27.8.09

Não fora o mar



Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"


[Imagens registadas com a minha pequena Canon Digital IXUS 800 IS]

2 comentários:

Mona Lisa disse...

Olá Rosário

Bm ver-te de regresso.

Adorei o poema. Não conhecia.

Este ano andei de "nariz no ar" e revi algo.
Em casa da minha irmã (Algarve), deparei-me com novos moradores(andorinhas) que fizeram o ninho na varanda.
Nada de anormal,não fosse a original"arquitectura" do mesmo.
Nunca tinha visto nenhum assim. É possível que sejam comuns.

Tirei foto que está no princípio do mês.

Bjs.

Lisa

Maria disse...

Olá querida Gioconda! Vi a foto, de facto é original e raro, o ninho e a circunstância de viver com uns vizinhos tão especiais :)

Beijo grande para ti.