4.3.05

A ignorância

Foi por isso que o seu encontro com Gustaf fora uma festa. Depois de tanto tempo, o seu corpo, o seu rosto eram enfim vistos, apreciados e, graças ao seu encanto, um homem convidara-a a partilhar com ele a sua vida. Mas talvez nessa mesma fase, ou um bocadinho mais tarde, começou a ter a vaga suspeita de que o seu corpo não escapara inteiramente à sorte que, ao que parecia, lhe fora destinada. De que Gustaf, que fugia da sua mulher, das suas mulheres, não buscava junto dela uma aventura, uma nova juventude, uma liberdade dos sentidos, mas um repouso. Não exageremos seja o que for, o seu corpo não ficava por tocar, mas crescia dentro dela a suspeita de que era menos tocado do que merecia.


Milan Kundera
A Ignorância

8 comentários:

Abulafia disse...

o meu escritor favorito é kundera; é uma daquelas identificações químicas, como se sentisse que ele escreve sempre sobre mim ao atribuir determinadas características a um personagem da estória, qualquer que seja essa estória... não porque eu as tenha vivido de facto, mas porque muitas vezes o desejava ter feito...

Rosarinho, a menina do caixa disse...

Pois eu acho que essa chavala devia era ficar com o meu Alberto.

MRF disse...

Abulafia, mas não queiras ser o Gustaf! bjs

(private joke:)Querida homónima, isso quer dizer que já passou pelo governo civil?

francis disse...

De kundera só li "A insustentável leveza do ser"... há cerca de 10 anos atrás! Actualmente nem tenho lido. Estou netodependente.
bjs. :-)

VAS disse...

Também adoro kundera. Consegue ser complexo duma forma tão simples e embaladora. Tão objectivo e tão poético. Está entre os meus escritores preferidos. Beijos.

Rosarinho, a menina do caixa disse...

Oh querida, acho que o homem ainda não tomou posse!

tounalua disse...

Pois é... para mim Kundera sabe ler e escrever as várias condições femininas de uma forma que me surpreende.

r.e. disse...

kundera é, também para mim, um dos escritores a que regresso sempre com um desejo autêntico, uma fome verdadeira, uma paixão. para quem lê muito, mais evidente se torna a importância que assumem aqueles a quem se continua a desejar regressar. e na onda das empatias que já te tinha enunciado uma vez, acredita que a valsa do adeus estava já fora da prateleira. obrigado. Beijinho. J.