9.11.06

Faz de conta

Olha JP, e depois de passar por aí, lembrei-me do ano passado. qualquer dia, como velhas amigas, dizemos que nem nos lembramos em que ano foi. tu falas hoje da blogosfera. eu também falava aqui. fazemos de conta que não fazemos de conta. ou não. isso tem importância? sei lá. mas gosto da tua lucidez.

faz de conta que a vida é mais bela do que a sombra
faz de conta que essa sombra não é maior do que tu
faz de conta que tens penas na cabeça e não no peito
faz de conta que as hastes que te seguram não se vêem
faz de conta que me contas uma história e eu creio
faz de conta que as mãos falam o que os olhos lêem
faz de conta que me enganas e eu deixo
faz de conta que te despes mas sou eu que fico nu

8.11.06

Uma noite no Cinanima


Vi a Sessão Competitiva 1 do Cinanima. Gostei imenso de um filme da checa Michaela Pavlátová chamado "Carnaval dos Animais". Não tem animais. ou somos nós, humanos, esses animais. um filme que fala de instintos. sobretudo sexuais. belíssimo desenho. a música: do Saint-Saens, pois, Carnaval des Animaux.

Mas o meu preferido foi Entre Estranhos da irlandesa Naomi Wilson. anos 20, uma praia, o momento em que um rapaz encontra um velho pescador que lhe conta uma história fantástica. de memória: "às vezes fugimos tanto que nem o vento nos consegue alcançar, e andamos com tanta velocidade que nem deixamos o vento escapar-nos". é um filme muito poético. desenhos feitos com areia.

Bastante diferente, este CLIK CLAK(link) também é engraçado. Podem ver o filme aqui e agora, ou via a página do filme.

E depois, "Dez Mil Imagens Tuas", do inglês Robin King, também é um filme interessante. uma Sarah deste mundo decide vingar-se do actor por quem se apaixonou perdidamente depois de ver numa revista uma foto em que ele a "trai" com outra mulher. o conceito de ilusão ganha todas as dimensões. e depois...

vão ao Cinanima!

petit Palais Royal


A viver em Paris com duas bébés de poucos meses, não tinha grandes oportunidades para sortir e conhecer o petit bar "in" super sympa da margem direita ou da margem esquerda, ser fiel espectadora da Comédie Française e de outros tantos théâtres da capital, ou assistir a concertos de músicos conhecidos ou por conhecer. Por isso lembro-me perfeitamente da ocasião em que fui ao Folies Bergères ver o one-woman-show da Valérie Lemercier. Já a conhecia do filme Les Visiteurs e a ideia de uma mulher fazer sozinha um espectáculo de humor seduziu-me.

Em França, existem humoristas para todos os gostos, raças e religiões. Existem as lendas, como Coluche, Raymond Devos ou Pierre Desproges. Actualmente, os meus favoritos são todos judeus, o que não quer dizer muito no caso de Élie Semoun, mas marca os textos de
Michel Boujenah, judeu de origem tunisina, e de Gad Elmaleh, um judeu de origem marroquina. Todos são excelentes actores e argumentistas, e cada um tem o seu estilo. Semoun é muito político. Boujenah é mais existencialista, choramos e rimos. Gad Elmaleh, é um crítico mordaz dos usos e costumes. Valérie é um camaleão, passa de madame burguesa e trés bécébégé a rapariga saloia, e depois a business woman, ou cantora de cabaret, mas os textos são sempre levezinhos, jogam com o óbvio.

Vem isto a propósito de
Palais Royal (traduzido, com mau gosto, para "Dondoca à força"). Não resisti e fui ver o filme com e da minha one-woman-show, que está a ser um sucesso de bilheteira em França. É claro que me ri, levava uma enorme predisposição para isso. Lambert Wilson, Mathilde Seigner, Catherine Deneuve cumprem na perfeição o papel e Valérie é talhada para Princesa Armelle. Mas o argumento, que teria pano para mangas cheias de viés, é fraquinho. Assistimos a um decalque parodiado da vida da Princesa Diana, o que teria muita graça, se não houvesse sempre aquela sensação de déjà vu e facilidade. Na verdade, lembro-me de pensar que a megaprodução é enganadora. São muitos meios (cenários, actores, qualidade da imagem e do som) para um tão petit Palais.

Seja como for, Valérie foi candidata ao Cesar para melhor actriz com este filme, e os media franceses não se cansam de promover esta e todas as produções cinematográficas francesas, não desvalorizando o género comédia, o que nem sempre vemos por aqui... Realço também que, por outro lado, nenhum estrelato afasta os actores de comédia dos palcos. Não existem talk shows televisivos ou fitas que os convençam a abandonar os teatros e as tournés. Acreditem que os humoristas que conheci na terra do Astérix ficariam atónitos se ouvissem o modo pitoresco como o nosso grande Herman José fala
daqueles tempos em que corria o país.
Enfim, lá vi o filme, mas continuo com saudades do verdadeiro humor francês.

