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22.5.12

Sobre colonialismo e pós-colonialismo #1

Depois de tanto degustar, ocorreu-me sugerir algumas leituras. São vários os autores. Começo por FRANTZ FANON (1925-1961), psiquiatra, militante pela independência da Algéria no FLN, nascido na Martinica e autor de uma obra histórica no que diz respeito à resistência anti-colonialista:

  • Pele Negra, Máscaras Brancas (1952)
  • L'An V de la révolution algérienne (1959)
  • Os Condenados da Terra (1961)
  • Pela Revolução Africana (1964)

Tenho nas mãos "Les damnés de la terre" (prefaciado por Jean-Paul Sartre). Fanon centra-se na psicopatologia da colonização [na origem: «le monde colonial est un monde compartimenté (...) est un monde coupé un deux, habité par des espèces différentes.»] e na questão das identidades nacionais [«la culture nationale est, sous la domination coloniale (...) condamné à la clandestinité»]. No início dos anos 60, a literatura de combate, associada ao conceito de negritude seria a única válida para formar consciências.


4.4.12

Para quando uma reedição?


O meu livro, uma (5ª) edição de 1983. Eu suspeito que "Os dados estão lançados" não é reeditado há quase 30 anos!

Os dados estão lançados

Jean-Paul Sartre (1905–1980) escreveu um romance genial e delicioso de ser lido, “Os dados estão lançados” (1947). Seria excelente se o livro fosse reeditado em Portugal! Esta obra-prima, manifesto de consciência de classe, tratado de metafísica, furioso arranca-corações, livro de culto, guião de cinema (filme realizado por Jean Delannoy), anda desaparecida há tanto tempo...

Muito sucintamente, é a história de uma mulher burguesa e de um chefe de uma "Liga" de resistência que se apaixonam perdidamente um pelo outro mas, porque se encontram apenas após a sua morte (ambos foram assassinados), não podem consumar o seu amor. No céu, não são tangíveis...

«Olham-se e dançam em silêncio por um momento.
- Diga-me - pergunta Pedro de repente -, o que é que se passa? Não pensava senão nos meus aborrecimentos há bocado e agora estou aqui. Danço e não vejo senão o seu sorriso... Se isto fosse a morte...
- Isto?
- Sim, dançar consigo sempre, só a ver a si, esquecer tudo o resto...
- E depois?
- A morte valia mais que a vida. Não acha?
- Aperte-me com força - diz ela baixinho.
Os rostos estão muito perto um do outro. Dançam ainda um instante e ela repete:
- Aperte-me com mais força...
Bruscamente, o rosto de Pedro entristece-se. Pára de dançar, afasta-se um pouco de Eva e exclama:
- É uma comédia. Nem sequer cheguei a tocar a sua cintura...»
[in Sartre, Jean-Paul, "Os dados estão lançados", Ed. Presença, 1983, pp 72-73]

Decidem então dirigir-se a Deus, reclamar e obter autorização para voltar à Terra. Deus é misericordioso e aceita que regressem para viver o amor e a vida em comum que lhes havia sido indevidamente frustrada. Mas impõe uma condição: têm 24 horas para ultrapassar todas as barreiras inerentes à diferença da sua condição social. Se forem bem sucedidos, esquecerão o episódio da morte; se falharem, voltarão ao céu.
__________

Muitas das ideias do político e do filósofo estão contidas neste pequeno livro, pelo que não é difícil imaginar o final. Sartre milita activamente no partido comunista e virá a aproximar-se cada vez mais do marximo, integrando-o no existencialismo (La Critique de la raison dialectique, 1960). Em 1952 rompe publicamente a amizade com Camus, devido à publicação de "O Homem Revoltado" no qual Camus ataca criticamente o Estalinismo.
E o que dizer da nova oportunidade oferecida a Pierre e Eve: será o destino mais forte que o livre-arbítrio? A liberdade dá ao homem o poder de escolha, mas está sujeita às limitações do próprio homem?

Existe uma versão disponível on line, tradução portuguesa, que poderão gravar/imprimir enquanto esperam (!) pela publicação de uma nova edição. 

9.9.05

Lx II


Como bem me lembrou a Isabela, "os anos 80 foram a minha geração de 60 mas acabaram, irremediavelmente". O tempo é outro, cidades e pessoas respiram outra atmosfera, pelo que até os lisboetas podem sentir saudades da Lisboa desse tempo.

