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1.12.09

Dia mundial da luta contra a sida


Dou-vos uma boa razão para terem relações sexuais, hetero/homo, tanto faz, usando sempre preservativo, é claro. É que outras soluções são muito mais perigosas...: clicar na imagem ou ver aqui (atenção ao canto inferior direito da página).


Adenda: lidos os comentários, acho que se esqueceram mesmo de ir ver a legenda no canto inferior direito :)

8.1.08

Reformar o SNS


Ninguém tem dúvidas de que o sistema nacional de saúde deve ser reestuturado. Compreendo a lógica de concentração dos melhores recursos técnicos e humanos em grandes hospitais, acompanhada da disseminação de centenas de unidades de saúde familiares (apesar de não saber como operam). Saúdo o actual ministro pela criação de unidades de cuidados continuados e de finalmente dar corpo a uma rede de cuidados paliativos (que simplesmente não existia neste país).

Sei que ultimamente os media acentuam mais os casos de urgências que fecham do que o reforço do sistema de cuidados primários. Sei que a reforma está em curso e que o calendário tem atropelado equilíbrios já de si muito instáveis.

Ouço falar em indicadores: número de cirurgias, frequência de primeiras consultas, redução de gastos e investimentos. A reforma são indíces e metas. Já não passa pelo conceito de gestão hospitalar (esgotou-se o tema no tempo do Ministro Luís Filipe Pereira) e nunca passará, presumo, pela discussão do que deve ser a cultura hospitalar e pela interiorização do conceito de prestação de um serviço de qualidade à população.

A verdade é que, na prática, não existem urgências funcionais e qualitativamente modelares. Os centros de saúde continuam a ser locais caóticos, com filas de espera insanas, seja para marcação de consultas seja no atendimento. As infraestruturas são velhas, gastas e frias. Alguns hospitais estão bem equipados e oferecem valências médicas de elevada qualidade mas há sempre qualquer coisa que falha. Em Santa Maria, por exemplo, realizam-se transplantes de órgãos com sucesso, mas as equipas são tão especializadas que, se um paciente fizer o transplante de um rim, podem demorar horas até perceber que as dores que tem são originadas por um problema de natureza gástrica, e não se faz acompanhamento psicológico, nem ao doente sujeito a transplante, nem ao dador do órgão (normalmente um familiar) (este é mais um caso real).

O paciente não é visto como um ser, na sua totalidade, nem do ponto de vista clínico, nem do ponto de vista psicossocial. O serviço nacional de saúde atende-nos pontualmente e despacha-nos com prazer. Que venha o seguinte! O seguinte! Dado o racio de doentes por médico, mesmo os médicos de família só podem tratar-nos assim, como mais um caso pontual, e que venha o seguinte! O seguinte!


E tudo isto tem muito pouco a ver com as qualidades técnicas e humanas do pessoal médico e de saúde. Há um sistema que os conduz a esse tipo de procedimento. Salvo fantásticas excepções.

De resto, a nossa percepção do serviço nacional de saúde também está condicionada. Sempre que somos bem atendidos, pensamos que foi uma excepção. Existem fantásticas excepções.

Mudar a cultura da saúde em Portugal significa inverter essa percepção. Tem um longo caminho pela frente, Senhor Ministro.


[Cartaz da Colecção de Francisco Madeira Luis, disponível no site da UA]

Urgências Médicas


... e não assistência a pacientes com doenças agudas (percebi a nomenclatura!).

I. Dia 21 de Dezembro de 2007, Hospital Infante D. Pedro, Aveiro

Chego ao Hospital com tensão 8/5, depois de uma semana de vómitos sistemáticos antes/durante/após refeições. Deixei passar tempo demais, convencida de que os sintomas desapareceriam por si ao fim de algum tempo. Entro às 14h nas urgências, passo pela triagem e fico com a fita amarela. É um dia mau. O Hospital está equipado com um novo sistema informático e há uma pane. Tiram-me uma fotografia à chegada e é com dificuldade que a registam na minha ficha e que conseguem "linkar-me" à cor amarela. Pior, não conseguem aceder aos resultados das análises dos pacientes - e, por isso, o número de pessoas à espera de um diagnóstico e de ter ou não ter alta, é muito elevado.

