14.9.07

À escuta #51

S - Está ali escrito na parede P-U-T-A [soletrando]. É uma grande asneira!
A - Mamã, o que é P-U-T-A ?
- É uma gran-de as-ne-ira.
A - Mas o que quer dizer?
- Bem, as pessoas mal educadas chamam isso às mulheres que têm muitos namorados, que vão com todos os rapazes...
A- E vão aonde?

13.9.07

História de amor e trevas #2

YEFIM LADIZHINSKY

Eram capazes de passar três ou quatro horas a discutir apaixonadamente sobre Nietzsche, Estaline, Freud, Jabotinsky, de se lançar nessas discussões de corpo e alma, de vibrar de emoção, de se indignar sobre o colonialismo, o anti-semitismo, a justiça, a «questão agrária», o «problema da mulher», a «questão da vida em oposição à arte». Mas quando tentavam exprimir um sentimento pessoal, o resultado era sempre crispado, seco, quase amedrontado, fruto de gerações de inibições e tabus. De tabus duplos, de dois sistemas repressivos: a boa educação europeia pequeno-burguesa reforçando as inibições do shtetl* tradicional judaico. Quase tudo era «proibido» ou «não se faz» ou «não é bonito».
Para além disso, faltavam-lhe as palavras: o hebraico ainda não era para eles uma língua espontânea, e muito menos íntima, e não sabiam bem o que saía quando falavam hebraico. [...]
Mesmo pessoas como os meus pais, que sabiam bem hebraico, não dominavam a língua totalmente.

pp. 17

in Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas
Ed. ASA, Março de 2007


* Shtetl: termo iídiche que designava as povoações de população maioritariamente judaica, situadas na Europa Central e de Leste de antes do Holocausto, em particular na chamada «Zona de Residência» do Império russo, Polónia, Galícia e Roménia.

À escuta #50

S - Olha, há uma terra que se chama Branco.
- Não é Branco, é Castelo Branco. Na placa estava só «C.» antes do Branco, mas isso quer dizer Castelo Branco.
S - Não, era só Branco!
- Não, era Castelo Branco!
S - Era Branco!
Pai - Se calhar também há um lugar chamado Branco...
S - Estás a ver mamã, tudo é possível, não é sempre como pensas!

Cruzes credo


Quando é que vamos acabar de vez com os sinais da cruz em espaços laicos! E o Filipe Tourais tem razão quando nos convida a encontrar as (7) diferenças.

12.9.07

História de amor e trevas #1

Rona Boyarski
Glance over Jaffa, 2005



Na escala de valores dos meus pais, quanto mais ocidental, mais cultural: Tolstoi e Dostoievsky estavam muito próximos da sua alma russa, mas penso que consideravam a Alemanha - apesar de Hitler - mais cultural do que a Rússia e a Polónia, a França mais do que a Alemanha, e a Inglaterra mais do que a França. Quanto à América, não estavam assim tão certos: um sítio onde se massacravam os índios, atacavam carruagens, procurava ouro e caçavam raparigas.
Para eles a Europa era a terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos eléctricos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve.
[...]
Anos mais tarde, constatei que a Jerusalém do mandato britânico, nos anos vinte, trinta e quarenta, era uma cidade extraordinariamente civilizada, com grandes comerciantes, músicos, intelectuais e escritores: Martin Buber, Gershom Scholem, Agnon, e muitos outros sábios e artistas notáveis.
[...]
A Jerusalém que os meus pais cobiçavam situava-se longe do nosso bairro: em Rehavia, imersa em verdura e sons de piano, nos três ou quatro cafés com lustres dourados da rua de Jaffa ou Ben Yehuda, nos salões YMCA e no Hotel King David, onde judeus e árabes amantes da cultura se cruzavam com britânicos cultos e afáveis, onde damas sonhadoras de pescoços compridos e vestidos de baile esvoaçavam nos braços de homens de fato escuro, onde ingleses de espírito aberto encontravam judeus cultos e árabes educados, onde se realizavam recitais, bailes, serões de leitura, chás-dançantes e debates artísticos elegantes. É possível que essa Jerusalém dos lustres e dos chás-dançantes só existisse nos sonhos dos habitantes de Kerem Avraham, bibliotecários, professores, empregados e encadernadores. Seja como for, não existia no nosso bairro. O nosso bairro, Kerem Avraham, pertencia a Checov.
[...]
No nosso bairro o mundo era geralmente chamado «o grande mundo» [...] Lá, no mundo, os muros estavam cobertos de palavras de ódio, «Judeu, vai para a Palestina», e agora que aqui estamos o mundinteiro grita «Judeu, sai da Palestina».

