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28.3.12

«a beleza pertence à ordem dos sentidos»

Luchino Visconti e a sua Morte em Veneza (aqui, todo filme. coisa de ocasião, oh freguês, oh adorador). (claro, primeiro houve) Thomas Mann e Gustav Mahler. Vocês sabem, é de uma beleza maior. (perdão, "tu queres dizer o teu conceito espiritual de beleza".)

(Antes disso, esclarece-me: como nasce a beleza? "oh, é fruto do trabalho árduo de artistas". (não! "nasce espontaneamente, completamente alheia ao meu esforço e ao teu. ela pré-existe a qualquer pre_sunção artística. o teu grande erro, meu amigo, é ver a vida, a realidade, como uma limitação". ("mas não é? a realidade só nos distrai e degrada. a criação da beleza e da pureza é um acto espiritual." ("não! a beleza pertence à ordem dos sentidos". ("tu não chegas ao espírito através dos sentidos. pelo contrário, é necessário o completo domínio dos sentidos para alcançares sabedoria, verdade, dignidade"! ("mas para que servem a sabedoria e a dignidade humanas? o génio é um dom divino, melhor, é uma centelha mórbida e pecaminosa de todos os dons naturais". ("eu rejeito as virtudes demoníacas da arte"! (mas estás enganado! o mal é necessário, ele é o alimento da genialidade". ("sabes, a arte é a maior fonte de educação e o artista deve ser exemplar. ele deve ser um modelo de equilíbrio e força. ele não pode ser ambíguo". ("mas a arte é ambígua. e a música é a mais ambígua de todas as artes, é a ambiguidade feita ciência!"

Espera, ouve este acorde:

31.12.09

Le notti bianche


Realização Luchino Visconti. Le Notti Bianche (1957).
Música: Thirteen Woman, de Bill Haley


Que 2010 seja vivido com a intensidade das quatro noites brancas de Mario e Natalia. Longe da solidão que nos faz chorar sobre pontes em dias de Inverno. Um dia de cada vez. Tranquilos.

25.1.08

Roll off


Eu não consigo fazer listas de filmes, livros ou álbuns. Não consigo! A Eduarda pediu-me há algum tempo que o fizesse, agora foi a Fatyly, e eu vou pensando num rol possível de filmes - desta vez, filmes - e bloqueio. A memória mais imediata traz-me alguns clássicos que amei e amo por razões muito privadas, como Esplendor na Relva de Elia Kazan ou Rebecca de Hitchcock; filmes mais intimistas como Ma Saison Préferée de Techiné ou Sous le Sable da nova estrela do cinema francês, François Ozon. E a lista poderia continuar, sem critério cronológico ou estético, sem fronteiras, com Senso de Visconti, La Cérimonie de Chabrol ou Debaixo das Oliveiras de Abbas Kiarostami. Mas O Casamento de Maria Braun e (como me espantou quando o vi no final dos anos 80!) Querelle de Fassbinder não podem ficar de fora. Nem o Sétimo Selo de Bergman!





Sonhei a morte como este filme, pressinto-a ainda com a ironia do jogo em que um homem se salva ou prolonga a vida por mais um momento lançando uma peça, enquanto outros, sem aviso ou estratégia, partem. Sonhei o amor como alguns destes filmes. Revisitei escritores no cinema. Li Rebecca de Daphne du Maurier com 13 anos, antes de saber que Hitchcock realizara um filme com o mesmo nome - o único filme que lhe valeu um Oscar para Melhor Filme pela Academia. Reconheci Ruth Rendell em La Cérimonie, a escritora que, com Patricia Highsmith, revolucionou o conceito de romance policial.

Amamos os filmes por inúmeras razões, até pelo lugar em que os vimos. Vi Esplendor na Relva no Cine-Teatro S.Pedro em Espinho. Era o nosso Monumental e também foi destruído. Hoje, no seu lugar, existe um centro comercial particularmente feio e mal sucedido. Amamos os filmes pelos actores. Natalie Wood, o jovem Warren Beatty (ninguém era mais belo do que ele!), Deneuve, Sandrine Bonnaire, Isabelle Huppert, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Hanna Schygulla, Charlotte Rampling e tantos outros. Amamos os filmes pela luz, por causa daquela cena - ah, o campo de oliveiras, e como a câmara se aproxima... -, por aquele diálogo, ou por um olhar - o de Natalie Wood/Wilma Dean, quando se despede de Warren/Bud Stamper. Amamos os filmes porque os vivemos e nos sufocaram. Amamos os filmes pela alegria e pela nostalgia. No cinema, na arte, sempre a mesma busca, uma pulsão, para a emoção e para o belo.




