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5.6.14

Passagens

"(...) São sempre os outros que vemos morrer, mas também um dia a morte bate contra nós: um carro que se despista numa curva, um pneu que rebenta (...). Num segundo acabou, tudo aconteceu muito depressa. Há coisas que não podemos controlar.

(...) Um dia não controlamos o que nos acontece e subimos no elevador a caminho do quarto de um motel.

(...) Podíamos escolher sim ou não, mas escolhemos sim. Estamos vivos, conscientes. (...)

A vida pulsando, indiferente ao bem e ao mal. O coração batendo, o sangue circulando, o corpo vivo.
E no entanto a realidade vem sempre outra vez ter connosco. "

in
Teolinda Gersão, PASSAGENS, Sextante Editora, 2014, p. 138

20.5.08

Novidades para quem sofre do mal de Montano

Eu já fui um homem sem qualidades. Mas Robert Musil é outra coisa. Para o ler, tive que pedir os volumes emprestados a um amigo que os herdara do pai. A edição portuguesa esteve esgotada durante anos. É a primeira novidade: a Dom Quixote acaba de publicar, com tradução de João Barrento, uma nova edição de O Homem Sem Qualidades.

Eu já tinha pedido a tradução, eu até já tinha descoberto Rayuela pela voz do próprio, Julio Cortázar, mas em Abril, graças à Cavalo de Fogo, a obra do escritor argentino foi finalmente traduzida e editada em Portugal.

Eu li e reli muitas obras de Teolinda Gersão, entre elas A Árvore das Palavras. Agora fiquei a saber que a Sextante Editora reeditou o livro e, o que me deixou muito feliz pela autora e amiga, este romance vai ser lançado em Inglaterra em 2009.

às vezes é assim, só boas notícias.
ou quase.

18.5.07

Às vezes o amor



"As cidades onde marcavam encontros furtivos, o mapa que iam traçando, ponto por ponto, no corpo e na memória, e incluía bares, hotéis, aeroportos, cadeiras do Jardim do Luxemburgo, o início do Tiergarten, o relógio do Bahnhof Zoo, horários, mesas de café, altifalantes, lojas, impressos, chegadas e partidas, filas de trânsito onde táxis avançavam penosamente sob a chuva.
Incluía todas as cidades possíveis, excepto a deles, que se tinham tornado opacas, porque as tinham colocado provisoriamente no parêntesis da vida. Ignoravam-nas no tempo intermédio, e só se sentiam vivos a caminho de outras. (...)

Se o amor acabesse, pensaram saindo do taxi com as malas e partilhando ainda o mesmo guarda-chuva antes de partirem para destinos diferentes, se o amor acabasse, todas as cidades se tornariam ilegíveis."

A Mulher que Prendeu a Chuva, in: Cidades, pp 105-106
Sudoeste Editora, 2007


Aproveito para vos informar das datas das próximas apresentações do último livro de Teolinda Gersão:

FNAC NORTESHOPPING
19 de Maio, Sábado, 21:30

FNAC COLOMBO - LISBOA
29 de Maio, Terça-feira, 18:30

14.5.07

A Mulher que prendeu a chuva #3

No conto "A Mulher que prendeu a chuva"(1), uma mulher é responsabilizada pela seca e sacrificada. O que aparece aqui como um possível mito africano foi um mito no Ocidente na época medieval: a mulher encarnando o mal.
Nesta narrativa, o povo da tribo hesita, não quer matar "a mulher que prendeu a chuva", mas vence o pensamento mágico.

No conto "Roma"(2), lemos: "[no Coliseu havia] tronos de mármore onde as Vestais se sentavam, na mesma fila dos Senadores (a crueldade das virgens, dissemos). E depois recordámos que as Vestais eram mortas quando cediam ao desejo de um homem e morriam sufocadas dentro de paredes, não sem antes lhes ter sido dada uma vela acesa e pão, para terem tempo de ver a extensão do seu erro, antes de sucumbirem à sua morte vagarosa." (p. 49)

No conto "História antiga"(3), uma mulher que sempre fora "escrava" do marido é assassinada por ele, quando as vizinhas o avisam de que ela tem um amante. "Esteve preso alguns meses e foi julgado, mas o juiz acabou por o mandar em paz. não era crime matar a mulher própria, quando apanhada em flagrante." (p. 75)


--- desfazendo uma representação contínua da História,
pergunto: sendo certo que os tempos se justapõem. que resquícios do passado se cruzam ainda na nossa mentalidade?


