31.1.09

Wanderlust

WANDERLUST. Desejo de viajar, de caminhar, de ir, apenas ir, a qualquer lugar. Até ao desconhecido, até algo novo.


Björk. Para ouvir até ao fim e com o volume no máximo...

30.1.09

Porto doce

É um dos mais belos poemas de Eugénio de Andrade tendo a cidade do Porto como cenário. Canta assim:

UM RIO TE ESPERA

Estás só, e é de noite
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.

Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros nocturnos.

Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.

Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.

Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque,
sombra pura
nos grandes dias de verão.

Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.

Eugénio de Andrade
in Antologia Breve, Edit. Limiar, 5ª. Edição, 1985

Porto velho

Fotos MRF
28-01-2009


Com uns 15 ou 16 anos, em dias de muita sorte, a minha mãe dava-me algum dinheiro para ir ao Porto fazer compras. Ia com a minha irmã e corríamos a 31 de Janeiro para os sapatos e a Sta. Catarina para as roupitas. Adorávamos os Porfírios! Dessas viagens de ida e volta guardo memórias bem divertidas. Tínhamos que correr para regressar cedo a Espinho! E corríamos, tanto que a C. perdia sapatos e eu esbarrava contra outros passantes. Cada uma tinha a sua especialidade. Já não passava pela estação de São Bento há anos. Continua belíssima, mas há um cheiro a progresso - o metro ali à porta com as suas linhas A, B, C, ..., a sofisticação do cartão «andante», ... que só é quebrado pelos estabelecimentos comerciais que já eram antigos quando eu tinha 15 ou 16 anos. Dão um carácter muito próprio à cidade mas não vivem de saudade. O que é que os mantém de pé? E vão aguentar quanto tempo mais?


29.1.09

E se Obama fosse africano?

(...) Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar
neste texto.

27.1.09

Mi Tradi quell'alma ingrata


Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756. É o pretexto para voltar à minha ária preferida de Don Giovanni (Acto II, cena 2). Donna Elvira é a Divina Callas. Para ouvir até ao fim e com o volume no máximo...

Mi tradì, quell' alma ingrata,
Infelice, o Dio, mi fa.
Ma tradita e abbandonata,
Provo ancor per lui pietà.
Quando sento il mio tormento,
Di vendetta il cor favella,
Ma se guardo il suo cimento,
Palpitando il cor mi va.

26.1.09

Grelha de análise (4)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
TEMA: TANATOS - PULSÃO PARA A MORTE

A tua alma não compreende a minha..., nem a tua, nem a de ninguém. Tenho horror à vida...(...) Que ando a fazer neste mundo? O mesmo que as outras pessoas, bem sei... Ah! Mas é justamente isso que me aterra, que me horroriza... Vivo como todos, à espera da velhice, percebes? À espera da morte, compreendes? (...)
Amanhã... Terrível! Seremos velhos... A carne amolecida, já não desejará a carne (...) O foco da vida, apagado, não inflamará os sentidos... A alma, que nunca envelhece, que ama sempre, já não saberá nem poderá amar!... Diante de um corpo encarquilhado e frio, eu recordarei esse mesmo corpo quando ele era fogo... mármore... mármore que ardia... Recordarei prazeres estonteantes em horríveis despojos... Morrerei de sede, junto da fonte onde outrora tanta vez bebi a vida a haustos largos... Recordar é morrer... E eu não tenho coragem para morrer desta maneira... Não tenho! Não hei-de morrer assim! (...) A minha alma é diferente de todas as outras almas!...
p. 49

Se Marcela pensasse como eu, podíamos ser tão felizes ... tão felizes... Morrer nos seus braços... a beijar-lhe a boca... a morder-lhe os seios... Morrer com ela... com os nossos corpos entrelaçados... num êxtase supremo dos sentidos... da alma prestes a evolar-se... (...)
Mas ela não pensa como eu... ela pensa como todos... Ela gosta da vida... da vida... da vida... da vida!... (...)
- Pede-lhe... pede-lhe que consinta... que me salve desta tortura atroz... que morra comigo... Pede-lhe! Pede-lhe!..
pp. 49-50

