
Daniel Sarphatie
[Um dia destes, entramos numa livraria e pegamos Numa Avenida de Merda do Ivar Corceiro. Ao lado, talvez esteja uma colectânea de contos. Desfolhamos e encontramos Venus as a boy]
Ela fixou um dos produtos que a senhora da caixa passara pelo leitor de códigos de barras. Era comestível e tinha um prazo de validade, e nesse instante assimilou o que o seu companheiro lhe dissera na noite anterior, logo depois de uma hora de sexo: que não queria envelhecer, nem ver-se ao espelho derrotado pelas rugas. Tal como Dorian, insistira antes de adormecer. Pôs as compras nos sacos.
A campainha tocou insistentemente.
Como duas ilhas de origem vulcânica, os seus joelhos emergiam da água elevando-se em direcções simetricamente opostas. As suaves saliências peitorais e a ponta do falo, adormecido no brando ritmo das ondas, completavam um arquipélago ao abandono. Os seus braços escondiam-se atrás das costas, e dada a quietude do corpo, apenas as gotas que pingavam espaçadamente da torneira pareciam provocar movimento na água.
A campainha tocou insistentemente. Por causa dos pesados sacos de compras que trazia, ela já tinha marcas na pele, à volta dos metacarpos, por isso pousou-os no chão para procurar a chave. Os sacos estenderam-se como a clara de um ovo, aumentado a distância entre as suas asas. “Foda-se” – roeu quando se apercebeu da dificuldade acrescida que teria em apanhá-los de novo. Depois abriu a porta, com a chave que demorou a encontrar nos bolsos, e entrou.
A porta ficou entreaberta.
A televisão estava ligada e sozinha. Ela desligou-a empurrando-a levemente para trás, tal a força do impulso com que o fez. Depois dirigiu o olhar para a lâmina de luz que sorrateira se escapava pela frincha da porta da casa de banho. “Quando te decidires a sair da casa de banho vai lá fora buscar as compras” – disse, e continuou, arrependendo-se do seu tom agressivo: - “Por favor...”
Tal como a luz, também o silêncio saiu sorrateiramente pela porta, e embrulhou-a num lençol de frio, talvez branco, pensou esperando a morte. Nele foi envolvida até se aproximar da banheira e afastar o cortinado. Percorreu o cadáver com os olhos, fixando momentaneamente as ilhas com a íris hesitante. Depois beijou-o e foi buscar as compras.
[Espreite outros talentos do Ivar Corceiro, aqui]
4 comentários:
Tem , sem dúvida, inúmeros talentos.
Gostei muito de vir aqui, ainda para mais, julgo que finalmente encontrei uma "crítica" que gosta dos mesmos filmes que eu.
Inté
Pois é. Lá na padaria também estamos todas ansiosas à espera da Avenida de Merda. Não há meio!
Divas, obrigado pela ajuda.
O “Numa Avenida de Merda”, só sai lá para Abril, embora no princípio estivesse prevista a sua edição para Novembro passado, e a distribuição estará condicionada a umas dez livrarias no país. Em Aveiro até acho que a livraria “O Navio de Espelhos” é a única.
Solteirão, obrigada pela visita. Volta sempre!
Bagaço Amarelo, não tem de quê! Junto-me à Didas e fico a aguardar o livro!
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