(1)(2)(3) in  A Mulher que Prendeu a Chuva, de Teolinda Gersão

11.5.07

A Mulher que prendeu a chuva #2

Um homem de negócios viaja até Lisboa. Fá-lo com frequência, pelo menos uma vez por mês. Compreende a língua o suficiente para não precisar de intérprete, porque viveu parte da infância e juventude no Brasil. Na suite do hotel onde fica alojado surpreende uma conversa entre duas mulheres africanas que fazem limpeza. são elas que contam a "história" da mulher que prendeu a chuva. Teolinda Gersão criou uma micronarrativa dentro da narrativa principal.

Num mesmo espaço acontece assim um encontro - entre duas concepções do mundo. A representação do mundo que emerge da conversa entre as imigrantes africanas, da história que uma conta a outra, plena de pensamento mágico, opõe-se, em princípio, à racionalidade do estrangeiro em negócios. Mas ele vai ficar afectado pela representação mágica. e estranha o encontro: "de repente, quando entreabri uma das portas, na sala ao lado estava um pedaço de África, intacto, como um pedaço de floresta virgem. Durante sete minutos, exactamente sete minutos, fiquei perdido na floresta." (pp 83)

Este conto, que dá nome ao último livro de Teolinda Gersão, remete-nos para a sociedade globalizada em que vivemos, a uma escala, hoje, nunca antes vivida. A globalização tem aspectos predominantemente tecnológicos, económicos e de migrações. A evocação das imigrantes africanas e do seu saber são uma proposta de recusa de uma representação do mundo em que só exista um sentido. Aquilo que Teolinda Gersão faz é integrar o discurso de uma (dita) minoria no nosso universo e torná-lo cosmopolita; deslocá-lo da periferia (a longínqua África) para o centro.

Se extrapolarmos, o discurso das duas africanas pode também ser percebido como uma denúncia. Os "centros" tendem a encarar as práticas culturais, a criação artística e intelectual das "periferias" como meramente exóticas, relegando-as com frequência para um plano secundário, afastando-as dos circuitos internacionais da arte e da cultura.

A evolução desta globalização não é de todo linear e, sobretudo, é tensional. O homem de negócios comenta: "Não há nada de errado comigo. Lisboa é que não era, provavelmente, um lugar normal." (p.  84)

Mas hoje em dia, graças às migrações, já não é possível surpreendermo-nos quando múltiplos discursos e representações coincidem num mesmo espaço (espaço-hotel, espaço-cidade, espaço-país, espaço-Europa). Na verdade, sem nos darmos conta, somos já produtos híbridos - como de resto o personagem, que passara os primeiros anos de vida no Brasil.


--- a propósito do conto A Mulher que Prendeu a Chuva, de Teolinda Gersão
Sudoeste Editora, Março 2007

10.5.07

A Mulher que prendeu a chuva #1

A chuva, ouvi dizer uma delas. Foi por causa da chuva (...)
Foi por causa da chuva, repetiu.
Não chovia há muito tempo e tudo tinha começado a morrer. Até as árvores e os pássaros. As pessoas tropeçavam em pássaros mortos. (...).
Tudo tinha secado, a terra abria fendas, ouvi a mulher dizer ainda. Gretada de falta de água. A terra tinha feridas na pele. Animais morriam. Pessoas morriam. Crianças morriam. O ribeiro secou. O céu secou. As folhas torciam-se, nas árvores, e depois também as árvores secavam. (...)
Então começaram vozes, nas pessoas da aldeia (...)
Alguém era culpado pela seca. E depois começaram as vozes, na aldeia, de que a culpada era aquela mulher. Outros diziam que não. Ninguém sabia ao certo. Mas a seca não acabava, e tudo continuava a morrer.
Até que chamaram o feiticeiro. Acenderam o lume e queimaram ervas e ele bebeu o que tinha que beber e ficou toda a noite a murmurar palavras que ninguém entendia. Pela manhã vieram os Mais Velhos e ele disse que era por causa da mulher. Foi isso que ele disse e todos ouviram: Aquela mulher prendeu a chuva.
Então os Mais Velhos entenderam o que se ia passar e olharam para o chão, porque tinham piedade da mulher que vivia sozinha, afastada da aldeia. Muito tempo antes o marido tinha-a abandonado e morrera-lhe um filho e ela tinha chorado tanto que o seu corpo tinha secado, os seus olhos tinham secado, toda ela se tinha tornado um tronco seco, dobrado para o chão. Tinha-se tornado bravia como um animal, nunca se ouvia falar, só gemia, e gritava às vezes de noite.
Essa mulher, repetiu o feiticeiro olhando para o chão.
Acendeu o cachimbo e soprou devagar o fumo: Ela prendeu a chuva.
Mas ninguém queria matá-la. E também o feiticeiro disse que não era por sua vontade.
Ficaram parados, como se esperassem. Todos os da aldeia, sentados debaixo de uma árvore. E o tempo também parou, e não passava.(...)
Então um jovem ofereceu-se. Eu vou, disse. Como se fosse igual matar a mulher, ou ser morto.(...)
Ele foi ter com ela à cabana e passou a noite com ela. Dormiu com ela e fez amor com ela. Passou-lhe as mãos no sexo, nos seios, nos cabelos, acariciou-a com ternura e depois apertou-a com os braços, como se fosse outra vez fazer amor com ela, apertou mais e mais, em torno do pescoço até sufocá-la. E depois veio cá fora da cabana, com a mulher morta nos braços e deitou-a na terra e todos caminharam em silêncio em volta. (...)
E então começou a chover, disse a mulher. Então começou a chover.