Empurrei-o para diante dum espelho (...)
- Contempla a tua fisionomia... Vês? Vês? Tens na tua frente a imagem da loucura
p. 50

- Se eu pudesse – murmurou num tom vago – se eu lhe pudesse provar o meu amor... Mas não encontro nada... (...) É terrível... querer demonstrar a verdade e não poder... não poder...
p. 66

Eu não sofro só por isso, não... Ontem arranquei um cabelo branco. É a velhice... o «fim» que se anuncia...
p. 66

Tudo estava mal.
Quando uma ideia se apodera de um cérebro doente, só a custo perderá a sua fixidez.
p. 69

A sala estava profusamente iluminada; flores por toda a parte, os pesados reposteiros de veludo dourado, corridos. Obrigou-a a entrar. (...) Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto... torná-lo uma cicatriz hedionda, onde não se conheçam as feições... sem olhos... sem lábios;... Vou queimar os teus seios... sujar para sempre a brancura imaculada da tua carne... E assim, um monstro repelente, continuarei a amar-te, amar-te-ei muito mais, porque todo o tempo será para ver a tua alma... a tua querida almazinha (...) Já não recearei o tempo... o tempo não envelhece um corpo chagado... a morte não o desfeia (...) Vês... vês como vamos ser venturosos? E, numa alucinação, num delírio de loucura, correu a prateleira... pegou num frasco...
Marcela, aterrorizada, ainda sem perceber, tentava fugir, encontrar uma saída, chorava e gritava...(...)
Isto é vitríolo... vou-to lançar ao rosto... espalhá-lo pelo teu corpo... Vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma...(...)
Miserável! És como as outras... Gostas de ser bonita... Gostas de excitar os homens... Devassa...
pp. 73-76

...ululou um uivo despedaçador... apanhou o frasco... emborcou-o...
p. 76


[Imagem: Mário Tendinha, Fetiche]

25.1.09

Sessão Evocativa Oficial dos 1050 anos da primeira referência escrita a Aveiro

A Câmara Municipal de Aveiro tem a honra de convidar V.Ex.a para assistir, no dia 26 de Janeiro de 2009, aos seguintes eventos:

16h00 – Sessão Evocativa Oficial dos 1050 anos da primeira referência escrita a Aveiro. Edifício sede da Assembleia Municipal (antiga Capitania de Aveiro). Alocução histórica pela Professora Doutora Maria Helena da Cruz Coelho.

17h15 – Inauguração da exposição “Dos artefactos à escrita”.
Na galeria do edifício sede da Assembleia Municipal (antiga Capitania de Aveiro).
Apresentada pelos Comissários: Eng.º Paulo Morgado e Dra. Sónia Filipe.

17h30 – Inauguração da exposição “BI Aveiro (959 – 2009)”. Museu da Cidade. Apresentada pelas comissárias: Professora Doutora Maria Helena da Cruz Coelho e Professora Doutora Maria José Azevedo Santos.

18h30 – Sessão de agradecimento aos antigos e actuais Autarcas de Freguesia do Concelho de Aveiro. Salão Nobre dos Paços do Concelho.


