Ando a mentalizar-me para deixar de fumar. Depois de 23 anos a inalar alcatrão, nicotina e monóxido de carbono, pode parecer que já não é sem tempo, mas, na verdade, é apenas o tempo que o meu organismo aguentou. Comecei há poucos meses a ter uma tosse que não passa. Os médicos encostaram-me à parede com o meu raio x e ameaçaram: não há xaropes, pastilhas ou injecções que curem isto, a única solução é deixar de fumar. Não tenho nenhuma doença aguda nem insuficiência respiratória. Por agora, apenas por agora, dizem-me. Conclusão: tenho mesmo que deixar de fumar. Nada que eu não saiba há muito tempo...
Por que raio é tão difícil deixar de fumar? Fumar é um vício, pois. Recentemente, descobriram (para meu alívio) que existe um gene que diferencia a apetência de cada um para a dependência à nicotina. É por isso que certas pessoas que fumam, deixam de fumar quando lhes apetece, e que outras, com bronquite asmática crónica, estão no leito do hospital a suplicar por um cigarro (eu disse que era um alívio porque o argumento da força de carácter e determinação perde força face ao factor biológico e isso dá imenso jeito a quem não gosta de dar cabo da sua auto-imagem).
Durante a adolescência nunca me senti atraída pelo tabaco e o meu namorado, fumador, até ouviu alguns sermões. Lembro-me perfeitamente de fazermos jogging e eu correr mais do que ele. Isto é importante: antes de começar a fumar, antes de todas as campanhas anti-tabagistas, antes do Lucky Luke passar a ter uma palhinha na boca, eu já tinha consciência dos malefícios do tabaco. No entanto, por volta dos 17 anos, comecei a fumar para ser fixe. Acho que gostava da(s) pose(s) do fumador. E depois, enfim, já estava farta de não saber travar, era humilhante. Uma tarde, meti-me no sotão da minha casa com um maço de SG Suave e fiz uns ensaios. Sempre às escondidas, fui repetindo o exercício tardes sem conta. Um dia a minha mãe descobriu e decidiu ser moderna (ela que era hiper conservadora). Deu-me permissão para fumar em casa... sem saber que eu nunca fumava na rua.
Obtida a licença, passei a fumar em cafés. Quando entrei na universidade, em Lisboa, o pessoal deve ter ficado convencido de que eu fumava há anos. A única vantagem de fumar tabaco e de, rapidamente, passar de 3 cigarros para um maço por dia, foi poder perceber que o meu organismo se tornava addict com muita facilidade. Outro tipo de drogas (leves) foram experimentadas com precaução (e fujo de medicamentos como o diabo da cruz). O gene só agora foi descoberto mas eu já pressentia esse potencial congénito para a dependência química.
É claro que o meu querido e amaldiçoado gene pode nem existir. Se calhar, sou uma fumadora compulsiva apenas por (inúmeras) razões de natureza psicológica. Que prazer obtenho com o tabaco? ____ Acendi um cigarro. Gosto de o levar à boca e de aspirar o fumo. Gosto da familiaridade do gesto. Gosto da pausa.
Em momentos de mais stress ou trabalho, afastar-me para fumar um cigarro, dá-me uma certa tranquilidade. Sou eu sozinha comigo, no meu mundo (acompanhada daquele gesto).
Mas a maior parte das vezes fumo sem buscar nada, nem refúgio nem projecção (a afirmação social por via deste recurso perdeu efeito). Não sinto prazer (talvez haja alívio por responder à pulsão). Fumo porque é um hábito.
Dei-me conta há pouco tempo de que fumar é tão antigo em mim que parece que abandono a minha identidade se eliminar este comportamento. E no entanto, racionalmente, romper esta ligação salva-me. Fumar anda a debilitar-me.
Mentalizar-me. Hoje, este blog está a servir para isso. Passei por esta casa e invejei a(s) ex fumadora(s).
