12.9.08

Mamma Mia !


Já experimentaram o novo antidepressivo? Chama-se «Mamma Mia», tem formato de filme e espero que apareça brevemente em DVD. Os riscos de habituação são sérios: vi o filme duas vezes numa semana e quero mais. Dada a composição do produto, quem sofrer de insónia, não deve tomá-lo à noite. É magistral esta comédia musical! Faz mesmo bem à saúde!

Thank You For The Music!

11.9.08

Ligações improváveis



11 Setembro 1973



Último discurso do ex-presidente do Chile, Salvador Allende, em 10 de setembro de 1973, no qual ele garante que terminará o seu mandato, um dia antes do golpe de estado que levaria o General Augusto Pinochet ao governo.

O golpe de Estado que pôs fim ao governo de Salvador Allende (1970-1973) e instaurou a ditadura de Pinochet no Chile não pode ser apagado da nossa memória colectiva. De resto, muito se escreve ainda sobre o governo da Unidade Popular (UP) que Allende encabeçava, o que significou e como poderia ter evoluído; sobre o papel da CIA e os pecados históricos da política externa americana; e sobre as circunstâncias precisas da morte de Allende no Palácio La Moneda.
Há cerca de três anos, Juan Vivés, companheiro de Che Guevara, um dos mais jovens guerrilheiros da revolução cubana que ajudou a depôr o ditador Fulgêncio Baptista, que foi depois capitão rebelde e, mais tarde, durante cerca de 20 anos, agente secreto do regime de Fidel Castro,
lançou um livro que tem como título o cognome por que era conhecido, «El Magnifico». Juan Vivés afirma que Allende não se suicidou mas que foi assassinado pelo seu Chefe de Segurança Pessoal, um cubano chamado Patricio de la Guardia. Fidel foi apoiante de Allende e face ao golpe de Pinochet, teria preferido que o Presidente Chileno morresse como um mártir. Declara que o próprio Patricio de La Guardia lhe terá confessado esse assassinato. Este último, caído em desgraça em Cuba (no momento do lançamento do livro estava preso em Havana), negava essa declaração. Em França, o caso foi bastante mediatizado e assisti a várias entrevistas a Juan Vivés e a familiares de Patricio de la Guardia. Estes últimos temiam sobretudo as consequências do livro de Vivés no destino do familiar. Não sei como acabou a contenda nem qual foi a sorte de Parricio de la Guardia. Mas o 11 de Setembro de 1973 continuará a suscitar acesas discussões e não sei se alguma vez será cabalmente explicado ao mundo.



A ler:
La entrevista inédita de Salvador Allende [La nacion.cl]

9.9.08

Meu querido mês de Agosto

O ano passado, em Agosto, andei por aldeias quase invisíveis, escondidas por mares de granito, marões, muitos, parentes do único Marão da pátria de Torga ou, mais a Sul, nascidas à beira da Estrela (que só por isso a Beira é a Beira, à beira da serra), algumas célebres pelas suas ruínas, lugares que deixaram de ser o que eram e que existem agora com outra alma, a custo, ainda dependentes da riqueza que se atribuir às pedras mais ou menos soltas ou agregadas, esculpidas ou torturadas, que escaparam a séculos ou a décadas de abandono. Terras que são de quem lá ficou ou de quem foi para longe, para muito longe, mas volta sempre, custe o que custar, para carregar o Santo ou abraçar compadres. Terras de suas gentes, velhas, pobres, saudosas de frutos e filhos, mas inertes. Ou terras que seguraram a última candeia e se transformaram em coisa híbrida, fruto da fusão da cultura rural original com os valores do novo turismo, histórico ou alternativo.

É o nosso império, e a soma de todas estas maravilhas não pode vir a ser uma ruína sem pés nem cabeça. Mas, antes que a memória, o desejo, os sinais, as trocas, até o nome, se alterem novamente, convém ir até lá.

«Aquele Querido Mês de Agosto» foi filmado no decorrer dos verões de 2006 e 2007, em concelhos da região centro: Arganil, Góis, Pampilhosa da Serra, Oliveira do Hospital e Tábua. O filme de Miguel Gomes é uma dessas viagens obrigatórias. Documentário e ficção são interlaçados de forma brilhante e original. É uma dádiva estranho-familiar, uma obra portuguesa até às entranhas. É uma comédia de costumes, um auto dos Verões numa pátria rústica, em que miséria e sonhos, saudade e folia são embalados com canções pimba de bailaricos. Agosto de emigrantes e de romances, de tradições que resistem ao mal e, deixemo-nos de romantismos, ao bem, que nem sempre há tino ou horizontes para mais.

No elenco, actores não profissionais e naturais dos locais onde se desenrola a acção: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares, além de Luís Marante, cantor e compositor romântico do Agrupamento Musical Diapasão. Neste fragmento, uma das revelações, Sónia Bandeira. E eu acho que ela vai deixar de ser vigia na montanha e que, em vez de evitar incêndios, vai passar a provocá-los no palco ou noutras telas.

