24.9.08

À minha professora


No dia 7 de Outubro fará exactamente trinta e seis anos que a conheci. Foi o meu primeiro dia de aulas.

A memória leva-me a percorrer o que me parecia ser um longo corredor escuro, no (então) Colégio Nossa Senhora da Conceição em Espinho. Até à minha sala de aula, de mão dada. Num momento qualquer, olhei para a minha mãe, que caminhava à minha direita, e ela pareceu-me demasiado grande e alheia. Como em regressão, ainda sinto o meu tamanho reduzido, a sua mão apertada, ditadora, o eco dos passos determinados, ruidosos, no corredor, e o pavor de saber que me iria deixar naquele lugar estranho. No ano anterior, em 1971, tinha regressado de Angola, da Lunda Norte, do desterro luxuoso e selvagem do Dundo, e a adaptação ao Puto estava a ser difícil. O país era parco em luz, em cor e em espaço. Não gostava de Portugal. Não gostava de casas sempre fechadas. Não gostava daquele corredor escuro.

Só recordo um dos meus colegas desse primeiro ano. Chamava-se Rui e olhava-me fixamente. A paixão do Rui por mim fez história. A mim, aquela paixão sossegou. Com os mesmos seis anos, um menino conseguiu proteger uma menina com o olhar. Um menino, e uma professora.

A Professora Fernanda Arlette não era pródiga em abraços como, de resto, nenhum professor deveria sê-lo naqueles tempos. Tinha uma postura muito erecta, um ar permanentemente aprumado. Usava um penteado à anos 50, que manteve toda a vida, o cabelo levantado e depois preso num puxo discreto. Era refinada, educada, gentil, um modelo de comportamento. Esta rigidez era apenas quebrada, ou acompanhada, pela sua voz, doce, musical, e por sorrisos afectuosos, sorrisos que eram palmadinhas de ternura. Quando se dirigia a alguém, todo o corpo e gestualidade acompanhavam a intenção. Por isso, quando entrei na sala, soube que ela me tinha visto, que ela era a responsável por mim naquele lugar, que estava feliz por me receber e, também, que ela exigiria a minha participação e obediência. A luta foi brava.

A professora observava-me, silenciosa, a maior parte do tempo. Eu escutava-a, ou não, silenciosa. Queria aprender a ler e absorvia letras e conjuntos de letras com avidez. Cedo, em casa, comecei a pegar no jornal, exibindo saber. Era a minha forma de comunicar que subira um escalão na hierarquia dos seres que dominam o mundo. Os pivots de jornais televisivos eram imperadores. Aquele domínio das palavras e o direito adquirido de as proferir na televisão não me deixavam dúvidas. A minha professora era um mestre, também ela poderia ser imperador.

No final do primeiro ano, a avaliação não perdoou: era boa aluna a português e um desastre em tudo o resto. A aritmética era um quebra-cabeças que me confundia, as aulas de música não pareciam ser coisa para levar a sério, a ginástica era uma violência - e o ginásio era um frigorífico.

«Rosarinho, temos que nos esforçar!», dizia a professora, exasperada. Mas a Rosarinho não percebia, não gostava, não queria, e ficava muda.
Há poucos anos, reencontrei-a. Trinta anos mais tarde, já reformada, a professora Fernanda Arlette mantinha o mesmo penteado e a mesma idade, parecia não ter envelhecido, parecia não ter mudado nada. Lembrava-se do meu silêncio e da batalha que tinha travado para me «soltar» e me despertar para outras matérias que não o português. Como uma gata, andei a segui-la. No segundo ano, ela optou por uma escola pública e fui atrás dela. Na «escola da Tourada» ela conseguiu moldar-me, dar-me a volta, com a disciplina e o método que lhe eram tão caros, e com aquela voz e aquele olhar sempre presente.

Naquele tempo de reguadas, foram poucas as vezes em que a vi erguer o instrumento do suplício mas, uma vez, calhou-me a mim. Passei a aula na brincadeira com uma colega e errei os exercícios de matemática! O castigo foi ficar de pé, de costas para a turma. A reguada foi dada porque, pela janela, assisti a uma senhora tropeçar e cair no recinto da feira, e desatei às gargalhadas. Mas nunca tive, não tenho emenda. Ainda hoje esse tipo de situação me faz rir.

Quanto ao resto, ela conseguiu fazer qualquer coisa, muito, por mim. Quando nos separámos, eu frequentava aulas de ballet e queria ser bailarina, não sabia se preferia História a Geografia, fazia contas complicadas com horas, minutos e segundos, era fã do Festival da Canção, queria que os meus pais me comprassem uma viola e, melhor ainda, tinha muitas amigas. Foi com a Professora Fernanda Arlette que atravessei o 25 de Abril e o período de mudanças que se seguiu. Até 1976 continuámos a cantar o hino nacional no final de cada aula e, uma vez por outra, ela fazia questão de que não esquecêssemos o Pai-Nosso. Tudo misturado com gaivotas que voavam, voavam, asas de vento, coração de mar...

Na escola pública, a minha turma passou a só ter meninas - Estela, Paula Cristina, Maria Cristina, Cristina Barbosa, Ivone, Cecília, Paula Lemos, Paula Leal, Idalina, Cláudia Sofia, Samaritana,... Lembro-me de todas, e da minha professora. Chamava-se Fernanda Arlette. Morreu este mês. Tinha quase oitenta anos, mas parecia não envelhecer.



[Imagem: Escultura de Mónica Oliveira - Memórias - Ferro pintado, resina - 39x29x8,5 cm - 2007]

4 comentários:

Ricardo Silva disse...

Cara Maria do Rosário:

Parabéns pela homenagem à Professora Fernanda Arlette.

Num tempo em que os professores são constantemente vilipendiados, é tocante ler coisas assim...

Bem haja.

Ricardo Silva
www.QueroVoar.pt

MRF disse...

Obrigada, Ricardo Silva. Fiquei muito triste com o desaparecimento desta senhora, "a minha professora da primária". Mas acho que todos temos nos nossos professores de estimação - normalmente são pessoas que, por qualquer razão, nos tocaram: uma palavra amiga no momento certo, um entusiamo enorme a falar sobre determinada matéria,...

Ricardo Silva disse...

Cara Maria do Rosário:

Para além da divulgação que fiz a amigos, não resisti a referir este seu texto num comentário ao post de Sandra Barbosa (autora do livro "Mulher Fantástica" e editora do blog As Palavras Que Nunca Te Direi) sobre a dificuldade hoje em dia em ser Professor em Portugal:
Ensino em Portugal - Visto pelos Professores

Obrigado uma vez mais pelo seu esplêndido texto.

Com os melhores cumprimentos,
Ricardo Silva
Autor do novo ebook gratuito "Quero Voar!" disponível para download em:
www.QueroVoar.pt

MRF disse...

Ricardo, sou eu que agradeço! E prometo ler o «Quero Voar». A sinopse cativa...:)

Abraço grande