31.8.08

À escuta #75


[Espontaneamente e sem se aperceberem da questão sensível que abordavam, as minhas filhas de 8 anos que, até agora, eu via como mamãs sempre sonhadoras rodeadas dos seus imensos filhos imaginários (sobretudo a S., cujo instinto maternal a leva a tratar os seus nenucos com extremo cuidado, alimentando-os todos os dias, mudando-lhes a fralda e a roupa - que lava e pôe a secar com regularidade, etc., etc.), revelaram-se a favor da legalização da IVG! Eu, confesso, tive dúvidas quanta à orientação a dar...]


- O tio R. foi um bebé inesperado, o vovô e a vovó pensavam que já não teriam mais filhos...
S - Isso é possível? Então pode acontecer uma senhora ficar grávida sem querer ter filhos?
- Pode...
S - Que chatice! Então e ela tem o filho que não quis ter?
- Oh, depois o bebé nasce e os pais adoram logo o filho..., foi o que aconteceu com o tio R.. E eu fiquei mesmo feliz quando soube que ia ter mais um irmão...
S - Mas imagina que uma mãe não quer mesmo, ela não pode parar de ficar grávida? Sei lá, ir ao médico e dizer que se enganou...
- Uma gravidez não se interrompe assim de qualquer maneira... Se o casal não quer ter filhos, deve ter certos cuidados. Há coisas que as mulheres e os homens devem fazer para o espermatozóide não chegar ao óvulo. Eu já vos falei...
A - Mamã, mas imagina que a senhora já tem 38 filhos e descobre que está outra vez grávida, e que não tem dinheiro para tratar dos filhos todos, coitadinha. Ela não pode fazer nada?
- Nesse caso, eu acho que o médico ia compreender, até porque para a saúde da senhora seria mau ter ainda mais filhos...
A - Ah!
S - Ninguém tem 38 filhos! Nem 20! ... Não pode ser, não é?
A - Se calhar até pode, porque certas pessoas não podem tomar todos os medicamentos..., como a pírula ou lá o que é... e então pode acontecer.
S - 38 filhos? Os médicos não deixavam! Se eu fosse médica, não deixava! Mas a sério, por exemplo, se tu ficasses grávida sem querer, pedias ao médico para parar a gravidez?
- Eu acho que certas pessoas podem ter razões para não deixar avançar a gravidez, eu se calhar não tinha razões suficientes, não é?
S - Pois, mas ficar grávida sem querer é mau.
- É por isso que os casais pensam antes de fazer amor.
A - Pensam o quê?

27.8.08

To hold dear

Saudades desta luz. e da família. alma de filha e de mana reaquecida. Com o mais novo, horas de prosa e de música. Partilhas, mas sobretudo revelações: Zélia Duncan, Gogol Bordello, Brandi Carlile, Bossa n'Stones, Deolinda, Colbie Caillat, The Pierces, Yael Naim. Dez anos de diferença entre irmãos tem as suas vantagens. O download dos álbuns foi canja (ainda sou presa...).
E de palavra em palavra, acabámos com o som de David Fonseca e Rita (Pereira) Redshoes. Eu não conhecia o começo da carreira da Rita, nem este clip belíssimo. A canção: Hold Still.


Montagem de fotos de Augusto Brázio
Realização de David Fonseca e Augusto Brázio

22.8.08

Le troublant "Incendie du Chiado" de Vallejo


A famosa rentrée littéraire em França, com a edição de centenas de novos livros, ja começou. A batalha por uma noticia nos media e pelos prémios literarios até ao final do ano é feroz. François Vallejo parece que conseguiu chegar às meias finais com uma obra que nos diz respeito. A tradução é quase certa, estejam atentos!

Ângulos

Ontem, a França não obteve nenhuma medalha nos JO (e desceram para 13° no ranking global das nações medalhadas). Ontem, Portugal obteve a sua primeira medalha de ouro. Nenhum programa televisivo francês - jornal, magazine, diario dos JO -, fez referëncia a Nelson Evora. Apesar do milhão de imigrantes portugueses.

O zapping não deu em nada. para além do genial e carismatico Usain Bolt. das lagrimas de Ladjie. e da repetição integral a todas as horas da cerimonia de homenagem aos dez soldados franceses mortos no Afeganistão - nos Invalides, com um Sakorzy omnipresente. (Os media portugueses deram algum destaque à emboscada que vitimou estes militares franceses, ao serviço da Nato?)

Gosto de azulejos!

21.8.08

O mundo todo abarco e nada aperto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando,
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


Luís de Camões

20.8.08

«um pequeno pagem de cerca de onze anos»

"(...) mas no que dizia respeito à sucessão do trono, era incontido o júbilo dos monarcas.
Um facto ensombrava contudo aquele momento, sobretudo no que tocava a D. João III: a ausência do infante D. Luís, condestável do reino, que à revelia do rei seu irmão e sem obter autorização prévia decidiu partir de Évora para se juntar, em Barcelona, às tropas de Carlos V, que naquela cidade da Catalunha preparavam a expedição de Tunes contra os Turcos. Apesar do seu grande descontentamento perante o facto consumado, bem patente na ríspida carta que em 13 de Maio de 1535 escreveu a António de Ataíde, conde de Castanheira, sobre o auxílio a enviar a D. Luís, D. João III teve de empenhar-se no auxílio a fornecer à expedição, em cujo numeroso séquito seguia um pagem de cerca de onze anos de idade, chamado Luís de Camões.
Não era, contudo, a primeira vez que se manifestava a «ansiedade guerreira» de D. Luís, bem conhecida na corte portuguesa. Anos antes, em 1530, o embaixador castelhano, Lope Hurtado, fazia menção ao projecto já então acalentado pelo segundo e dilecto filho de D. Manuel de combater o Turco junto do imperador. Fê-lo, então em 1535,na conquista de Tunes. As forças cristãs, sob o comamdo do imperador, obtiveram a 14 de Julho desse ano de 1535 retumbante vitória militar e a conquista daquela cidade do Norte de África, saldando-se também aquele sucesso para D. Luís, eterno segundo, vítima e um sistema em que era, afinal, tanto e tão pouco, por um prestígio amplamente celebrado no tempo, em particular em círculos literários próximos da corte - o poeta e humanista Francisco de Sá de Miranda dedicou-lhe a écloga Célia, em que se exaltava o feito cristão contra o infiel, e as virtudes reveladas pelo infante;..."


