27.3.07

Dia Mundial do Teatro #4

Luís de Camões: É Vossa reverença o revedor do meu livro...
Frei Bartolomeu Ferreira: Eu sou. E hei-de vos dizer, posto que não tenha concluído ainda a segunda leitura, que não encontro nele coisa contrária à nossa santa fé. O mesmo, porém, não ousaria dizer no que toca aos bons costumes. Vossa Mercê por todo o lado introduz nudezas, e em tal excesso que fará da leitura um constante alerme dos sentidos.
Luís de Camões: São elas muito necessárias à minha fábula. Vossa Reverença bem sabe que os antigos deuses cuidavam pouco de roupagens, em particular as deusas, consoante as vemos costumadamente representadas em pinturas e estátuas. Também Eva, nossa primeira mãe, e Adão, nosso primeiro pai...
Frei Bartolomeu Ferreira: Mais devagar, senhor Luís de Camões. Adão e Eva viviam nus quando em estado de inocência. Logo que cairam em pecado, determinou o Senhor, enfim, não o determinou o Senhor, eles foram que viram que estavam nus e vestiram-se. Por forte razão, como vedes.

in Que Farei Com Este Livro?
José Saramago

Dia Mundial do Teatro #3

Winnie:... Pois é... assim eu pudesse suportar a solidão, quero dizer, ficar para aqui a pairar sem ser ouvida por ninguém. Não é que eu tenha ilusões, Deus me livre. Tu não ouves lá grande coisa, Willie. Há mesmo dias em que não ouves nada. Mas há também outros em que respondes. De maneira que eu posso sempre dizer de mim para mim, mesmo quando não respondes e talvez nem oiças: Winnie, posso eu dizer, há alturas em que alguém te escuta, tu não estás a falar só para ti própria, quero dizer, no deserto, coisas que eu nunca pude suportar - por muito tempo. E é isso que me permite continuar, continuar a falar, entenda-se. Enquanto que, se tu viesses a morrer, para falar à moda antiga, ou se te fosses embora e me deixasses, que havia eu de fazer então, que poderia fazer ao longo do dia, quero dizer, desde o instante em que a campainha toca para acordar até ao instante em que a campainha toca para adormecer?

in Dias Felizes
Samuel Beckett

Dia Mundial do Teatro #2

Criado: Senhor.
Director: Que é?
Criado: Está aí o público.
Director: Que entre.

in O Público
Federico Garcia Lorca

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XLII

Sempre que atravessava aquela praça olhava a torre. Por vezes os sinos repicavam no exacto momento em que ela passava e então parava, sustinha os movimentos, hipnotizada. Uma torre assim nos Paços do Concelho era engraçado. Em vez de Deus, era o poder laico que ditava o horário, advertindo a população sobre o momento do despertar ou do recolher, ou apenas da pausa, das pausas, ou da necessidade de se apressar, de correr ao som do quarto de hora para não chegar atrasado ao encontro à hora certa.
Sempre que cruzava a praça, olhava para o relógio. gestos irreflectidos, de estender o braço, puxar a manga, olhar sem ver, quase, com a intenção arcaica de se certificar que o mecanismo continuava saudável. Ou fazia apostas infantis. chegaria à floreira antes do primeiro toque, dobraria a esquina antes da última badalada, ou adivinharia o exacto momento em que começariam os sinos a repicar. agora não, não, ainda não, agora sim... sem que tivesse alguma importância acertar ou não. Às vezes, compassava pensamentos ou palavras com o som.

