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29.12.06

Rol de leituras de 2006

Janeiro
Comecei com Bilhete de Identidade da Maria Filomena Mónica, um livro que confirma a teoria da transmissão dos genes culturais! Dei uma revisão ao L'arrache-coeur de Boris Vian. Sim, esse, esse mesmo. Mas o primeiro baque do ano veio com Predadores de Pepetela. À míngua de edições traduzidas, ou nem isso, de Júlio Cortázar, experimentei, acho que pela primeira vez, ler uma obra via net: Rayuela. Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo... (aqui). O ano terminou sem que tivesse notícias que pudessem alterar esta desolação. Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío.(aqui)

Fevereiro
Autor, Autor de David Lodge, a que se seguiu A Volta no Parafuso de Henri James.

Março
O dia está a chegar ao fim. Mas se calhar ainda é um bocado cedo para a minha canção. Cantar cedo demais é funesto, sempre achei. Por outro lado, às vezes deixa-se passar a altura. Em Os Dias Felizes de Samuel Beckett. Uma das leituras feitas a pensar nisto. E apenas porque era outro dos autores celebrados no Famafest '06, fica o pensamento: depois de conhecer o "seu" cinema, era tempo de ler Harold Pinter!

Abril
De Haruki Murakami, Kafka à Beira-mar. Seguiu-se Norwegian Wood do mesmo autor. Foi a minha revelação do ano e quase não disse nada.
Este foi também "o mês" de Paulo José Miranda. Oficialmente li apenas A Voz Que Nos Trai. Para quando a publicação de outras obras, Paulo?

Maio
Visões de Cristo no Cinema foi um dos vários livros que Lauro António escreveu e que foram editados pela Biblioteca Museu República e Resistência. É bom tê-los na nossa biblioteca.
Ah, afinal referi o Murakami e o Paulo José Miranda e tantos outros. Mas este foi o mês de Philip Roth. Li Pastoral Americana e A Conspiração Contra A América, continua a faltar-me Casei Com Uma Comunista. E já tenho o último dele, O Animal Moribundo. Serão leituras para 2007.
De assinalar como um dos meus melhores livros do ano, Dias Exemplares, de Michael Cunningham. A primeira parte do livro, Dentro da Máquina, deixou-me uma marca (que espero seja) indelével.

Junho
As leituras continuaram até porque "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler". Mas não referi nenhum livro. Oh não, também me deixei ir na onda do Mundial! E nem li Kenzaburo Oe, apesar de ter anotado o seu nome.

Julho
A Possibilidade de uma Ilha, de Houellebecq, aparece finalmente nas nossas livrarias. Mas esse livro do meu autor de culto já tinha sido devorado e partilhado aqui no ano anterior. Traduzi algumas páginas para despertar o vosso desejo. Houllebecq é (possivelmente) um homem execrável e um escritor maravilhosamente inteligente. (...) o ciúme, o desejo e a vontade de procriação têm a mesma origem, que é o sofrimento de ser. É o sofrimento de ser que nos faz procurar o outro, como um paliativo; devemos ultrapassar esse estádio a fim de alcançar o estado em que o simples facto de existir constitui por si mesmo um motivo de alegria permanente ... (aqui). Eu não queria tornar-me um autómato, e foi isso, essa presença real, esse sabor de vida viva, como teria dito Dostoïevski, que Esther que ofereceu. De que serve manter em estado de marcha um corpo que não é tocado por ninguém? (aqui)
Em Julho li O Fim da Aventura, de Graham Greene. De vez enquando é bom reler um clássico para saber que (quase) tudo já foi inventado e demonstrado com mestria. Na escrita de um romance, isso significa perceber a sensibilidade de hoje igual à de ontem. ou o contrário.

Agosto
O que li eu estas férias? Peguei no Cuidado com a Doçura das Coisas de Raphaëlle Billetdoux, para descobrir que já o tinha lido. Li La Poursuite du Bonheur, e não gostei pela primeira vez de um livro do Michel Houellebecq. enfim, vou dizer não à sua poesia. Comprei vários outros livros, aproveitando a estadia em França, em que ainda não peguei. Comecei a ler Arno Gruen, e continuo. Agora é A Traição do Eu que está pousado na mesa de cabeceira. E li O Mar de John Banville! Leitura que inspirou vários posts em Setembro. vários. uns três ou quatro, ou cinco ou seis.

Setembro
... foi o mês em que eu nunca mais acabava de ler A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón. Quando acabei a leitura não me apeteceu dizer-vos nada. Mas parece que são poucas as pessoas que não ficaram "apanhadas" por esta obra, um cruzamento de romance histórico e policial, bem escrito e... pueril.

Outubro
ah, Villa Amalia, de Pascal Quignard!

Novembro
Bom mês! A descoberta de Flannery O'Connor e a leitura do assombro que é A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares. E poesia, muita.

Dezembro
Começou com O Mesmo Mar de Amos Oz, outro nomeado para a secção dos meus livros do ano. Li o último do Gonçalo M. Tavares. Depois fui forçada a permancer em repouso e rejubilei, lembram-se? António Franco Alexandre, Maria Teresa Horta, Al Berto, António Ramos Rosa e Possidónio Cachapa foram os eleitos. Além de Süskind.
Neste momento tenho em mãos "Romance Negro e Outras Histórias" de Rubem Fonseca.


