20.9.07

A morte feliz #1

AMMAR AMARNI

Tenho a certeza - começara ele - de que se não pode ser feliz sem dinheiro. Não tenho dúvidas sobre isso. Não gosto da facilidade, nem dos romantismos. Gosto de saber como são as coisas. Pois bem, tenho notado que em certas pessoas de escol existe uma espécie de snobismo espiritual quando afirmam que o dinheiro não faz a felicidade. Parvoíce. Mentira. E, em certa medida, covardia. Ora veja, Mersault, para um homem bem-nascido, ser feliz nunca foi complicado. Basta seguir o destino de toda a gente, não por desistência ou renúncia, como é o caso de tantos falsos grandes homens, mas com uma apetência de felicidade. A única coisa que se precisa para se ser feliz é de tempo. Muito tempo. A felicidade é, ao fim e ao cabo, uma questão de longa paciência. E quase sempre passamos a vida a ganhar dinheiro, quando o que era preciso era ganhar tempo através do dinheiro. Esse é o único problema que sempre me interessou. É um problema preciso e claro.

pp. 58-59

in Albert Camus, A Morte Feliz
Edit. Livros do Brasil, Lisboa, Outubro 2002
[Edição original: La Mort Heureuse, Éditions Gallimard, 1949]

História de amor e trevas #6

Emmanuel Ronkin
Bolero, 1966

Toda a sua vida ansiou por mundos de amor e de sentimentos generosos. Aspirava a oferecer às mulheres a sua grandeza de alma e receber em troca o seu apreço e amor eterno (nunca conseguiu distinguir entre o amor e o apreço: tinha uma sede enorme dos dois [...].

pp. 139

in Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas
Ed. ASA, Março de 2007

18.9.07

História de amor e trevas #5

RIFKAH GOLDBERG
1983

[...] «Tal como nós, judeus regressamos agora à nossa pátria histórica, também eles [árabes] devem ter o direito de regressar dignamente a casa, à Saúdia Arábia, de onde eles todos vieram.»

[...] Estás a propor que Israel bombardeie Leninegrado, avô? E que rebente uma guerra mundial? O quê, não ouviste falar das bombas atómicas? Das bombas de hidrogénio?
- Tudo isso está nas mãos dos judeus. Quer com os americanos, quer com os bolcheviques, quem inventou todas essas bombas novas foram cientistas judeus, e eles saberão o que se deve e o que se não deve fazer.
- E a paz? Há alguma via para a paz?
- Há, sim, temos de vencer os nossos inimigos. Temos de lhes dar forte e feio, de modo a que eles venham ter connosco para implorar a paz. Porque é que havíamos de recusar? Pois se nós somos um povo amante da paz. E até temos um mandamento assim, perseguir a paz, pois então vamos persegui-la, até Bagdad, se for preciso, ou até ao Cairo, havemos de perseguir a paz.

pp. 125-126

in Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas
Ed. ASA, Março de 2007



O avô de Amos Oz falava assim em 1967, alguns dias depois da Guerra dos Seis Dias. Referia-me a esta atitude, Elypse. Subsiste, não achas M.?

Notas sobre uma escola

A escola do 1º Ciclo que as minhas filhas frequentam é uma das maiores, em número de alunos, do país. O ano passado, 320 alunos frequentavam este estabelecimento de ensino. Depois de mais de trinta anos sem obras de melhoria das instalações sanitárias, o novo ano escolar começou com a inauguração de dois blocos de casas de banho novinhos, graças à pressão da Associação de Pais e à existência de uma verba antiga, já aprovada pela CMA, destinada exactamente a essas obras (não imaginem que foi simples passar do plano à prática).

A escola continua sem um pavilhão desportivo adequado e sem biblioteca. Teria sido possível, e foi planeado, adaptar algumas salas (duas), de forma a poder instalar-se uma biblioteca. Teria sido possível integrar esta escola e seus professores no projecto
Theka/Gulbenkian. Mas nada disso foi feito. No segundo ano após a criação do Plano Nacional de Leitura, o Plano para desenvolver hábitos de leitura nesta escola limitou-se à fixação de uma lista com algumas dezenas de livros adequados à faixa etária dos nossos filhos, livros que devemos comprar ou requisitar na biblioteca municipal para eles lerem em casa. Quanto às duas salas não ficaram vazias: a sede do agrupamento criou mais duas turmas. Este ano serão 370 os alunos sem biblioteca nem condições adequadas para a prática de desporto.

