19.1.07

Jornalismo e blogosfera

Quem viu o último Clube de Jornalistas (RTP2) pôde perceber nas opiniões do director-adjunto do DN, João Morgado Fernandes, um enorme desconforto, quase temor, em relação à web como canal emissor de informação. A necessidade de defender o estatuto do jornalista, de erguer o código deontológico, etc. sobrepôs-se a uma visão mais abrangente da blogosfera e do potencial da Web 2.0. No mesmo debate estiveram presentes Paulo Querido e Rogério Santos. Gostei particularmente de ouvir o autor do Indústrias Culturais. Mais uma vez, não exactamente sobre a Web 2.0. Dizia ele que vivemos numa sociedade de abundância, mas que não existem canais intermédios que orientem sobre as melhores escolhas. A partir de uma pesquisa no Google sobre a palavra Kant, referia, podemos obter milhares de textos. Mas como saber qual é o melhor? Quem pode enquadrar, reflectir com mais profundidade sobre a enorme quantidade de informação disponível, fazer a mediação necessária?
Rogério Gomes concluía que esse deveria ser o papel dos jornais, a grande missão da imprensa escrita.


Andava eu a pensar neste assunto e eis que encontro mais um blogue de um jornalista, Olavo Aragão. Decididamente, a relação entre o jornalismo e a net, ou mais especificamente, entre o jornalismo e a blogosfera, constitui tema para muitos debates. No seu Freelance, Olavo Aragão reune alguns bons artigos (ou posts?) sobre esta matéria. (E quem dizia que a blogosfera não pode existir sem links...?) Vão até !


Adenda: No blogue de João Morgado Fernandes, french kissin', encontrei uma resposta às críticas que lhe têm sido feitas. Viva o direito ao contraditório!

Adenda II: Não, caro João Morgado Fernandes, eu não odeio os jornalistas, pelo contrário, respeito o seu trabalho e atribuo (em geral) mais credibilidade às notícias veiculadas pelos jornais do que às que correm pela blogosfera. Gostaria mesmo de perceber maior distância e mais sentido crítico nas leituras que fazemos na blogosfera. É relativamente fácil a manipulação. Lembro-me de um suposto novo logotipo da Casa Pia gerar imensos comentários indignados... e na verdade tratava-se de uma colagem.
Se neste post leu "ódio aos jornalistas", não se admire que tenha transmitido "desconforto, quase temor, em relação à web" no Clube de Jornalistas. Pode ser questão de estilo, mas exacerba tudo, comportamentos e impressões. E, como telespectadora, permita-me manter a opinião, a minha, de que foi redutor quando se referiu à web 2.0. O conceito da wikipédia, o You Tube, casos que referiu, merecem ser discutidos para além da questão do rigor da informação. Enfim, como anda nisto "há uma data de anos" sabe melhor que eu. Mas, naquele dia, esqueceu-se.

Desafio no Ministério

FORMAS, DEGRAUS, ÁGUA, ESPELHO, SEXO, MORTE, PELE, ECO, RETALHOS, AUDÁCIA, TELA, NEGRUME, CAFÉ, GESTOS, NORTE, VOZ, VIDA, PEDRA, SENTIDOS.

Nunca uma ordem ministerial foi tão poética. Apetece mesmo cumprir!

Todas as formas que a saudade veste, os retalhos da vida que ela vai buscar, os gestos, os medos, chegam até mim, como se os arrancasse à tela.
Passei de lado, atrás das colunas, adivinhando algo que me trouxesse o eco da tua morte. Mas depois um esgar. E era um espelho. Os degraus que subi, um a um, eram já uma ponte. Ouvi água correr em todas as direcções. E talvez a tua voz.
Estou diante da tela. E então sei que por um momento, por um prolongado momento, os teus sentidos se amotinaram, quebraram a pedra que te deu consistência e norte e que, afastado o negrume, libertaste gota a gota a pele que cheirei e toquei. Respiro-te, e naquele canto onde pintaste a mancha castanha, há um odor a café e torradas pela manhã. Ali, à direita, os traços cruzam-se e suas raiva e trabalho. Mas aqui, frente ao meu peito, sabes a sexo e sussuros.
Voltei-me. Marca-me sempre a audácia que nunca tive. para rasgar-te todo.