Fragmento do conto A Mulher que Prendeu a chuva, in: A mulher que Prendeu a Chuva, de Teolinda Gersão
(Sextante)

8.5.07

Teolinda Gersão em Aveiro, hoje, às 18:30, na Bertrand


Já tinha feito este anúncio mas reavivo a memória aos mais distraídos. Tenho o prazer de apresentar este livro de contos e gostaria de contar com a vossa presença. Eu, a Carolina Rodrigues, que vai ler (pelo menos) um conto, o editor João Rodrigues e a autora d' A Mulher que Prendeu a Chuva, a escritora Teolinda Gersão!

Até logo!


ADENDA: Obrigada a todos os presentes! Foi uma sessão com um público caloroso. e isso soube muito bem.

Agradeço ainda à equipa do Rádio Clube Português de Aveiro que entre as 16h e as 17h deu o destaque merecido à escritora Teolinda Gersão, entrevistando-a em directo, e permitindo-me fazer uma ante-apresentação pública do seu mais recente livro.

5.5.07

Recados (e um sinal do Escritor Famoso)

- A Ute Lemper (en)cantou e talvez ponha aqui umas fotos da diva despida de adereços. Depois do espectáculo, eu, o tsiwari, e respectivos cônjuges, armamo-nos em caçadores de autógrafos.

- Não se esqueçam do Convite. E esqueci-me de vos dizer que a actriz Carolina Rodrigues vai ler um dos contos mais fantásticos do livro A Mulher que Prendeu a Chuva. O conto chama-se Um casaco de raposa vermelha e começa assim:

"Ao voltar um dia para casa, uma pequena empregada bancária vê numa loja de peles um casaco de raposa vermelha. Pára diante da vitrine, com um calafrio de prazer e de desejo. Porque aquele é o casaco que sempre desejou ter na vida. Nenhum outro se lhe assemelha, pensa percorrendo com os olhos os outros casacos, pendurados no varão de metal ou suavemente estendidos sobre o sofá de brocado. Aquele é uma peça rara, única, jamais vira um tom assim, fulvo, mesclado, com reflexos de cobre e brilhante como se estivesse a arder."

Não adivinham certamente a continuação desta história mas se quiserem embrenhar-se na floresta da vossa imaginação, talvez o Escritor Famoso passe por aqui! E sim, este também é um convite.

4.5.07

Convite

A escritora Teolinda Gersão estará em Aveiro para o lançamento do seu novo livro A Mulher que Prendeu a Chuva e outras Histórias, no dia 8 de Maio, pelas 18h30, na livraria Bertrand Fórum Aveiro. A apresentação da obra será feita por esta vossa des/conhecida parceira. E este é um convite que dirijo a todos vós que passais por aqui. Venham conhecer a escritora e participem na descoberta da sua obra!

Deixem-me aguçar-vos o apetite...

