14.3.05

Skhizen ou o Sétimo Céu


Skhizein, o elevador de Ivar Corceiro

O Ivar Corceiro realizou este filme,
Shkízein, o elevador e desafiou-nos a escrever um texto interpretativo. O desafio ainda está de pé. Faça o download do filme no Bagaço Amarelo, inspire-se e envie o seu texto com a sua morada para bagacoamarelo@gmail.com. Se o texto for publicado, receberá ainda um exemplar gratuito em DVD. Não se esqueça de saborear cada uma destas fases.
Saliento que o filme já foi apurado para o
2º Festival Audiovisual Black & White, a realizar na cidade do Porto de 13 a 16 de Abril de 2005, e será exibido na noite de 15 de Abril. Depois da Didas, da Tounalua e do Batatas, foi a minha vez de imaginar uma história a partir das imagens do filme.

Skhizem, o elevador ou o Sétimo Céu
Foi no depósito que o deixei. Murmurou qualquer coisa antes de cair. Uma palavra, um queixume, um pedido simples. Talvez tenha dito fim. ou folha. ou vai. Caiu. Podia ter aberto as duas portas para que fosse aspirado, seria menos suspeito. Mas deixei-o lá e assim tive a impressão de abandonar uma cripta.
Desde que a Terra parou, interrompendo sem aviso o movimento de rotação, toda a matéria energética compacta definha e morre. Todo o ser vivo em contacto com o solo apodrece. Restam as folhas caducas que escapam aos poços de gravidade.
Meti-me no elevador com a determinação de quem sabe o que representa. Sou o último Sapiens xn, pensei. O sinal metálico assustou-me mas controlei o espanto. Para além dos espasmos do derradeiro companheiro, há semanas que só ouço o uivo do vento. "Controla a respiração". A máscara. "Senta-te e põe a máscara. Que o ar não te pressinta". Os elementos Ar e Água revoltaram-se e agora controlam a Terra.
Como será o sétimo céu?
Primeiro nível. As caducas seguem o seu rumo e as portas fecham-se antes da tromba de água. O rio estava tenso, a ameaça era óbvia. Perdi o rio da minha infância mas não me permito chorar.
Nem agora que cheguei a este cemitério de árvores desconhecidas. Correntes de ar percorrem sem dó todas as alas. Era a minha floresta, o meu reduto de verde.
Terceiro nível. "Eles compreenderam". Os elementos desafiam-me mostrando-me a casa onde vivi. Olha o tecto que te abrigou, vê o teu jardim-deserto! Cerro os olhos. "Não respires".
Nova paragem. Os postes de alta tensão estão saturados de energia. O cimento não quebra, só o bio. Mas uma explosão é iminente. Indiferentes as portas fecham-se e estranhamente sou salvo pela frieza do automatismo.
Os corpos minerais desintegram-se, mas aquele tanchão de pedra resiste seguro pelo arape farpado. O ar pica-se nas arestas e a ruína subsiste.
Sexto nível, tão próximo do sétimo céu. Os cúmulos desapareceram, uma luz chama-me. Estou quase lá. Ponho um pé de fora e compreendo. Não existe sétimo céu. mas no sexto há paz.

De repente, avisto-a à direita. Arranco a máscara. Grito: "Perversos!". Reenviaram-me para a cripta.

4 comentários:

tounalua disse...

Para mim é surpreendente ver como cada um responde a este desafio com o seu imaginário, o seu espaço, as suas palavras. De ti não podia esperar senão um bom texto. ;)

MRF disse...

Obrigada Tounalua. Digo-te o mesmo quanto à surpresa que foi o texto de cada um. Beijinhos

Amaral disse...

Obrigado, MRF, por teres estado no meu espacinho.
Não vou comentar especificamente nada, embora tenha lido 4 posts, e a anedota que já tinha visto noutro blog, mas quero fazer-te saber que este vai tornar-se um local habitual de leitura.
Gostei muito da tua explanação sobre a cinematografia porno, e do gostoso sétimo céu que encontraste na tua imaginação.

rodrigo terra disse...

Rosário, bom texto, boa abordagem!
Beijinhos,

batatas