20.5.05

Confissões Sexuais de Um Anónimo Português II


Isach Oslo via Imagens

Por volta dos dez anos apaixonei-me.
Até aí gostava apenas de estar com ela, a Alice chegava e começavam logo as brincadeiras e as gargalhadas. Com a paixão, as coisas complicaram-se. Sonhava com ela, sofria se ela não aparecia aos Domingos, estranhava uma espécie de agitação que começava a acontecer no meu corpo. Mas só soube que era paixão porque a minha irmã, involuntariamente, me disse. Com um ar trocista perguntou-me se eu não andava pelo beicinho e então percebi que finalmente estava a acontecer essa coisa a que todos davam alguma importância, tanta que desde miúdo me perguntavam se tinha namorada. Mas a paixão deu cabo da minha relação com a Alice. Como era minha prima ninguém achou muita piada, além de que a certeza de que ela já sabia ou ia saber que eu passava o tempo todo a pensar nela - e como isso era humilhante! -, fez com que eu começasse a agir de forma tão brusca e violenta com a Alice, que ela passou - imaginava -, a não gostar de mim, e ninguém pode continuar apaixonado por alguém que não gosta de nós.

O pior de tudo foi a conversa que o meu pai teve comigo. Explicou-me meia dúzia de coisas sobre os factos da vida, sendo que a moral da história era "aindas és um puto mas daqui a pouco vais deixar de ser, e o melhor é arranjares namoradas que não sejam da família, espero que muitas, as mulheres são todas diferentes, cada uma tem o seu encanto, e um tipo só vive uma vez, não sejas burro, goza muito antes de casar, que depois de casar também é possível mas é mais complicado, e mais depressa do que imaginas envelheces e depois um tipo já não é o mesmo, mas és muito novo para perceberes isto, e portanto já sabes que se quiseres falar comigo estás à vontade, sou o teu pai, já vivi muito, ahahah, por acaso diverti-me à brava com as miúdas quando era novo, eu e o teu tio, o pai da Alice, que a tua mãe e a tua tia nem sonham, ahahah, epá rapaz mais uns anitos e chega a tua vez, e agora dorme bem, está bem?"

Antes de começar a dominar a situação fui vítima de abuso sexual e isso deixou-me um pouco confuso.

12 comentários:

blimunda disse...

gosto tanto de te ler...

MRF disse...

blimunda, senhora da filigrana em memoriais sensuais e em nuvens densas ou passageiras: :)

rodrigo terra disse...

MRF,
Estou sentado na pontinha da cadeira, à espera da confissão seguinte...

Papo-seco disse...

Está tão bem retratado..... mas o papel do Pai também não é fácil. Quando digo Pai digo um Pai a sério não um "pintas".

Solteirão disse...

Não consigo deixar de ser surpreendido sempre que por aqui me passeio

jp disse...

O dominar a situação é sempre relativo. é partir do pressuposto de que é o dominante, quando afinal é apenas deixado ser na maioria das vezes
;-)

Barão d'Holbster disse...

As histórias mais comuns, as mais banais, escondem sempre grandes histórias, outras histórias. É por isso que eu adoro pessoas. Há sempre uma história por trás delas. E como eu gosto de histórias...

mfc disse...

Gostei e continuo a gostar.
E cá estarei para o desenvolvimento.

Amaral disse...

Um pai, um filho e a prima que era o seu amor!
Quando as velhas crenças são impostas, o mundo renova-se sem nada de novo…

Ananda disse...

Adorei! Vou ficar à espera das próximas confissões... ;) Beijinho!

Shadow disse...

aos 4 e 10 anos não tinha esses problemas... uhmmm talvez por ser do fc porto?! =)

other disse...

gostei desse texto da paixão pela prima.
E fiquei na dúvida se o texto era escrito por um homem ou por uma mulher...;
Porém algo me disse que o autor era autora...;