pp. 6, 7, 8, 9

in Amos Oz,
Uma História de Amor e TrevasEd. ASA, Março de 2007

11.9.07

The windows of the world

«The Windows of the World era o nome do restaurante situado no 107° piso da Torre Norte do WTC. Estavam 171 pessoas nesse restaurante (incl. 72 empregados) no momento do choque do Boeing. The Windows of the World é também o título de uma canção de Burt Bacharach e Hal David, interpretada por Dionne Warwick em 1967. A canção foi escrita contra a guerra no Vietname mas a mensagem ainda é válida e sê-lo-á durante muito tempo.» (ver aqui o Post de 2005)


The windows of the world are covered with rain,
Where is the sunshine we once knew?
Everybody knows when little children play
They need a sunny day to grow straight and tall.
Let the sun shine through.

The windows of the world are covered with rain,
When will those black skies turn to blue?
Everybody knows when boys grow into men
They start to wonder when their country will call.
Let the sun shine through.

À escuta #49

S - Mamã, a A. está a rezar no teu quarto.
- A rezar?
S - Sim, está a pedir perdão ao Jesus pela asneira que fez.

[e, de facto, encontrei a A. de joelhos ao pé da cama, as mãos unidas, a ler «O livro das pequenas orações» que a avó lhe ofereceu há imenso tempo___ e a que ela nunca deu muita importância]

Ao jantar:
- A., acreditas mesmo no Jesus?
A - Claro!
- Então este ano queres ir para a catequese?
A - Por favor, não!
- Não?
A - Não, porque eu já sei como é que vai ser. Aparece o padre e fala com aquela VOZ no Jesus, na paz, bla bla bla, amai-vos, e eu não vou gostar!

É preciso pensar grande para se ser grande

Foi o caso de Adam Shankman. e eu vim de lá atónita com o ritmo. Not bad Travolta. Not so good Christopher Walken. Uma comédia musical com layout sixty pró obesidade e contra o racismo! Melhor deixa: "guarda a tua vida pessoal para as câmaras". Diverti-me. :)

10.9.07

Que mais precisamos de saber?

Apeteceu-lhe escrever sobre uma série de matérias que indiciam o estado do mundo, o nosso e o de todos, se pudermos criar ainda divisões. Sobre algumas dessas matérias, tem uma autoridade acrescida (vejam as notas). Fá-lo com a liberdade que teria permitido a Jorge Sena, hoje, mudar o nome de um poema. Leiam Eduardo Graça. Acabou a silly season.

8.9.07

Aldeias e cidades (quase) invisíveis #1



Entre Bornes e Vila Flôr, na IP2, uma paragem de autocarro onde se lê: "Deixem desabrochar o sonho que existe dentro de vós". Paragem, inversão de marcha, para voltar a sorrir. Uma foto, olhar à volta, montanha, tanta montanha, quem virá aqui apanhar a carreira para a cidade? E logo ao lado reparo num pequeno caminho com a indicação de Santa Comba da Vilariça/Cruzeiros/Pelourinho.


O carro parece encolher nas ruas estreitas. Velhos sentados nas escadas de pedra das casas. Uma faz esquina e concentra um grupo animado. Donas de casa aparecem à janela. Todos sorriem e espreitam, certamente a ver se reconhecem os visitantes. É quinta-feira e no sábado vão começar as festas de Santa Comba. Esperam-se muitos parentes emigrados em França ou Espanha, poderia ser o nosso caso. Mas isso só compreenderemos depois. Por agora, procuramos um lugar para estacionar e, dada a hora, estamos também de olho num restaurante.

A porta da Igreja fecha na mesma altura em que saímos do carro. Pouca sorte, dizemos, mas logo uma senhora nos pergunta se gostaríamos de ver a Santa Comba. Quem? A santa, que por acaso é muito linda, muito linda. E venham, venham, só um bocadinho que vou iluminar o altar. O altar, em talha dourada, fica resplandecente com a luz, e as pinturas dos caixotões do tecto avivam-se.




