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14.10.07

Do domínio da luta #n


Se a tendência actual culminar na possibilidade de uma ilha «houllebecquiana» e a reprodução se libertar do sexo, até a Igreja (no plural) sobreviverá ao impacto. Neste campo de batalha - histórico - da esquerda não iremos observar avanços substanciais. Mesmo com os Viagra, Vigorin, Cialis & seus herdeiros, ou com anti-depressivos apurados que não incluam nos efeitos secundários a diminuição do desejo sexual, ou seja, mesmo com a revolução tecnológica a servir não só as técnicas reprodutivas mas também o desempenho sexual. How many times can a man turn his head, pretending he just doesn't see? The answer, my friend, is blowin' in the wind. É a cultura que produz tecnologia. Os ventos trazem-nos o pó contaminado de pecados do passado e as contingências do presente:

When i'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh no no no
Hey hey hey, that's what i say
(...)

I can't get no satisfaction
I can't get no girl reaction
'cause i try and i try and i try and i try
I can't get no, i can't get no

When i'm ridin' round the world
And i'm doin' this and i'm signing that
And i'm tryin' to make some girl
Who tells me baby better come back later next week
'cause you see i'm on losing streak
I can't get no, oh no no no
Hey hey hey, that's what i say


I'm kidding, mas a ficção, ou uma simples canção, traduzem tão claramente o estado do mundo.

[Psst, se o marxismo nasceu da Revolução Industrial, como é que os marxistas não sabem ou esqueceram que os avanços tecnológicos têm consequências ideológicas? O fenómeno da globalização e a revolução tecnológica em curso, com a emergência e extensão do ciberespaço, têm sido esquecidos por essa gente? Não percebi o comentário, talvez por não ser marxista. Mas estarei a ser voluntarista?]



[Psst, ando fã do Mexia. E, como ele, queria o Nobel para o Philip Roth. A não ser que Doris Lessing tenha escrito um qualquer "O Animal Moribundo" no feminino :) ]


Foto: Melvin Sokolsky

5.7.07

Últimas leituras

Filipe Tourais, desculpa o atraso, mas a engomar sou mesmo lenta...

Os últimos cinco livros que li foram:

- Extensão do domínio da luta, de
Michel Houellebecq
- O sol dos Scorta, de
Laurent Gaudé
- Teoria Estética, de
Theodor Adorno
- As casas pressentidas, de
Luís Serrano (poesia)
- Sexo feminino, meu ser, de
Nhári Viana (poesia)

Ando a ler:
- Uma História de amor e Trevas, de
Amos Oz


InApto, Carlos Araújo Alves, Windtalker, Octávio Lima, non-blogger Pirata Vermelho, perdoem a curiosidade, mas o que andaram vocês a ler nos últimos tempos?

21.6.07

Extensão da provocação #3


Há autores que se servem do talento que possuem ao serviço da descrição delicada dos diferentes estados de espírito, traços de personalidade, etc. Certamente que não farei parte deste grupo de escritores. Todo este acumulado de pormenores realistas, reputadas audácias de personagens claramente distintas, sempre me surgiram, desculpem-me a confissão, como pura insignificância. Daniel, que é amigo de Hervé que por sua vez suporta algumas manias de Gerard. O fantasma de Paul que encarna no corpo de Virginie, a viagem a Veneza com a minha prima... podíamos passar horas nisto. Mais vale observar os lavagantes a pisarem-se uns aos outros dentro de um aquário (basta ir a uma marisqueira). De resto, frequento muito pouco a espécie humana.
Para alcançar o objectivo, outrora filosófico, a que me proponho, preciso de desbravar caminho. Simplificar. Destruir a camada de pormenores, um por um. Serei talvez auxiliado pelo simples jogo do movimento histórico. O mundo uniformiza-se mesmo debaixo das minhas barbas. Os meios de comunicação progridem; o recheio dos apartamentos enche-se de nova tecnologia. As relações humanas tornam-se progressivamente impossíveis, o que reduz igualmente a quantidade de anedotas com as quais se compõem a vida. E, aos poucos, a figura da morte aparece em todo o seu esplendor. O terceiro milénio aproxima-se sob este presságio.

