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5.7.07

Últimas leituras

Filipe Tourais, desculpa o atraso, mas a engomar sou mesmo lenta...

Os últimos cinco livros que li foram:

- Extensão do domínio da luta, de
Michel Houellebecq
- O sol dos Scorta, de
Laurent Gaudé
- Teoria Estética, de
Theodor Adorno
- As casas pressentidas, de
Luís Serrano (poesia)
- Sexo feminino, meu ser, de
Nhári Viana (poesia)

Ando a ler:
- Uma História de amor e Trevas, de
Amos Oz


InApto, Carlos Araújo Alves, Windtalker, Octávio Lima, non-blogger Pirata Vermelho, perdoem a curiosidade, mas o que andaram vocês a ler nos últimos tempos?

29.5.07

O Sol dos Scorta #4

"- As gerações sucedem-se, don Salvatore. E, vendo bem, qual o significado de tudo isto? Será que, no fim, saberemos alguma coisa? Pense na minha família. Os Scorta. Cada um lutou à sua maneira. E, cada um à sua maneira, todos conseguiram superar-se. Para chegar a quê? A mim? Sou realmente melhor do que foram os meus tios? Não. Então de que serviram os seus esforços? De nada. Don Salvatore, de nada. É de chorar, ter de dizer isso.
- Pois é - respondeu don Salvatore -, as gerações sucedem-se. Basta que façamos o melhor que soubermos, que transmitamos alguma coisa e cedamos o lugar.
(...)
- Estava justamente a perguntar-me - prosseguiu o padre -, antes de chegares, Elia, no que se tornou a nossa aldeia. É o mesmo problema. A outra escala. Diz-me, em que se tornou Montepuccio?
- Num saco de dinheiro sobre um monte de pedras - respondeu Elia amargo.
- Sim, o dinheiro enlouqueceu-os. O desejo de possuir cada vez mais. O medo de lhe sentir a falta. O dinheiro é a sua única obsessão.
- Talvez - acrescentou Elia -, mas importa reconhecer que os montepuccianos já não morrem de fome. As crianças já não sofrem de malária e todas as casas têm água corrente.
- É verdade - disse don Salvatore. - Enriquecemos, mas quem avaliará, um dia, o empobrecimento que acompanhou esta evolução? A vida da aldeia é pobre. Estes cretinos ainda nem sequer se aperceberam."


in O Sol dos Scorta, um romance de Laurent Gaudé. pp 212



Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.

27.5.07

O Sol dos Scorta #3

"- É ouro- dizia o tio. - Quem disser que somos pobres nunca comeu um pedaço de pão ensopado em azeite do nosso. É como quem saboreia as colinas. Cheira a pedra e a sol. Cintila. É bonito, espesso, untuoso. O azeite é o sangue da nossa terra. (...)
Talvez sejamos miseráveis e ignorantes, mas por termos extraído azeite das pedras, por termos feito tanto de tão pouco, salvar-nos-emos."

in O Sol dos Scorta, um romance de Laurent Gaudé pp 133

25.5.07

O Sol dos Scorta #2

"Quanto mais trabalhavam, mais bonita se apresentava a tabacaria. Os homens sabem-no. Quer se trate de uma loja, de um terreno ou de um barco, existe uma ligação obscura entre o homem e o seu utensílio, feita de respeito e de ódio. O homem cuida dele. Rodeia-o de mil atenções e, de noite, insulta-o. O utensílio desgasta o homem. Destrói-o. Rouba-lhe os domingos e a vida em família, mas o homem por nada deste mundo se separaria dele. Era o que acontecia entre a tabacaria e os Scorta. Amaldiçoavam-se e, ao mesmo tempo, veneravam-se, como se venera quem nos dá de comer e se amaldiçoa quem nos envelhece precocemente."


in O Sol dos Scorta, um romance de
Laurent Gaudé pp 101

24.5.07

O Sol dos Scorta #1



"Quando partimos de Montepuccio para Nápoles, acompanhados por don Giorgio, que quis levar-nos até ao cais de embarque, pareceu-me que a terra ressoava debaixo dos nossos passos, como se resmungasse contra estes filhos que tinham a ousadia de querer abandoná-la. Saímos de Gargano, descemos até à grande e triste planície de Foggia e atravessámos a Itália de um lado a outro até chegarmos a Nápoles. Arregalámos os olhos diante de um labirinto de gritos, imundície e calor. A grande cidade cheirava a carne rija e a peixe podre. As ruelas de Spaccanapoli regurgitavam de crianças de ventres inchados e bocas desdentadas.

Don Giorgio levou-nos até ao porto e embarcámos num desses paquetes construídos para transportar famintos de um ponto ao outro do globo, entre grandes golfadas de fuelóleo. Instalámo-nos na ponte, no meio dos nossos semelhantes. Europeus miseráveis de olhar esfomeado. Famílias inteiras ou crianças sozinhas. Como todos os outros, demos as mãos para não nos perdermos na multidão. Como todos os outros, na primeira noite, não fomos capazes de conciliar o sono, receando que mãos viciosas nos roubassem o cobertor que partilhávamos. Como todos os outros, chorámos quando o imenso paquete saiu da baía de Nápoles.'É a vida que começa', murmurou Domenico. (...) Como todos os outros, voltámo-nos para a América, à espera do dia em que avistaríamos a costa, à espera, em estranhos sonhos, de que ali tudo fosse diferente, as cores, os odores, as leis dos homens. Tudo. Maior. Mais fácil.
(...)