7.11.06

30 anos de Cinanima. e o festival deste ano já começou!

Era muito garina quando comecei a ir ao Cinanima. Lembro-me de longas sessões de animação no Casino de Espinho, em que me espantava, chorava, aborrecia, divertia! Lembro-me do festival ser uma novidade. Trinta anos depois, continua a ser muito especial. Entre curtas, médias e longas, vão a concurso filmes vindos de todos os continentes. Cerca de 30 são portugueses. A surpresa desta edição é a ante-estreia absoluta da primeira longa metragem de animação portuguesa.

Toda a programação no site do Festival

Localização: Centro Multimeios de Espinho
(que merecia mais eventos desta envergadura.
que merecia, apenas, ser gerido por alguém!)

"The painting is not made with lines but with color"




Vi Girl With a Pearl Earring (2003) em DVD e Black Dalia (2006) no cinema, dois dos muitos filmes em que Scarlett Johansson já participou. Impossível não reparar na idade da actriz: este mês, a 22, fará 22 anos. Ela é talento, mas não deixa de ser ainda uma doce Lolita. Como Griet, a jovem de 15 anos que trabalha em casa de Vermeer, é perfeita. Como namorada do detective Leland Blanchard, é o que se espera dela hoje, é uma estrela, e por isso é menos convincente.

Todas as personagens são ambíguas em Black Dalia, existe duplicidade de comportamentos e de intenções. Madeleine Linscott (Hilary Swank) é a nossa primeira pista neste sentido. O que parece, não é. A "subrealidade" é o palco do filme. Kay Lake é a mais autêntica das personagens, esconde apenas o seu passado (de vítima). É aí que vejo uma qualquer inconsistência. Há sofisticação a mais, expressão a menos, no desempenho de Scarlett. A pele que sabe a leite não passou pelo trauma que se revela, a actriz é demasiado teatral com a cigarrilha, os gestos são estudados. No denso romance negro de James Ellroy, Kay Lake é terna e inteligente. E é bela, mas não é uma beldade. Ellroy viu a própria mãe assassinada quando tinha apenas dez anos, e em Kay Lake, dizem, ele projectava a imagem da mãe. Esta Kay Lake começa por ser estonteante e pretensiosa (primeiras cenas), vacila ao longo do filme, e só no fim se aproxima do modelo do escritor. Fiquei com a impressão de que Scarlett Johansson se aprisionou, não ao carácter da personagem, mas à sua imagem de star de Hollywwod.

O décor do filme de De Palma é belo, a intriga flui, mas não há suspense. Fixei a cor sépia. Dalia Negra parece-me um álbum de fotografias.

Do filme de Peter Webber (com uma excelente fotografia de Eduardo Serra) retive a sujidade e o frio em Delft, no ano de 1665, e o desempenho tocante de Scarlett Johansson.

O cinema é todas as artes e uma deliciosa distracção.

6.11.06

Verdade verdadinha

Ando a ler o Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz. Ele diz muitas verdades. Esta, vem mesmo a calhar:

XXXI
Passeia-te sob a chuva. Se derreteres, és solúvel.

Pergunta para engenheiros

No início dos anos 90, o Governo decidiu modernizar a Linha do Norte, de forma a que os Pendulares fizessem Campanhã-S.Apolónia em 2h15m. Sabia que tinha havido atrasos nas obras. Os dados que tenho são de final de 2001 e, nessa altura, 70% da remodelação ainda estaria por fazer. Causas: erros graves de projecto e dificuldade para realizar obras numa linha com tão elevado tráfego (a maior parte dos trabalhos efectuam-se à noite, e durante um tempo limitado)(é mais fácil construir uma linha nova!). 2006 era o ano projectado para finalização dos trabalhos. A ver se o Pendular finalmente percorria a Linha do Norte no tempo recorde anunciado!

Caíram fortes chuvas nos últimos dias. A Linha do Norte foi suspensa em várias partes da via (a pior zona: entre Fátima e Caxarias; mas também: entre Souselas e Coimbra B, perto das estações do Pombal e de Santarém, etc.). Causas: alagamento, estragos consequentes, queda de catenárias, etc..
Viram o estado em que ficou a Linha do Norte nesses pontos, nomeadamente perto do túnel de Caxarias? Viram as valas sob os carris?
Não quero especular, mas acho que tivémos muita sorte por não ter ocorrido um acidente de grandes dimensões.

Dada a importância da Linha do Norte, é claro que é uma vergonha para o país o caos que as chuvadas provocaram. A remodelação prevista nos anos 90 cobriu essa parte da via?