Imagem daqui


"No documento de doação testamentária efectuada pela condessa Mumadona Dias ao mosteiro de Guimarães, em 26 de Janeiro de 959, consta a referência a "Suis terras in Alauario et Salinas", sendo esta a mais antiga forma que se conhece do topónimo Aveiro.
No século XIII, Aveiro foi elevada à categoria de vila, desenvolvendo-se a povoação à volta da igreja principal, consagrada a S. Miguel e situada onde é, hoje, a Praça da República, vindo esse templo a ser demolido em 1835.
Mais tarde, D. João I, a conselho de seu filho, Infante D. Pedro, que, na altura, era donatário de Aveiro, mandou rodeá-la de muralhas que, já no século XIX, foram demolidas, sendo parte das pedras utilizada na construçào dos molhes da barra nova.
Em 1434, D. Duarte concedeu à vila privilégio de realizar uma feira franca anual que chegou aos nossos dias e é conhecida por Feira de Março.
Em 1472, a filha de Afonso V, Infanta D. Joana, entrou no Convento de Jesus, onde viria a falecer, em 12 de Maio de 1490, efeméride recordada actualmente, no feriado municipal. A estada da filha do Rei teve importantes repercussões para Aveiro, chamando a atenção para a vila e favorecendo o seu desenvolvimento.
O primeiro foral conhecido de Aveiro é manuelino e data de 4 de Agosto de 1515, constando do Livro de Leituras Novas de Forais da Estremadura.
A magnífica situação geográfica propiciou, desde muito cedo, a fixação da população, sendo a salinagem, as pescas e o comércio marítimo factores determinantes de desenvolvimento.
Em finais do século XVI, princípios do XVII, a instabilidade da vital comunicação entre a Ria e o mar levou ao fecho do canal, impedindo a utilização do porto e criando condições de insalubridade, provocadas pela estagnação das águas da laguna, causas estas que provocaram uma grande diminuição do número de habitantes - muitos dos quais emigraram, criando póvoas piscatórias ao longo da costa portuguesa - e, consequentemente, estiveram na base de uma grande crise económica e social. Foi, porém e curiosamente, nesta fase de recessão que se construiu, em plena dominação filípina, um dos mais notáveis templos aveirenses: a igreja da Misericórdia.
Em 1759, D. José I elevou Aveiro a cidade, poucos meses depois de ter condenado, ao cadafalso, o seu último duque, título criado, em 1547, por D. João III.
Em 1774, a pedido de D. José, o papa Clemente XIV instituiu uma nova diocese, com sede em Aveiro.
No século XIX, destaca-se a activa participação de aveirenses nas Lutas Liberais e a personalidade de José Estêvão Coelho de Magalhães, parlamentar que desempenhou um papel determinante no que respeita à fixação da actual barra e no desenvolvimento dos transportes, muito especialmente, a passagem da linha de caminho de ferro Lisboa-Porto, obras estas de capital importância para o desenvolvimento da cidade, permitindo-lhe ocupar, hoje em dia lugar de topo no contexto económico nacional."

BIBLIOGRAFIA: "DIAS, Diamantino, Revista AVEIRO, Câmara Municipal de Aveiro, pp. 8, 2ª Edição, Julho de 1997."

Mundo, o Pedro chegou!

Um dia apenas! O Pedro tão nas nossas vidas...,
meu sobrinho-amor imenso-tudo!

23.1.09

Why?


Andrew Bird. Para ouvir até ao fim e com o volume no máximo...


BECAUSE!

Grelha de análise (3)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
TEMA: DEFINIÇÕES DE AMOR

Raul: Mas que vem a ser o amor? Uma necessidade orgânica, nada mais. Para obrar, podemo-nos servir de um vaso de loiça; para amar precisamos de um recipiente de carne...
pp. 10-11

Raul: Meu caro, todos nós temos um ideal. (...) Todavia, afianço-te que nele não há nenhuma mulher... não há mesmo ninguém, senão eu. Sou um bicho do mato... Ah! Não sentir ninguém perto de nós... fazer só o que a nossa vontade exige... A família! Que náusea!...
p. 12

Mas sem uma família constituída, não pode haver felicidade completa! - insurgia-me eu. Raul (...) respondia:
- De acordo. Por isso é que me repugna a vida familiar. Eu não quero ser feliz... Ser feliz, seria para mim a maior das infelicidades!... Pobre amigo... Pobre louco...
pp. 12-13