Michel Houellebecq
in Extensão do Domínio da Luta
Ed. quasi, pp 17


Para Michel Houellebecq, este é o romance da aprendizagem do desgosto. Foi o seu primeiro romance (editado em 1994) e nele já é evidente o seu desencanto com a humanidade e o desespero de viver todos os dias num mundo que promove a massificação do indivíduo. O narrador desta obra, como depois em Partículas Elementares, Plataforma, ou A possibilidade de uma Ilha, é um homem doente de solidão. E, como todos os seres humanos, pode ser cruel. Neste livro em particular, a escrita literária vem representar um espaço privilegiado de manifestação da subjetividade (em "A Possibilidade..." é a escrita humorística que assume esse papel). Como se, na ficção, o indivíduo sozinho pudesse triunfar, concentrado apenas na experiência do existir.


Imagem de Jean Sébastien Monzani, série Still Travelers

18.6.07

Extensão da provocação #2

Os efeitos destes dois sistemas são pelo menos estritamente equivalentes. Tal como o liberalismo económico sem entrave e por razões análogas, o liberalismo sexual produz os fenómenos da pauperização absoluta. Alguns fazem amor todos os dias; outros, cinco ou seis vezes na vida inteira, ou então nunca. Alguns fazem amor com meia dúzia de mulheres; outros com nenhuma. É aquilo a que chamamos a «lei do mercado». No sistema económico onde o licenciamento é proibido, cada um consegue de uma maneira ou de outra encontrar o seu lugar. Num sistema sexual em que o adultério é proibido, ninguém consegue, de uma maneira ou de outra, encontrar a sua companhia na cama. Num sistema económico perfeitamente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros improdutivos estão no desemprego e na miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns têm uma vida exótica e excitante; outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo económico é uma extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano económico, Raphael Tisserand, pertence à classe dos vencedores; no plano sexual, à dos vencidos. Há quem ganhe em ambos os lados, há também quem perca nos dois. As empresas disputam entre si jovens licenciados; as mulheres disputam alguns jovens homens; os homens disputam algumas mulheres; o problema e a agitação são consideráveis.

Michel Houellebecq
in Extensão do Domínio da Luta
Ed. quasi, pp 79

16.6.07

Extensão da provocação #1

O amor como inocência e capacidade de iludir, como aptidão para resumir o conjunto do outro sexo a um só ser amado, raramente resiste a um ano de vagabundagem sexual, nunca a dois anos.

Michel Houellebecq
in Extensão do Domínio da Luta
Ed. quasi, pp 89

28.5.07

Michel Houellebecq realizador de cinema


L'Hebdo Cinéma 3 février 2007


Michel Houellebecq inscreve-se agora "na casta restrita e heterogénea de romancistas realizadores" em França. Antes dele, Cocteau, Marcel Pagnol, Christophe Honoré, Emmanuel Carrère ou, mais recentemente, Marc Lévy (com a adaptação de Mes amis Mes amours).

A adaptação ao cinema do livro A possibilidade de uma Ilha será realizada pelo escritor lui même. Escrever um guião sem ter escrito o romance não lhe interessaria. Para Houellebecq, o processo de realização começou com a escrita do livro. A circunstância de ser escritor-realizador parece-lhe facilitar a tarefa de adaptação "porque não temos nenhum respeito por nós próprios" e assim não se sentirá condicionado se tiver que alterar elementos do romance, por estes não funcionarem em cinema. O que lhe parece difícil é escolher as pessoas, actores e outros colaboradores. Há pontos comuns entre os romances e os filmes. Por exemplo, na escrita, os personagens acabam por escapar ao seu autor. Cita o caso da personagem Valérie no livro Plataforma que "lhe estragou completamente o livro, ganhando todo o protagonismo". Um actor, em função da escolha que for feita, também vai "bifurcar", dar um sentido particular à personagem.

