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18.4.07

Corps à corps #1



Yves Trémorin
1987
n°4 e n°12


Como é que tão depressa ficámos nus diante do lume?

pp. 121, Os Amantes e outros contos
David Mourão-Ferreira
Ed. Presença

14.12.05

Amália Rodrigues


Demorei anos até gostar mesmo dela. Acho que foi por excesso de portugalidade. dela. Mas depois chegou o tempo das primeiras audições despidas de preconceitos. Ouvir pela primeira vez um fado que já ouvira milhares de vezes. Ai Mouraria da velha rua da Palma onde eu um dia deixei presa a minha alma... Ai Mouraria do homem do meu encanto que me mentia mas eu adorava tanto. E mesmo sem tristeza ou fado no coração, a voz grave e aqueles volteios fizeram o seu efeito. Comprei o primeiro álbum na era dos cd's, Estranha Forma de Vida.

E então fixei vários, muitos fados, e alguns fados-canção. Aqui, podereis ouvir
Fado Português (oferenda de um marinheiro). Que estando triste cantava. Esse verso é tão bonito. ou Ai que lindeza tamanha. Falo das palavras e do acorde a saber a choro. Confesso que este poema de José Régio não me agrada no todo, e (quase) fugimos do tempo desta portugalidade. Mas a forma como Alain Oulman o musicou e a mestria da fadista tornam-no delicioso. Mas Amália cantou David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, Pedro Homem de Melo, Ary dos Santos, Manuel Alegre... excelentes poetas, que escreveram já a pensar na sua voz.

Os meus fados favoritos são os de Alberto Janes. Cheios de fatalismo (Foi Deus) ou de brejeirice popular (Vou dar de beber à dor), adoro cantá-los com Amália. Foi no domingo passado que passei à casa onde vivia a mariquinhas mas está tudo tão mudado.... Mas para me verem parar a sentir cada batida, ponham-me o Barco Negro (de Caco Velho-Piratini-David Mourão-Ferreira). Acordei tremendo deitada na areia. Mas logo os meus olhos disseram que não e o sol penetrou no meu coração... e o teu barco negro dançava na luz. Vi teu braço acenando entre as velas já soltas. Dizem as velhas da praia que não voltas. São loucas! São loucas!

26.3.05

Corpo Iluminado


Wolgang Koch (Via Imagens)

I
Dorso
terso
morno
denso
Corpo
nu

Horto
Berço
Torso
tenso
Torre
tu


II
Toda te espantas
de já prever

que sejam tantas
as que vais ser


III
Não sei se nasces do parto
de quantas te precederam

Se da compósita casta
de muitas que há em ti mesma

Se de remotos colapsos
Se de síncopes recentes


Se do constante massacre
de vidas que não viveste


IV
Ora me vejo eu todos e vós uma
ora vos vejo todas e nenhuma


David Mourão-Ferreira
in Corpo Iluminado [1987]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

23.3.05

Noite


W. Ropp

Rolam trovões na noite escura
Rasga-se a noite em confidências

A minha mão na tua nuca
vai despertando o que não lembras

E é como o vento a passar busca
ao int'rior de muitas tendas

Não que me importe o que se oculta
sob o tecido do que pensas

Conta quem és Ah Continua
a mostrar só como te inventas

Conta sem fim Não 'squeças nunca
que só em tudo te concentras


David Mourão-Ferreira
in
Órfico Ofício (Colar de Xerazade) [1972-1978]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

Tarde

Ardem maças na tarde aberta
sobre o pomar do teu passado

Conta quem foste Recomeça
com outros frutos o relato

Sejam romãs É uma festa
ir decifrar-te bago a bago

Conta em que tronco as tuas pernas
viram primeiro a luz de um rapto

Ou projectaram ser a hera
tocando frutos lá no alto

Conta quem foste Nunca 'squeças
que só em frutos te traslado


David Mourão-Ferreira
in Órfico Ofício (Colar de Xerazade) [1972-1978]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

Manhã

A nossa noite ontem à tarde
foi a manhã por que esperávamos


David Mourão-Ferreira
in Órfico Ofício (Colar de Xerazade) [1972-1978]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

22.3.05

Égua Água

De égua agarena a garupa
modelada

De água ao fogo já em fase
de fervura

é a voz com que fabula
e se exalta

é a voz que a vida agarra
e que exulta

De égua
a vulva

De água
a lava

David Mourão-Ferreira
in Órfico Ofício (Colar de Xerazade) [1972-1978]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

21.3.05

Dia da Poesia

São de nada
tempestades

ante a falta
que me fazes


David Mourão-Ferreira
in Os Ramos Os Remos [1981-1985]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

19.3.05

De sono

De sono cai-te prostada
a cabeça

sem que no corpo mais nada
adormeça.


David Mourão-Ferreira
in O Corpo Iluminado, XIX [1987]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

Inscrição sobre as ondas

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.


David Mourão-Ferreira
in A Secreta Viagem [1948-1950]
Obra Poética 1948-1988, Ed. Presença, 1996

Ao meu pai.