12.5.05

Já sonho com Ngorongoro XII - S.O.S.

Atravessei a porta da frente, vi o mausoléu, e depois a curiosidade matou o gato!

bin, estou fechada, escondida - há quantos dias? - no minarete da mesquita Malindi. Não resisti a invadir este pequeno grande território proibido de Zanzibar. Via a mesquita com aquela forma cónica, ouvia a voz que várias vezes ao dia chamava para a oração e num impulso comecei a subir a escadaria. Entretanto ouvi passos e o barulho de uma porta a fechar-se. Só tive tempo para me esconder numa espécie de nicho. Vi-o passar.

Se chegar a ti um destes pedaços de papel que vou atirando para a rua, vou passar a acreditar em milagres! A garrafa de água está no fim, já não tenho comida. Estou a pensar entregar-me ao Iman que sobe a mesma escadaria cinco vezes por dia. Poderá esse Santo Homem perdoar-me?

E o Bagaço, será que o encontraste no Mambo Club? Fico mais tranquila quando imagino que os dois estão juntos.

6.5.05

Viajar

Acontece que vieste e sussurraste-me ao ouvido.
Ivar Corceiro
Numa Avenida de Merda


Da Lata cantam Alice no país da malandragem
Do álbum Serious

Bilhete em Zanzibar

Gravitação

Latente gravitação
E depois de corpo imóvel,
Pianando a areia com os dedos dos pés,
Seduzes a praia com a desbasta luz tardia.
Que sobre a costa se alonga.

in Ivar Corceiro
Numa Avenida de Merda


Eu sabia que o Bagaço andava por aqui. Será que ele vai logo ao Mambo Club?

Já sonho com Ngorongoro IX


Ras Nungwi Beach Hotel, Zanzibar

bin, ou meu querido Jacques Mayol, como não sou o Enzo Molinari, não consigo acompanhar-te nesse mergulho no Grand Blue. Os destroços do Pegasus vão continuar a ser um mistério para mim. O que restará de um barco afundado em 1916 em plena Grande Guerra? Enfim, para não ficar deep blue tento imaginar os mergulhos que faremos no recife de Pange. Corais e peixes tropicais, mergulhos nocturnos, um mar terno, caliente e acessível até a mergulhadores pouco experientes (como eu, que tenho mais pele e olhos que respirações compassadas e lentas). Mas deixaste-me preocupada com o mergulho de hoje, não te escames! Cuidado com os refúgios das moreias - não existem apenas nos livros do Spirou. E espero que não te aventures demasiado pelas profundezas - o Andwele disse-me que em Mombassa têm câmaras hiperbáricas mas que aqui os barcos só estão equipados com kits de oxigénio. Não queiras ser um homo delphinus!

Quanto a mim, não te preocupes. Estou a gostar deste "Desesperadamente à procura de Bagaço em Stone Town". Não imaginas os lugares por onde já andei. É verdade que ainda estranho. Ando solta e desconfiada, curiosa e recatada, com vontade de sorrir a toda a gente e de me deixar queimar pelo sol e ruídos e rezas e ao mesmo tempo, um pouco assustada com este bazar de mundos.

Comecei no Darujani Bazaar e não, não comprei aquelas bugigangas chinesas. Fiz o que me aconselhaste, meti-me pelo labirinto de pequenas ruelas ali à volta... e andei a ver se me perdia! Depois apanhei um dala-dala até ao Forte Árabe. O motorista andava nas faixas da direita e da esquerda mas ninguém pareceu estranhar, pelo que me limitei a inspirar e expirar com força até aquelas voltas me saberem bem! Pelo menos havia ar! Ainda me lembro de ir da Praia ao Tarrafal, em Cabo Verde, numa IACE - a carrinha Toyota "adaptada", em vez de 9, levava uns 20 passageiros! Os dala-dala têm a vantagem de não ter janelas e o tecto faz alguma sombra!


Como já conheces, não te vou falar muito de Stone Town, deixo-te só as razões do meu espanto. Quase todos os edifícios históricos tiveram utilizações muito diferenciadas ao longo do tempo!? O Forte foi usado como tal pelos omanis, depois foi transformado numa prisão, mais tarde os portugueses fizeram dele uma igreja, e agora tem um restaurante e lojas de souvenirs!!! A House of Wonders, residência da raínha Fatuma, foi depois a sede do Protectorado inglês! O Old Dispensary, mandado construir por ocasião do Jubileu da Rainha Vitória, é agora o Cultural Center! No subsolo da Catedral Anglicana podemos visitar as celas dos escravos negros! O Templo hindu Shakti já não tem hindus! Talvez por causa de todos estes filamentos da História, de povos e culturas e religiões, Stone Zanzibar parece-me cada vez mais misteriosa.