Mesmo tratando-se de Houellebecq, que conhece já a glória na literatura, as reacções a este seu projecto, por parte do mundo do cinema, não foram as mais positivas, e em matéria de financiamentos (públicos) as portas não se abriram como seria de esperar. Por razões de cultura de Estado, diz Houellebecq.

Será ele igualmente apaixonante por trás da câmara? Fez estudos (que não concluiu) no Institut Lumière, realizou quatro curtas metragens, admira Louis de Funès e David Lynch, mas apenas adianta que este será "um filme de antecipação" (não exactamente science fiction), como aliás, para quem já leu o livro, é de esperar. A (segunda) Possibilidade de uma Ilha em cinema já está a ser rodada. Aguardemos, pois!

Ando a ler...



Um dos primeiros livros de um dos meus escritores (muito contemporâneos) preferidos. Recentemente publicado em Portugal pela Quasi Edições.

29.12.06

Rol de leituras de 2006

Janeiro
Comecei com Bilhete de Identidade da Maria Filomena Mónica, um livro que confirma a teoria da transmissão dos genes culturais! Dei uma revisão ao L'arrache-coeur de Boris Vian. Sim, esse, esse mesmo. Mas o primeiro baque do ano veio com Predadores de Pepetela. À míngua de edições traduzidas, ou nem isso, de Júlio Cortázar, experimentei, acho que pela primeira vez, ler uma obra via net: Rayuela. Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo... (aqui). O ano terminou sem que tivesse notícias que pudessem alterar esta desolação. Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío.(aqui)

Fevereiro
Autor, Autor de David Lodge, a que se seguiu A Volta no Parafuso de Henri James.

Março
O dia está a chegar ao fim. Mas se calhar ainda é um bocado cedo para a minha canção. Cantar cedo demais é funesto, sempre achei. Por outro lado, às vezes deixa-se passar a altura. Em Os Dias Felizes de Samuel Beckett. Uma das leituras feitas a pensar nisto. E apenas porque era outro dos autores celebrados no Famafest '06, fica o pensamento: depois de conhecer o "seu" cinema, era tempo de ler Harold Pinter!

Abril
De Haruki Murakami, Kafka à Beira-mar. Seguiu-se Norwegian Wood do mesmo autor. Foi a minha revelação do ano e quase não disse nada.
Este foi também "o mês" de Paulo José Miranda. Oficialmente li apenas A Voz Que Nos Trai. Para quando a publicação de outras obras, Paulo?

Maio
Visões de Cristo no Cinema foi um dos vários livros que Lauro António escreveu e que foram editados pela Biblioteca Museu República e Resistência. É bom tê-los na nossa biblioteca.
Ah, afinal referi o Murakami e o Paulo José Miranda e tantos outros. Mas este foi o mês de Philip Roth. Li Pastoral Americana e A Conspiração Contra A América, continua a faltar-me Casei Com Uma Comunista. E já tenho o último dele, O Animal Moribundo. Serão leituras para 2007.
De assinalar como um dos meus melhores livros do ano, Dias Exemplares, de Michael Cunningham. A primeira parte do livro, Dentro da Máquina, deixou-me uma marca (que espero seja) indelével.

Junho
As leituras continuaram até porque "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler". Mas não referi nenhum livro. Oh não, também me deixei ir na onda do Mundial! E nem li Kenzaburo Oe, apesar de ter anotado o seu nome.

