6.10.07

BS #9

Boris Vian tinha apenas trinta e nove anos quando morreu (1920-1959) mas teve tempo para ser, em simultâneo, engenheiro, inventor, músico e crítico de jazz, poeta, romancista, cenarista, tradutor, cronista, actor e intérprete das suas próprias canções. Receios?

"- E se, à ida, nos enganamos no caminho?
- Que mal faz? À vinda também o senhor se perde, e pronto."

in Boris Vian, O Outono em Pequim
Dom Quixote, 1989, pp. 65



LA JAVA DES BOMBES ATOMIQUES

Letra: Boris Vian. Música: Alain Goraguer 1955

Mon oncle un fameux bricoleur
Faisait en amateur
Des bombes atomiques
Sans avoir jamais rien appris
C'était un vrai génie
Question travaux pratiques
Il s'enfermait tout' la journée
Au fond d'son atelier
Pour fair' des expériences
Et le soir il rentrait chez nous
Et nous mettait en trans'
En nous racontant tout

Pour fabriquer une bombe " A "
Mes enfants croyez-moi
C'est vraiment de la tarte
La question du détonateur
S'résout en un quart d'heur'
C'est de cell's qu'on écarte
En c'qui concerne la bombe " H "
C'est pas beaucoup plus vach'
Mais un' chos' me tourmente
C'est qu'cell's de ma fabrication
N'ont qu'un rayon d'action
De trois mètres cinquante
Y a quéqu'chos' qui cloch' là-d'dans
J'y retourne immédiat'ment

Il a bossé pendant des jours
Tâchant avec amour
D'améliorer l'modèle
Quand il déjeunait avec nous
Il avalait d'un coup
Sa soupe au vermicelle
On voyait à son air féroce
Qu'il tombait sur un os
Mais on n'osait rien dire
Et pis un soir pendant l'repas
V'là tonton qui soupir'
Et qui s'écrie comm' ça

A mesur' que je deviens vieux
Je m'en aperçois mieux
J'ai le cerveau qui flanche
Soyons sérieux disons le mot
C'est même plus un cerveau
C'est comm' de la sauce blanche
Voilà des mois et des années
Que j'essaye d'augmenter
La portée de ma bombe
Et je n'me suis pas rendu compt'
Que la seul' chos' qui compt'
C'est l'endroit où s'qu'ell' tombe
Y a quéqu'chose qui cloch' là-d'dans,
J'y retourne immédiat'ment

Sachant proche le résultat
Tous les grands chefs d'Etat
Lui ont rendu visite
Il les reçut et s'excusa
De ce que sa cagna
Etait aussi petite
Mais sitôt qu'ils sont tous entrés
Il les a enfermés
En disant soyez sages
Et, quand la bombe a explosé
De tous ces personnages
Il n'en est rien resté

Tonton devant ce résultat
Ne se dégonfla pas
Et joua les andouilles
Au Tribunal on l'a traîné
Et devant les jurés
Le voilà qui bafouille
Messieurs c'est un hasard affreux
Mais je jur' devant Dieu
En mon âme et conscience
Qu'en détruisant tous ces tordus
Je suis bien convaincu
D'avoir servi la France
On était dans l'embarras
Alors on l'condamna
Et puis on l'amnistia
Et l'pays reconnaissant
L'élu immédiat'ment
Chef du gouvernement



JE BOIS

Letra: Boris Vian. Música: Alain Goraguer 1955

Je bois
Systématiquement
Pour oublier les amis de ma femme
Je bois
Systématiquement
Pour oublier tous mes emmerdements

Je bois
N'importe quel jaja
Pourvu qu'il fasse ses douze degrés cinque
Je bois
La pire des vinasses
C'est dégueulasse, mais ça fait passer l'temps

La vie est-elle tell'ment marrante
La vie est-elle tell'ment vivante
Je pose ces deux questions
La vie vaut-elle d'être vécue
L'amour vaut-il qu'on soit cocu
Je pose ces deux questions
Auxquelles personne ne répond... et

Je bois
Systématiquement
Pour oublier le prochain jour du terme
Je bois
Systématiquement
Pour oublier que je n'ai plus vingt ans

Je bois
Dès que j'ai des loisirs
Pour être saoul, pour ne plus voir ma gueule
Je bois
Sans y prendre plaisir
Pour pas me dire qu'il faudrait en finir...

