11.7.09

Câmara lenta (não é a municipal)


Cinco situações da minha vida dignas de passarem em câmara lenta... O desafio veio de outro planeta e soa-me a poemas sem palavras, como abraços imensos de mãe ou de filhas pequeninas a fazerem muita força para doer e afinal é apenas tão bom, e elas sabem mas não dizem que sabem que é tão bom... e por isso eu que ando distante para tantas coisas como estes desafios que são a maneira que os grandes inventaram de dizer que não se esqueceram de nós (apesar de poucos alguma vez nos terem olhado nos olhos), (o que me parece tonto e outras vezes comovente)..., eu já estou a rebobinar momentos em câmara lenta a ver se fixo algum para oferecer. ela. eu conheço. ofereceu-me um livro mal me viu e tenho saudades das vezes em que não estivemos juntas.

em câmara lenta...


  • no primeiro dia de escola. que era também o dia em que fazia 6 anos. o corredor era imenso e pareceu-me escuro. os passos ressoavam mas eu sentia que flutuava. todos os gestos eram demasiados rápidos. eu seguia lentamente os gestos e não os apanhava. sentaram-me na fila da frente e houve um momento em que olhei para trás e pareceu-me que estava num palco. o público era uma massa indistinta. então fechei os olhos e pensei na terra que era ainda minha e que ficava em África. eu nem me despedira dela. por não saber o que queria dizer "voltar ao puto". o "puto" tinha uma cor triste e cheirava mal. tinham passado apenas dois meses. eu não apanhava os gestos. eu não sabia onde estava. eu só queria reaver a minha terra.


  • a vizinha à janela. chama por mim, muito doce. diz: rosarinho, nasceu o teu irmão. o hospital ficava a um quarteirão da casa e eu conhecia-o por dentro. cheguei lá primeiro que eu. o meu primeiro bebé, de cabelo em pé.


  • um final de tarde. a minha irmã pôs a cassete no gravador. e então ouvi: Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim/Não me valeu/Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!/O resto é seu/Trocando em miúdos, pode guardar/As sobras de tudo que chamam lar/As sombras de tudo que fomos nós/As marcas de amor nos nossos lençóis/As nossas melhores lembranças/Aquela esperança de tudo se ajeitar/Pode esquecer/Aquela aliança, você pode empenhar Ou derreter... Ah e mesmo se a minha aliança era um fio muito fininho de prata que ele me ofereceu quando fizemos um mês de namoro... (o que aliás me fez ser tão gozada pela minha irmã). tinha acabado. e o Chico Buarque, que eu não conhecia, que eu nunca ouvira, surpreendentemente, naquele dia, cantava só para mim. acabámos muitas vezes. acho que essa nem foi a última vez. mas lembro-me de como fiquei imóvel. ainda fico, quando o ouço. ao Chico!


  • temos vinte anos. na cidade, o verão chegou de repente em março. e decidimos contar o dinheiro: dava para apanhar um autocarro e ir acampar alguns dias no algarve. apanhámos a "linha" mais portuguesa de Portugal. na carripana, uma senhora à nossa frente tinha um pintainho de estimação a quem dava beijinhos e cornetos da Olá. os dois foram todo o tempo a debicar gelados. como não tínhamos lanche, um casal de velhotes decidiu alimentar-nos. comeinde! lembro-me de uma fatia enorme de pão saloio com pedaços gordos de chouriço. e depois houve um momento em que fechei os olhos e senti-me segura como em minha casa. eu já estava apaixonada por ele. mas voltei a apaixonar-me.


  • e agora temos 40 ou falta pouco e aterrámos num sonho de há muito tempo. um vento muito frio corta o ar. envolvemo-nos em cachecóis, luvas e gorros mas continuámos com o corpo em estado de alerta. já nevou. as ruas, as casas, dentro das casas, há decorações de natal. e de repente, chegámos àquele lugar. stop. Times Square. pasmar: olhar para os arranha-céus cintilantes, cintilantes, aqui, ali, este, outro reclamo, teatros, as notícias, nasdaq, megastore, teatros, megastore, vendedores ambulantes, cavalos, táxis amarelos, vummmmmmmmmmm. impossível seguir os movimentos. mas foi tão bom parecer um boi a olhar para um palácio!


e agora, vejam em câmara lenta estes momentos. ou estes. e estes. ou estes. e ainda estes. clic. off.

lá em cima, uma pequena bailarina dança em frente a um quadro (detalhe) de Julião Sarmento no Teatro Aveirense. também é para ver devarinho: o quadro.

3 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

nota-se logo a a pena de quem foi tocada pela inspiração...


aqui respira-se a arte de emana de apolo, senhor da Luz, e da voz mas musas...

parbéns Ro!


csd

Maria disse...

apolo, falaste em apolo? :))

obrigada, Cláudia. fiquei derretida :)
beijo grande

Marta disse...

eu li e saí em silêncio. comovida.[bem...o título fez-me sorrir...]
agora regresso só para dizer o que todos sabemos.

és LINDA! Divina! absolutamente TALENTOSA a escrever a vida.

beijos