Julho
A Possibilidade de uma Ilha, de Houellebecq, aparece finalmente nas nossas livrarias. Mas esse livro do meu autor de culto já tinha sido devorado e partilhado aqui no ano anterior. Traduzi algumas páginas para despertar o vosso desejo. Houllebecq é (possivelmente) um homem execrável e um escritor maravilhosamente inteligente. (...) o ciúme, o desejo e a vontade de procriação têm a mesma origem, que é o sofrimento de ser. É o sofrimento de ser que nos faz procurar o outro, como um paliativo; devemos ultrapassar esse estádio a fim de alcançar o estado em que o simples facto de existir constitui por si mesmo um motivo de alegria permanente ... (aqui). Eu não queria tornar-me um autómato, e foi isso, essa presença real, esse sabor de vida viva, como teria dito Dostoïevski, que Esther que ofereceu. De que serve manter em estado de marcha um corpo que não é tocado por ninguém? (aqui)
Em Julho li O Fim da Aventura, de Graham Greene. De vez enquando é bom reler um clássico para saber que (quase) tudo já foi inventado e demonstrado com mestria. Na escrita de um romance, isso significa perceber a sensibilidade de hoje igual à de ontem. ou o contrário.

Agosto
O que li eu estas férias? Peguei no Cuidado com a Doçura das Coisas de Raphaëlle Billetdoux, para descobrir que já o tinha lido. Li La Poursuite du Bonheur, e não gostei pela primeira vez de um livro do Michel Houellebecq. enfim, vou dizer não à sua poesia. Comprei vários outros livros, aproveitando a estadia em França, em que ainda não peguei. Comecei a ler Arno Gruen, e continuo. Agora é A Traição do Eu que está pousado na mesa de cabeceira. E li O Mar de John Banville! Leitura que inspirou vários posts em Setembro. vários. uns três ou quatro, ou cinco ou seis.

Setembro
... foi o mês em que eu nunca mais acabava de ler A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón. Quando acabei a leitura não me apeteceu dizer-vos nada. Mas parece que são poucas as pessoas que não ficaram "apanhadas" por esta obra, um cruzamento de romance histórico e policial, bem escrito e... pueril.

Outubro
ah, Villa Amalia, de Pascal Quignard!

Novembro
Bom mês! A descoberta de Flannery O'Connor e a leitura do assombro que é A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares. E poesia, muita.

Dezembro
Começou com O Mesmo Mar de Amos Oz, outro nomeado para a secção dos meus livros do ano. Li o último do Gonçalo M. Tavares. Depois fui forçada a permancer em repouso e rejubilei, lembram-se? António Franco Alexandre, Maria Teresa Horta, Al Berto, António Ramos Rosa e Possidónio Cachapa foram os eleitos. Além de Süskind.
Neste momento tenho em mãos "Romance Negro e Outras Histórias" de Rubem Fonseca.


Muita coisa escapou. Mas não me apetece levantar e procurar. mesmo não confiando totalmente neste auxiliar de memória que é o blogue. De repente lembrei-me de uma agenda pequenina que eu tive (e ainda tenho. aonde?) e onde comecei a apontar os livros lidos. Teria uns 12 ou 13 anos. Nele constavam partes da Bíblia, Enid Blyton, cada número da colecção discriminado, Memórias de uma Menina Bem Comportada de Simone du Beauvoir (que li, à espera de que a menina fosse mal comportada, mas sem nenhum conhecimento sobre a autora), Michel Vaillant, e tantos outros, numa amálgama deliciosa que chegou aos 300 e tal livros. Depois dessa lista, acho que não voltei a fazer outra. até hoje. Mas dou-me conta de que a falta de critério se mantém, ou é um critério em si. Pegar num livro e partir. para um novo dia, ou noite. ou ano. "ler bem é também aproveitar a felicidade de ler"

24.7.06

A vida secreta das palavras de Houellebecq


Finalmente a tradução! pela Dom Quixote. do livro de Michel Houellebecq, A Possibilidade de uma Ilha.

Houellebecq é paixão (quase) antiga. É impossível ficar indiferente ao homem ou à sua obra. Os seus livros são sempre uma provocação. A Possibilidade foi degustada página a página, página a página, página a página. Acabei devorada pela ilha.