Boris Vian, Le Déserteur


Le Déserteur é uma das canções mais célebres contra a guerra. Uma canção antimilitarista mas não "pacifista": os versos finais originais cantavam «Prévenez vos gendarmes, que je serai en arme et que je sais tirer». A canção nasce num contexto particular em França: a guerra da Indochina tinha terminado há pouco tempo e a guerra da Algéria começava.
O manuscrito da canção data de 15 de Fevereiro de 1954. Marcel Mouloudji foi o seu primeiro intérprete - numa emissão da Europe 1 (rádio) a 4 de Março de 1954 (com o último verso já modificado e com as referências ao «Président» substituídas por vagos "Messieurs»). Foi um escândalo.

Em Janeiro de 1955, Paul Faber, conselheiro municipal da cidade de Paris, reclama a censura da canção e consegue que Le Déserteur não volte a ser transmitido na Rádio. Boris Vian reage com ironia: declara que a sua canção é "nullement antimilitariste, mais, je le reconnais, violemment pro-civile". Envia uma
carta aberta a Paul Faber em que, entre outras coisas, reflecte sobre a expressão "Ancien combattant". Ainda hoje, este estatuto tem um peso considerável na sociedade francesa (o meu sogro, um "ancien combattant" obrigado a participar na guerra da Argélia, recebe, como tantos outros, bombons do Maire de Paris pelo Natal !). Segundo Boris Vian, os antigos combatentes não deveriam vangloriar-se de ter feito a guerra, mas antes lamentar a sua participação - "un ancien combattant est mieux placé que quiconque pour haïr la guerre". Boris Vian declarou ainda que a maioria dos verdadeiros desertores eram "anciens combattants" que não tiveram força para ir até ao fim do combate. "Et qui leur jettera la pierre ? Non. si ma chanson peut déplaire, ce n'est pas à un ancien combattant, cher monsieur Faber."

Censurada ou boicotada pela Rádio e pelas editoras, Le Déserteur caiu quase no esquecimento; Boris Vian morre em 1959; Marcel Mouloudji é banido da chanson française e condenado a uma espécie de exílio artístico que dura dez anos.

Será apenas em 1966, com a vaga de canções de protestos que se seguiram à revolta na universidade Berkeley contra a guerra no Vietname, que Le Déserteur é redescoberto por Peter, Paul and Mary (com o título The Pacifist), que a cantam em francês com uma curta introdução em inglês. Le Déserteur transforma-se no símbolo do movimento e dá a volta ao mundo.

Desde então, têm sido vários os intérpretes da canção. Serge Reggiani, Joan Baez - apenas para falar dos meus preferidos - cantaram Le Déserteur. Por cá, foi José Mário Branco que a cantou, entre 1966 e 1974, numa versão traduzida para a língua portuguesa.






Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer


Letra de Boris Vian - Música de Boris Vian e Harold Berg - 1954

[Download do mp3 aqui]

4.10.07

Um homem revoltado #4

Senhoras e Senhores, ouçam o actual Presidente da Comissão Europeia, quando ele ainda tinha borbulhas no rosto e se expressava usando termos como "ensino burguês" e "medida anti-operária".

(via A Ilusão da Visão)



ADENDA: O vídeo já circula em Bruxelas. Os comentários são deliciosos.