Abstenho-me de comentários sobre o
Projecto Petiz. No primeiro dia de aulas, os pais (e muitos professores) ainda desconheciam a orgânica do mesmo e o conteúdo das actividades. De resto, hoje, só estou a par dos horários. Desconheço o programa, o significado de siglas como OAE, em que consistem as AE (actividades artísticas) ou a EF (expressão física) a até o currículo dos professores. Vai ser difícil cumprir o ponto 3 desse projecto:

3. Informação aos Pais
É fundamental que os pais intervenham nos centros onde funciona o PETIz.
Pretende-se criar uma cultura científica e cívica de intervenção nas iniciativas propostas. Para isso:
1. Devem estar informados de todas as actividades.
2. Apoiar as actividades, colaborando com os professores nos aspectos organizativos.
3. Valorizar os aspectos da Aprendizagem, incentivando os filhos a uma cultura científica alargada.
Os Pais terão um contacto privilegiado com os Coordenadores Pedagógicos de cada área de intervenção.

17.9.07

História de amor e trevas #4


Da época de Vilna, resta um velho álbum de fotografias: eis aqui o meu pai e o tio David, alunos de liceu [...].
É quase certo que grande parte daqueles rapazes e raparigas da fotografia foram obrigados a correr nus, reduzidos a esqueletos pela fome e paralisados de frio, perseguidos por cães e empurrados por chicotes para as grandes fossas cavadas na floresta de Ponar. Qual deles se terá salvo, para além do meu pai? [...]
Ou aquela rapariga bonita no centro da fotografia, com uma expressão cínica e inteligente, não, querido, a mim não me enganas tu, eu posso ser jovem, mas já sei tudo, sei coisas que vocês nem sonham. Será que se salvou? Que conseguiu juntar-se aos combatentes da floresta de Rudnik? Que conseguiu esconder-se num gueto graças ao seu «tipo ariano»? Que encontrou refúgio num convento? Ou conseguiu escapar aos Alemães e aos seus lacaios lituanos, atravessando clandestinamente a fronteira da Rússia? E que emigrou mais tarde para a terra de Israel onde viveu até aos setenta e seis anos de idade como pioneira num kibutz do vale de Jezréel, a trabalhar com as colmeias ou no galinheiro? [...]
O meu pai nesta foto é mais jovem que o meu filho. Se fosse possível, entrava na fotografia e avisava-o e a todos os seus amigos alegres. Tentava contar-lhes o que os esperava. E é mais do que certo que não acreditariam em mim e que fariam pouco das minhas palavras.

pp. 128-129

in Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas
Ed. ASA, Março de 2007

16.9.07

Aldeias e cidades (quase) invisíveis #2


Idanha-a-Velha foi a capital da civitas Igaeditanorum, que parece ter sido fundada por Augusto. Actualmente, é habitada por umas dezenas(?) de pessoas, que cozem o pão no forno comunitário (recentemente recuperado) ou fabricam adufes, para gáudio dos turistas que passam. Para além dos arqueólogos e desta população envelhecida, abandonada em toscas casas de pedra, vizinhos de uma Torre dos Templários em que encrustam fios de arame para secar a roupa, não se vê vivalma, apenas uma alma adormecida chamada História. Mas cruzamo-nos com Ela em todos os caminhos.

«A Sé, dos princípios do Cristianismo, com uma forte intervenção no período manuelino tem incorporado no lado Sul um Baptistério paleo-cristão (séculos VI/VII); muito próximo pode ver-se as ruínas do chamado Palácio dos Bispos. Junto às muralhas e próximo da Porta Sul, encontram-se fragmentos de ruínas romanas de uma habitação (séculos I-III) que se estendeu para limites exteriores à muralha...».



O Largo da Sé dá acesso ao Lagar de Varas, «edifício importante na arqueologia industrial, que testemunha o aproveitamento de recursos da comunidade e a sua capacidade de transformação dos produtos agrícolas da região. Este espaço, recuperado recentemente, apresenta no seu interior, uma primeira sala, com duas enormes varas de prensagem e uma caldeira; na sala contígua pode ver-se o depósito de azeitona e o espaço de moagem».


