Mostrar mensagens com a etiqueta Morte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Morte. Mostrar todas as mensagens

27.4.14

Vasco Graça Moura

Há muitos anos, a Anabela Mota Ribeiro tinha uma programa televisivo em que entrevistava casais. Vasco Graça Moura e a mulher de então, Rosarinho, foram um dos casais convidados. Nunca mais esqueci a crítica da minha homónima, que se queixava de que ele era demasiado pró-Cavaco (Primeiro-Ministro na altura!?), demasiado, demasiado! E eu a gostar tanto dela. Porque era verdade, era verdade! Mas dep...ois ele começou a falar das filhas e leu alguns poemas que escrevera para elas. Belíssimos! Quanta sensibilidade, quanto amor! Vasco Graça Moura era grande na sua arte e imenso no seu saber humanista e erudito. De resto, preconceito meu, era essa imensa Cultura que me fazia não aceitar a sua associação àquele pequeno poder cinzentão e deprimente (que se perpetua...). E comprava os seus livros e admirava as suas épicas traduções, sempre segura da qualidade, sempre ligeiramente irritada. A morte lava as pequenas fúrias. Estou triste pela sua morte.


As meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,

a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:
entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.
a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.
e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

2.5.12

Fernando Lopes (1935-2012)

Foto: Ângela Camila Castelo-Branco/Grand Monde

I. Belarmino [1964], uma longa-metragem sobre a vida do pugilista Belarmino Fragoso, considerada obra-chave no movimento do Novo Cinema português, ao lado de Dom Roberto (José Ernesto de Sousa) e Os Verdes Anos (Paulo Rocha).


II. Uma Abelha na Chuva [1972], baseado no romance homónimo de Carlos de Oliveira.


III. Nós por cá todos bem [1976]. Argumento, escrito por Fernando Lopes. «O filme mistura actores profissionais com habitantes de uma pequena aldeia portuguesa. Possui uma forte componente documental, quebrando com os mecanismos convencionais da ficção que também utiliza. Conta a história de uma pequena equipa de filmagens numa aldeia entretida com alguns dos aspectos do seu dia-a-dia.»


IV. Crónica dos Bons Malandros [1984], baseado no romance homónimo de Mário Zambujal.


V. O Delfim [2002]. Argumento escrito por Vasco Pulido Valente, baseado na obra homónima de José Cardoso Pires.


VI. 98 Octanas [2006], uma longa-metragem de ficção de Fernando Lopes, co-escrito pelo crítico de cinema João Lopes. É famoso por ter o diálogo: "- Vamos para onde? - Longe. - E onde é que isso fica? - Perto."


VII. Os Sorrisos do Destino [2009].«Carlos é um famoso jornalista de 55 anos. A sua esposa, Ada, é, ao contrário do marido, uma mulher com uma vida social agitada, alegre e sedutora. Certo dia, Carlos apanha acidentalmente uma mensagem no telemóvel de Ada. Um novo mundo revela-se diante dos seus olhos quando descobre que a sua esposa tem outro homem. Com a ajuda de um amigo com quem vai viver, descobre esse universo de amores virtuais e adultérios electrónicos...»


VIII. Em Câmara Lenta [2012], o último filme de Fernando Lopes. «Um longo mergulho no mar transforma-se numa intensa travessia pela vida de Santiago e pelas suas relações. A paixão por Constança. O casamento com Laurence. A cumplicidade do amigo Salvador. O mais recente filme do realizador Fernando Lopes abre-nos a porta para uma intrincada teia de relacionamentos. Ao inevitável "quem eu sou?", as personagens de "Em Câmara Lenta" respondem com "não sei quem tu és." »

17.10.06

AMOR-TE


Já houve tempos em que não foi assim, mas agora não penso muito na morte. ou prefiro não pensar. Não me lembro de temer o nada ou a vida para além da morte. Temo a separação. sentir a fragilidade daqueles que amo. ou passar pela dura aprendizagem de viver a ausência de alguém. Assusta-me a dor, física e psicológica, que associamos a esta passagem, o prolongamento artificial do tempo, pela consciência súbita da preciosidade do momento, ou porque uma máquina nos quer reter, a satisfação das últimas vontades e a concessão de prazeres, estes quase sempre pequenos, comoventes, com que se mascara a tortura da espera. Temo o desespero. não a morte.

Por causa de um episódio particular vivido aos vinte anos, encaro a morte como uma quase-entidade, movida por vontade própria. Como no Sétimo Selo de Bergman, veste negro, e um capuz encobre-lhe o rosto. Quando um familiar meu adoeceu gravemente, há já alguns anos, lembro-me de pensar que esse vulto nos andaria a rondar, e que, como no filme, certamente levaria outras pessoas desprevenidas, antes do jogador que desafiava aos olhos de todos. Sentia medo desses caprichos___ em que acreditava.

A morte gosta de nos surpreender. No entanto, é quando nem damos pela sua chegada que sofremos menos. que a morte não dói. Talvez seja por isso que me assustam as viagens de automóvel mas não sinta muita ansiedade quando viajo de avião. O tempo elástico, curto-súbito, sempre nos protege do galopar das angústias. Padecer de uma doença grave, que se arrasta, nos arrasta, arrasta todos à nossa volta até à despedida, é o pior dos cenários que posso imaginar.

É por isso que não sei o que pensar desta exposição,
Amor-te. Walter Schels e Beate Lakotta lançaram-se num projecto de foto-reportagem que não deixa ninguém indiferente. Procuraram doentes terminais e acompanharam-nos até à morte. O resultado é um conjunto de fotografias, organizadas por pares, retratando essas pessoas "antes de" e após a morte.


A curiosidade mórbida dos autores, ele fotógrafo, ela jornalista do Der Spiegel, pode ser discutida, inclusivé do ponto de vista ético. mas as pessoas fotografadas permitiram certamente esta invasão de privacidade. A exposição está patente no Museu da Água, em Lisboa, de 3 a 28 de Outubro. Leio no blog de Amor-te as perguntas: Como encarar a morte? Consegue ultrapassar o medo e contemplar o seu rosto?

Mas não é a morte que eu vejo. Vejo o tempo curto-súbito-longo entre uma foto e outra, e isso faz-me sofrer. Não me parecem 44 fotografias onde a vida, o amor e a morte se espelham em cada um dos rostos retratados. Eu só vejo dor viva, e depois, uma subtracção. de olhar.

Encarar a morte não é surpreender alguém a fechar os olhos.

Passei por
aqui e espantei-me com Amor-te. Mas, se não for ver a exposição, não é por não aceitar a condição mortal do ser humano ou me impressionar com a pele baça e fria do morto. É por (ainda) resistir à ideia de que o sofrimento faz parte da vida. e não gostar que me violentem, em nome da arte ou de uma qualquer pseudo-sociologia mediática.