12.3.05

Pornografia II



Foi num daqueles dias em que estranhamos ter forças para acabar o dia. Mas todas as missões foram cumpridas nesse universo que se estende entre afectos e obrigações. Um sorriso e finalmente o corpo estendido no sofá. A mão pega no comando et voilá! Estou no CineClassics e começo a perceber que a programação da noite são filmes pornográficos franceses dos anos 20. Estou perante uma sequência de filmes mudos, cada um com uma duração média de 10/15 minutos. A primeira reacção é de riso, riso puro. A comicidade dos personagens, dos seus movimentos sincopados, quase bruscos. E depois o deleite, qual última cena do Cinema Paraíso (falta-me apenas a memória de um Alfredo para me comover).
Os guiões são variados, desde a visita combinada do fidalgo a casa da burguesa, algures em Paris, ao atelier do escultor na Grécia antiga, passando por uma troca de doces sevícias entre anjos, num cenário celestial.
Reparo nas "actrizes". Temos dois tipos: a típica starlet da Grande Époque, magra, longas pernas, cabelo curto, a imagem da sofisticação; e a moça roliça, de pele clara, provinciana e voluptuosa. Imagino as fontes de recrutamento: jovens aspirantes a actrizes e prostitutas de rua.
Não defino uma tipologia masculina: há homens de todas as idades - desde jovens rapazes a velhos de longas barbas brancas; e de todas as compleições físicas - pequenos, robustos, elegantes, quase efeminados, muito musculados, decrépitos.
Um filme de 1925 e um filme actual, ambos pornográficos. Quais os denominadores comuns? A exposição crua da nudez e do acto sexual e o uso de fetiches, há uma manipulação perversa dos adereços. E pouco mais.
Do ponto de vista plástico, os primeiros são um conjunto de "quadros", a perspectiva é de conjunto; os actuais são um conjunto de zoomings. A tecnologia e a insaciedade evoluiram.
O mais espantoso é o que se passa ao nível do jogo amoroso. Os homens são frequentemente bissexuais pelo que as famosas ménage à trois são vividas verdadeiramente a três. Nos filmes passados na cidade, o burguês (vestido a rigor, com colete, casaca e chapéu) pode, antes de se envolver com a amiga que visita, ter relações com um dos seus empregados (como reflexo da estrutura de classes, o que detém uma posição social mais elevada "domina" o da classe mais baixa).
A mulher é um ser que se venera. Mesmo tratando-se de um filme pornográfico, frequentemente ela é colocada numa posição superior, como um ícone que se adora: no alto da escadaria, em cima de um banco ou de outro objecto que sirva o efeito de a elevar.
Nestes filmes sentimos uma espécie de a-moralidade, são elogios ao prazer, tout-court.
Nos filmes actuais (dirigidos ao público hetero) não existe interacção entre homens e a mulher é "dominada". Existe sempre a ideia de transgressão ou de abuso ou de engano/engate "malandro", como uma vingança. Maio de 68, a pílula, e todas as revoluções parecem não ter acontecido.
Em qualquer época, estes filmes são atravessados pelas sombras negras da nossa mentalidade colectiva. Mas comparativamente ao que se passava há um século atrás, fiquei com a impressão de que o cinema pornográfico actual, mais do que perverso, é reaccionário. O uso da pornografia para defesa do "amor livre" caducou. Houve uma regressão e estes filmes cristalizaram uma moralidade rasca num non-sense em que não se repara. O teor das imagens arregala olhos que logo se fecham.
(A pornografia existe desde a aurora dos tempos e não acredito que alguma vez se faça noite. A procura destes produtos não cessa de aumentar. Há pedaços de várias gerações a alimentar-se com isto. Combater a pornografia é quixotesco e não vejo interesse nisso. Mas as discussões sobre essa matéria reduzem-se ao argumento de que "é mau", "degradante para a imagem das mulheres"!?)

8 comentários:

Black Rider disse...