A Praça do Pelourinho marca o cruzamento de dois eixos estruturantes da aldeia, e nela se encontram elementos caracterizadores relevantes da sua importância cívica e religiosa: o Pelourinho, testemunho do (novo) foral instituido por D.Manuel I, em 1510, o Edifício dos Antigos Paços e a actual Igreja Matriz. Antiga Misericórdia, a Igreja Matriz apresenta estilo renascentista (século XVIII) com influências populares.
O património de Idanha-a-Velha é fruto da presença de inúmeros povos que aí se estabeleceram ao longo de vários séculos, romanos, visigodos, árabes. A cidade foi tomada por D. Afonso III, Rei de Leão, durante a reconquista, mas fazia já parte do Condado Portucalense aquando da fundação de Portugal. Mais tarde D. Afonso Henriques entregou-a aos Templários. D. Dinis incluiu-a na Ordem de Cristo.
Foram várias as tentativas de repovoamento mas o percurso histórico de desertificação parecia traçado. Hoje, Idanha-a-Velha, Monumento Nacional, surge renovada, mas só, (quase) invisível.


Agradeço à Liga dos Amigos da Freguesia de Idanha-a-Velha (LAFIV) que nos saciaram a fome, a sede e o saber, em frente à muralha, num dia de muito calor. Preparavam-se para o grande almoço anual que reune gente vinda de todo o país. Numas instalações improvisadas cedidas pela CM (novas, mas vazias: quem quer explorar um café ou restaurante em frente a uma das estações arqueológicas mais importantes do país?) homens e mulheres vestiram-se de cozinheiros, empregados de mesa e tesoureiros por um dia. Sairam-nos na rifa e gostamos do prémio. ;)



Para activar os photoshows, clicar na primeira tecla da esquerda. Fotos de MRF.


Links:
IPPAR
CM Idanha-a-Nova/freguesia Idanha-a-Velha
Geopark Naturtejo da Meseta Meridional

Arquivo:
As cidades invisíveis
Aldeias e cidades (quase) invisíveis #1 (Santa Comba da Vilariça)

15.9.07

Dez livros que não mudaram a minha vida

Só hoje me apercebi da discussão que anda por aí (a blogosfera é mesmo esse lugar vago) a propósito da lista dos "Dez livros que não mudaram a minha vida", lançada por Manuel A. Domingos. Caiu o Carmo e a Trindade quando Eduardo Pitta, Francisco José Viegas e outros amantes de alma e profissão de literatura, aceitaram o repto. É um facto que esta é uma pergunta-sem-resposta por essência, porque os livros que não mudaram a nossa vida são aqueles que esquecemos (mesmo se a memória está um pouco fora do nosso controle, seja selectiva, e possamos fazer negação). Os livros que não mudaram a nossa vida não são os que não apreciámos, não nos comoveram, não nos ensinaram nada sobre a composição ou estrutura da narrativa ou sobre a História de um lugar ou povo. A imagem que criámos sobre o autor e a sua obra, retirada desse não-sentir, basta para produzir um efeito. O efeito mínimo é o de não voltar a comprar um livro seu, ou ainda, mais subtil, o de não transmitir entusiasmo, contagiando com o nosso desleite outros potenciais leitores. É assim que um livro que supostamente "não mudou a nossa vida", muda a dos outros, pela ausência.

Os livros mudam sempre as nossas vidas mas, a menos que os tenhamos escrito, dificilmente constarão no nosso epitáfio. Nem esperamos ser "aquele que leu Joyce ou Proust e nunca mais foi o mesmo". Os livros são parceiros discretos. Estão connosco no final do dia, esvaziando-nos a mente das agruras do quotidiano, ou a meio da tarde em dias de Verão, enchendo o niente de dolce fare. Mesmo que por vezes se tornem possessivos. Mesmo que nos agridam. Eles há que nos esbofeteiam. Outros validam ou rebatem valores, reestruturando o pensamento, por um dia ou para sempre. Mas não sejamos ingénuos ou tolos. Nem fanáticos. O alcorão não é a vida, mesmo que deva ser recitado. Os outros livros também não.

O meu pai coleccionava livros. Ainda hoje é a pessoa menos vulnerável que conheço a modas, marcas e consumismo. Mas comprava livros. O meu pai estruturou o meu olhar sobre os livros. Desde miúda que os vejo como um bem patrimonial, na mesma ordem das casas ou da terra. Os livros que li, desde pequena, mudaram a minha vida, e eu nem os escolhi, escolheu-os ele no momento em que os comprou. Eu olhava a estante e pescava.
Esqueci muitos dos livros que li. Esqueci até o nome do autor. Como inclui-los numa lista? E poderia essa ser a lista dos livros que não mudaram a minha vida?
Lembro-me de ler "A Felicidade Conjugal" de Tolstói com treze ou catorze anos e de odiar... a vida conjugal do século XIX e, por isso, Tolstói. A aversão condicionou as minhas escolhas futuras: excluí sempre o autor. Trouxe depois, de casa do meu pai, vários volumes com as obras completas, na esperança de me redimir da atitude. Continuam ali à espera. Duvido que "Guerra e Paz" vá mudar a minha vida. Mas, se ler a obra, mudo a minha pequena história pessoal. Os livros fazem isso. Independentemente do que retemos da escrita, integramo-los no romance da nossa vida. Fundimos leituras com pais, irmãos, amigos, casas e lugares. Mas são muitos os livros que excluimos da nossa história. Que se dane se é um Joyce, Proust ou Tolstói. Não há sacrilégio! A nossa percepção das letras, do belo, do bom, da arte, é livre, muito livre!