Muita coisa escapou. Mas não me apetece levantar e procurar. mesmo não confiando totalmente neste auxiliar de memória que é o blogue. De repente lembrei-me de uma agenda pequenina que eu tive (e ainda tenho. aonde?) e onde comecei a apontar os livros lidos. Teria uns 12 ou 13 anos. Nele constavam partes da Bíblia, Enid Blyton, cada número da colecção discriminado, Memórias de uma Menina Bem Comportada de Simone du Beauvoir (que li, à espera de que a menina fosse mal comportada, mas sem nenhum conhecimento sobre a autora), Michel Vaillant, e tantos outros, numa amálgama deliciosa que chegou aos 300 e tal livros. Depois dessa lista, acho que não voltei a fazer outra. até hoje. Mas dou-me conta de que a falta de critério se mantém, ou é um critério em si. Pegar num livro e partir. para um novo dia, ou noite. ou ano. "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler"

27.5.06

Vícios

Acho que não falo das minhas leituras há muito tempo... e no entanto, nos últimos tempos tenho lido livros que me têm enfeitiçado. Hoje ficam só as referências. Talvez vos apeteça qualquer coisa boa, agora que chegou a estação das feiras do livro.

Depois de A Mancha Humana, que me impressionou imenso, não esqueci Philip Roth. Por isso lancei-me na leitura de Pastoral Americana e A Conspiração Contra A América (Ed. Dom Quixote). Mas não leiam estes últimos de seguida, que foi o que eu fiz, e agora baralho tudo (apesar de ainda me faltar Casei Com Uma Comunista). Comecei por A Conspiração, que parte de uma hipótese fantástica (vejam a etimologia da palavra): e se em 1940, nos EUA, Roosevelt tivesse perdido as eleições e o Presidente eleito fosse pró-nazista? É esse o pano de fundo de todo o romance. O famoso herói da aviação e isolacionista Charles Lindberg é Presidente dos EUA e a discriminação e o medo começam a alastrar. Philip Roth desenvolve este cenário centrando-se numa família de judeus, a sua, a viver em Newark à época.
Gostei tanto desta obra que me apeteceu continuar na América, em Newark, agora no pós-guerra, isto é, mergulhei na Pastoral Americana (prémio Pulitzer 1998).

Acabada a Pastoral, fiquei desesperada, queria continuar "dependente" de um livro. Foi por isso que finalmente peguei no Murakami.
Não conhecia este escritor, apesar de já me terem falado maravilhas dele. Mas o primeiro livro dele a aparecer nos escaparates das livrarias chamava-se Sputnik, Meu Amor! Associei-o a um Nicholas Spark ou coisa similar e então não, muito obrigado! Foi com cautela que abri as páginas de Kafka À Beira-Mar (Ed. Casa das Letras). Bem, devorei o livro e descobri um novo autor!
Haruki Murakami narra as aventuras de duas estranhas personagens, Kafka Tamura, que foge de casa aos 15 anos, e Nakata, um homem já idoso. Realismo fantástico japonês. Cidades e gatos que conversam com pessoas. Solidão e peixes a cair do céu. Acreditamos que tudo é possível. Já tenho o Norwegian Wood mas, para não fusionar histórias, como fiz com os livros do Philip Roth, vou aguardar. Quanto ao Sputnik, Meu Amor, ainda resisto, certos títulos irritam-me mesmo.


Decidi passar para o último livro do Michael Cunningham, Dias Exemplares (Ed. Gradiva). Li As Horas, Uma Casa no Fim do Mundo e Sangue do Meu Sangue. Esperava reconhecer o ambiente da escrita de Cunningham. Mas ele conseguiu surpreender-me. (eu sei que pareço muito boazinha com os escritores, mas não estou a exagerar, acontece que estes senhores são mesmo bons!)
Este livro tem três partes. Em todas encontramos o mesmo grupo de personagens - um rapaz (que cita Walt Whitman sempre que as suas próprias palavras se esgotam ou demoram a aparecer), um homem e uma mulher (e eu acrescento, uma tigela!).
A primeira parte, que se intitula Dentro da Máquina, é uma história situada em plena Revolução Industrial. Um rapaz de 13 anos vai ocupar o lugar que o irmão, morto devido a um acidente com uma máquina, deixou vago numa fábrica. Esta primeira parte, e as seguintes, valem por si. São contos. Este em particular é obra de mestre. A estrutura narrativa cola-se às casas, às ruas, ao rapaz, à máquina.

Entretanto, e por causa do Famafest '06, voltei a pegar no Samuel Beckett, nomeadamente Dias Felizes (Ed. Estampa) e li pela primeira vez Henry James, porque havia um filme a concurso que fazia a adaptação de A Volta No Parafuso (Ed. Relógio D'Água). O filme era belíssimo mas por questões técnicas foi desqualificado, o livro não me encheu as medidas mas, no final do século XIX, Oscar Wilde descreveu-o como "um conto maravilhoso, terrível e venenoso". É claro que devem dar ouvidos olhos ao Oscar Wilde!
Ainda sobre cinema, gostei de ler Actos de Cinema - Crónicas de um Espectador de Edmundo Cordeiro (Ed. Angelus Novus), um ensaio belíssimo que pensa o cinema de forma filosófica (inspirado nos mestres Deleuze e Bergson).