Foram restaurados há pouco tempo. O senhor padre vai fazendo as obras que é preciso, aos poucos, e todos contribuem, aos pouquinhos. O senhor padre é um homem novo, quer dizer, chegou ali um rapaz e agora deve ter uns trinta e sete. É famoso, é "o padre casamenteiro", porque nenhum dos casamentos que realizou acabou em divórcio. Na sacristia há relíquias, peças com muito valor, um belo São Jorge a cavalo e uma escultura de madeira antiga, a imagem de um santo, descolorada, porque um dia um ajudante decidiu lavá-la com lixívia. Aos pouquinhos, o senhor padre já disse, tudo será restaurado. A senhora é uma simpatia e gosta mesmo do seu trabalho, é responsável pela igreja e sente um imenso orgulho por nos dar a ver tanta beleza. Ama a sua Santa Comba. Perante a imagem, os seus olhos brilham. É mesmo linda. A santa e a senhora que, deve ser dos meus olhos, até acho que se parecem uma com a outra. Agradecemos o acolhimento e despedimo-nos. Pouco tempo depois, antes de partirmos da aldeia, seríamos surpreendidos pela santa. A verdade é que saltou do altar. Mas primeiro vamos ao restaurante.



No café-restaurante Vilariça há um frenesim que se adivinha raro. Agosto é o mês dos reencontros e a procissão é já dali a dois dias. Entram, saem, passam emigrantes e gente da terra. De vez enquando todos se levantam numa mesa para abraçar alguém. Aquele chegou agora mesmo. A viagem, oh, fez-se num instante, de carro, pois, é o hábito. Tem um look muito cool, careca, brinco na orelha, e começam logo a contar-lhe as novidades. A mais divertida aconteceu na noite anterior, uma grande farra com o Carlos, o Eugénio e mais uns quantos, depois de passarem o dia a apanhar as batatas todas do pai do António. Só homens, não sei quantos sacos, e está visto que à noite foi só entornar. Mas no café vivem-se alguns dramas. A morte recente da mulher do senhor ali ao lado é um deles. Quem passa ainda lhe dá os sentimentos, um abraço, umas palavras de consolo. Por momentos ele chora, às vezes até soluça, mas logo se controla. Uma senhora bem apessoada oferece-lhe pragmatismo: "ela foi na hora que tinha que ir, lá chegará a sua vez também". Valem-lhe os amigos, da mesma idade, sentados na sua mesa. Tentam animá-lo. "A ti conheci-te quando aindas eras solteiro. Que idade tens agora? - Setenta e oito." "Lembras-te daquela vez que o morto se mexeu?". Todos se lembravam e a tal senhora também, assustou-se tanto que até torceu um pé. E num instante, está tudo a rir. Quando voltam a ficar sós, os três velhos amigos entram em conversas de escárnio e maldizer. "Fulano de tal que julga que tem sempre razão e que não se pode contradizer". Vidas! Vidas que se cruzam com as nossas enquanto comemos "pica-paus" e outros petiscos.

Na Igreja, a Santa Comba espera-nos à entrada da porta. Ainda há pouco tão quieta no altar-mor e de repente toda saltitante sobre o andor! É preciso amarrá-la melhor.



Com 41 anos de experiência, isso não vai ser problema para o mestre amarrador de santos. Outras igrejas pagariam mais, mas ele mantém-se fiel à terra. Puxa a corda, testa, a santa está fixa, não vai cair. O neto assiste. Veio de Vitoria, no País Basco, que nem todos na aldeia passaram a ser franceses. "E a senhora, quem é o seu sogro?" - Eu, ah, não sou de cá, estou só de passagem. "Pensei que era estrangeira, casada com um dos nossos."


Fotos de MRF/2007


ADENDA: O Rui Gonçalves aconselha o restaurante Vilariça, que serve "a melhor Posta à Mirandesa da região" e umas excelentes rabanadas pelo Natal. Eu insisto nos Pica-paus. Ambos concordamos sobre a simpatia do dono da casa (e dos empregados). Telefone: 278 536 258.