Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
...
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro
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16.3.12
«pensar num animal manietado que, na sombra, durante séculos, olfacteasse a liberdade»
Ilustração da Biblioteca Nacional de Portugal:
"Não percas a rosa: diário e algo mais, Natália Correia,[ant. 1978] BNP Esp. D9/cx. 61"
"Enchem-se as ruas de júbilo. Destemem-se os corpos. Apertam-se mãos desconhecidas. Trocas de sorrisos e cravos gravam a marca da liberdade nesta hora de prata. […] os seios das mulheres despejam-se nos olhos encadeados dos soldados.[…] A agitação do povo pelas ruas faz pensar num animal manietado que, na sombra, durante séculos, olfacteasse a liberdade. […] Soltem-se as rolhas do champanhe desde há muito engarrafado na nossa esperança."
in Natália Correia. NÃO PERCAS A ROSA. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 — 20 de Dezembro de 1975). Publicações Dom Quixote. Lisboa: 1978.
Na madrugada de 16 de Março de 1993, Natália Correia morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim.
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