7.9.08

Outono em Agosto

(...)
Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

in A secreta viagem
David Mourão-Ferreira


Gruyeres

St-Prex

Lausanne

St-Sulpice

Neuchâtel

Berna

Versailles


(...)
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Espaço para uma canção
Ruy Belo


Fotos MRF

Deuses e demónios

2.9.08

Forêt Vierge num cantão - cantinho da Suiça

Retrato de Blaise Cendrars, por Amedeo Modigliani



Numa pequena rua em Neuchâtel, um alfarrabista tem a porta de sua casa aberta. É um convite irresistível. O dia é chuvoso e os livros parecem repousar há uma eternidade naquela sala escura. Ou talvez tenha sido o homem, magro, ligeiramente curvado, sentado ao fundo, lendo sobre a secretária, entre montanhas e planaltos de manuscritos e encadernações amarelecidas, que me despertou a curiosidade. Quais seriam os autores eleitos, que obras coleccionaria aquele suiço amante de literatura? Encontro Corneille, Racine, Victor Hugo, Sartre, Beauvoir, enfim, franceses, mestres! Mas não reconheço muitas obras, leio nomes que me são estranhos... até chegar ao suiço Blaise Cendrars! Li há pouco "Poesia em Viagem" (Assírio & Alvim, 2005) e um longo poema, Les Pâques à New York, ainda viaja comigo e está vivo neste mundo de migrações à escala global:

«(...)
Senhor, a multidão de pobres por quem fizestes o Sacrifício
Está aqui, nos hospícios, cercada e amontoada, como gado.

Enormes barcos negros chegam dos horizontes
E desembarcam-nos, a esmo, nos pontões.

Há italianos, gregos, espanhóis,
Russos, búlgaros, persas, mongóis.

São animais de circo que saltam meridianos.
Atiram-lhes com um pedaço de carne como a cães.
(...)»

Pura coincidência, evoco Cendrars e descubro que nasceu a 1 de Setembro de 1887 (m. 20 Janeiro 1961). Nasceu numa pequena localidade, Chaux-de-Fonds, por onde passei o mês passado. Essa é também a terra natal de Le Corbusier e quis conhecer a primeira casa desenhada pelo arquitecto (em 1912).

Volto a Neuchâtel, estou centrada em Cendrars, e o espaço que lhe é reservado parece um enorme esconderijo. De cócoras, salto prateleiras, da esquerda para a direita, de cima para baixo. E então avisto "Forêt Vierge (A Selva)" de Ferreira de Castro, «roman traduit du Portugais par Blaise Cendrars», editado pela Grasset em 1938. O meu tesouro de viagem é assinado pelo autor e inclui uma introdução que vou transcrever (e traduzir) em parte.



" Foi o meu amigo Paul Prado, eminente paulista, autor de «Ritrato do Brazil», essa síntese, única no seu género, de história e de psicologia, quem primeiro me assinalou «A Selva», um documento extraordinariamente verdadeiro sobre a Amazónia, devido, não ao cinema, mas à pena do grande romancista português Ferreira de Castro.
Penso que foi em 1930, e desde a minha primeira estadia no Brasil, ou seja, já há uma dezena de anos atrás, que ponderei com Paul Prado e outros amigos brasileiros, a possibilidade de traduzir para francês um livro brasileiro sobre a Amazónia, sem conseguir fazer uma escolha entre todas as obras que me davam a ler.
(...)
Em Ferreira de Castro eu encontrei finalmente um escritor que sabia evocar como ninguém as belezas e os horrores da Amazónia, descrever a natureza do trópico, anotar as bizarrias, os caprichos, as extravagâncias que nascem sob este clima de água e de fogo, além de falar ainda dos homens que habitam esta terra, que vivem, que lutam, que sofrem nas clareiras da floresta virgem, os selvagens, os primitivos, os autóctones, os nativos, os «caboclos», os agricultores livres, os operários agrícolas, os colonos, os fazendeiros, mas também os «transplantados» e os emigrantes - e, entre estes últimos, um civilizado como o próprio Ferreira de Castro, que foi para a floresta, não para escrever um livro ou por curiosidade, mas como o mais humilde dos emigrantes portugueses, para aí ganhar o seu pão e que, anos mais tarde, se viu obrigado a escrever o seu famoso romance sobre a Amazónia para se libertar de uma obsessão.
(...)
Na minha opinião, o que provocou o imenso sucesso de «A Selva», traduzida hoje em catorze línguas - a minha tradução em francês chega em último lugar - é a sua profunda humanidade, a sua veracidade, os detalhes vividos que ele relata, as suas descrições cruas e nuas sobre a vida dos pobres «seringueiros», uma ausência completa de comentários que deixam que o facto actue directamente sobre o leitor e uma fidelidade tão escrupulosa às palavras, que o mais pequeno diálogo entre estas gentes de cor simples, primitivos perdidos no mais fundo dos bosques, emociona, toca o coração, é escutado.
(...)
- o português é a língua mais voluptuosa, a mais cintilante da Europa e, como é tradição no seu país, Ferreira de Castro é um brilhante, um ardente estilista. O perigo teria sido querer imitá-lo em francês (...) que, se eu tenho muitas vezes ar de ter traído o autor, nunca traí a alma dos personagens, tanto mais sendo ela tão humilde, e é sobretudo isso que conta neste romance, exótico, mas humano, demasiado humano.

BLAISE CENDRARS
Les Aiguillettes
Forêt des Ardennes
Eté 1938 "


Ferreira de Castro (1898-1974) escreveu «A Selva» em 1930. Segundo nota de rodapé de Blaise Cendrars, [em 1938] seria o escritor mais lido em Portugal, escrevia regularmente para os grandes jornais diários brasileiros que o encarregavam de reportagens na Europa e preparava-se para fazer uma volta ao mundo.

Miles Davis na fonoteca


Escultura de Bavaud, Montreux