9.3.05


O DIA (PESSOAL) DOS HOMENS

Eles também deveriam ter um dia só para eles...

Depois do dia internacional da mulher parece-me bem dedicar um dia pessoal aos homens! Apenas um dia pessoal. Nada de cariz internacional porque não há essa carência. No dia pessoal aos homens eu vou dizer que os admiro e amo mas que não gostava nada de ser homem.

Na verdade eu teria medo de ser homem. Eu asfixiava, se fosse homem. É a barba, é o guarda-roupa limitado, as cores que não são de homem, a forma idêntica das camisas, os nós de gravata. Até os perfumes, bálsamos e cosméticos têm as mesmas fragâncias a ambâr, sempre. Mas isto é só o princípio.

O pior tem a ver com as decisões que um homem tem de tomar. Os papéis sociais evoluiram, mas a nossa maior liberdade gerou uma enorme desorientação nos homens. Há conquistas masculinas, é claro. Por exemplo: agora um homem pode chorar. Mas, se eu fosse um homem, não choraria muitas vezes. Porque elas adoram embalar e confortar mas continuam a sonhar com protecção. Como elas estão mais informadas e já não são expulsas de casa se não forem virgens, agora tudo parece ser mais simples. Mas, se fosse homem, ainda me sentiria mal se uma miúda fosse mais experiente do que eu e no final me dissesse docemente "não te preocupes, a técnica é o menos importante".

É ao nível profissional que eu mais detestaria ser homem. Um homem não pode parar de trabalhar. Nem quando os filhos nascem, mesmo que se interesse menos do que ela pelo seu trabalho. Nem quando está cansado. Nem quando não há trabalho. Não é só pelo imperativo financeiro. Fica mal tratar da casa e das crianças. se os miúdos estão doentes, não dá para pedir ao chefe para sair, dizendo que a mulher tem uma reunião importante lá no trabalho dela. Eu acho que os homens têm poucos direitos no mundo laboral e que o patronato tem de começar a encará-los como seres que têm as suas fragilidades. Além de que, é sabido, os homens têm que ser o maior contribuinte para o lar. Se fosse homem, eu não me importaria que ela ganhasse mais do que eu, mas não ia confessar isso a muita gente.

Tudo isto deixa os nossos homens perdidos. Às vezes até são inteligentes, mas começam a não distinguir o chão do cesto da roupa suja, a não perceber que o papel higiénico não nasce no porta-rolos, que não foi por milagre que a loiça apareceu lavada, que não perdem a identidade se não ficarem com o comando da televisão na mão, etc.. Já todos ouvimos falar destas situações! Nos casos extremos começam a sofrer de atrofia cerebral, e esquecem datas de aniversário e outras datas importantes. Às vezes tornam-se impacientes e deixam de nos acompanhar aos centros comerciais.

Também acontece distraírem-se com muitas mulheres ao mesmo tempo. Eu compreendo, porque nenhuma de nós sozinha os consegue entender por completo. Mas inquieto-me quando os vejo acreditarem na ternura e compaixão, no fogo e atrevimento de uma fotografia de outdoor.

Não, eu juro que sofreria imenso se fosse homem. Por exemplo, como me sentiria só e estranho se não gostasse de futebol. Era capaz de ser pior do que ser gay mas, se fosse homem, era gay de certeza.

É por tudo isto que dedico este dia aos homens. Vou dar-lhes uns miminhos de poesia, um toquezinho de música e depois uma imagem que desperte a imaginação. Porque os homens são diferentes mas têm direito a tudo, como nós.

1. Miminhos de poesia

Género

Desde um tempo antigo até hoje,
quando um homem segura minha mão,
saltam duas lembranças guarnecendo
a secreta alegria do meu sangue:
a bacia da mulher é mais larga que a do homem,
em função da maternidade.
O Oswaldo Bonitão está pulando o muro de dona Gleides.
A primeira eu tirei de um livro de anatomia,
a segunda, de um cochicho de Maria Vilma.
Oh! por tão pouco incendiava-me?
Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu sou de barro e oca.
Eu sou barroca.


Poema começado do fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.


Adélia Prado
Com Licença Poética

2. Um toquezinho de música

Porgy:
Bess, you is my woman now! You is! You is!
And you must laugh and sing and dance for two instead of one
Want no wrinkle on you! brow, no-how.
Because the sorrow of the past is all done done
Oh, Bess, my Bess, the real happiness is just begun!