Antes de mais nada os meus parabéns por este blog. Não o conhecia, mas, agora, de certeza que virei mais vezes. Achei interessante essa abordagem da pornografia- esse exemplo dos filmes franceses dos anos vinte é interessante. De todas as formas, é notório que ela, hoje em dia, teve um impulso tremendo. Acho que, não questionando o papel que ela desempenha numa certa degradação da mulher, (tendo, no entanto,em consideração que ela tem sempre algo de cultural- o tipo de pornografia japonesa, por exemplo, é de um teor bem diferente da europeia) a grande verdade é que, à semelhança de outro qualquer produto, ela tende alargar o seu público alvo de consumidores. Acho que faz isso ao tentar ir sempre "um pouco mais além". Infelizmente, faz isso das piores maneiras- que é o caminhar para o espectáculo da degradação da mulher (no entanto, de um certo ponto de vista, ela também degrada os homens, visto eles serem reduzidos à visão de simples falos sem rosto ou identidade- e este é um aspecto pouco abordado).
Talvez seja uma "reacção reaccionária" à ameaça que o papel do macho tradicional começa a sentir em relação ao papel da mulher que ganha novos espaços.Sempre foi assim de todas as formas. Não sei. Ou talvez tenha um pouco daquilo que os situacionistas ilustravam, tendo como exemplo a publicidade- mesmo se reflectindo no espelho da sociedade como um todo- a imbecilidade de terem de ser as imagens a legitimarem o que já existe e que sempre existiu.
Não li o livro da Ovidie por isso não ostento opinião. Li, no entanto, o da Raffaela (?!) Anderson chamado Hard. Ela é uma das actrizes que entrou no polémico Baise Moi. O livro foi publicitado como uma enorme crítica ao mundo da pornografia e que mais e que mais. Quando o li senti que estava diante de um enorme fiasco. Além de pessimamante mal escrito a única coisa que me pareceu, em relação a essa crítica ácida de alguém que veio dos meandros, soou-me a publicidade enganosa. Há no entanto algo que achei interessante- ela conta que perdeu a virgindade na primeira cena em que entrou. Realmente, é mesmo isso- um mundo em que tudo está à venda e que pode ser "dado" uma vez. A pornografia não é nada diante de uma sociedade completamente pornográfica. Em que tudo se manifesta nas imagens- por menos conteúdo que se tenha. Em que só se sobrevive enquanto se é novidade.
Dentro da sexualidade, mas num campo apenas similar, gostei bastante do livro da Catherine Millet.
Mais uma vez os meus parabéns pelo blog.

nikonman disse...

Este blog está cada vez melhor!

Confessionário disse...

Não sei bem que te dizer. Seja há muito, seja há pouco tempo, a pornografia usa o corpo de uma forma pouco digna. Em nada ele sai prestigiado. Isso é que acho mal na pornografia... que não respeita as pessoas na sua íntegridade física ou moral. Há todo um conjunto de exposições (sensuais, artísticas) que prestigiam e realçam o corpo como algo muito belo (eu diria que foi a maior criação de Deus)... mas a apornografia costuma apenas servir para alimentar líbidos...

MRF disse...

Confessionário, é verdade que a pornografia só serve para alimentar líbidos mas as líbidos precisam de ser alimentadas, e a pornografia parece servir bem esse fim, dados os índices de consumo deste tipo de produtos! Face a essa realidade, viramos as costas?

Black River e Nikonman, obrigada pelas palavras simpáticas. Black River, tb li a Catherine M. mas não gostei e não foi por preconceito. Mas isso dava outro post!?

Um abraço a todos

Bagaço Amarelo disse...

O cinema pornográfico actual é tão reaccionário como toda (ou quase toda) indústria audiovisual. A publicidade diz-nos que os adolescentes se tornam livres através da posse de um telemóvel e nunca através, por exemplo, do conhecimento. Os produtos que são, normalmente, consumidos por homens (carros, after-shaves, bebidas alcoólicas) são vendidos através de mulheres bonitas, pode-se dizer que sexualmente aproveitadas (não sei se hei-de dizer exploradas), e os produtos que são normalmente consumidos por mulheres também. A indústria pornográfica é mais um reflexo disto.
Uma vez vi um programa na tvi, onde pessoas, que entraram em litígio por qualquer motivo, eram colocadas em frente a uma pequena multidão a discutir o mesmo. Naquele programa estava uma pessoa hermafrodita, que tinha nascido com os dois sexos mas que era fisicamente mulher, e dizia sentir-se mulher. Tinha vencido um concurso tipo “a mulher mais feia lá da terra” em que o prémio era um crédito numa clínica qualquer de beleza. Na plateia todos, incluindo mulheres, achavam que ela não devia ter concorrido ao concurso pois “se tinha os dois sexos era homem”. Nunca mais consegui esquecer isto.
A mulher é, de facto, colocada normalmente num nível inferior ao homem, mas o que eu queria era que este problema fosse um problema de todos, e não apenas das mulheres ou dos homens.

MRF disse...

Francis, a minha gestão dos comentários é tão nula que perdi o teu comentário (ou talvez não)... Sorry e obrigada.

Bagaço, já tinha deixado um comentário (tb perdido...): nomeio-te o homem do dia 9/03 - dia pessoal do ano, pelo teu comentário aqui. Mas vê lá se descobres onde nascem os rolos de p.h.!

francis disse...

Não faz mal! obrigado, eu!
:-)

Viajante disse...

Gostei bastante...

e só hoje consegui «entrar» para comentar.
No meu canto, pus-me a pensar.... sobretudo, nos aspectos de fronteira entre o erótico e o pornográfico.

E vou roubar uma das frases, que me pareceu super-feliz.