21.10.07

Dança e Novas Tecnologias

Aivars B.
Crazy Dance


O teatro Aveirense está a organizar o Ciclo Dança e Novas Tecnologias que, ao longo do mês de Outubro e de Novembro, incluirá a apresentação de seis espectáculos. São espectáculos interdisciplinares, que criam pontes entre a arte performativa e a tecnologia. Flatland I, de Patrícia Portela, "aterrorizou-nos" sexta e sábado; dia 26 será a vez de Jukebody, criado e interpretado por Cristiana Rocha; dia 7/11 teremos uma tripla perspectiva do conceito de ego, em Ego Skin, de Amélia Bentes; dia 22/11 poderemos observar a relação telemática entre uma mulher e um homem imaginário em Algum Dia Tinha de Ser a Sério de Lígia Teixeira e Ivan Franco; no dia 30/11, Isabel Valverde vai questionar a portuguesidade do fado-dança com Dança Fora de Horas.

Patrícia Portela gosta de utilizar "tecnologia doméstica", Cristiana Rocha expõe o "corpo em diálogo com um dispositivo cenográfico e tecnológico mais ou menos variável", Amélia Bentes opta pelo desenho digital executado com uma caneta + mesa Wacon ligada a um laptop (software: Adobe Phtoshop em full screen mode), Lígia Teixeira programa todo o sistema usando linguagem audiovisual Pure Data, Isabel Valverde usa uma tecnologia para manipulação de vídeo através de biofeedback e captação de sensores vocais e musculares (EMG).

Dança e novas tecnologias. Facilmente nos assustamos com a temática, ou nem sequer concebemos a relação, se andarmos distraídos. Mas as novas ferramentas são cada vez mais utilizadas pelas artes em geral, e não apenas pela indústria e economia. O que é importante discutir face à evidência? Desde logo, ao nível do ensino, os novos conteúdos e a estratégia pedagógica a adoptar e, ao nível do trabalho artístico, a coerência entre o conceito da obra e as aplicações tecnológicas por que se optou. Parece unânime a opinião de que os novos media devem ser encarados apenas como ferramentas adicionais e que o enfoque deve permanecer no conceptual. Vi Flatland I. Foi criada, com esses suportes, uma nova linguagem estética? Os meios utilizados foram eficazes na transmissão da mensagem (assumam aqui um plural)?
Eu respondo SIM. e este é mesmo um SIM grande. A beleza do "livro" gigante, o layout e a forma como foram programados os efeitos, o jogo que se estabeleceu entre voz e imagem, a "materialização" dos limites e ambições da personagem "Flatland" via esse diálogo, são arrebatadores. Na segunda parte, quando o público é raptado, os media integram o espectáculo em pleno. "Flatland" interage com as imagens projectadas, elas reforçam sentidos.

No dia 18 assisti à conversa e à perfomance que inaugurou o Ciclo Dança e Novas Tecnologias. Organizada e moderada pelo Professor Paulo Bernardino (UA - DeCA), com a participação de vários experts no uso e reflexão destas questões (Dolores Wilber - DePaul University; Len Massey - Royal College of Art, Reino Unido; Heitor Alvelos - Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto; etc.), a conversa centrou-se nos medialabs e no modelo que estes devem assumir em Portugal, nomeadamente como novos espaços de investigação e desenvolvimento (fixei algumas ideias para discussão em próximos posts - depois de regressar de Seia).

A perfomance, assente na utilização de medias simples (papel e fita-cola) e tecnológicos (criando efeitos audio e visuais) procurou levar todos os presentes a interagir. Foi uma experiência lúdica e reveladora. Os media que, por definição, são o que está no meio, criam oportunidades - para criar barreiras, ou para estabelecer ligações. Nesta perfomance, uma criação colectiva muito experimental, a produção de sons (música) e a expressão corporal (coreografias individuais e de grupo, mesmo que rudimentares) aliaram-se. Ponto final___ ou de partida para outra discussão: os media favorecem a convergência nas artes, mas podemos deixar de desenhar fronteiras entre disciplinas?


[Sobre toda a trilogia Flatland, remeto-vos para uma crítica sapiente lida em O Melhor Anjo]

2 comentários:

Lígia Teixeira disse...

Cara Maria Fardilha,

Queria apenas fazer uma correcção aos comentários efectuados acerca do espectáculo "Algum Dia Tinha de Ser a Sério". Ao contrário do que é referido, trata-se de um trabalho em co-autoria, meu e de Ivan Franco.

Obrigado e bom trabalho.

MRF disse...

Ligia Teixeira,

Faço já a correcção. E eu é que agradeço!

Bons espectáculos e até dia 22 :)