Bess:
Porgy, I is your woman now! I is! I is!
And I ain' never going nowhere less you share the fun
There's no wrinkle on my brow, no-how,
But I ain' going! You hear me saying
If you ain' going, with you I'm staying.
Porgy, I is your woman now, I is yours forever
Morning time and Evening time and Summer time and Winter time


Aria de Porgy and Bess
George Gershwin, DuBose Heyward e Ira Gershwin

3. Uma pequena imagem

Image Hosted by ImageShack.us
(foto de Henk Braam)
... para despertar a imaginação.

8.3.05


MULHERES, O DIA É NOSSO!

Solar

Minha mãe cozinhava exactamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava.


Adélia Prado
in O Coração Disparado (1978)
Com Licença Poética, Cotovia, 2003

Poema de mulher

Que mulher nunca teve um sutiã meio furado, um tio meio tarado ou um amigo meio veado?
Que mulher nunca tomou um fora de querer sumir, um porre de cair ou um lexotan para dormir ?
Que mulher nunca sonhou com a sogra morta, estendida, em ser muito feliz na vida ou com uma lipo na barriga ?
Que mulher nunca pensou em zunir uma panela, jogar os filhos pela janela ou que a culpa era toda dela ?
Que mulher nunca penou para ter a perna depilada, para aturar uma empregada ou para trabalhar menstruada ?
Que mulher nunca acordou com um desconhecido ao lado, com o cabelo desgrenhado ou com o travesseiro babado ?
Que mulher nunca comeu uma caixa de Bis, pela mais pura ansiedade, uma alface, no almoço, por vaidade ou um canalha por saudade ?
Que mulher nunca apertou o pé no sapato para caber, a barriga para emagrecer ou um ursinho para não enlouquecer?
Que mulher nunca jurou que não estava ao telefone, que não pensa em silicone ou que "dele" não lembra nem o nome ?

Roseli Gutierrez

To Laura, to us

Free Image Hosting at <a href=Há alguns anos atrás, George W. Bush, escreveu um poema que dedicou a Laura, sua mulher, e mostrou-o à imprensa. Ao tomar a decisão de tornar público o conteúdo do seu poema, Bush não pretendia apenas conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A verdade é que, com esse gesto generoso, o Presidente dos EUA contribuiu para que todas as mulheres do mundo passassem a valorizar um pouco mais os esforços poéticos, mesmo que patéticos, dos seus companheiros. Estamos pois, perante um poema com uma carga simbólica que extravasa o domínio do jogo amoroso, para se instalar num campo que é substancialmente fraternal e político. (Quanto a Laura, enfim, cada um tem a sua cruz!)
Roses are red
Violets are blue
Oh my lump in the bed
How I've missed you

Roses are redder
Bluer am I
Seeing you kissed by that charming French guy

The dogs and the cat, they missed you too
Barney's still mad you dropped him, he ate your shoe
The distance, my dear, has been such a barrier
Next time you want an adventure, just land on a carrier

Diferenças

Free Image Hosting at Durante o ano 2004, Portugal foi a palavra mais procurada pelos internautas que em suas casas acederam à rede, de acordo com os resultados do estudo Netpanel da Marktest. Mas as procuras variam consoante o sexo dos internautas.

Assim, na lista das procuras mais frequentes realizadas por homens em 2004, constam Portugal, download, 2004, Lisboa, mapa, free, jogos, Porto, sexo e sapo.
Já na lista das 10 mais procuradas por mulheres, estão as palavras Portugal, Lisboa, escola, mapa, 2004, jogos, Porto, casa, como e sapo.
Download, free e sexo, presentes nas principais pesquisas dos homens, encontram-se ausentes das pesquisas mais frequentes das mulheres. Sexo aparece na 52ª posição do ranking feminino! Se pensarmos em imagens como estas, compreendemos porquê!
Escola, casa e como, muito frequentes nas pesquisas realizadas pelas mulheres, não se encontram na lista das favoritas dos homens (casa aparece em 12º lugar nas pesquisas masculinas, não está muito distante do top 10).
Este "como" será de "como fazer para..."? - provavelmente!

A partir destes dados, parece evidente que os estereótipos dos dois géneros saiem reforçados. Era simples tirar esta conclusão!
Mas não são mais os conceitos que nos unem? O just in time (2004), a pátria e como nos orientarmos nas grandes cidades, a forma de lazer (jogos) e, pelos vistos, a preferência pelo portal Sapo. Para não falar da quantidade de coisas que nem homens nem mulheres procuram na net.
Mas sobretudo, e felizmente, não nos resumimos às nossas pesquisas na net. (ou seja, este post não serve para nada!)