16.11.05

e com esta acabaram-se as citações do Houellebecq

Há uma frase célebre que divide os artistas em duas categorias: os revolucionários e os decoradores. Digamos que escolhi o campo dos decoradores. Quer dizer, eu não tive propriamente escolha, foi o mundo que decidiu por mim.(...) Suponho que os revolucionários são aqueles que são capazes de assumir a brutalidade do mundo, e de lhe responder com uma brutalidade acrescida. Eu não tinha simplesmente essa coragem. Mas era ambicioso, e no fundo, é possível que os decoradores sejam mais ambiciosos que os revolucionários. Antes de Duchamp, o artista tinha como última meta propor uma visão do mundo que fosse ao mesmo tempo pessoal e exacta, isto é, mobilizadora; era já uma ambição enorme. Depois de Duchamp, o artista já não se contenta em apresentar uma visão do mundo, ele procura criar o seu próprio mundo; ele é muito exactamente o rival de Deus.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
Prix Interallié 2005
pp 157-158 (traduzida)

15.11.05

(...) em suma, eu revivia, mesmo se sabia que era a última vez. Toda a energia é de ordem sexual, não principalmente mas exclusivamente, e quando o animal já não serve para se reproduzir ele não serve em absoluto para mais nada. Com os homens é a mesma coisa; no momento em que o instinto sexual desaparece, escreve Schopenhauer, o verdadeiro centro da vida desaparece; assim, assinala ele numa metáfora de aterradora violência, "a existência humana assemelha-se a uma representação teatral que, começando com actores vivos, terminará com autómatos cobertos com os mesmos trajes". Eu não queria tornar-me um autómato, e foi isso, essa presença real, esse sabor de vida viva, como teria dito Dostoïevski, que Esther que ofereceu. De que serve manter em estado de marcha um corpo que não é tocado por ninguém? E porquê escolher um belo quarto de hotel se devemos dormir aí sós? Eu não podia (...) senão inclinar-me: imenso e admirável, decididamente, era o poder do amor.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 222 (traduzida)

14.11.05

A palavra destrói, ela separa, e no momento em que, entre um homem e uma mulher, só ela resta, consideramos com justeza que a relação está terminada. Quando, pelo contrário, ela é acompanhada, amaciada, e de alguma forma santificada pelas carícias, a palavra em si, pode tomar um significado diferente, menos dramático mas mais profundo, o de um contraponto intelectual isolado, sem consequência imediata, livre.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 90 (traduzida)

13.11.05

(...) o ciúme, o desejo e a vontade de procriação têm a mesma origem, que é o sofrimento de ser. É o sofrimento de ser que nos faz procurar o outro, como um paliativo; devemos ultrapassar esse estádio a fim de alcançar o estado em que o simples facto de existir constitui por si mesmo um motivo de alegria permanente; em que a intermediação não é mais que um jogo, livremente realizado, não constitutiva de ser. Devemos alcançar, numa palavra, a liberdade da indiferença, condição de possibilidade da serenidade perfeita.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 376 (traduzida)

12.11.05

A vida sexual do homem resume-se a duas fases: a primeira em que ele ejacula demasiado cedo, a segunda em que ele já não consegue uma erecção. Nas primeiras semanas da minha relação com Esther, apercebi-me que tinha voltado à primeira - quando acreditava desde há muito tempo que estava a abeirar-me da segunda.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 204 (traduzida)

11.11.05

(...) - rien n'égale la douceur du sommeil lorsqu'il se produit en présence de l'être aimé.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 168

10.11.05

Na primeira parte da nossa vida só nos damos conta da felicidade depois de a termos perdido. Depois vem uma idade, uma idade segunda, em que sabemos no momento em que começamos a viver uma felicidade que, mais cedo ou mais tarde, a vamos perder. Quando encontrei Belle compreendi que tinha acabado de entrar nessa idade. Compreendi também que não tinha atingido a idade terceira, a da verdadeira velhice, em que a antecipação da perda da felicidade impede mesmo de viver.


