27.9.06

Sessões contínuas

Foto MRF

Durante as férias em França, ficámos alojados numa casa em que um quadro com uma enorme colagem de fotos de Marilyn Monroe chamava a atenção. Essa composição, elaborada, e entretanto abandonada, por alguma adolescente sonhadora, acabou por se tornar o centro das atenções de uma das minhas filhas de seis anos. Quem é, se existe mesmo (esta é uma pergunta recorrente para todas as figuras que ela vê na televisão ou em fotografias de revistas, do Primeiro-Ministro à Floribella), onde está essa pessoa naquele preciso momento, se está a fazer o que se vê na imagem, ah morreu!, se era velhinha quando morreu, se já foi há muito tempo, quanto tempo, etc.. Mal chegámos a Portugal, por coincidência, soube que ia ser transmitido um filme da Marilyn - Marilyn quê? Monrô! - num sábado à noite, e todos os dias perguntava quantos dias faltavam, depois quantas horas. Acabou por ver Bus Stop/Paragem de Autocarro, e desde então, pergunta todos os fins de semana se vai passar outro filme da Marilyn Monrô. As Winx ainda não foram destronadas, mas falta pouco!

Tenho o hábito de comprar imensas revistas que acabo por não ler, ou de que leio apenas alguns artigos e que, depois, reencontro por acaso, e então releio... às vezes os mesmos artigos... É o caso da Lire. O último número traz na capa a minha adorada Amélie Nothomb e só por isso não resisti a comprá-la. Por isso, e pelos contos (e desta vez, a entrevista) do Enrique Vila-Matas. Enfim, por acaso também há uma reportagem sobre a Camille Laurens, que já referi neste blog várias vezes, e sobre a Christine Angot, já que uma das temáticas é "escritoras insólitas". E vem um guia com os novos livros da rentrée littéraire. E um extracto do primeiro romance de Jonathan Littell (filho do escritor Robert Littell), dado como uma das melhores surpresas deste ano.


Mas eis que vejo a minha filha a ler a Lire! As suas leituras, normalmente em voz alta, são sempre muito imaginativas, até porque só agora entrou para a escola. Centro de interesse: uma reportagem com fotos da Marilyn Monroe. A Lire entrevista Michel Schneider, autor do livro Marilyn Monroe, dernières séances, e ilustra o artigo com algumas das 59 fotografias que Bert Stern tirou à actriz em 1962 (para a Vogue), agora em exposição no Museu Maillol. Com Bus Stop bem memorizado, ouvi a minha filha dizer à foto de Michel Schneider que ele tinha que ser mais meigo, que as mulheres não gostam de homens brutos, mas que se ele se portasse bem e pedisse desculpa, casava com ele.


Foi difícil explicar-lhe que neste romance se especula (ainda) sobre as circunstâncias da morte de Marilyn, que Michel Schneider se centra na relação da diva com o psicanalista (mais influente de Hollywwod) Ralph Greenson, que Michel Schneider é, ele próprio, psicanalista, que o livro acaba por abordar as relações entre o cinema e a psicanálise, porque entre 1945 e 1965 Hollywwod produziu um número imenso de filmes que representam a cura analítica, seja sob a forma do psi que resolve todos os problemas, seja sob a forma maléfica do psi louco, até porque na época de Marilyn todos os produtores, realizadores e actores se andavam a deitar em divãs, influência dos imigrantes judeus da Europa Central que traziam Freud na ponta da língua e se instalaram na Costa Oeste americana, e que Marilyn não fugia à regra, mas que Greenson fugiu a todas as regras como psicanalista e que, por isso, é possível que tenha sido ele a matá-la. Também não lhe disse que o mais importante, segundo o autor, é que este romance nos leva a reflectir sobre o conflito, em cada um de nós, entre as imagens e as palavras. A verdade não reside na imagem, mas também não está contida unicamente nas palavras. A verdade encontra-se na confrontação permanente entre imagens e palavras, entre as representações que nós temos de nós e as palavras com que conseguimos legendar essas imagens. E que Schneider nos ensina ainda que existe o que, em termos psiquiátricos, se designa por "loucura a dois": tomados separadamente as duas pessoas não são loucas; em conjunto aparece uma loucura que nunca se teria revelado nas suas vidas se as suas trajectórias não se tivessem cruzado.

Marilyn morreu. E hoje, quais são os laços entre Hollywood e a psicanálise? Segundo Michel Schneider, já não existem, até porque nos EUA a psicanálise morreu.

E na Europa? Ainda não.

Talvez um dia, um psicanalista me explique os processos inconscientes que levaram a minha filha a fixar a imagem de uma (falsa) loira, bela e frágil, a posar em diferentes posições numa manta de retalhos criada por uma outra menina, há uma ou duas gerações atrás, também ela certamente apaixonada pelas mesmas imagens. Qual a génese destes mitos de eterno retorno?


1 comentário:

francis disse...

A Marilyn encanta-me, confesso. Bela, frágil, jovial e mais não sei porquê. No entanto não há outra igual. Penso que a fatalidade do seu desaparecimento precoce contribiu definitavamente para a sua mitificação/imortalidade.
Saio sempre daqui mais rico :-)
Um beijo!!!