13.9.06

Angel-A


Acho que é difícil não nos lembrarmos de Asas do Desejo de Win Wenders. Mas Angel-A é outro filme. É um pequeno conto. E, não tendo o argumento a qualidade do filme de culto de Wenders, é, mesmo assim, um conto fantástico, deliciosamente interpretado pelos divinos mortais Jamel Debbouze e Rie Rasmussen.


Em todos os filmes de Luc Besson existe uma personagem que está, ou melhor, é, só, profundamente só, e que estabelece uma ligação única com alguém, outro humano ou parahumano (por que não inventar uma palavra?). É a fórmula que Besson utiliza para nos levar a questionar a essência do ser humano. Como definir os universos de Jacques Mayol, Nikita, Léon, ou, neste filme, André e Angela?

Criando estes seres extremos, explora invariavelmente relações entre opostos que se atraem. Em Angel-A, como em Léon, o contraste entre as figuras/estaturas físicas dos actores torna gritante esse recurso (quem viu Léon não esquece Jean Reno e Nathalie Portman, então uma menina). Em Angel-A, como Mayol e Enzo Molinari, ou Mayol e Johana, em Le Grand Blue, André e Angela são duas personalidades absolutamente distintas que se compreendem. Os pares encontram-se, evoluem, mergulhados em enormes doses de confronto (físico, verbal), sedução, desejo, humor, até à plenitude dos sábios silêncios e da incomensurável ternura. O outro passa a ser TUDO.


Não interessa a forma de TUDO. Pode ser o fundo do mar habitado por golfinhos, a futurista Leeloo (e como Milla Jovovich se parece com Rie Rasmussen!), uma Mathilda Lolita de 12 anos, um anjo. Ama-se esse outro que é TUDO porque, por oposição, é puro, extremamente belo e encantado e dotado de uma força sobrehumana. Ao mesmo tempo, e só assim poderia nascer esse amor por TUDO, existe uma enorme fragilidade. TUDO contém sempre uma ausência de (palavras, orientação, corpo) que cria amarras. TUDO precisa do homem simples, do seu instinto de sobrevivência, da sua manha ou do seu código, da sua extrema e limitada dedicação. TUDO é o que o homem quer ser, ou o que o vai engrandecer.

O passado da(s) personagem(ns), que é desvendado aos poucos, é sempre a chave para a compreensão do laço que os dois vão criar. O passado é triste, negro, bizarro,
impossível, conferindo a um dos personagens uma aura irreal. E há sempre uma busca de salvação.

Em todos os filmes de Luc Besson, o amor que nasce entre esses dois elementos aparentemente contrários torna-se vital e libertador. A morte está sempre presente, tempera todas as relações com ameaças ou doces apelos. Em Le Grand Blue, mergulhamos no oceano da morte com pele de golfinho, suavemente. Mas normalmente, mesmo que necessária, em Besson, a morte é brutal. Desta vez ele abençoa-nos com o sonho.

André/Jamel Debbouze acaba desesperadamente agarrado a Angel-A, não suporta a condenação que é essa perda. Quem deixaria fugir o seu anjo da guarda! Mas não me lembro de outra cena igual a esta na (minha memória elementar da) História do cinema. Sobre os desejos e anseios deste anjo, nada vos digo, quero mesmo que os ouçam em francês!

E depois..., depois que o belo vos console. Paris a preto e branco, Paris e suas pontes, os truques com a câmara, às vezes óbvios, como colagens infantis, a Vitória de Samocrácia fundida com Angela/Rie Rasmussen, as asas brancas, o vôo sobre o Sena, e a música de Anja Garbarek.


Luc Besson criou alguns dos meus filmes de culto, não resisto a deixar-vos uns links que são convites à partilha. Já agora, estejam também atentos às (novas) produções da EuropCorp. É que Besson criou um dos raros estúdios independentes e integrados (associando produção e distribuição) na Europa. Se tiverem dúvidas sobre a importância de afirmar o cinema europeu no mundo ou, se quiserem, apenas, uma cinematografia que constitua uma alternativa ao modelo (modelos) americano, talvez não se espantem nem entristeçam face a situações como a que vos vou (ainda) relatar:
Na bilheteira da sala de cinema onde fui, da LUSOMUNDO, apercebi-me que os pedidos de bilhetes para as sessões de Angel-A suscitam uma reacção particular junto dos vendedores. Eles "avisam" o público de que o filme é em francês e a preto e branco. Um jovem casal à minha frente, por exemplo, acabou por desistir de ir ver o filme. Quando chegou a minha vez, e dado que o "aviso" se repetiu, queixei-me da atitude. Interessa acrescentar que esta semana, Angel-A é, provavelmente, o melhor filme em exibição em Aveiro? Mesmo que não seja! A justificação que obtive foi a de que alguns clientes já tinham pedido a devolução do preço dos bilhetes ao deparar-se com um filme com essas características - em francês (o título "Angel-A" é enganador) e a preto & branco! Fiquei sem palavras. Quando não gostamos de um livro, vamos devolvê-lo à livraria? Os nossos critérios de escolha afunilaram assim tanto? É aceitável a pedagogia ultra-pragmática aplicada nas salas de cinema?

(pausa)
(Besson, de novo:)




Não percam ainda: Léon (vídeo); o site oficial de Luc Besson; o surpreendente trailer de Arthur et les Minimoys, o anunciado último filme de Besson (como realizador).

2 comentários:

Amaryliz disse...

Diva,
A Diva (Maria do Rosário) não imagina o quanto me fez feliz com este post; a riqueza dos links (que belos, todos, e ai que saudade de Wim Wenders, que parece ficou de mal com os anjos).

Mas tudo, as considerações, ah, que coisa muito, muito rica!
Eu agradeço como se houvera recebido um presente de propósito para mim.
Um grande beijinho

MRF disse...

Amaryliz,

Muito obrigada pelas suas palavras tão doces. mas não me trate de Diva. Divas e "contrabaixos" (estes últimos mais discretos mas essenciais em qualquer boa orquestra) são todo/as aqueles que merecem adoração. Eu partilho apenas (preciso disso) alguns dos prazeres que a vida e arte nos dão. Acho que encontrei em si alguém capaz de sentir um brilhozinho nos olhos nos mesmos momentos. E isso é mesmo bom! :)

abraço grande