18.1.07

Encantamento IV

Este cão e esta cabra (que sofre de artrose) são inseparáveis. Conheço-os há uma série de anos. Armada em psiquiatra de animais, convenci-me de que na origem desta relação tão particular, só pode estar o facto de viverem num lugar onde os cavalos são o centro de todas as atenções. Já tentei abordar a questão com os pais adoptivos mas eles preferiram centrar-se nos meus traumas de infância ;)

Haut du Roi - França - MRF 2005

A Voz Humana

A Voz Humana de Jean Cocteau
encenada por Carolina Rodrigues

Quinta 18
22h no auditório do Mercado Negro (entrada livre)


Encenação do mítico e devastador monólogo escrito em 1930 por Jean Cocteau e aqui interpretado por Carolina Rodrigues, no papel de uma mulher que mantém ao telefone uma conversa atribulada, simultaneamente terna e dolorosa, com o seu antigo amante.

"..........................Claro que é preciso desligar, mas custa muito........................Sim. Ter a ilusão de estarmos abraçados um ao outro e de repente interpor caves, esgotos, uma cidade inteira entre nós..........................................Lembras-te da Ivone, que não podia conceber como a voz passava através de um fio tão torcido? Pois tenho o fìo em volta do pescoço. A tua voz em volta do pescoço...................."


Adenda: A encenação de "A Voz Humana" foi adiada para o próximo dia 23 de Janeiro.

Dust

Antes da Laurie Anderson, esteve no ar um extracto desta ópera. Ontem, esqueci-me de lançar o post. Ei-lo, para quem quiser consultar e continuar a saborear a amostra.


DUST, an opera by Robert Ashley and Yukihiro Yoshihara (video direction) whose imaginary setting is a street corner anywhere in the world, where those who live on the fringes of society gather to talk, to each other and to themselves, about life-changing events, missed opportunities, memory, loss and regret.

Five "street people" recount the memories and experiences of one of their group, a man who has lost his legs in some unnamed war. As part of the experience of losing his legs, he began a conversation with God, under the influence of the morphine he was given to ease his pain. Now he wishes that the conversation, which was interrupted when the morphine wore off, could be continued so that he could get the "secret word" that would stop all wars and suffering. (90 minutes)


1. Friends (15:00)
2. Theosophy (9:57)
3. The Priest (9:57)
4. If There's Anything... (9:57) [excerpt]


5. The Little Gun (9:57)
6. Friends (2:53)
7. No Legs (8:30)

Disc 2
1. Don't Get Your Hopes Up (6:02) [excerpt]


2. Just One More Time (6:56) [excerpt]

3. It's Easy (4:36)
4. The Angel of Loneliness (5:04)

17.1.07

Miniscente Mini-Entrevista

O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados.
Hoje o convidado... sou eu.

Se eu fosse divorciada...

... diria qualquer coisa assim no final do dia, ao estilo dele:

1. Hoje comprei duas revistas de culinária no supermercado. Normalmente nem costumo olhar para essas publicações. Comprei-as não sei porquê. A verdade é que nunca me lembro de as consultar quando dou um jantar.
2. Ia eu a desfolhá-las muito concentrada - afinal há pratos simples e saudáveis, com ingredientes normais - quando o elevador parou no segundo andar e entrou alguém.
3. Levantei os olhos à espera de encontrar o baixinho do apartamento 1 com o cão, o rapaz do apartamento 2 com o cão, a senhora do apartamento 3 com os três filhos e as dores de costas, mas dei de caras com um George Clooney (este era feito de carne e osso, o outro só aparece em papel e ocasionalmente numa tela). Corei insanamente.
4. Era um Clooney um pouco desorientado mas muito conversador, que subiu comigo, para depois voltar a descer... sozinho.
5. Não sei das revistas.



Como não sou divorciada, a história acaba aqui. Eu (só em pensamento) – merda.



Adenda: O haloscan não regista o número de comentários neste post. Expliquem-me lá porquê, mas como se eu fosse assim muito burra...

São Gonçalinho III

16.1.07

Encantamento III


Aveiro
Fotos MRF - 2006

O LIVRO DOS BONS PRINCÍCIOS

XXIV

Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke


Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. Amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie.
Ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. Silencioso, aproximas-te como um animal feroz e sou corça que salta antes de ficar encurralada. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
Ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar o-teu-medo de não seres grande.
Ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.



Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui, às quartas no Ponto.de.Saturação. Para ler todos e seleccionar um, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.