Outra coisa, este suaíli é um bocadinho diferente do que se fala na Tanzânia. Na Kelele Square tive alguma dificuldade em perceber o que ouvia! Encontrei depois um guia que me disse que este suaíli é mais "puro". Falou-me do kiswahili, de que deriva o suaíli, que nasceu do casamento de línguas de vários povos - árabes, persas, omanis e dos bantus de zanzibar! Por isso, em Zanzibar, estão mais próximos da origem! Já agora, sabes que kelele quer dizer barulho? Nome que seria certamente apropriado para um mercado de escravos! (agora tem lá um salão de beleza, não é bizarro?)

Quando nos encontrarmos logo, tenho uma mão cheia de perguntas para te fazer, depois de me contares a aventura no Pegasus. Para além do suaíli, do árabe, do inglês, como é que tanta gente também fala italiano? E é verdade que em Pemba se podem ver touradas à portuguesa? (e porque não em Unguja?) Que história é essa da Guerra dos 40 Minutos? Só sei que envolve ingleses e sultões e que consta como a guerra de menor duração da História. Os Banhos Persa Hamamni ainda funcionam? ______Podia continuar a puxar as pontas dos mil e um novelos!

Sabes que esta avidez de saber é falaciosa, não sabes? Os dados novos apenas distraem um pulsar que tenho que conter. Apetece-me suaílar, regatear, mas sobretudo dançar, esquecer o calor e as regras do Islão.

Conheces o Bi Kidude?
Ele vai estar no Mambo Club logo à noite. Vê se chegas cedo. Até porque não sei se encontro o Bagaço! Desde que lançou aquele primeiro livro, nunca mais parou. Às tantas está para aí fechado a escrever o próximo best-seller!

Isto de viajar com um Indiana Jones e um Costa-Gravas é muito divertido mas às vezes é um pouco solitário (schuiff). A POPULACÃO É 95% MUCULMANA E EU SOU MULHER FËMEA USO SAIAS TENHO PELE CLARA OLHOS ESMERALDA VALHO TANTOS CAMELOS QUANTOS OS KM DAQUI ATÉ AO DESERTO DO SAARA! AINDA ME RAPTAM!

Para nem pensares em adormecer quando chegares do teu mergulho heróico, deixo-te esta carta e o leitor de cd's. Pedi na recepção do Hotel para os colocarem no teu novo quarto (também mudei, tinhas razão, é melhor mesmo em frente à praia).Free Image Hosting at www.ImageShack.us

Agora bin, carrega no Play.

Bi Kidude, o rei do taarab, 93 anos, canta Beru

Kwa Heri
Maria

5.5.05

Um dia

Esse lugar onde não há mentira
É para lá que eu vou
Esse lugar que a lua ilumina
com essa luz que fascina
É para lá que eu vou
Esquecer o barulho
Respirando o ar puro
que sai da flôr
Há gente tão linda...


Canta a paulista Nancy Galvão

4.5.05

À escuta #2



- Então, como correu a viagem?
- Ah, adorei, nunca tinha viajado para um país nórdico... É muito bonito! Mas sabes, não conseguia viver lá... É tudo muito disciplinado, muito direitinho, deitam-se muito cedo, à noite está tudo fechado, não há um único café aberto...
- Ah pois, uns amigos contaram-me que para marcar um jantar durante a semana tem que ser às 7 horas, porque às 10 horas já estão todos deitados!
- É isso! Mas depois estão muito avançados em muitas coisas... Vim de lá com uma que me deixou K.O.!
- Então?
- Vê lá que para a terceira idade têm umas casas muito giras com pequenos jardins, e as pessoas têm a sua privacidade..., fomentam a independência dos mais jovens aos mais velhos..., e depois há assistentes que dão apoio se necessitarem. Estas assistentes têm formação específica para prestar cuidados de geriatria, tudo muito bem... E algumas dessas assistentes também satisfazem as necessidades sexuais dos idosos... porque todos têm direito a uma vida sexual activa!!! O melhor é que andavam a discutir se a Segurança Social não deveria comparticipar esse tipo de serviços !?
- E tu não concordas?