"O ar morno da tarde, a janela fechada, os pés descalços no tapete, os sapatos atirados para longe, a roupa deitada no chão ao acaso, a urgência de outro corpo - a certeza de que esse momento começara muito antes, de que por ele tinham voado sobre rios, montanhas e países - desaparecer um no outro, perder a noção do tempo."

in "Cidades", um dos 14 contos reunidos no livro que terei o prazer de vos apresentar.

1.5.07

A mão de O.S. na Paisagem

O.S.
Saída da Missa

  • "(...) como se fosse possível celebrar verdadeiramente a festa, e não existisse, por detrás de tudo, cortando a alegria, cortando a vida, a mão de O.S., levantando-se acima de todas as coisas, fazendo parar o país, parar o tempo, retroceder séculos atrás, a sua mão parava o vento da mudança e espalhava a areia negra do medo, apertava em torno das casas a mordaça do silêncio, a sua mão castradora retirava ao povo a força da revolta, as pessoas dormiam de olhos abertos, atravessando o tempo sem tocar-lhe, cumprindo automaticamente o dia-a-dia, repetitivas, sombras, gastando a vida em exercícios de resignação e obediência. Os seus pés tinham sido cortados e elas não tocavam mais o mundo. Era-lhes portanto permitido fazer o que quisessem, porque a sua liberdade era aparente, e, o que quer que fizessem, não mudaria nunca coisa alguma. Podiam por exemplo ouvir o canto baixo das cigarras, ficar ouvindo, ouvindo até ensurdecerem ou até a sua consciência ser invadida por outra coisa. (...) Podiam ficar sentadas, ou deitadas, a vida inteira. Ou levantar-se e cozer pão, matar o porco, regar canteiros de goivos malvas beladona ou margaridas. (...) mas era tudo imitação da vida, porque todo o movimento era aparente, e nada acontecia."
pp 88-90
  • "(...) as cidades, os campos, as estradas, as pontes, pertenciam a O.S., nenhum lugar escapava à alçada da lei de O.S.. Projectar um bairro, uma escola, um porto, um parque, um jardim, uma casa, pressupunha definir a sociedade, o homem, a liberdade, o mundo. E porque a definição de Horácio não podia ser nunca a de O.S., os seus projectos eram sempre liminarmente recusados, ou mutilados e tornados irreconhecíveis, os artigos que ele redigia febrilmente não saíam nunca nos jornais, os livros que ela o via escrever à noite, pelos meses fora, paravam nos editores durante anos e acabavam por sair em tradução num país estrangeiro. Onde talvez fizessem pouca falta, disse Horácio...."
pp 102
  • "(...) mas O.S. defendia-se antes de tudo de si mesmo, disse Horácio. Uma comunidade seria sempre uma ameaça contra ele e por isso era preciso impedir a sua formação a todo o custo. Assim ele riscava o espaço da comunidade e as pessoas não se encontravam nunca, era um universo enclausurado e louco (uma comunidade subterraneamente germinando e de repente levantado-se, uma seara, um exército, em linha de batalha). (...) respeitar o espaço do indivíduo mas rasgar finalmente o seu universo sufocado, entender que felicidade não é a posse de coisas mas a posse de si próprio - a posse do seu espaço dentro do espaço dos outros - as pessoas sendo finalmente arquitectos de si próprios...."
pp 107



in PAISAGEM COM MULHER E MAR AO FUNDO de Teolinda Gersão
Public. Dom Quixote, 1982

31.3.07

As últimas leituras

A biografia de Sándor Márai é ela própria espantosa e trágica. Nasceu em Kassa, na Hungria, em 1900, e nos anos 30 era já um escritor famoso. Assumiu posições anti-fascistas e anti-comunistas. Foi perseguido. Sobreviveu à II Guerra Mundial mas em 1948 foi obrigado a exilar-se. Partiu para Itália, e daí para os EUA. Lentamente o seu nome começou a ser esquecido. Em 1923, Márai casou com Lola Matzner, judia. O casal teve um filho, Kristof, que morreu poucas semanas depois do seu nascimento em 1939. Não voltaram a ter mais filhos mas adoptaram outra criança, János. A sua obra, composta por dezenas de romances, além das suas memórias, permaneceu na obscuridade porque a tradução do húngaro não é frequente, e porque ele nunca permitiu que os seus livros fossem editados na Hungria durante o período de dominação soviética. Lola morreu em 1986, o que arrasou Márai. Janós, morreu com 46 anos, no ano seguinte. Desesperado, só, e completamente esquecido, Márai suicidou-se com um tiro na cabeça a 22 de Fevereiro de 1989. Nove anos depois, o seu trabalho é descoberto pelo escritor italiano Roberto Calasso. As notícias espalham-se depressa e muito rapidamente os seus livros começam a vender-se bastante em Itália e na Alemanha. Outros países se seguem. A obra de Márai renasce e volta a ser conhecida no mundo inteiro.