La possibilité d'une île
Michel Houellebecq
Ed. Fayard
pp 173 (traduzida)

23.9.05

la possibilité d'une île II

A minha encarnação actual degrada-se; acho que ela não se vai aguentar por muito mais tempo. Sei que na minha próxima encarnação vou encontrar o meu companheiro, o cãozinho Fox.
O benefício da companhia de um cão reside na possibilidade de o fazer feliz; ele pede coisas simples, o seu ego é tão limitado. É possível que numa época anterior, as mulheres se tenham encontrado numa situação comparável - próxima da situação do animal doméstico. Havia sem dúvida uma forma de felicidade domótica* ligada ao funcionamento normal, que nós já não conseguimos compreender; havia sem dúvida o prazer de constituir um organismo funcional, adequado, concebido para realizar uma série discreta de tarefas - e essas, repetindo-se, constituia a série discreta dos dias. Tudo isso desapareceu, e a série de tarefas; nós já não temos um objectivo estabelecido; as alegrias do ser humano permanecem desconhecidas para nós, as suas desgraças pelo contrário só podem descoser-nos. As nossas noites não vibram mais de terror ou de êxtase; mas vivemos apesar de tudo, atravessamos a vida, sem alegria e sem mistério, o tempo parece-nos breve.

Michel Houellebecq
la possibilité d'une île



Sinto a provocação, vou trucidar este livro com o prazer da leitura!

pp 11, traduzido por mrf
* domótica: sistema de automatização de edifícios. ver exemplo aqui

16.9.05

la possibilité d'une île


Michel Houellebecq, auto-retrato

O meu anjo da guarda trouxe-me o livro acabadinho de sair no mercado. Vem em francês, editado pela Fayard, e cheira a gosto de leitura. Começa assim: "Soyez les bienvenus dans la vie éternelle, mes amis". E na página seguinte, aparece logo uma boa pergunta:
"Qui, parmi vous, mérite la vie éternelle?"

12.9.05

Tout le Monde en Parle






Tout le Monde en Parle é um dos meus programas de televisão favoritos. Quem tiver cabo, pode vê-lo todos os Domingos à noite na TV5. É animado por Thierry Ardisson, ele próprio uma lenda viva. Tem uma bagagem intelectual e um savoir-faire inquestionáveis. É assumidamente católico, monárquico e de esquerda porque, sim, isso é possível! O conceito do programa é genial: temos direito a um painel de entrevistados de excelência, de quem toda a gente fala (por boas ou más razões), que se evidenciaram nos mais diversos domínios, política, literatuta, música, moda, cinema, teatro, showbis, etc.. Ficam todos sentados à volta de uma mesa e com muito humor, sal e pimenta qb, entretêm-nos divinalmente.

Ontem o painel incluia, entre outros, Michel Houellebecq e Juan Guzmán.

Comecemos pelo último. Juan Guzmán é o juíz do Tribunal de Apelação de Santiago do Chile que, em 1989, um ano antes do fim do regime militar, ficou responsável pelo processo de investigação de Augusto Pinochet (após apresentação de queixa contra o ditador por parte da secretária geral do PC Chileno). Guzmán, agora reformado, escreveu um livro, Au bord du Monde, que acaba de ser editado por Les Arènes. Em França chamam-lhe le tombeur de Pinochet, uma vez que conseguiu efectivamente formalizar várias acusações contra Augusto Pinochet. Filho de um juíz, diplomata e poeta famoso, Juan Guzmán Cruchaga, lembra-se de ter celebrado com a família a queda de Salvador Allende (11/Set/1973). Só mais tarde teve conhecimento do bombardeamento ao Palácio de La Moneda e do suicídio de Allende. Sobre as atrocidades cometidas pelo exército, afirma que demorou alguns anos a acreditar que existissem. Imaginava uns excessos, "normais" dado o período político conturbado. Até que, como juíz, se começou a deparar com processos silenciados sistemáticamente. Mas quando a mulher, chegada de França, lhe explicou que Pinochet era visto como um ditador na Europa, ainda estranhou.
Quando foi nomeado pelo Tribunal de Apelação para este processo sentiu que era chegado o momento da verdade. Ou era juíz ou não era. Decidiu sê-lo. Nesta entrevista confessou ainda momentos de fraqueza, o medo que se instalou na sua vida, as vezes em que sentiu vontade de desistir.
Neste Tout le Monde en Parle, ficaram algumas lições, para a vida e para a História.

