Mostrar mensagens com a etiqueta Teixeira de Pascoaes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teixeira de Pascoaes. Mostrar todas as mensagens

26.12.11

Bem vindos ao passado do futuro!

Não é uma evocação a Teixeira de Pascoaes, mas podia ser, sem glória. "O futuro é o passado que amanhece", dizia.  Acontece que não há saudade, que não aspiramos à "luz espiritual do passado". Neste país que é o meu, o futuro começa a ser o passado do presente, e isso é mau. Entrem bem neste novo ano situado algures no tempo, anterior a uma revolução a que chamaram "dos cravos"!


Victorian special agent saves Europe from itself - with help from the French and, of course, the Americans... Directed by Tim Ollive... Master of Ceremonies voice, eyes, mouth, Phil Jupitas... Produced by Steam Driven Films in London and 2d3D Animations in Angouleme (avec le soutien de la Region Poitou-Charentes et du Departement de la Charente).

17.7.08

Ser português é também uma arte #7

«VAIDADE SUSCEPTÍVEL

É outro defeito muito vulgar num Povo que foi grande e decaiu. Inferior e pobre, considera-se ainda possuidor dos bens arruinados. Continua a viver, em sonho, o poderio perdido. Mas, como toda a vida fantástica pressente o próprio nada que a forma, torna-se, por isso mesmo, de uma susceptibilidade infinita, sangrando dolorosamente, ao contacto de qualquer coisa de real que, junto dela, se ponha em contraste revelador da sua ilusória aparência.
O português é um herdeiro esbulhado dos seus bens materiais e espirituais. Mas vão dizer-lhe que é pobre! Suprema ofensa! Não ignora a sua pobreza, porque é vaidoso, mas quer que os outros a ignorem; e serve-se para isso, de todos os meios que iludem, criando o seu drama em que é autor e actor. E engendra mil preconceitos, fórmulas, propícios à atmosfera de ilusão em que pretende viver acompanhado... E assim, o arrastar de uma espada já imprime heroicidade, dois termos de tecnologia científica embutidos na prosa amorfa de jornal já fazem o sábio, como duas rimas banais fazem o poeta, e um correio a cavalo uma entidade superior do Estado.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, pp 117-118

14.7.08

Ser português é também uma arte #6

«...A aventura não tem continuidade na acção. Opera por impulsos que nem sempre se coordenam para um determinado fim. E por isso, a obra empreendida, muitas vezes, morre no seu início.
Quando uma virtude ou qualidade enfraquece, logo o seu defeito originário ganha nítido relevo. E assim o génio de aventura, decaindo, transformou-se na mais completa falta de persistência. Ela aparece em todas as manifestações da nossa actividade, a cada passo interrompida ou abortada, o que a torna tristemente caricatural.
Ei-la passeando o seu desânimo, pelas estradas que pararam, mortas de cansaço, a dois quilómetros do ponto de partida. E vive num belo edifício público sem telhado... Sozinha? Não: com a sua bem-amada companheira, a vil tristeza, apesar de ser tão velha que já Luís de Camões a conheceu...»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, pp 115

12.7.08

Ser português é também uma arte #5

«...O bom senso nacional conciliou o culto do divino e o maléfico.
Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.

Um chabo
Ao diabo
Sempre se deu...

Ditado popular

Este bom senso deriva do nosso carácter espiritual e sensual. E eis a nossa comédia que se opõe, retemperando-o, ao trágico aspecto da nossa alma, dominada pelo Medo misterioso... Ao Medo, que é também o Demónio, prestamos um culto corruptor. No seu altar fantástico retine o cobre da nossa esmola...»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, p. 114

10.7.08

Ser português é também uma arte #4

«... A este conceito nacional da nossa Religiâo, responde logicamente o sentimento popular.
Não reconhece a supremacia romana, e o seu respeito pelo clero nacional depende das suas boas qualidades morais. É do Povo esta frase: Acredito em Deus, mas os padres são homens como nós... Todavia, se o padre for digno e caridoso, receberá das suas ovelhas o mais sincero amor e respeito; mas, se for um homem como os outros, será malvisto e mesmo satirizado:

Todos os padres de missa
Aos infernos são chamados;
Inda eles têm mais filhos
Que os homens que são casados.

Canta o pardal no loureiro,
O rouxinol na silveira,
Os padres cantam no coro,
Rogam a Deus por dinheiro.

O padre quando namora
Logo põe a mão na coroa,
Namora, padre, namora,
Que Roma tudo perdoa.

Cancioneiro Popular

Esta alusão satírica ao Papa e as outras quadras mostram que o Povo adora a Deus directamente, ou sem intermediários, de cuja natureza desconfia.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, pp 99-100

8.7.08

Ser português é também uma arte #3

«...É certo que a nossa jurisprudência deriva das leis godas e romanas, e a dos últimos tempos não é mais que uma cópia inferioríssima de leis estrangeiras que desnaturam por completo o corpo jurídico do Estado.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, p. 93

6.7.08

Ser português é também uma arte #2

«... O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ele prova a sua verdade.
A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim, corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica. O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso. O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.
Daí a sua incapacidade construtiva de novas verdades que representam o móbil superior do Progresso.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, pp 91-92


5.7.08

Ser português é também uma arte

«... quanto mais palavras intraduzíveis tiver uma Língua, mais carácter demonstra o Povo que a falar. A nossa, por exemplo, é muito rica em palavras desta natureza, nas quais verdadeiramente se perscruta o seu génio inconfundível


Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007