Nos anos 80, a situação política acalmara mas os espíritos estavam ainda agitados e frenéticos com a conquista da liberdade, o desaparecimento da censura, e a entrada no país de todas as novas (para nós) influências e correntes. Queríamos "participar", havia curiosidade. Foi bom ter 18/20 anos nessa altura pela "coincidência" de ânsias entre esse Tempo e o meu, pessoal. Politicamente, era difícil não tomar partido, mesmo sem militâncias formais. E do ponto de vista cultural, abriam-se janelas e testavam-se caminhos. A cidade experimentava também novas formas de estar. Alguém se lembra da primeira Animação do Chiado? Creio que foi em 85, actores e performers actuavam nas ruas. A SN de Belas Artes, ali ao pé, "mexia" e envolvia. Acabei mascarada de palhaço a cumprimentar as crianças que passavam. As bancas de artesanato proliferavam. Ouvia-se música portuguesa, muito Zeca Afonso, Fausto, Sérgio Godinho. Os Trovante revolucionavam o meio, enchiam o Coliseu e provocavam histeria junto das meninas. Mas também me lembro de ouvir Chico Fininho enquanto fazia o cubo mágico. Na faculdade, os professores mais liberais deixavam-nos beber cerveja nas aulas e porque ficava ali ao pé, até tivemos direito a aulas no anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian. O primeiro a levar-nos até lá foi o Prof. de Semiologia, Pedro Frade, que para grande orgulho nosso fora entrevistado pelo JL a propósito da tese de mestrado que originaria o seu livro Figuras de Espanto, e que nos incutiu o gosto por Barthes e Baudrillard. Apetece-me falar dele e do Dr. João Loureiro, o nosso professor de Economia que no ano a seguir a nos ter dado aulas, já saía connosco para o Bairro Alto e, apaixonado por Gershwin, nos levava às Noites Longas para ouvirmos uma orquestra de jazz. Líamos Escuta, Zé Ninguém! (Wilhelm Reich) ou Nietzsche ou Sartre ou Mário-Henrique Leiria e os seus Contos do Gin-Tonic ou O Memorial do Convento de Saramago ou Memória de Elefante de Lobo Antunes ou pequenos livrinhos sobre Lenine, Marx e mesmo Catarina Eufémia. O Macintosh foi lançado (1984) mas o gabinete de informática demorou algum tempo a ser criado, pelo menos no Departamento de Sociologia. Aceitavam-se trabalhos escritos à mão porque nem todos tinham... máquina de escrever! E Lisboa continuava a convidar-nos para novas propostas! O Frágil, de Manuel Reis, era o must. Aí podíamos encontrar alguns dos pintores da nova geração. Abriam novas galerias de arte, discutia-se estética e o valor da arte. Pedro Proença e Pedro Portugal fundaram o projecto de uma revista intitulada Homeostética, a partir da qual se viria a formar o grupo Homeostético (colectivo que integrava também, no início, os nomes de Manuel João Vieira, Ivo e Xana...). Recordo-me de assistir a uma vernissage em que "Sanita Pintor" pintou com um spray o preço da obra na tela, 500 CONTOS. Diria Mário Murteira, "como se, por um golpe de mágica, tivéssemos saltado a pés juntos dum capitalismo arcaico e asfixiante para a sociedade perfeita com que sonhara o jovem Marx"!

Lisboa, a capital do país, reunia todos os tempos. E foi bom cirandar pela cidade... acreditando que, pelo menos a nossa vida, poderia ser perfeita!


João Loureiro e Pedro Frade, referidos neste post, faleceram no início dos anos 90. A FCSH da Universidade Nova perdeu então, subitamente, dois dos seus professores assistentes mais jovens e promissores. Lembro-me de passar na Av. de Berna e de ver a bandeira a meia haste. Tinha começado a trabalhar, os colegas de curso estavam dispersos pelo país, e então quis fugir dali! O problema da memória é que ela também não perdoa...

6.4.05

Os dados estão lançados II


Sokolsky

- Ah!, ei-los!... Estão atrasados cinco minutos.
- Não nos teríamos enganado? - pergunta Pedro - Esperava-nos?
A velha senhora abre o livro grande numa página que está marcada com um sinal, e começa a ler com uma voz de escrivão, fria e sem timbre:
- Artigo 140: Se, em consequência de um erro unicamente imputável à direcção, um homem e uma mulher, destinados um ao outro, não se tenham encontrado em vida, poderão pedir e obter autorização de voltar à terra sob certas condições para aí poderem amar-se e viver a vida em comum de que tenham sido injustamente privados.
Terminada a leitura, levanta a cabeça e olha através do lorgnon o casal pasmado.
- É mesmo por isso que estão aqui?
Pedro e Eva olham-se e no seu espanto há uma grande alegria.
[in Sartre, Jean-Paul, Os dados estão lançados, Ed. Presença, 1983, pp 75]

Poder sonhar com essa possibilidade!... ou não ser necessário por, eventualmente, no nosso caso, a direcção não ter caído no erro descrito no Artigo 140! (esqueço-me que ainda estou na Terra e que acredito pouco no destino)

Os dados estão lançados


Guy Bourdin

Olham-se e dançam em silêncio por um momento.
- Diga-me - pergunta Pedro de repente -, o que é que se passa? Não pensava senão nos meus aborrecimentos há bocado e agora estou aqui. Danço e não vejo senão o seu sorriso... Se isto fosse a morte...
- Isto?
- Sim, dançar consigo sempre, só a ver a si, esquecer tudo o resto...
- E depois?
- A morte valia mais que a vida. Não acha?
- Aperte-me com força - diz ela baixinho.
Os rostos estão muito perto um do outro. Dançam ainda um instante e ela repete:
- Aperte-me com mais força...
Bruscamente, o rosto de Pedro entristece-se. Pára de dançar, afasta-se um pouco de Eva e exclama:
- É uma comédia. Nem sequer cheguei a tocar a sua cintura...
[in Sartre, Jean-Paul, Os dados estão lançados, Ed. Presença, 1983, pp 72-73]


Partilhar as memórias da leitura deste livro
com ela (leiam "Depois do ócio...o elogio do amor"), foi um prazer. Entretanto, ele lembrou-nos que este ano temos mais um pretexto para falar de Sartre (aqui e aqui) e para reeditar este livro em Portugal! Esta obra-prima, manifesto de consciência de classe, furioso arranca-corações, guião de cinema, livro de culto, anda desaparecida há tanto tempo...