana.

Dirigidos pelo Maestro António Vassalo Lourenço e pelo Maestro Carlos Martins Marques, os cerca de 400 actuantes, entre músicos e cantores, vão interpretar os seguintes temas: «Mumadona Dias» de Carlos Martins Eurico Carrapatoso; Abertura «1812» Marques; «Pompa e Circunstância», Marcha Militar Nº1, Op. 39 de Edward Elgar; «A-Ver-a-Ria» de de Piotr Tchaikovsky e Aleluia de «Messiah» de Georg Händel.


[Adenda: Este é um dos raros espectáculos das «Festas do Munícipio» levado a cena por profissionais. Depois, só o Rui Reininho, o padre que vai rezar a missa solene, os pilotos do Asas de Portugal e os militares no dia da Marinha.]

[Adenda 2: A Moura Aveirense tem registos do belo concerto.]

Paisagens em trânsito

7.5.09

Kandinsky tinha o Hubble Deep Field na cabeça

Wassily Kandinsky. Sky Blue. 1940.
Oil on canvas. 100 x 73 cm

Wassily Kandinsky. Fixed Flight. 1932.
Oil on panel. 49 x 70 cm



Uma das imagens da rubrica Day in Photos do The Washington Post de 6 de Maio'09. Legenda:
«May 4 (release date): Several hundred never before seen galaxies glow in this "deepest-ever" view of the universe made with NASA's Hubble Space Telescope. Besides the classical spiral and elliptical shaped galaxies, there is a bewildering variety of other galaxy shapes and colors that are important clues to understanding the evolution of the universe. Some of the galaxies may have formed less that one billion years after the Big Bang. NASA-Reuters.»
Mas, oh ética jornalística, por onde andais! acabei por encontrar a mesma imagem no
Hubble site com outra legenda (e data): «About 1,500 galaxies are visible in this deep view of the universe, taken by allowing the Hubble Space Telescope to stare at the same tiny patch of sky for 10 consecutive days in 1995. The image covers an area of sky only about width of a dime viewed from 75 feet away.»

E eu que só pensava nas pinturas do Kandinsky, fiquei a olhar para este céu, colocando-me outras questões...

5.5.09

À escuta #84


S. - Hoje tivemos que inventar o fim de uma história... As cores do arco-íris zangavam-se e... cada um tinha que fazer um fim. Os meus colegas fartaram-se de rir com o que eu disse. Eu imaginei que o arco-íris ia à América, encontrava o Obama e o Obama dizia: «oh pá, passa mas é a ser preto!»

4.5.09

Vasco Granja 1925-2009

Uma introdução ao «desenho sonoro» de Norman McLaren. Foi uma inspiração para Vasco Granja que, por sua vez, nos inspirou e deleitou durante... quantas gerações?
Realiz: Don Peters and Lorne Batchelor. 1951.
[Ver ainda o
Processo Criativo de Norman McLaren]


Norman McLaren - Boogie Doodle

«Banda desenhada» animada, um filme realizado sem câmara. "Boogie" é tocado por Albert Ammons e "doodle" desenhado por Norman McLaren. 1940

À escuta #83

A. (9 anos) - Não achas que as óstias podiam ter sabor a morango ou a chocolate...? Para as crianças gostarem mais de ir à missa...

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S. (9 anos) - O padre disse que era o corpo de Deus! Nunca vou conseguir entender isso. Tanta coisa, tanta coisa, e depois come-se o corpinho...

3.5.09

L'eveil du coeur

William-Adolphe Bouguereau
The Heart's Awakening (L'eveil du coeur), 1892


Professor na École des Beaux-Arts, membro do Júri, Bouguereau fechava repetidamente a porta do Salon aos impressionistas. Estes vingaram-se inventando o termo "bouguereauté" para designar o estilo académico. Referindo-se a Bouguereau, Émile Zola, escreveu: «le triomphe de la propreté en peinture, des tableaux unis comme une glace, dans lesquels les dames peuvent se coiffer» (Lettre de Paris, le 2 mai 1875). Pois quando olho para esta imagem, também penso: "quel bouguereauté!"
Mas cai-me, desperta e volta a cair o coração pelo título da obra. L'eveil du coeur! Há lá coisa mais adequada ao sentimento de uma mãe face aos seus rebentos! Perdoem-me os modernos, há "bouguerautés" deliciosas! E depois, a ternura na expressão das figuras...

Charity - 1859 e Maternal Admiration - 1869

2.5.09

À escuta #82

Antes da Primeira Comunhão (amanhã), a primeira confissão. Elas não estavam nada nervosas, apenas apreensivas com as voltas do Pai Nosso que poderiam ter que declamar. Depois, a conversa com a mãe: o que sentiram, se gostaram daquele momento, como reagiu o padre ao que disseram, etc.. A A., pedindo-me que não repetisse a ninguém, acabou por me contar o que tinha dito ao padre. A S. só ria. Olhou para mim sobranceiramente e disparou: «a confissão é entre mim, o padre e DEUS!». Mais tarde contou-me uma parte em que eu estava envolvida... mas eu que não pensasse que ia saber mais do que isso. Entre o grupo de amigas, instalou-se o controle. A regra é: ninguém diz nada aos pais. Já tive que defender a A..!