Foi pois com uma alegria excessiva, despropositada, que aceitou entregar a encomenda naquele local. Logo à entrada do edifício, o segurança orientou-a. A secção que procurava ficava no último andar, deveria subir no elevador até ao segundo piso e depois ir a pé, utilizando as escadas à esquerda. Seguiu as instruções. Quando chegou ao lance de escadas, tosco, irregular, apertado, percebeu que estava precisamente no alto da torre. Como num velho castelo, equilibrava-se apoiando-se nas paredes. A meio percebeu uma porta mas decidiu não entrar. Os sinos estavam ali ao seu alcance. Continuou a subir. O corredor estreitava, os ângulos apertavam, até uma corrente de ar fresco ganhar corpo, adensar, e uma luz intensa quase a cegar. E de súbito, ei-los, gigantes, compactos, poderosos. Aproximou-se devagar, deslizou silenciosa pelas traseiras do primeiro, depois avançou, colocando-se entre os dois primeiros sinos, e estancou. O horizonte distante, o mar ao longe, e ainda o outro lado da baía, mais próxima a paisagem de telhados e arvoredo, até chegar à praça que conhecia tão bem, ali em baixo, com as suas floreiras e o empedrado geométrico. Subitamente levantou o pulso, procurou a hora que o seu relógio marcava e...


Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui. Para ler sem interrupções, escolher um, e escrever o próximo Prémio Saramago, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

Dia Mundial do Teatro. Propostas:

Daniel Radcliffe em Equus

... no Gielgud Theatre, se forem a Londres. Se não forem, tentem Lisboa. ou o Porto (enfim!)
Por aqui, a coisa não está nua, anda esfarrapada!
A vantagem de Londres é que podemos levar toda a família, e os mais novos até já conhecem Radcliffe, apesar de estarem mais habituados a vê-lo no papel de Harry Potter. mas isso não interessa nada!

Salazar, pois. Adeus e até ao meu regresso #2


Philippe Stark em Tóquio
(escultura a que os japoneses apelidam de "A Grande Merda")

Maio 2006

26.3.07

Salazar, pois. Adeus e até ao meu regresso.

Eu lembro-me de estudar as formas do "nacionalismo" no Japão, e a II Guerra Mundial ainda está tão presente, eu sei..., mas depois da votação de ontem no concurso Grandes Portugueses, decidi viajar para longe. Com sorte encontro o Haruki Murakami... numa destas pontes de Tóquio.



Maio 2006
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25.3.07

planície sobre montes com escalada

Há mais de 50 anos

A London news vendor
1939



O Tratado de Roma, assinado em 25 de Março de 1957, instituiu a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom). Mas esta celebração não pode esquecer a História que o precedeu e gerou.

As fotos são do fotojornalista Carl Mydans.


Wold War II Minister's meeting
Rome, Fascist
Italy, 1940



Wold War II - Near Verdun after the German breakthrough at Sedan
France, 1940



Wold War II - Collaborationist
Marseille, France, 1944



Wold War II - American and Filipino guerillas join forces in attack on Japanese
Northern Luzon, Philippines, 1945



Two german soldiers are captured near Saint-Tropez
in the liberation of southern France



Prime Minister Winston Churchill
Biggleswade, England, 1955

Diário da Guerra aos Porcos #4

Walter Stanish
Old men's game, 2005


Os rapazes montaram, como faziam todas as noites, a mesa de truco*, naquele café de Canning, em frente da praça Las Heras. O termo rapazes por ele utilizado, não deve fazer supor um complicado e subconsciente propósito de passarem por jovens, como assegura Isidorito, o filho de Vidal, antes obedece à casualidade de uma vez o terem sido e de, desde então, se designarem justificadamente desse modo. Isidorito, que não opina sem consultar uma doutora, abana a cabeça, prefere não discutir, como se o seu pai se estivesse a debater com a sua própria argumentação enganadora. Quanto a não discutir, Vidal dá-lhe razão. A falar, ninguém se entende. Entendemo-nos a favor ou contra, como matilhas de cães que atacam ou repelem um inimigo circunstancial. Todos eles, por exemplo - Vidal tinha o cuidado de dizer os rapazes, quando se lembrava - na mesa de truco passavam o tempo, divertiam-se, não porque se entendessem ou se dessem particularmente bem mas sim por obra e graça do hábito. Estavam habituados à hora, ao lugar, ao fernet², às cartas, às caras, ao pano e à cor da roupa, de modo que qualquer sobressalto estava, para o grupo, fora de questão.

in Diário da Guerra aos Porcos de Adolfo Bioy Casares
pp. 7-8


* Jogo de cartas com baralho espanhol
² Licor italiano à base de ervas