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CAMÕES


CCB encontra no seu acervo quadro de Júlio Pomar desaparecido desde 2003
14.09.2007 PUBLICO

14.9.07

História de amor e trevas #3

LEA ZAREMBO

Naquela época, aparentemente, no topo da escala de prestígio estavam os pioneiros. Mas os pioneiros viviam longe de Jerusalém, nas planícies costeiras, na Galileia, nos desertos das margens do Mar Morto. Nós venerávamos de longe a sua imagem forte e sonhadora, com o tractor e os sulcos da terra como pano de fundo, nos cartazes do Fundo Nacional Judaico.
Um pouco abaixo vinha a comunidade organizada: leitores do jornal Davar* sentados nas varandas, de camisola interior, no Verão, membros da Histadrut*, da Haganá*, da Caixa de Segurança Social, vestidos de caqui, que contribuíam para a «caixa comunitária», adeptos da salada-omelete-queijo fresco, partidários da contenção, da responsabilidade, de um modo de vida sólido, da «caixa comunitária», da produção local, do proletariado, da disciplina partidária e das azeitonas não picantes em frascos de Tnuva, Azul em cima e azul em baixo, construímos um porto aqui! um porto aqui!

Do outro lado da barreira, frente a esta comunidade organizada, estavam os dissidentes-terroristas, os ultra-ortodoxos de Mea Shearim*, bem como os comunistas «inimigos de Sião», e uma plêiade de intelectuais, de carreiristas, de artistas egocêntricos do tipo cosmopolita decadente e com eles uma quantidade de excêntricos, de individualistas e niilistas duvidosos, de yekes* incapazes de se desfazerem dos seus tiques germânicos, de toda a espécie de snobs anglicizados, de sefarditas afrancesados ricos que, vistos de cá, pareciam lacaios cerimoniosos, de Iemenitas, de Georgianos, de Marroquinos, de Curdos e de originários de Salónica, todos eles indiscutivelmente nossos irmãos, e uma mão-de-obra incontestavelmente muito promissora, mas o que fazer, ainda tínhamos de ter muita paciência com eles e não poupar esforços.

Havia ainda os refugiados e os imigrantes clandestinos, os sobreviventes e os antigos deportados, que eram olhados em geral com um misto de piedade e desprezo: uns pobres coitados, uns miseráveis, mas quem lhes tinha mandado esperar por Hitler, em vez de virem para cá quando ainda era tempo? E porque se tinham deixado levar como gado para o abate em vez de se organizarem e de resistirem? E que acabassem de vez com aquelas lamúrias em iídiche, e não começassem a contar-nos o que lhes fizeram lá, porque não é coisa para se orgulhar, nem eles nem nós. E para além disso, nós aqui estávamos virados para o futuro e não para o passado e, a propósito de passado, nós tínhamos um passado hebraico glorioso, bíblico e hasmoneu, e não valia a pena desfeá-lo com um passado judeu deprimente, feito de amarguras e desgraças (que nós pronunciávamos sempre em iídiche «tsures», com uma careta de nojo e escárnio, para que as crianças percebessem que aquelas desgraças eram uma espécie de lepra deles e não nossa).

pp. 19-20

in Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas
Ed. ASA, Março de 2007


*
Davar: Literalmente «palavra». Jornal hebraico, órgão da Histadrut, publicado entre 1925 e 1944.
Histadrut: Organização Geral dos Trabalhadores Israelitas, fundada em 1920.
Haganá: Literalmente «Defesa». Organização militar clandestina da colónia judaica na Palestina, durante o mandato britânico, de 1920 a 1948, que viria a ser a base do futuro exército israelita a partir da fundação do Estado de Israel, em 1948.
Mea Shearim: Literalmente «Cem portões», bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém.
Yekes: Nome dado aos judeus alemães.