Mas não é essa a minha pergunta para os engenheiros... Acontece que, oh espanto, ouvi o porta-voz e técnicos da Refer prometer a máxima brevidade nos trabalhos ___ no máximo 48 horas, agora até segunda feira, dia 6/11, demanhã.


Mais uma vez: viram aquelas valas?
Apetece-vos passar por lá nos próximos tempos, sentem-se seguros, conhecendo a forma precipitada como que se fizeram os trabalhos de reconstrução da via? Espreitem a foto e, senhores engenheiros, respondam: é possível criar bases de sustentação dos carris, sólidas e duradouras, neste período de tempo? Note-se que as condições metereológicas continuam instáveis.

Eu gosto muito de andar de combóio e sou utilizadora dos serviços da Refer, mas juro que vou pensar duas vezes!

5.11.06

A justiça da forca força


I. Depois de ouvir a sentença que o condenou à morte por enforcamento, Saddam Hussein gritou: "Long live the people and death to their enemies. Long live the glorious nation, and death to its enemies!"

II. "As provas contra Saddam e os réus de patentes mais altas são esmagadoras. Não tenho dúvidas de que os habitantes de Dujail foram executados sem razão legal e com o conhecimento e a aprovação de Saddam. Dito isto, considero que o julgamento foi essencialmente injusto, do ponto de vista dos padrões internacionais das normas de processo ou das garantias legais e constitucionais iraquianas. Por isso, apesar da culpa dos réus, diria que Saddam e os restantes condenados deveriam ter direito a um novo julgamento num novo tribunal iraquiano, mais independente. (...)
Kevin Jon Heller, Público 5/11/06

III. "One of Saddam's lawyers was assassinated the day after the trial's opening session last year. Two more were later assassinated and a fourth fled the country.
In January, chief judge Rizgar Amin, a Kurd, resigned after complaints by Shiite politicians that he had failed to keep control of court proceedings. He, in turn, complained of political interference. Abdul-Rahman, another Kurd, replaced Amin."
AP - Associated Press, 5/11/06

IV. Que repercussão vai ter esta sentença, num país que já está, mesmo se teimam que não, em guerra civil___ e num país que está, e aqui não há teimas, a dois dias de novas eleições legislativas (Congresso e Senado)?

V.
Saddam Hussein terá sido responsável pela morte de 148 xiitas em 1982 (pela operação Anfal que provocou a morte de 100000 curdos em 1987-88)(e por um regime sanguinário, que durou 25 anos). Foi/é acusado de genocídio e violação dos direitos humanos. E contudo, não temos vontade de aplaudir a decisão deste Tribunal, pelas condições em que foi realizado o julgamento e pela condenação à pena de morte. Em termos politicos, este desfecho é desastroso.

VI. Pergunto-me que princípio civilizacional será transmitido quando a imagem do ex-ditador enforcado andar a correr pelas ruas e pelos media.

4.11.06

Breves

Flannery O'Connor

A novíssima Magna Editora lança o livro "12 anos" de Rui Barroso.

Na Antena 2, há um espaço dedicado à poesia recitada. Intitula-se "Os Sons Férteis" e é da responsabilidade de Paulo Rato que, conjuntamente com a actriz Eugénia Bettencourt se encarrega da recitação dos poemas. É transmitido de segunda a sexta-feira, sempre às 11 horas da manhã. Para quem não puder ouvir em directo estas emissões de poesia temperada com música, existe a possibilidade de consultar o arquivo da semana. Esta informação foi-me enviada por Álvaro José Ferreira, animador do grupo Amigos do Lugar Ao Sul.

A Invenção de eu Morel aconteceu ali (e que o Adolfo Bioy Casares lhe perdoe).

Ando a ler "Um bom homem é difícil de encontrar" de Flannery O'Connor. E não, ela não é uma escritora divorciada, com boas pernas e excelente sentido de marketing. É um dos maiores nomes da literatura americana do século XX e relata situações de extrema violência física e mental, num tom tão absolutamente casual! A boa nova é que a editora Cavalo de Ferro decidiu publicar todas as obras, seguindo a organização da própria autora. O livro que tenho em mãos agrupa 10 dos 32 contos que O'Connor coligiu. "Everything that rises must converge" é o segundo volume de contos e deve aparecer brevemente no mercado, assim como os dois romances, " Wise blood" e "The violent bear it away".

Existem grandes prazeres minúsculos!

Ando a pensar no regresso do Escritor Famoso. Chamo este senhor mal humorado, ou não?

Pausa

Man Ray
Des nuages dans les mains
in Les Mains Libres - illustrés par les poèmes de Paul Eluard,
Paris, 1937, pp 129



... para agradecer a referência aos posts que escrevi sobre a questão do aborto. Gracias a:

Alice in Wonderland