A Herança de Eszter (Public.Dom Quixote), que acabo de ler, é um romance muito particular, contado na primeira pessoa. A acção decorre em dois planos temporais: o primeiro num dia e o segundo, 20 anos depois. Antes de morrer, Eszter quer contar-nos a história do dia em que Lajos veio vê-la pela última vez e a roubou. A pureza e a comoção que caracterizam os sentimentos de Eszter, e a falta de armas de toda a sua família, face a Lajos, um sedutor sem escrúpulos, deixam o leitor (deixaram-me) irritado. Até que a desconcertante decisão final de Eszter se revela. e compreendemos o que é existir inteiro, sendo coerente com o nosso mais íntimo ser. "Lajos tem razão, Endre, Lajos tem razão ao dizer que na vida há uma qualquer ordem invisível e que devemos terminar o que um dia se começou... Como pudermos...Pois agora terminei - disse eu, e levantei-me." (pp. 145-146)

Do mesmo autor, terei que ler Como As Velas Ardem até ao Fim, outro dos seus romances já traduzidos, e que me dizem ser ainda mais belo.




Logo na sua estreia como romancista, ou seja, na publicação do seu primeiro romance, Silêncio (Public. Dom Quixote, 1981), Teolinda Gersão arrecadou o prémio do Pen Club português, no género ficção.

De uma forma distinta, tal como em A herança de Eszter, mergulhamos nos limites da incomunicabilidade, do autismo, no (des)encontro entre uma condição feminina e uma condição masculina, como se o tempo, o de Sándor e o de Teolinda, fosse o mesmo.

No romance A Árvore das Palavras (Dom Quixote, 1997), essa dicotomia volta a estar presente.

Foi interessante ler duas obras da mesma autora, escritas em períodos diferentes, com estruturas narrativas díspares (em Silêncio, a linearidade narrativa é interrompida, há decomposição, descontinuidade, circularidade, como se uma escrita na água; em A Árvore, um estrutura mais linear, uma trama coesa, a história de uma família num local e tempo definidos - a então Lourenço Marques, no início da Guerra Colonial), e observar a recorrência de temas: a imaginação, o sonho como evasão ou força transformadora do real, sempre associado à mulher, o desejo (in)contido de liberdade, as idas e voltas das relações interpessoais, em particular homem-mulher, e sempre, a busca, da identidade. Curioso também o papel da casa, como palco e como marca de uma condição de género ou de espírito, feminino/masculino, passivo/inquieto. A casa que oprime/protege, se ordena/desfaz. As janelas que se abrem ao mundo ou se fecham ao devir, encerrando o silêncio.

Leiam um estudo elaborado nos anos 80 por Eduardo Prado Coelho sobre Silêncio. Ou, para melhor compreender o universo da escritora, um artigo de Isabel Pires de Lima, a actual Ministra da Cultura que, caso não saibam, é doutorada em Literatura Portuguesa.


Diferente de tudo o que já lemos deste autor é Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (Tinta da China Edições, 2006). Este livro de Haruki Murakami foi escrito entre 1997/98, e é composto por duas séries de entrevistas que realizou: a sobreviventes do atentado no metro de Tóquio com gás sarin, ocorrido na manhã de 20 de Março de 1995, e a vários membros da seita Aum ou Verdade Suprema (autora do atentado). No Japão, a segunda série foi publicada numa edição separada com o título O Lugar Prometido.