in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 201


Nota: 473 anos depois, no mesmo dia 14 de Julho, um bando de portugueses infiltrou-se na medina de Tunes para chegar à conclusão que os únicos invasores bem sucedidos... eram suecos.

À escuta #74


A - Eu tenho três filhas, a Flora, a Stela e a Flor. Não tenho mais filhos porque não tenho dinheiro para pagar tudo o que é preciso..., por exemplo, os filhos precisam todos de Bilhete de Identidade! São doidos, ninguém aguenta!

[A., 8 anos]

18.8.08

Sidi Bou Said #2

Mounir Letaief

Em Sidi Bou Said, conhecemos o pintor Mounir Letaief e o seu atelier/galeria. Espreitem aqui, a pintura, a galeria e, se puderem, aceitem o convite para estagiar em Sidi Bou Said.

17.8.08

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

14.8.08

Sidi Bou Said #1

Sidi Bou Said foi fundada por refugiados Andaluzes, que fugiam da Inquisição, no decorrer dos séculos XVI e XVII. No total, foram cerca de um milhão a instalar-se no Norte da Tunísia, introduzindo novas técnicas agrícolas, novo artesanato e uma nova organização social. A cidade é actualmente um grande centro turístico mas não perdeu o seu charme. Chamam-lhe "a terra azul e branca" e é fácil perceber porquê.


Fotos BG
Julho 2008

10.8.08

Cartago #1


Cartago,na Colina de Byrsa, a 18 km de Tunes
Formação de Cartago: 814 a.C.
Terceira Guerra Púnica, 149-146 a.C.: Caída de Cartago


Foto de BG
Julho 2008

8.8.08

Alô Alô

Assistir na France2 à transmissão dos JO tem o seu quê de irritante. Sarko inicia a emissão especial com uma entrevista______ e viram alguma delegação (de atletas) ser presenteada com mais tempo de antena do que a francesa? Acho que nem os EUA... A China decidiu agradecer calorosamente a Sarkozy a presença na cerimonia de abertura, como Chefe do Estado francês e como Presidente da CE... via tempo de antena! A irritação nasce da reacção cinica dos franceses em relação à presença de Sarkozy e, post podium televisivo, a quantidade de aplausos e "Viva Sarko" que ouvi. Os comentadores não fizeram referência a quaisquer assobios no estadio olimpico (apenas tomei conhecimento via Publico). Quanto ao Dalai Lama, Sarkozy esclareceu: Carla vai estar presente na inauguração de um novo templo budista no Sul de França e, até ao final do ano, não vão faltar ocasiões para se encontrarem.
Ja agora, a equipa portuguesa foi agraciada com varios comentarios positivos a diferentes atletas... e ja se referiu a candidatura de Portugal à organização dos JO de 2020. Ah, o susto que apanhei!

JO de Pequim

É hora de desejar boa sorte a todos os atletas portugueses mas, desculpem lá o bairrismo, nestes Jogos vou torcer em particular pelo nadador Diogo de Carvalho do "nosso" Clube dos Galitos!

Foto MRF

2.8.08

Zeca Afonso


1983, Coliseu. Eu, entre tantos, a cantar e a bater palmas. Foi o último espectáculo do Zeca Afonso (m. 1987). Há muita emoção nesta memória. Passaram-se quinze anos. Hoje, vivo na terra que viu o Zeca Afonso nascer - a 2 de Agosto de 1929 -, e as minhas filhas sentam-se nas carteiras de uma escola que ele frequentou. Aqui ao lado, uma rua tem o seu nome.

Tordesilhas

Tratado de Tordesilhas
Ler Documento completo


"Tordesilhas, junto ao rio Douro, vila tranquila e amena onde nos inícios de 1509 entrou a rainha de Castela e herdeira de Aragão [D. Joana], era um dos lugares onde os monarcas castelhanos possuíam paço, constuído na época de Henrique III (r.1390-1406), parte de uma rede de residências régias que a itinerância e a mobilidade próprias da realeza medieval tornavam necessária à pousada e estadia dos monarcas e da corte que os acompanhava, e terra ligada a ocasiões de subida importância política para a monarquia castelhana - como fora, em 1494, a assinatura do tratado que dividia o mundo com o vizinho reino de Portugal. (...) Foi a chegada de D. Joana que havia de conferir-lhe uma relevância simbólica única - embora fossem outras figuras que por ela exerceram o poder noutros lugares, Tordesilhas alcançava então o estatuto de verdadeira sede da corte e de capital do reino de Castela ao longo de quarenta e seis anos, até à sua morte. Porque, na verdade, a darmos inteira razão ao sábio Afonso X (r. 1252-1284) de Leão e Castela, a corte era onde estava o rei... ."

in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 43-44