Sou uma fumadora (quase) republicana. Acho que todas as medidas de prevenção e de proibição do consumo de tabaco (em espaços públicos) são válidas. Concordo que os menores não possam comprar cigarros, vou ser intransigente com as minhas filhas, quero que no meu país as leis sejam mais rigorosas, que não seja permitido fumar em nenhum espaço público fechado. Só não aprecio o modelo americano pela simplificação dos tipos sociais subjacente às leis de restrição do consumo de tabaco: nos EUA, agora, existem fumadores e não fumadores, que integram, respectivamente, o império do mal e as forças do bem.
Todos os radicais são hipócritas, eu também. Eu fumo em espaços públicos fechados, se puder. É por isso que suplico que me impeçam de o fazer.
Em todas as situações de impedimento, eu controlo a pulsão. Eu e muitos outros. Os italianos, latinos como nós, não podem fumar em restaurantes, e não fumam. Estive em Roma pouco tempo depois da nova lei passar a ser aplicada e não assisti a nenhum incumprimento. Nos EUA tive oportunidade de frequentar bares onde se ouvia música, à noite, bom jazz, e ninguém parecia (mais) infeliz por não poder fumar. nem eu. na verdade, gostei muito mais daqueles espaços, alguns em caves, sem fumo.
A primeira vez que fiz um voo não fumador foi em 1994, a viagem demorou quatro horas e achei insuportável. Na vez seguinte, já mentalizada de que a regra era essa, viajei durante oito horas e quase esqueci os cigarros.
Fumar faz mal. Devemos agradecer todas as medidas que limitem o consumo de tabaco.
(que me desculpem os fumadores passivos, não penso muito neles, sei que as últimas estatísticas sobre as causas de morte são alarmantes e que reforçam os seus direitos, mas sempre me pareceu um enorme exagero o que para aí se diz, e, excepção feita às crianças, actualmente, um não fumador pode sempre reclamar numa situação em que o fumo o incomode, além de que é muito mais fácil mudar de café do que controlar um vício horroroso. sim, ainda sou egoísta, ainda fumo)
Ando a contar os cigarros que fumo. Hoje, só fumei nove. Quero acordar amanhã com a sensação de que não me apetece fumar. Às vezes isso acontece e delicio-me até não resistir e pegar num cigarro. O mais certo é isso voltar a acontecer. Mas espero brevemente dar a volta ao gene-vontade. Viver nestes tempos difíceis para fumadores há-de ajudar. Mesmo se esta imagem da BB me seja tão querida...
Por que raio é tão difícil deixar de fumar? Fumar é um vício, pois. Recentemente, descobriram (para meu alívio) que existe um gene que diferencia a apetência de cada um para a dependência à nicotina. É por isso que certas pessoas que fumam, deixam de fumar quando lhes apetece, e que outras, com bronquite asmática crónica, estão no leito do hospital a suplicar por um cigarro (eu disse que era um alívio porque o argumento da força de carácter e determinação perde força face ao factor biológico e isso dá imenso jeito a quem não gosta de dar cabo da sua auto-imagem).
Durante a adolescência nunca me senti atraída pelo tabaco e o meu namorado, fumador, até ouviu alguns sermões. Lembro-me perfeitamente de fazermos jogging e eu correr mais do que ele. Isto é importante: antes de começar a fumar, antes de todas as campanhas anti-tabagistas, antes do Lucky Luke passar a ter uma palhinha na boca, eu já tinha consciência dos malefícios do tabaco. No entanto, por volta dos 17 anos, comecei a fumar para ser fixe. Acho que gostava da(s) pose(s) do fumador. E depois, enfim, já estava farta de não saber travar, era humilhante. Uma tarde, meti-me no sotão da minha casa com um maço de SG Suave e fiz uns ensaios. Sempre às escondidas, fui repetindo o exercício tardes sem conta. Um dia a minha mãe descobriu e decidiu ser moderna (ela que era hiper conservadora). Deu-me permissão para fumar em casa... sem saber que eu nunca fumava na rua.
