2.5.09

Suscitar amor


Se ainda não compraram presente para o dia da mãe, deixo-vos esta sugestão. É simplesmente um dos livros mais belos que li. O Primeiro Homem foi a obra que preocupou Albert Camus durante os últimos 7 a 8 anos da sua vida. O seu manuscrito foi encontrado dentro de uma sacola no dia 4 de Janeiro de 1960, o dia em que morreu, vítima de um acidente de automóvel. Por ironia do destino, nas notas que escreve sobre este romance, Camus afirma que «O livro deve ser inacabado».

Em 1963, Susan Sontag escreveu: «Kafka suscita piedade e terror, Joyce admiração, Proust e Gide respeito, mas nenhum escritor moderno que me lembre, salvo Camus, suscita amor. A morte dele em 1960 foi sentida como uma perda pessoal por todo o mundo literário» . Ler O Primeiro Homem é pois, também, um exercício de resistência ao afecto que Camus e os seus sujeitos nos inspiram.
Na vida de Jacques, ou do petit Camus - uma vez que os próprios escritos do escritor nos levam a crer que projecta nesta personagem as vivências da sua infância -, não havia lugar para os livros. A criança do bairro pobre de Belcourt, em Argel, descobre os segredos do mundo através do contacto com as pessoas e as coisas reais, e não através das palavras.

Hiroshi Mino, que publica o seu ensaio sobre o silêncio na obra de Albert Camus em 1987, ou seja, antes da publicação de Le Premier Homme (que acontece em 1994, 34 anos após a sua morte), afirma que «Si Camus avait laissé un récit de son enfance, il aurait pu l' intituler "Le Silence"». Este silêncio é, antes de mais, o silêncio da mãe, e depois o silêncio da natureza. O primeiro está na origem da sua história pessoal; o segundo, revela-o a sua obra, está na origem da história humana. Ambos os silêncios, que têm um carácter quase primitivo, não emergem da interrupção da palavra; na verdade, existem, escutam-se, antes que a palavra nasça. Jacques começa por descobrir um mundo simples, bruto, imediato, profundo, mas muito distinto do mundo abstracto das palavras.

O silêncio que envolve a infância do protagonista, Jacques, e de Albert Camus, não foge à regra de todos os silêncios, comporta ambiguidade. O silêncio em O Primeiro Homem provoca euforia mas também, e sobretudo, amargura, pelo muro que levanta entre Jacques e a pessoa que mais ama (a mãe), pelas barreiras que impõe ao conhecimento do seu passado, das suas origens (o pai, a história da imigração e colonização argelina). O silêncio da mãe, em particular, é também o silêncio de quem não ousa a revolta contra o absurdo do mundo real. Quanto ao escritor, cabe-lhe fixar o silêncio em escrita, para que ele não se perca com a morte daquele que o mantém cativo no fundo do coração. É para dar uma voz ao silêncio que Jacques, ou Camus, aos quarenta anos, face ao túmulo do pai, decide escrever esta obra. Em O primeiro Homem, a sua última obra inacabada, ou desde o primeiro livro que escreveu (L'Envers et L'endroit), a escrita nasce no momento em que o silêncio ameaça eternizar-se.


«Quero escrever aqui a história de um casal unido pelo mesmo sangue e todas as diferenças. Ela semelhante ao que a terra proporciona de melhor e ele tranquilamente monstruoso. Ele lançado em todas as loucuras da nossa história; ela a atravessar a mesma história como se fosse a de todos os tempos. Ela silenciosa a maior parte do tempo e dispondo de escassas palavras para se exprimir; ele falando sem parar e incapaz de encontrar através de milhares de palavras o que ela poderia dizer por meio de um único dos seus silêncios... A mãe e o filho(p. 286)

Albert Camus, O Primeiro Homem
Edições Livros do Brasil, Lisboa, 1994


[Este post reune fragmentos de textos elaborados por mim para um trabalho no âmbito do mestrado de Línguas e Culturas/UA, centrado precisamente na análise do silêncio na literatura]

3 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

Aqui está um livro de Camus que ainda não li mas penso que vou aceitar a sugestão ...

MRF disse...

Fernando, sendo uma obra inacabada, "O Primeiro Homem" não deixa de ser uma obra muito estruturada e pensada. O filósofo e o escritor andaram sempre juntos. Camus ia enquadrar esta obra numa nova "série" de romances que designaria de Mito de Nemesis (ou seja, depois da «revolta», a «medida»). Mas o que lemos, o diálogo entre o dito e o não dito, aqui personificados em dois personagens fascinantes, é de uma beleza e sensibilidade muito tocantes. Sinceramente, vivo arrebatada por este livro que, na verdade, já li muitas vezes.

Abraço e boas leituras, boas músicas...

Claudia Sousa Dias disse...

ainda só li n"A Peste"...


csd