Michel Houellebecq dispensa apresentações. É um dos melhores escritores da actualidade. Acaba de lançar La possibilité d'une île e, como sempre, ainda antes do lançamento, o livro já gerou imensa polémica. Eu gosto do homem e mais ainda dos livros que já li. Depois de ler Plataforma, não percebi as críticas que lhe foram feitas! Mas Houellebecq pode ser perigoso no uso das palavras. Não vos vou falar da história do livro, vou apenas citar o escritor que, neste programa televisivo, comentou algumas das suas personagens e temas.

Daniel I (que vive em 2015):
Tem 47 anos, é um humorista cínico, que faz tudo para ter sucesso e é bem sucedido, mas tem consciência da sua própria mediocridade. Há sempre uma qualquer maldade no riso. Os bons humoristas têm de ser tristes, porque o segredo para fazer rir é certamente um segredo triste sobre a natureza humana.
Daniel I não tem filhos, ele prefere os cães. Ele quer fazer as pessoas felizes mas fazer alguém feliz é muito difícil. Os cães, pelo menos, ficam felizes facilmente.
Há qualquer coisa de inquietante no choro dos bébés. Vendo um recém-nascido berrar podemos constatar um qualquer desiquilibrio da raça humana. Não é normal nascer e gritar logo assim!
As crianças são anões viciosos, até os animais domésticos têm medo delas.

Daniel I não vai conseguir ser feliz nem com Isabelle nem com Esther. Nunca existe uma solução nos meus livros. O desejo não é uma solução e o não-desejo também não.

Isabelle:
É a mulher de David I. Já foi muito bela e às vezes as pessoas dotadas de grande beleza não gostam do amor físico porque o amor físico deforma.

Esther:
Tem 22 anos e, ao contrário de Isabelle, ama o sexo. Mas não ama o amor. Não sei se os jovens hoje têm vontade de amar. Não sei porque já não sou jovem. Daniel I não vai conseguir ser feliz com Esther por causa da diferença de idades. O problema não vai ser de ordem sexual mas social, ele vai ser marginalizado por ser velho. Nesta sociedade, podemos ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais, racistas, pedófilos, tudo é permitido, menos ser velho.

Sobre os Raelianos:
Rael quer dizer anjo, era o nome de Deus segundo as antigas Escrituras. Exigem pouco e prometem a imortalidade física e a juventude eterna. Daí o seu poder de sedução. Daí o seu interesse pela clonagem humana.
Qualquer seita pode tornar-se numa religião de grande dimensão, de resto foi assim que começou o cristianismo. As grandes religiões são seitas que foram bem sucedidas.
Tudo aquilo que a ciência permite - como será o caso da clonagem humana-, será realizado.