Suscitar amor


Se ainda não compraram presente para o dia da mãe, deixo-vos esta sugestão. É simplesmente um dos livros mais belos que li. O Primeiro Homem foi a obra que preocupou Albert Camus durante os últimos 7 a 8 anos da sua vida. O seu manuscrito foi encontrado dentro de uma sacola no dia 4 de Janeiro de 1960, o dia em que morreu, vítima de um acidente de automóvel. Por ironia do destino, nas notas que escreve sobre este romance, Camus afirma que «O livro deve ser inacabado».

Em 1963, Susan Sontag escreveu: «Kafka suscita piedade e terror, Joyce admiração, Proust e Gide respeito, mas nenhum escritor moderno que me lembre, salvo Camus, suscita amor. A morte dele em 1960 foi sentida como uma perda pessoal por todo o mundo literário» . Ler O Primeiro Homem é pois, também, um exercício de resistência ao afecto que Camus e os seus sujeitos nos inspiram.
Na vida de Jacques, ou do petit Camus - uma vez que os próprios escritos do escritor nos levam a crer que projecta nesta personagem as vivências da sua infância -, não havia lugar para os livros. A criança do bairro pobre de Belcourt, em Argel, descobre os segredos do mundo através do contacto com as pessoas e as coisas reais, e não através das palavras.

Hiroshi Mino, que publica o seu ensaio sobre o silêncio na obra de Albert Camus em 1987, ou seja, antes da publicação de Le Premier Homme (que acontece em 1994, 34 anos após a sua morte), afirma que «Si Camus avait laissé un récit de son enfance, il aurait pu l' intituler "Le Silence"». Este silêncio é, antes de mais, o silêncio da mãe, e depois o silêncio da natureza. O primeiro está na origem da sua história pessoal; o segundo, revela-o a sua obra, está na origem da história humana. Ambos os silêncios, que têm um carácter quase primitivo, não emergem da interrupção da palavra; na verdade, existem, escutam-se, antes que a palavra nasça. Jacques começa por descobrir um mundo simples, bruto, imediato, profundo, mas muito distinto do mundo abstracto das palavras.

O silêncio que envolve a infância do protagonista, Jacques, e de Albert Camus, não foge à regra de todos os silêncios, comporta ambiguidade. O silêncio em O Primeiro Homem provoca euforia mas também, e sobretudo, amargura, pelo muro que levanta entre Jacques e a pessoa que mais ama (a mãe), pelas barreiras que impõe ao conhecimento do seu passado, das suas origens (o pai, a história da imigração e colonização argelina). O silêncio da mãe, em particular, é também o silêncio de quem não ousa a revolta contra o absurdo do mundo real. Quanto ao escritor, cabe-lhe fixar o silêncio em escrita, para que ele não se perca com a morte daquele que o mantém cativo no fundo do coração. É para dar uma voz ao silêncio que Jacques, ou Camus, aos quarenta anos, face ao túmulo do pai, decide escrever esta obra. Em O primeiro Homem, a sua última obra inacabada, ou desde o primeiro livro que escreveu (L'Envers et L'endroit), a escrita nasce no momento em que o silêncio ameaça eternizar-se.


«Quero escrever aqui a história de um casal unido pelo mesmo sangue e todas as diferenças. Ela semelhante ao que a terra proporciona de melhor e ele tranquilamente monstruoso. Ele lançado em todas as loucuras da nossa história; ela a atravessar a mesma história como se fosse a de todos os tempos. Ela silenciosa a maior parte do tempo e dispondo de escassas palavras para se exprimir; ele falando sem parar e incapaz de encontrar através de milhares de palavras o que ela poderia dizer por meio de um único dos seus silêncios... A mãe e o filho(p. 286)

Albert Camus, O Primeiro Homem
Edições Livros do Brasil, Lisboa, 1994


[Este post reune fragmentos de textos elaborados por mim para um trabalho no âmbito do mestrado de Línguas e Culturas/UA, centrado precisamente na análise do silêncio na literatura]

1.5.09

Dia do trabalho em tempo de crise


«Quem luta sempre alcança. Queremos a mudança! Unidade Sindical. É preciso é mexer! O custo de vida aumenta. E o cinto a apertar. É preciso é mexer! Quem luta sempre alcança!». Palavras de guerra a descer a Av. Lourenço Peixinho. A União dos Sindicatos de Aveiro mobilizou várias centenas de pessoas. Concentração e comício/festa no Rossio. Acho que foi um dos anos com mais participação. A glo-calização a fazer-se sentir. Aveiro e o mundo estão em dia de luta.

Balada de Outono em Maio



Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu com José Afonso já doente. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. Mais tarde foi publicado o duplo álbum Ao Vivo no Coliseu. A contribuir para os aplausos, muito emocionada, estava eu. Era uma garina. Quase que me custa ver este vídeo. A minha forma de celebrar o 1 de Maio. e sim, também me lembro do primeiro 1 de Maio que se celebrou depois do 25 de Abril. às cavalitas do meu pai, na Av. dos Aliados no Porto. Nunca tinha visto tanta gente!