Hoje, compreendo que laborava num erro. A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas suas artes faríamos vida. Felizmente é impossível...
p. 18

Saber quem uma pessoa é, é conhecer a sua alma, penetrar nos seus pensamentos; saber como pensa, como executa. Numa noite, não se pode fazer tanto. A maioria das vezes, nem ao cabo de muitos anos. Por isso, à tua pergunta - «Quem é?» - respondi: - «Não sei». - O seu nome, sei-o: Marcela; a filha da Condessa.
p. 24

Raul era um homem, um artista para mais; uma natureza sensível portanto. O que lhe sucedera, era fatal. O amor não poupa ninguém. As melhores intenções de o desprezar, são inúteis: alfim, lá faz ele sentir s suas influências. No romance da vida de um homem – como em todos os romances – aparece sempre uma mulher, aparece sempre o amor. Afigurava-se-me apenas mais natural que a aventura do meu amigo tivesse sido qualquer coisa de romanesco, e não o prosaico, vulgar casamento.(...)
Somente, confesso, experimentei uma vaga desilusão quando vi o meu amigo descer do seu pedestal de bizarria para a banalidade. Nessa banalidade, ia ser feliz. Eu alegrava-me por consequência.

O casamento foi como todos.
p. 27

«- O matrimónio... - dizia ele muitas vezes – Ah! Como eu abomino essa palavra!... um contrato mascarado com o título de «sacramento que acorrenta inexoravelmente duas vidas; que dá todos os direitos ao homem, nenhuns à mulher!...Amem-se duas criaturas, entreguem-se uma à outra, visto que (...) a intimidade das almas exige a dos corpos; não se sujeitem porém a assinar uma escritura e o mundo considerá-los-à criminosos!!...(...)»
pp. 27-28

Com efeito, para a sociedade, existe uma grande diferença entre «marido e mulher» e «amante e amante». No primeiro caso, é o amor consentido, o amor burocrata, membro da Academia; sério e circunspecto. Resume-se todo no amplexo que o sacramento consente e ordena – na produção dos filhos «crescei e multiplicai-vos!» Os esposos dignos (...) devem ser comedidos no prazer, reservados na loucura: devem refrear os sentidos, abafar os suspiros... O amor dos amantes, é pelo contrário, livre; livre de todas as peias, de toda a hipocrisia. Não tem que guardar reservas: pode beijar bocas, os seios, os corpos todos... É a liberdade na paixão, e como é liberdade, grangeou o ódio da «gente honesta»...
Tudo isto é absurdo... tudo isto é verdadeiro. (...)
É por isso que os esposos que se amam como esposos, se não amam. É por isso mesmo que o marido tem amantes... que a sua mulher lhe segue muitas vezes o exemplo...
p. 30

Raul: Abandonando por algum tempo a escultura, dedicava-se à arte do amor, a mais bela de todas.
p. 31

A sua maneira de amar passou por várias fases: fez de Marcela uma cortesã grega, uma prostituta romana, uma cocotte parisiense...
p. 34

O amor que devia ser um sentimento todo da alma, é um sentimento só dos sentidos. (...) O amor é uma distracção... como o teatro... como as festas de igreja. Ama-se uma mulher porque ela é linda... (...) Pode-se amar uma mulher feia pelos seus vícios estonteantes, perversos...(...)
Ah! eu gosto dos teus beijos... da tua carne... gosto de enlaçar as minhas pernas nas tuas... Mas isso que vale?! O que amo, é a tua alma e essa, seja feio o corpo, será sempre bela...
p. 74

«Só se ama por interesse. Não se ama um corpo disforme». Ele possuía uma criatura ideal; pois bem, destruiria toda a sua beleza (...) Morto o corpo, amaria a alma só com a sua alma.
p. 77


[Imagem: Wlodek Warulik, Provocative, 2006]