Sobre si próprio, Houellebecq:
O pior que lhe podia acontecer - perder os dentes, porque gosta de fazer leituras dos seus livros
O cumprimento mais irritante que lhe podem fazer - que é amável/gentil
Qualidade que gostaria de ter - saber mentir
Qualidade que tem e não gosta de ter - ser demasiado inteligente
Defeito que gostaria de ter - ser mais primário
Defeito que gosta de ver numa mulher - ser desajeitada
A melhor pior crítica que lhe fizeram - fazer demasiadas concessões à emoção
O que o futuro não dirá dele - se foi feliz ou infeliz
A pergunta que não lhe devem colocar - quem é/são a(s) pessoa(s) que detesta (muito difícil, porque a sua mãe talvez seja uma delas)
O que nunca disse - "Vou-te matar", porque poderia fazê-lo

Conclui que haverá sempre pessoas a detestá-lo, independentemente do que diga ou faça. Sabe que muitas são movidas pela inveja e ciúme mas compreende sinceramente esses motivos e por isso perdoa-lhes. Recusou ser entrevistado pelo Le Fígaro (...durante toda a sua vida literária), Le Point ou L'Express. Só aceita entrevistas quando acha que vai ser um prazer. Aceitou esta entrevista do Thierry Ardisson para a televisão. Na imprensa escrita foi a revista Chien 2000 (isso mesmo, uma revista especializada na raça canina) a única a ter o privilégio de publicar uma entrevista sua.


Fiquei com vontade de ler os dois livros. E quero um programa de televisão assim num dos nossos canais, merda!

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O que está in , o que é top, o business, as miúdas, fazem parte do universo de Octave, criativo na filial francesa de uma grande agência de publicidade internacional. Tem como função escrever slogans, “aforismos que se vendem”, e assim abusar de todas as donas de casa com menos de cinquenta anos que vivam à face da terra, transformando os seus fantasmas em actos de compra.
Octave começa a encarar essa actividade como intrinsecamente frustrante, uma vez que utiliza a mentira e a ilusão como motores criativos. Falar em criatividade torna-se mesmo um abuso. "Chamo-me Octave e visto-me na APC. Sou publicitário: sim, poluo o universo. Sou um tipo capaz de vos vender merda. Que vos faz sonhar com coisas que nunca tereis. Céu sempre azul, miúdas que nunca são feias, a felicidade perfeita retocada na PhotoShop."
O narrador torna-se de tal forma cínico em relação ao seu trabalho que parece desejar ser odiado pelo leitor. Ele cita com frequência Goebbels e Hitler para lembrar como a publicidade está próxima da propaganda, compara os directores da agência a generais conduzindo a terceira guerra mundial. Um dia decide recolher elementos que lhe permitam escrever um livro que seja o mais ofensivo possível para a sua empresa, de forma a que o demitam - não dispensa a indemnização por despedimento! Com impertinência e hipocrisia, este autor/narrador (Beigbeder foi publicitário durante anos e o livro é assumidamente autobiográfico), cria um estilo muito eficaz, que usa para defender ideologias como a anti-mundialização, o anti-mercantilismo, o anti-consumismo. "Não vejo interesse em escrever livros a não ser que seja para cuspir na sopa".
Como bom publicitário, Beigbeder adora inventar frases e é capaz de inventar "fórmulas" que são poderosas, aliando ao humor um cinismo muito destrutivo. A depressão do narrador faz-nos pensar em
Houellebecq (que de resto defendeu Beigbeder, ainda antes do romance ser lançado, contra aqueles que desejavam instaurar-lhe um processo). As seis partes do livro, baptizadas com pronomes pessoais (eu, tu, ele...), permitem-lhe adoptar um ponto de vista sempre diferente. Mas o que torna o livro mais singular é que aquilo que o narrador anuncia na abertura da obra - que vai ser despedido quando a direcção tomar conhecimento do livro, o autor vai vivê-la na vida real. Houellebecq qualificou este dispositivo experimental de "auto-ficção prospectiva".
Beigbeder, com esta sua denúncia do sistema capitalista assente num quadro panfletário do mundo da publicidade, foi aplaudido por toda a crítica e criou um best-seller já traduzido em vários países, nomeadamente em Portugal.

99 Francos foi traduzido por € 14.99 - A outra face da moeda, pela Presença.
De alguma forma é um livro moral. Mas o divertimento está garantido!