Espero 4 horas até ser atendida. A dada altura dizem-me que só tenho 3 pacientes à minha frente mas que estão constantemente a chegar casos laranja ou vermelhos. Aceito o princípio da triagem, resigno-me, e faço exercícios de respiração quando me sinto próxima do desmaio. Vou observando as misérias do mundo. À minha volta estão pessoas de todas as idades mas a maioria são idosos. Um deles teve um acidente de automóvel e queixa-se de uma dor no peito. Quando finalmente saí do Hospital ele continuava à espera. A morte da senhora com 85 anos - que foi tão mediatizada nos últimos dias - não me surpreende de todo. Uma enfermeira explica-me que a especialidade "Cirurgia" tinha três médicos; dois saíram para operar, ficou um a atender dezenas de pessoas. Tenho sorte por estar destinada à "Medicina".

Finalmente chamam o meu nome. Parece-lhes claro o procedimento. Suspeitam de gastrite ou úlcera, devo fazer uma endoscopia. Meia hora de espera pelo gastroenterologista (mais uma vez tenho sorte: vou ter um médico especializado a atender-me). O médico é uma simpatia mas precisa de alguém que o acompanhe para me fazer o exame. No corredor, comigo ao lado, vai suplicando ajuda. Se fulano de tal está livre, não está. E fulano? Vão ver. Ele não pede um enfermeiro, apenas um maqueiro, um auxiliar. A dado momento olha para mim e pergunta-me: aguenta fazer a endoscopia sem se mexer nem tirar os tubos? Aguento! Lá vamos e no último momento cruzamo-nos com alguém que até pode vir assistir o médico.
O exame é claro, afinal trata-se de um problema na vesícula. Passa-me a prescrição médica e vou à minha vida. Saí do Hospital às 19 horas.


II. Dia 2 de Janeiro de 2008, Hospital Eduardo dos Santos Silva, Gaia

Depois de um acidente (choque em cadeia) na A1, a minha cunhada é transferida de ambulância para o Hospital de Gaia. Está em estado de choque mas, milagrosamente, não ficou gravemente ferida. Dada a violência do embate deve, no entanto, ser radiografada e suturada em algumas partes do corpo. Viajava de táxi em direcção ao aeroporto quando ocorreu o acidente.
A viatura em que seguia ficou neste estado. Entrou por volta das 7h30 no Hospital, saiu às 19 horas. Fizeram-lhe os raios X da praxe, foi vista rapidamente por um otorrino e por um oftalmologista. Por que ficou retida no Hospital durante um dia inteiro (sem que ninguém a alimentasse - até ela desmaiar e a porem a soro)? Porque lhe atribuíram a cor amarela e ela teve que aguardar, aguardar, aguardar. Porque não saiu ainda mais tarde? Porque a dada altura foi accionado o factor "conhecimentos pessoais" - e vivemos num sistema (supostamente reformado) em que o mais importante ainda é conhecer alguém que trabalhe no hospital. O motorista do táxi em que a minha cunhada seguia fez traumatismo craniano e foi atendido posteriormente! Também lhe fora atribuída fita amarela.

Não faço comentários relativos às instalações da urgência do Hospital em causa: era suposto
já não ser assim, mas ainda é - trata-se de contentores!



[Cartaz da Colecção de Francisco Madeira Luis, disponível no site da UA]

Cultura hospitalar


I. Com apenas 10 dias, uma das minhas filhas adoeceu. Em poucas horas desenvolveu uma infecção subcutânea que provocou uma febre altíssima. Ela começou a rejeitar o biberão e estava cada vez mais apática. Encontrava-me em Espinho na altura e, nesse período (2000), ninguém sabia muito bem onde se dirigir nos casos de emergência médica infantil. Dirigi-me ao Hospital de Espinho - mas este deixara de ter urgências pediátricas; tentei uma Policlínica que, depois de chamar por telefone um médico de Clínica Geral, me passou uma "recomendação" e me reencaminhou para o Hospital de São Sebastião em Santa Maria da Feira. Com tantas voltas, esperas e viagens, era quase meia-noite quando cheguei a este Hospital. À entrada, na triagem, uma enfermeira espanhola informou-me que ali não havia urgência pediátrica nocturna e que, sendo de Espinho, eu deveria dirigir-me ao Hospital de Gaia. A febre da bebé aumentara e cada vez eram mais as horas passadas desde a última vez que ela tinha aceite beber o leite. Descontrolei-me. Levantei a voz, pedi para chamarem o director clínico. Aceitaram ver a bebé, "apenas porque ela tinha dez dias e o caso aparentava gravidade".