À chegada desembarcámos com entusiasmo. (...)
Quando me apresentei diante do médico, ele deteve-me por meio de um gesto. Observou-me os olhos e, sem dizer nada, fez-me uma marca na mão, a giz. (...)
Só compreendemos o que se passava quando chegou um intérprete. Eu tinha uma infecção. (...)
O chão fugiu-me debaixo dos pés. Fui rejeitada, don salvatore. Estava tudo acabado. (...)

O intérprete exprimiu-se mais uma vez: 'Volta para trás... a viagem é gratuita... não há problema... gratuita...', só tinha aquela palavra na boca."

in O Sol dos Scorta, um romance de
Laurent Gaudé. pp. 71-73


Um fragmento de um romance galardoado com o Goncourt em França, um romance que serve a História, ficcionando aqui sobre a emigração na Europa. Depois, este artigo jornalístico sobre a imigração na Europa. Duas leituras para não esquecermos que as rotas se alteraram mas a necessidade e o medo são os mesmos.

15.5.07

O poder de Eva

Ora bem, vamos lá ver se consigo alinhar meia dúzia de palavras (saibam que não há palavra que não volte atrás para corrigir). estou com os copos, ou melhor estou com um jarro de sangria ---feita pela Eva, no Clandestino---, bebida lentamente, com mordidelas às maças, durante umas horas à conversa. Se estivesse em Lisboa, e que saudades que sinto de Lisboa, acabava a noite no Jamaica, mas aqui não há Jamaica e já não tenho 20 anos, nem trinta, entrei nos "entas" e por isso já estou chez moi e daqui a umas horas ponho o meu ar respeitável e levo as crianças à escola. e na verdade nem troco isso por nada. porque elas, as filhas, são mesmo a coisa mais perfeita que fiz e tenho na vida. Enfim, lá estou eu, mas vi O Caimão de Nanni Moretti e depois apeteceu-me mesmo espairecer. que me doeu mais a "história" da vida daquele realizador que a Itália do Berlusconi. Coisas da vida, pois! Talvez quem não conheça a figura se revolte, mas eu já disse aqui que estou longe do "so close", e do "por um fio", e a insanidade democrática e os jogos de manipulação política são tantos que ficamos cada vez mais imunes--- vocês não? Mas sim, Moretti forever, para sempre, cada vez mais depressivo, é certo, mas depois de O quarto do filho, sei que a loucura é catarse. Vão ver, mas digam-me lá se aquela música do Damien Rice pode aparecer ali, na assinatura do divórco, se aquilo não é uma prova de que o Moretti anda mais atento à política do que aos top ten musicais (e ainda bem, mas ele deveria saber que aquele sucesso comercial podia cair mal n'O Caimão). Eu imaginei logo um filho a dizer-lhe: "pai, aquela música do Damien Rice fica bem aqui" e ele a dizer que sim, rendendo-se à suposta ignorância da sua geração--- ou talvez não, talvez ele nos quisesse fazer sorrir e ironizar com a dor que acontece todos os dias.

Não sei nada. O que é óbvio, às vezes funciona bem! Por exemplo, este fim de semana vi o espectáculo "A Música no Coração" do Filipe La Féria, no Politeama e pensei que ele não inovou, ele reproduziu, num palco, um filme. Mas foi tão profissional (e teve orçamento para satisfazer os caprichos de director perfeccionista) no décor, na encenação, no casting, na selecção das traduções, que convenceu. Eu teria comprado o CD com as músicas em português para as filhas decorarem Dezasseis, quase dezassete, que é o que elas andam agora a cantarolar, ou Edelweiss, a canção sobre a flor nacional austríaca--- mas não havia à venda. Eu sei, é parolice, no original é melhor, mas olhem que elas têm sete anos e livrá-las do monopólio Floribella ou Docemania era uma conquista e tanto! (sim, elas sabem de cor "fecha a porta, apaga as luzes, vem sentar-te a meu lado..." --- e eu até me divirto, que uma das minhas diversões aos vinte era cantar isto com sotaque do norte: "feicha a puorta, apaga a luz, bem sentar-te a mueu lado"--- pelo que a gente dá sempre uma no cravo e outra na ferradura).

Enfim, gostava de andar agora na bicicleta voadora do Pavilhão do Conhecimento! Já experimentaram? Não dá nenhuma adrenalina, nunca sentimos que podemos cair. Mas talvez depois de um jarro de sangria eu pudesse cair e balançar-me na rede de protecção. Andei lá para a frente e para trás e nada!

Antes de terminar: vocês nunca continuaram--- mentira, a JP fê-lo ---mas O Livro dos Bons Princípios já reune 50 princípios possíveis de romances. Agora, eu o Afinador de Sinos decidimos pôr um fim no Livro. ou melhor, queremos que sejam vocês a fazê-lo. Eu volto a lembrar-vos do desafio, que muitos nunca vão chegar a ler este último parágrafo! Mas é assim: o que vos propomos desta vez é que sejam vocês a escrever um Bom Princípio para um romance. O Bagaço Amarelo já disse que o fará. Serão publicados os 10 primeiros Princípios enviados por email para mim ou para o Afinador. Passem a palavra e terminem este Livro em glória.

Agora, se não se importam, vou ali ver o tecto do meu quarto balançar. e sentir os meus olhos fecharem à luz de O Sol dos Scorta de Laurent Gaudé, o meu actual livro de cabeceira.