Obtida a licença, passei a fumar em cafés. Quando entrei na universidade, em Lisboa, o pessoal deve ter ficado convencido de que eu fumava há anos. A única vantagem de fumar tabaco e de, rapidamente, passar de 3 cigarros para um maço por dia, foi poder perceber que o meu organismo se tornava addict com muita facilidade. Outro tipo de drogas (leves) foram experimentadas com precaução (e fujo de medicamentos como o diabo da cruz). O gene só agora foi descoberto mas eu já pressentia esse potencial congénito para a dependência química.
É claro que o meu querido e amaldiçoado gene pode nem existir. Se calhar, sou uma fumadora compulsiva apenas por (inúmeras) razões de natureza psicológica. Que prazer obtenho com o tabaco? ____ Acendi um cigarro. Gosto de o levar à boca e de aspirar o fumo. Gosto da familiaridade do gesto. Gosto da pausa.
Em momentos de mais stress ou trabalho, afastar-me para fumar um cigarro, dá-me uma certa tranquilidade. Sou eu sozinha comigo, no meu mundo (acompanhada daquele gesto).
Mas a maior parte das vezes fumo sem buscar nada, nem refúgio nem projecção (a afirmação social por via deste recurso perdeu efeito). Não sinto prazer (talvez haja alívio por responder à pulsão). Fumo porque é um hábito.
Dei-me conta há pouco tempo de que fumar é tão antigo em mim que parece que abandono a minha identidade se eliminar este comportamento. E no entanto, racionalmente, romper esta ligação salva-me. Fumar anda a debilitar-me.
Mentalizar-me. Hoje, este blog está a servir para isso. Passei por esta casa e invejei a(s) ex fumadora(s).
Sou uma fumadora (quase) republicana. Acho que todas as medidas de prevenção e de proibição do consumo de tabaco (em espaços públicos) são válidas. Concordo que os menores não possam comprar cigarros, vou ser intransigente com as minhas filhas, quero que no meu país as leis sejam mais rigorosas, que não seja permitido fumar em nenhum espaço público fechado. Só não aprecio o modelo americano pela simplificação dos tipos sociais subjacente às leis de restrição do consumo de tabaco: nos EUA, agora, existem fumadores e não fumadores, que integram, respectivamente, o império do mal e as forças do bem.
Todos os radicais são hipócritas, eu também. Eu fumo em espaços públicos fechados, se puder. É por isso que suplico que me impeçam de o fazer.
Em todas as situações de impedimento, eu controlo a pulsão. Eu e muitos outros. Os italianos, latinos como nós, não podem fumar em restaurantes, e não fumam. Estive em Roma pouco tempo depois da nova lei passar a ser aplicada e não assisti a nenhum incumprimento. Nos EUA tive oportunidade de frequentar bares onde se ouvia música, à noite, bom jazz, e ninguém parecia (mais) infeliz por não poder fumar. nem eu. na verdade, gostei muito mais daqueles espaços, alguns em caves, sem fumo.
A primeira vez que fiz um voo não fumador foi em 1994, a viagem demorou quatro horas e achei insuportável. Na vez seguinte, já mentalizada de que a regra era essa, viajei durante oito horas e quase esqueci os cigarros.
Fumar faz mal. Devemos agradecer todas as medidas que limitem o consumo de tabaco.
(que me desculpem os fumadores passivos, não penso muito neles, sei que as últimas estatísticas sobre as causas de morte são alarmantes e que reforçam os seus direitos, mas sempre me pareceu um enorme exagero o que para aí se diz, e, excepção feita às crianças, actualmente, um não fumador pode sempre reclamar numa situação em que o fumo o incomode, além de que é muito mais fácil mudar de café do que controlar um vício horroroso. sim, ainda sou egoísta, ainda fumo)
Ando a contar os cigarros que fumo. Hoje, só fumei nove. Quero acordar amanhã com a sensação de que não me apetece fumar. Às vezes isso acontece e delicio-me até não resistir e pegar num cigarro. O mais certo é isso voltar a acontecer. Mas espero brevemente dar a volta ao gene-vontade. Viver nestes tempos difíceis para fumadores há-de ajudar. Mesmo se esta imagem da BB me seja tão querida...
