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9.2.10

Também não me preocupei

Primeiro levaram os negros,
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis,
Mas não me importei com isso,
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
Mas como tenho meu emprego,
Também não me preocupei.

Agora estão me levando,
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht



2.11.07

Bertold Brecht

Brecht tem, sobre a poesia, o mesmo pensamento que tem sobre a arte dramática. Ela é uma ferramenta em defesa da liberdade do homem. Nos seus poemas, o mesmo sentido épico e didático das peças teatrais. Recusa uma poesia alheia aos acontecimentos sociais. Exige que ela intervenha sem perder o seu sentido artístico. E apeteceu-me reler, relembrar. A primeira vez que ouvi a sua poesia foi pela voz de um amigo, o C.. Ele subiu a um banco e, numa casa ainda em construção, - mas já com a lareira acesa, inundou-nos de Brecht. Havia gente de todas as cores políticas e um violinista holandês que não percebia nada do que se dizia mas que o ia acompanhando. Lembrar Brecht é também essa cálida memória dos dezoito anos depois de entrar na universidade, e do primeiro grupo de amigos de Lisboa.

1898-1956
(foto de 1956)

A Excepção e a Regra

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos face ao quotidiano.
Procurem um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

A Fumaça

A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.


A Máscara Do Mal

Na minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demónio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal


No Muro Estava Escrito Com Giz:

Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.


Para Ler De Manhã E À Noite

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

1947, EUA


Perguntas De Um Operário Que Lê.

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas


Também o Céu

Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós.
Isto pode ser amanhã.