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19.1.08

Expiação


Li quase toda a obra traduzida de Ian McEwan mas os livros que melhor recordo são A Criança no Tempo e Expiação. Joe Wright apropriou-se deste último romance e transpô-lo para a tela. Fui a correr ver o filme. Fiquei com saudades do empolgamento que senti durante a leitura. A adaptação ao cinema é feroz na intenção de fidelidade ao romance original. E peca por excesso. Certas frases - as de Dunquerque, em particular, são demasiado longas. No cinema, Expiação transforma-se quase num épico. No papel, há um amargo mais familiar. Mas eu voltaria a ver o filme, a pegar no livro. Ambos nos enlevam. se quisermos. esperar re-inventar o fim.

____e com Vanessa Redgrave, o fim valeria sempre a pena.

14.9.05

Ian McEwan


Enquanto lia Sábado, de Ian McEwan, aconteceram os atentados em Londres, o que provavelmente potenciou o efeito que o livro teve em mim. Decididamente, pensei, McEwan é capaz de tocar o nosso lado mais emocional, mesmo quando escreve um livro mais "cosmológico". Ainda não tinha lido A Criança no Tempo. Acabo de o fazer e gostaria de saber expressar o que senti enquanto o lia___ acho que fiquei despedaçada. Não me lembro de ter chorado tanto, e compulsivamente___ aquando do último capítulo. Acho que nenhum autor me arrastou assim do profundo desgosto para a felicidade plena, desta para o medo, e do medo para a esperança. A transferência de emoções começa logo no início do livro, quando a filha de Stephen Lewis, o protagonista, desaparece num supermercado londrino. Esse foi o primeiro choque. Depois McEwan retrata divinalmente todas as nuances e vitórias da dor e o esforço de gestão de uma vida (ou de duas, ou de três,...) sujeita a essa pressão. O livro é muito mais que isso, é claro. Críticas ao establishment, ao mundo académico, às engrenagens do mercado editorial, aos educadores, às encenações nas altas esferas da política.
Mas continuo espantada com a densidade do último capítulo.

E depois de um romance que devorei lentamente, intensamente, o que é que hei-de ler agora?

30.6.05

Sábado



Não compreende logo o que está a ver, embora ache que sim. No primeiro momento, com a sua ansiedade e curiosidade, atribui-lhe proporções planetárias: é um meteoro a arder no céu de Londres, a atravessá-lo da esquerda para a direita, perto do horizonte, mas bem visível dos edifícios altos. (...) Aquilo está a deslocar-se devagar, até majestosamente. (...) É um cometa colorido de amarelo, com o seu habitual núcleo brilhante a arrastar uma cauda feérica. (...)
Mas isto é melhor, mais brilhante, mais rápido, e mais impressionante por ser inesperado. Deve ter-lhes escapado a cobertura nos meios de comunicação. Têm trabalho a mais. Vai acordar Rosalind (...).
Está a dirigir-se para a cama quando ouve um estrondo rouco, um trovão distante que vai aumentando de volume, e pára para ouvir. Isso diz-lhe tudo. (...) Horrorizado, regressa à sua posição na janela. O som vai subindo de volume, numa progressão constante (...).
Apesar das luzes da cidade, os contornos do avião não são visíveis na escuridão da madrugada. O fogo deve ser na asa mais próxima (...) Como a fingir normalidade, as luzes do trem de aterragem vão a piscar, mas o som do motor diz tudo.(...)
Já não está a pensar acordar Rosalind. (...)
O núcleo branco a arder e a sua cauda colorida tornaram-se maiores - nenhum passageiro que estivesse sentado nessa parte do avião poderia sobreviver. É esse o outro elemento familiar - o horror do que não consegue ver. Assistir à morte em larga escala sem ver ninguém morrer. (...)
Se Perowne fosse dado a sentimentos religiosos, a explicações sobrenaturais, diria que foi chamado, que tinha de reconhecer uma ordem escondida, uma inteligência exterior que queria dizer-lhe ou mostrar-lhe qualquer coisa pelo facto de ter acordado com um estado de espírito tão pouco habitual e de ter ido à janela sem nenhum motivo especial. (...)
Pode ter sido um raciocínio deste tipo a causar o fogo no avião. Um homem com uma fé inabalável e uma bomba no salto do sapato.

[Sábado, pp 23 a 28]

Se este fragmento do último livro de McEwan suscitar o efeito pretendido, no próximo Sábado podereis comprar Sábado na livraria O Navio de Espelhos, a partir das 21:30, ou seja, aquando do lançamento do livro "Numa Avenida de Merda" de Ivar Corceiro. Já marcaram na agenda? - Numa Avenida de Merda e Sábado, Sábado.

2.2.05

Expiação


Ralph de la Rie

Negar a ajuda dele, negar-lhe qualquer possibilidade de remediar o que tinha feito, seria a forma de o castigar. A temperatura inesperadamente baixa da água, que quase a deixou sem respirar, seria o castigo dele. Susteve o fôlego e mergulhou, deixando o cabelo aberto em leque à superfície. Afogar-se seria o castigo dele. Quando emergiu alguns segundos depois, com um caco em cada mão, ele teve o discernimento de não se oferecer para a ajudar a sair da água. (...) Pegou nas sandálias e enfiou-as debaixo do braço, pôs os cacos no bolso da saia e pegou na jarra. Fez tudo aquilo com movimentos selvagens e sem olhar para ele. (pp 36)



Um facto aparentemente simples mudará para sempre, de forma trágica, a vida de Robbie e Cecília. Briony, uma menina de treze anos que gosta de escrever histórias, será a responsável. Qual é o limite do mal que a consciência humana pode suportar? Pode a literatura servir para expiar um pecado?

A infância, a Inglaterra de 1935 até ao pós-guerra, a situação de classes, um crime e a sua expiação, uma história de amor. A escrita de Ian McEwan, marcada por referências subliminares a Jane Austen ou Samuel Richardson (e certamente a outros autores que a vossa erudição descobrirá). São muitas as razões para ler este livro, se ainda não o fizeram.
Eu já o li há algum tempo e ficou-me uma espécie de apego ao livro. a começar pela capa, que é belíssima. acabando na sensação de mestria narrativa que me deu tão bons momentos de leitura. Viajem.