"No início de cada entrevista, eu pedia aos entrevistados que me falassem da sua história - onde tinham nascido, como era a sua família e o seu trabalho (sobretudo o seu trabalho) -, para poder dar a cada um deles um rosto, para os tornar visíveis. Não queria uma colecção de vozes sem corpo." pp 17-18

"Não decidi fazer estas entrevistas a actuais e antigos membros da seita para os criticar ou para os denunciar, nem sequer na esperança de que as pessoas os olhassem a uma luz mais positiva. O que estou a tentar transmitir com este livro é exactamente o mesmo que esperava transmitir em Underground - não um ponto de vista claro, mas sim material, de carne e osso, a partir do qual se possam construir pontos de vista múltiplos; e esse é o mesmo objectivo que tenho em mente quando escrevo romances." pp 331


Para descrever a sensação que tive ao ler alguns destes testemunhos, deixo-vos uma citação de Silêncio de Teolinda Gersão (os últimos dois parágrafos deste livro):

"Voltou para dentro e fechou a janela.
Havia dentro dele um ódio leve, que se estendia a todas as coisas do mundo"

10.3.07

Se por acaso ouvires esta mensagem #6 - último fragmento

Tinha um homem que amava, e um trabalho que me sustentava. O mínimo, dirás tu. Mas quase ninguém tem esse mínimo, é assim o mundo. Vive-se em falta, e em falha. o comum dos mortais vive em falta, e em falha. Toda a gente sabe disso, aparentemente, menos tu. E agora? Agora, como sempre, não te importas, e não moves nem o menor dos teus dedos. Aparentemente, não podes fazer nada por mim. Nunca pudeste. Deixaste-me cair no meio da noite.
Nem sequer me ouves, por muito que eu grite. Nunca vais ouvir esta mensagem. Mas se por acaso a ouvires, Deus, se por acaso ouvires esta mensagem, não afastes de mim o teu rosto: não cortes este fio de palavras que vou estendendo entre mim e ti, porque não me resta mais nada senão este fio imaginário - provavelmente tu não existes e falo sozinha, no nevoeiro e na noite, mas se por acaso existires e ouvires esta mensagem, não cortes o fio, Deus, não cortes este fio de palavras, e fica a escutar-me. Até ao fim.


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 6): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste


[Para ler o conto completo, basta clicar em baixo no marcador Teolinda Gersão]

9.3.07

Árvore das palavras

Vários anos, mas nada acontecia. Nunca, nunca. Ela entendia o mal de Licínio, aquela história da filoxera, daquela coisa que lhe dava e o punha a correr estrada fora, no meio do calor e da poeira. Não gostava dele, mas entendia o seu mal.


in Árvore das Palavras, de Teolinda Gersão
Dom Quixote, 1997, pp 159

Se por acaso ouvires esta mensagem #5

Disseram-me, e eu ouvi. Mas não posso guardar só para mim essas palavras, tenho de dividi-las com alguém, desde logo contigo.
Claro que havia também o homem que eu amava, é claro que falámos disso, da culpa dele, porque não me disse, e deveria ter dito, da distância que, a partir daí, se cavou entre nós, pela traição das palavras não ditas.
Mas antes dele, estavas tu, que também me deverias ter protegido e falhaste. Se alguém me traiu, foste primeiro tu. Também eu me deveria ter protegido mais, sei que vais dizer isso, ou sei que dirias, se falasses comigo. Mas proteger-me como? Os preservativos rebentam, ou não sabes disso? Não podes fingir sempre que és alheio a tudo: se um homem que eu amava me traiu, foi porque, primeiro, tu me abandonaste.
Deixaste-me cair na noite, no meio do nevoeiro e do fumo. Devias estar na minha vida, junto de mim, e não estavas. E o que acontece comigo não te importa. Culpa minha? Não, culpa tua. Sei que estou a gritar, e que mesmo assim não me ouves, porque não estás aqui. Se estivesses eu sacudia-te pelos ombros, batia com os punhos nos teus ombros, sufocaria a voz no teu peito, esconderia o rosto nos teus braços. Faz qualquer coisa, gritaria até perder a voz. Faz qualquer coisa por mim.
O meu rosto estaria roxo de cólera e eu continuaria a gritar até ter a certeza de que me ouvias. Porque eu não mereço, tu sabes melhor do que ninguém que não mereço. Justamente agora. Quando tudo se ajeitava na minha vida, que parecia finalmente resolver-se. [continua]


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 5): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste

8.3.07

Se por acaso ouvires esta mensagem #4

Sim, a responsabilidade, no fim de contas, seria sobretudo tua. Mas, como eu te aceitaria superior a mim, acreditaria que terias sempre razão, o que quer que fizesses. Mesmo quando me parecesse que agias contra mim e me punhas dificuldades no caminho, como se te desse prazer fazer-me torcer os pes e cair. Até isso, ou qualquer outra coisa, eu aceitaria. Se estivesses comigo.
Até esta pequena mancha na pele eu aceitaria. Este mal, que primeiro começou por ser uma pequena mancha na pele e a que a princípio nem dei importância, pensando que era do excesso do sol, ao lado de um homem que eu amava.
Até perceber que aquela pequena mancha, que depois alastrava, vinha do homem que eu amava, porque eu me tinha deitado com aquele homem que eu amava.
Fiquei em estado de choque muito tempo, como se não conseguisse acordar. Até que acordei e corri ao médico. Para ouvir o que eu suspeitava, o que ele também suspeitava, e ficou de repente muito claro, preto no branco, nas análises.
Está tudo no sangue, e ele não mente, uma gota de sangue é o bastante para que te digam tudo. [continua]


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 4): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste

7.3.07

Se por acaso ouvires esta mensagem #3

Nenhuma nave espacial pousa diante de mim e abre uma porta de luz, de onde tu sais. Se abrir a janela, tudo o que vejo para além dela é a noite.
Na cidade não se vêem as estrelas, o céu é opaco de nevoeiro e fumos. As noites são longas, do outro lado da janela. Longas e vazias. É por isso que por vezes, em noites como esta, em que não consigo dormir e caminho como sonâmbula entre a janela e a porta, penso em ti e te imagino, como se pudesses estar ligado a mim por um fio qualquer. Tudo seria muito fácil, penso, se existisse esse fio. Haveria um nexo, uma finalidade em tudo, haveria um objectivo, que, pelo menos para ti, seria perceptível, mesmo que eu não o compreendesse. Eu estaria, como vês, pronta a aceitar a minha inferioridade, em relação a ti, a admitir que a minha inteligência não alcança o mesmo que a tua, que os teus olhos vêem muito mais longe que os meus. Se houvesse um fio a ligar-nos. Se tu mesmo tivesses atado esse fio.
Eu poderia então aceitar praticamente tudo, mesmo o mal, a loucura, o horror, o absurdo, porque estarias comigo e serias, no fim de contas, responsável. Pelo menos tanto como eu. Ou, provavelmente, mais do que eu. [continua]


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 3): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste

6.3.07

Se por acaso ouvires esta mensagem #2

Se me ouvires, não poderás continuar como és, alguma coisa em ti se transforma e te coloca em movimento. Mesmo que apenas dês, na minha direcção, o menor dos teus passos. Foi isso que sempre disseste. Mas provavelmente esqueceste tudo o que dizias, desde que te foste embora. Passaste por aqui mas partiste, e cortaste atrás de ti todas as amarras. E agora não há nada que me ligue a ti, nenhuma corda, ou cabo, ou fio telefónico. Estamos aliás na era dos telefones sem fios, das ondas de som que andam pelo ar, chegam aos satélites, ao espaço, à espera de serem ouvidas.
No entanto, não sei se me ouves. Se podes, ou queres, ouvir-me, ou se é de todo impossível a minha voz alcançar-te. Talvez a dificuldade não esteja na transmissão da minha voz, não há dificuldades de transmissão nesta era de maravilhas tecnológicas. Talvez a dificuldade, ou a falha, esteja só em ti. Não consigo imaginar o teu rosto. É possível que não tenhas orelhas, nem olhos, nem ouvidos, e o teu rosto seja muito diferente do que imagino. Talvez seja o rosto de um monstro.
Quando penso em ti, é como se tudo fosse fácil, como numa comunicação telepática. Quase sinto o teu olhar sobre mim, quando levanto os olhos. E então nem preciso de palavras, tudo é absoluto e imediato, numa fracção de segundo transmiti-te tudo o que queria dizer-te, e tu captaste.
Mas sei que é puramente imaginação. [continua]


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 2): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste

5.3.07

Se por acaso ouvires esta mensagem #1

Se por acaso ouvires esta mensagem, não finjas que não a ouviste, nem te distraias a olhar as nuvens, ou a falar de outro assunto com quem estiver a teu lado. Se a ouvires, assume que a ouviste. Porque não se pode ao mesmo tempo ouvir e não ouvir.
Há palavras que, uma vez ouvidas, nos mudam para sempre. Devias saber isso, afinal não eras tu mesmo que o dizias? É isso que pretendo, falando: mudar-te. [continua]


autora: Teolinda Gersão
pré-publicação do conto (fragmento 1): Se por acaso ouvires esta mensagem
do livro: A Mulher que Prendeu a Chuva
editora: Sudoeste