What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

Splendor in the grass
William Wordsworth


As listas são uma seca! :)

31.1.07

Ainda perseguindo a beleza...



"Mais uma vez, então, isto", escreve ele no seu diário, "mais uma vez o amor, o fascínio por um ser, o profundo impulso para ele - há já vinte e cinco anos que não morava aqui, e isto deveria acontecer-me uma vez mais." (...) é para ele um momento de felicidade quando pode trocar algumas palavras com o rapaz que lhe acende o cigarro (...) e quando o rapaz lhe agradece com um sorriso amável. Nada mais se passa entre eles, mas de manhã à noite, e ainda em sonhos, os pensamentos do escritor giram em volta do "querido", a quem ele também chama - no perfeito sentido de Platão - "excitador" ou "enlouquecedor".

Acorda a meio da noite e, como escreve com orgulho e vergonha em simultâneo, experimenta um "violento ataque de poder e liberdade". Fica cada vez mais nervoso, desconcentrado, incapaz de trabalhar, dorme ainda pior do que habitualmente, tem de tomar valeriana e, "como calmante", lê Adorno, o que não lhe adianta nada, porque tudo para ele está "impregnado e dominado (...) pela privação enlutada do excitador, pelo sofimento, pelo amor, pela espera febril, pelos devaneios a toda a hora, pela dispersão e pela dor". (...)

Este amor é uma embriaguez, vê - e nomeia - o divino na beleza do amado, à la longue leva à criação, e procura e encontra a imortalidade, ou seja, na obra do escritor. (...)

Não tem a ver com o aspecto homossexual do caso - este Franzl poderia muito bem ser uma Franziska, se as preferências do escritor tivessem sido outras (no velho Goethe foi uma Ulrike). Não, trata-se da perfeita unilateralidade deste amor e da renúncia deliberada do escritor a empreender a mínima tentativa de o tornar recíproco. Na verdade, ele sabe muito bem que este amor (...) se revelaria muito rapidamente uma futilidade, um nada insípido (...) e, o que é mais importante ainda, se revelaria inútil naquilo que verdadeira e unicamente ele toma a peito: ele próprio e a sua obra. (...)

A morte será um tema? Ou será antes aquilo que não pode ser tema? Pode-se falar tanto e tão vivamente sobre o amor, e há tão pouco a dizer sobre a morte! (...)
Como é possível então que esta sinistra maçadora seja relacionada com Eros, que é louco, diga-se, mas mais virado para a alegria e para o prazer; e não só a título de pólo oposto (...), mas na qualidade de parceira? E como é possível que a iniciativa desta parceria não parta de Tanatos (...), mas do próprio Eros, o "enlouquecedor", o "excitador" que estaria pretensamente na origem de todo o impulso criador?


Extractos de sobre o amor e a morte de Patrick Süskind
Edit. Presença, pp. 21-33
[Esta associação entre a paixão de um velho escritor por um jovem Franzl, analisada por Süskind, e a de Gustav Von Aschenbach por Tadzio, criada por Thomas Mann e recriada por Visconti, é minha. O Süskind não foi tido nem achado. Foi assim, sem querer, que o autor de O Contrabaixo me ajudou a "ler" A Morte em Veneza.]

23.7.06

Senso



Imagens de Senso, de Luchino Visconti



Ao converter o invisível em enigmático, o espectador tem então a experiência de uma reflexão ou ideia de tempo.
in Susanne Liandrat-Guigues, Luchino Visconti

Amar como se fosse a última vez. resistindo a todas as despedidas.

O tempo, que habitualmente não é visível, para chegar a sê-lo, busca corpos, e encontra-os em todo o lado, apodera-se deles, mostrando através deles a sua lanterna mágica.
in Marcel Proust, Em busca do tempo perdido