15.2.05

Auto-imagem

A fraca auto-imagem dos portugueses e a sua falta de auto-confiança já gerou vários discursos de ministros e chefes de Estado, que apelam a uma mudança. "Temos de acreditar que somos capazes". Ficamos com a impressão de que, se essa opinião ou atitude colectiva desaparecesse, tudo funcionaria melhor e o país cresceria. Ou seja, não haveria burocracia, desorganização dos serviços, falta de produtividade, baixo nível das exportações, fraca notoriedade internacional dos nossos escritores e do cinema português, ausência de marcas de qualidade portuguesas, incompetência na gestão, corrupção nas lideranças, baixa literacia, fanáticos de futebol e beatas, etc.. E eu até concordava um bocadinho com isto tudo.
Até que comecei a receber, por email, um filme animado realizado por um italiano chamado Bruno Bozzetto. Com ironia e muito humor, ele compara os comportamentos dos italianos com o dos outros "europeus" da UE, em diferentes contextos "standard". A Itália é retratada como se estivesse a milhas da "civilização europeia". É um jogo de imagens, até porque a Europa não tem uma identidade definida, é antes um cruzamento de identidades.
O que me deixou mais interessada no filme é que, independentemente da proveniência, havia sempre uma mensagem ou comentário do emissor que queria dizer: "se substituíres a bandeira da Itália pela de _______ , tens o retrato do meu país". Parece então que portugueses, franceses, chineses (de Macau) e brasileiros - esta é a minha amostra -, se projectam todos naquele desvio à "civilização".
Enfim, está visto que não é a fraca auto-imagem que impede a criação de um dos melhores designs do mundo (italianos), nem a organização dos serviços públicos (França), nem a projecção da sua cultura (Brasil), nem a recuperação económica (China).
Vamos ter que descobrir outra variável mais explicativa do nosso atraso. Até lá, fiquem com o filme. Demora algum tempo a carregar, pelo que aproveitem para fazer qualquer outra coisa entretanto (palavra de ordem: produtividade) (não desistam nem discutam com a máquina) (ela vai ser capaz!)

3 comentários:

SaltaPocinhas disse...

Obrigada pela visita ao blog dos meus pequenitos...eles adoraram ler tanta mensagem!

Didas disse...

O filme só vou conseguir ver em casa. Mas deu para perceber a ideia.

A propósito deste tema, lembro-me sempre do Eduardo Lourenço e do seu Labirinto da Saudade.

tounalua disse...

Estes filmes são uma delícia... recomendo também este:
http://www.bozzetto.com/neuro.htm