Na sala de espera aguardei quase uma hora até aparecer a pediatra que examinou a bebé. Depois, essa médica e uma colega, começaram a discutir o caso à minha frente como se eu fosse invisível. Pedi explicações, disseram-me meia dúzia de palavras pouco claras e comunicaram-me que a bebé ficaria internada. Eu estava em estado de choque, era mãe há muito pouco tempo, a vida da minha filha parecia estar ameaçada, deixara outra bebé (gémea) em casa. Não sabia reagir com tranquilidade mas, quando me disseram que o melhor seria deixar a bebé e voltar no dia seguinte, bati o pé. Conhecia os meus direitos, ficaria a acompanhar a bebé. Logo a seguir percebi por que razão a minha presença era indesejada. O Hospital, que abrira há pouco mais de um ano, tinha uma unidade de cuidados neo-natais muito peculiar: os bebés até aos 3 meses ficavam juntos numa enfermaria aparentemente muito sofisticada, toda envidraçada, com berços modernos, mas onde havia uma única banheira (a maior parte dos bebés tinham infecções de natureza variada ou eram prematuros/ a banheira era desinfectada uma vez por dia!) e uma única cadeira longa para as mães. A cadeira estava ocupada pela mãe de dois gémeos prematuros e, por isso, os acompanhantes dos outros 8 bebés dormiam sentados em cadeiras de madeira. Alguns juntavam várias cadeiras, improvisando assim uma cama. Eu ainda não recuperara da cesariana, não conseguia dormir em qualquer posição, por isso passei 6 dias e noites sentada. Como não havia armários, o aspecto geral daquela sala era o de um parque de campismo.

A minha filha tinha que tomar antibióticos via intravenosa. Atrasavam-se sempre em relação à hora da tomada. Reclamei. Disseram-me que havia falta de pessoal. Os médicos e enfermeiros daquele Hospital, público mas de gestão privada, auferiam de salários superiores aos seus colegas mas trabalhavam até à exaustão. Uma enfermeira disse-me que "se eles pudessem empregar meia pessoa para reduzir custos, não hesitariam". Nunca mais vi a médica que internou a minha filha. Nunca compreendi quem era o enfermeiro chefe daquela enfermaria. Felizmente a febre baixou e, ao fim de 6 dias, ela teve alta. Fiquei tão feliz que nem percebi que saía dali sem perceber a causa da doença.

II. A minha filha tem 3 meses e o quadro clínico é o mesmo. Infecção subcutânea, febre alta, rejeição de alimentos. Desta vez estou em Paris, cheguei há duas semanas. Ninguém tem dúvidas, devo deslocar-me ao
Hôpital Necker. O médico que a observa aconselha o internamento. Acompanha-me, com a bebé, até à enfermaria. Dá-me um cartão com o seu contacto telefónico. Ele é o responsável por aquela paciente, a última palavra será sempre a dele. Posso ligar-lhe se tiver alguma dúvida. Apresenta-me o enfermeiro-chefe que, enquanto uma equipa observa novamente a bebé, me faz uma visita guiada pelas instalações. O Hospital é muito antigo mas cada criança e respectivo acompanhante têm um quarto individual: berço e banheira de uso exclusivo da bebé, cadeira longa extensível para a mãe. As divisórias entre quartos são em pré-fabricado mas, psicologicamente, ter alguma privacidade faz uma enorme diferença. Em cada enfermaria há um gabinete que é partilhado por um psicólogo e um assistente social. Ali atendem entre as 9h e as 10h da manhã, depois dirigem-se a outra enfermaria. Logo no primeiro dia sou visitada pelos dois. O psicólogo observa a minha relação com a bebé. O assistente social pergunta-me se preciso de ajuda, já que, como estrangeira, posso ter dificuldade em compreender o processo burocrático da assistência médica (na verdade, ainda não tinha cartões da Segurança Social francesa e era preciso tratar rapidamente desse assunto). A febre da bebé é controlada mas não nos deixam sair do Hospital sem um diagnóstico claro. A bebé correu todas as especialidades: dermatologia, pedo-gastroenterologia, otorrino, nutricionista, etc.. Percebi finalmente que ela não fazia alergia à lactose, que podia beber perfeitamente um leite não dietético, que ela tinha eczema e que as "fissuras" na pele geravam a infecção porque as suas resistências imunológicas eram baixas. Devidamente medicada, nunca mais teve problemas. Com o crescimento ficou mais forte e hoje passa os Invernos sem gripes ou grandes constipações. O eczema não desapareceu mas está controlado.


A enorme diferença entre um sistema e outro é de natureza organizacional e cultural. A assunção clara da responsabilidade médica, a transparêcia da hierarquia dentro da organização e a interiorização do conceito de doente como cliente de um serviço público a que tem direito, são fundamentais. Qualquer reforma que não contemple estas premissas não será eficiente.



[Cartaz da Colecção de Francisco Madeira Luis, disponível no site da UA]