Agora, ando ocupada com uma série de livros-catálogo do Cineclube da Biblioteca Museu República e Resistência, da autoria de Lauro António (o último, sobre os Irmãos Marx, acabou de ser editado) e com os livros de Paulo José Miranda.

... e tudo isto porque certos vícios são mesmo bons! Aproveitem a estação...

15.2.06

Ainda Henry James


Não foi fácil encontrar obras traduzidas de Henry James. Mas na minha livraria preferida acabei por encontrar estes livros, todos editados pela Relógio D'Água:
- Retrato de uma Senhora
- Os Manuscritos de Jeffrey Aspern
- A Volta no Parafuso
- O Desenho no Tapete

Quem desejar, já sabe o que pedir e onde os encontrar ;)

14.2.06

Autor, Autor


Foi graças ao humor que David Lodge me apanhou. Estava eu a ler A Troca e dei comigo às gargalhadas na cama, e mais gargalhadas, bem sonoras, e a pensar que nenhum livro tinha esse poder, que normalmente os livros nos fazem sorrir ou sentir muito bem, mas não nos fazem quebrar o silêncio. Que essa é uma espécie de regra da leitura, silêncio no momento em que as palavras do escritor são absorvidas por nós. E se as emoções são negativas e chegarmos à intrusão das lágrimas, no máximo ouvimos uma fungadela. Mas A Troca e depois todos os livros que se seguiram (percebi ontem que me escapou Longe do Abrigo), uns mais que outros, fizeram com que quebrasse o silêncio da leitura. David Lodge era terapêutico! Não pensava nele como um excelente escritor até... já não sei que livro, talvez O Mundo é Pequeno. Via-o como um excelente guionista, todos os livros eram muito visuais, com um rasgo particular para comédias, e era acutilante na revelação dos non-senses do quotidiano, na sublimação de determinados preconceitos e estereótipos sociais. Os seus temas eram recorrentes - a vida académica, o contexto da produção cultural ou científica, a vida sexual dos casais católicos antes do Vaticano perdoar o uso da pílula - mas os seus livros continuavam a ser eficazes. Quando ouvi falar do seu último livro, não fiquei surpreendida. David Lodge é professor de literatura e os seus protagonistas normalmente são também docentes, os mais famosos, de literatura, ou então são escritores ou, pelo menos, são personagens que têm que lidar com a produção de textos. Mas Autor, Autor é um livro completamente distinto.

David Lodge escreve sobre Henry James. Eu nunca li Henry James, pelo que comecei este livro convencida de que ia perder (muitas vezes) o sentido da obra e de que me iria aborrecer imenso. Enquanto não ler o Mestre não vou saber exactamente o que perdi, mas fiquei encantada com a escrita. Diz o autor que quase tudo o que acontece nesta história se baseia em fontes factuais. Com uma excepção insignificante, todas as personagens existiram realmente. As citações dos seus livros, peças de teatro, artigos, cartas, diários, etc., correspondem às suas próprias palavras. A pesquisa que DL fez é notável e a forma como compôs esta obra é excepcional. Todos os factos se ligam com naturalidade, a montagem é subtil, pelo que a leitura é agradável e fluida. George du Maurier, Bernard Shaw, Oscar Wilde são alguns dos personagens que se cruzam na vida ou na plateia dos teatros com Henry James. Mas o mais interessante para mim não foram os detalhes de natureza biográfica, foi o exercício de composição. E o estilo adoptado, é o de Henry James? Não sei, mas ouve-se o Mestre. David Lodge usa uma linguagem e um ritmo narrativo coerentes com a época em que se situa o romance (final sec. XIX, início sec. XX). Entramos completamente no n° 21 de Carlyle Mansions ou na Lamb House em Rye, as casas do escritor, e nos vários ambientes que o protagonista frequenta. Mas sobretudo, entramos na mente do escritor Henry James, seguimos os entusiasmos e as hesitações, as mudanças de humor, os raciocínios que o levam a seguir determinadas opções estéticas. O escritor David Lodge, esse, optou por apagar o corpo de Henry James, deixando-o celibatário e casto toda a vida (no prefácio existe uma pequena referência à questão da sexualidade, e as opiniões são coincidentes). A sua intenção é clara, o título não engana. Este é um livro que versa sobre o processo de criação artística.

E é, em si, um acto de criação exemplar.

Link extra: artigo da Visão

Desejo

James White


Nicole Kidman já foi Isabel Archer (Retrato de uma Senhora), uma das heroínas de Henry James. Mas hoje lembrei-me dela por causa desta foto belíssima. Não é que ligue muito a esta invenção que é o dia dos namorados, mas pronto, desejo-vos este fulgor e toda a beleza do mundo, pelos menos aos olhos e nos olhos dos vossos amados ou amadas.