ADENDA II: O vídeo já não está disponível. Uma "medida muito anti-operária e anti-popular"! Como se este velho testemunho pudesse manchar o passado do prezado Presidente da Comissão Europeia! Acho que vou colocar aqui uma fotografia - mais recente - tirada na cimeira das Lajes (Açores) na véspera do ataque ao Iraque. É mais difícil apagar esta memória! Vergonhosa, sim!

Foi difícil, já que o "sistema burguês globalizante" em que participa não viu interesse em o mostrar ao lado de Bush, Blair ou Aznar. Na altura era um simples primeiro-ministro de um país muito periférico!


ADENDA III: Tiraram da net o vídeo do Durão Barroso/versão 1975 mas o Bagaço Amarelo fez o upload de novo: ei-lo.

3.10.07

Outra causa de todos


Leiam o post e depois decidam se é uma causa que devem ou não apoiar. Na coluna da direita, já instalei o "Gif animado", símbolo do meu apoio. Como dizia Camus em «O Homem Revoltado», "o escravo" tem o direito de "não ser oprimido para lá do que lhe parece admissível".

"Reserve já um destino de sonho para uma criança"


A minha amiga V. apadrinhou Penicela, um rapazinho moçambicano de aproximadamente 8 anos. Para esse fim ela põe de parte, todos os anos, 252 euros. A quantia, como ela diz, não pagaria sequer uma mensalidade em muitas escolas portuguesas. Contudo, para o Penicela, esse valor pode ser a garantia de um futuro com melhores oportunidades. Não existe nenhum motivo para não nos juntarmos a ela nesta causa. São várias as modalidades de colaboração:

1. Sustento Completo
mensal (21 €) trimestral (63 €) anual (252 €)

2. Sustento Escolar
mensal (13 €) trimestral (39 €) anual (156 €)

3. Sustento colectivo "adopte uma Turma"
trimestral (26 €) anual (104 €)

Sozinhos, com amigos ou com colegas de trabalho, facilmente podemos reunir esse valor, apadrinhando uma criança necessitada ou apoiando uma turma. No site do
CCS, é possível aceder a mais informação e saber endereços/telefones de forma a entrar em contacto directo com o Centro se o desejarem.

Eu creio que é por inércia que pouco ou nada fazemos no sentido de sermos mais solidários - e depois sentimo-nos frustados. Desta vez parece-me simples vencer essa inércia. Apadrinhem um menino ou uma menina! Dai a conhecer este Projecto! Como diz a V., uma pessoa apenas pode fazer a diferença. mas podemos ser muitos, não acham ?

Comecem agora!

2.10.07


Fotos MRF

À escuta #53

Apelidos que as fazem rir imenso:

- Caldas
- Chuva
- Cruz
- Dias Claro
- Gago
- Guerra
- Gomes (parece gomas)
- Mota
- Almada, Bragança, França (nomes de lugares)

Nos nomes pessoais, Maria da Luz e Maria do Céu, parecem-lhes "impossíveis". O nome Renata também provoca um efeito forte.

Nomes chineses como "Xí" dão forró.

É claro que os seus próprios apelidos - que se s-o-l-e-t-r-a-m e há sempre quem não compreenda, são normalíssimos.

1.10.07

BS #8 ANGÉLIQUE KIDJO

Deixa lá recomeçar a série Banda Sonora. Mais uma mulher, africana, nascida no Benim, Angélique Kidjo. ou como a cultura popular pode desafiar a autoridade e o status quo.
e estabelecer parentescos entre nações.

CONGOLEO


TUMBA


VOODOO CHILD (de JIMI HENDRIX)


Com Henri Salvador, ela canta LE MONDE COMME UN BÉBÉ no álbum Oyaya! Mas fiquei orfã de mp3. Deixo-vos JARDIN D'HIVER de HENRI SALVADOR, para imaginarem a fusão das duas vozes. Sabe a pouco, eu sei, sabe a tanto.



[Arquivo BS do D&C: 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, e continuem a ouvir o Banda Sonora no RCP]