[país : Dinamarca]

A Intérprete


A Intérprete

Acabo de ver o último filme de Sidney Pollack com Nicole Kidman, Sean Penn e o próprio Sidney Pollack, entre centenas de outros actores e figurantes e duplos e tudo aquilo a que uma grande produção tem direito... como obter autorização para filmar pela primeira vez dentro do edifício da ONU em Nova Iorque. E é claro que gostei do trabalho dos actores, da realização, do cenário, do tema - que é interessante e actual. Mas odiei o filme! Se alguém quiser nos próximos tempos nomear o estereótipo de um filme à americana, pode dizer "A Intérprete". O argumento é absolutamente, completamente, totalmente, insuportavelmente politicamente correcto e conveniente, sobretudo neste reinado Bushiano. Meu querido Sean Penn, se querias mandar algum recado, saiu-te o tiro pela culatra, puseste o teu talento ao serviço do tal sistema. As Nações Unidas deveriam poder assumir o papel a que a boazinha Silvia Broome/Nicole Kidman aspira, mas não sejamos inocentes... E o Tribunal Penal de Haia não existe apenas para julgar ditadores africanos...

E depois, os personagens são tão infelizes mas tão infelizes que dificilmente poderiam ser mais infelizes. Tobin perdeu a mulher que amava há poucos dias, Silvia perdeu todos os familiares. E o que é fantástico, é claro, é que a julgar pelo aspecto dos dois, ninguém diria!

É um filme com uma fórmula tão certinha que chateia. No final, oh meu caro Sidney Pollack, eles bem que se podiam ter beijado. Sempre saíamos da sala mais bem dispostos! Porque essa moda actual de happy endings sem sexo, só para não termos uma full house de happy end, e não dizermos que os filmes americanos são sempre a mesma coisa, é um disparate. Porque os filmes americanos não são sempre a mesma coisa, há uns muito bons (e Pollack entra no grupo de realizadores cujo mérito é indiscutível) e outros muito maus. Mas este filme, que poderia ter sido muito bom, é um desperdício de 80 milhões de US dólares!
(... mesmo se chegou ao primeiro lugar no ranking de bilheteiras dos EUA)

2.5.05

Já sonho com Ngorongoro VIII


Já sonho com Ngorongoro VII

Sabes bin, às vezes acredito na reencarnação. Vá, tem calma. Acontece que conheço esta leoa. Não só já a vi, como os nossos olhares já se cruzaram. E confiamos uma na outra. Reconheço-me nesta fêmea mas não sei explicar-te como. Talvez a minha memória se divirta a recriar imagens de infância e o meu pensamento mágico me engane. Mas não foi por acaso que, num impulso, me dirigi a ela e que ela se deitou nesse preciso momento, tranquila. Perdoa o susto. O que aconteceu depois? Não sei, "acordei". E então dei-me conta de que corria perigo. Por isso fiquei imóvel e concentrei-me apenas nas palavras do Andwele. Baixar o olhar, recuar lentamente.

Ficaste louco. Ainda vais ficar mais quando leres isto. Persisto numa inconsciência que te parece inaceitável. Para compreenderes tens que te lembrar que nasci no Dundo. Dundo, capital da Lunda Norte. Os meus irmãos de brincadeiras sempre tiveram, uns bonecas que vinham do Puto (como os "colonos" chamavam a Portugal), outros amuletos.
"Mininos" e monas, juntos. Não se nasce e cresce impunemente num lugar. Sabes isso. Os Matas (senhores) podiam estar divididos, mas nós não. Descalça no meio dos quiocos. Parecia-me natural pertencer também àquela terra.

Ainda antes de partir, enquanto preparava esta viagem, sentia que lentamente regressava às origens. Fui ao fundo do baú. Peguei no velho Ngombo e lancei mesmo aquelas figurinhas esculpidas em madeira. Saiu-me Mikama e Tchilôwa. Free Image Hosting at www.ImageShack.usSe acreditares em Tchokwe, sabe que a viagem vai correr bem. Espero que isso te tranquilize (se calhar, não). Mas deixa-me dizer-te mais: quando estas duas figuras se juntam, lembram ao viajante que devem respeito aos ídolos que forem encontrando no seu caminho. Esta leoa é um ídolo vivo. E eu sei, bin, que vai haver mais. Estamos apenas no princípio da grande viagem.

Amigo, obrigada pela tua companhia e pela tua generosidade. A tua vontade de me mostrares a tua África faz-nos percorrer quilómetros imensos a que chamas "pequenos desvios". O lago Manyara, depois o Parque Nacional de Tarangire. Não sei se vai caber tudo dentro de mim.

Agora estamos quase a chegar a Zanzibar. Anseio por ver a cor do mar. Dizes-me que é azul e límpida mas mais a norte, no Quénia, encontrei um Indico de águas turvas. Depois explicas-me porque é que é assim.

E vai ser bom encontrar o Bagaço, se tudo correr bem vai juntar-se a nós esse amigo. Aposto que já conhece os melhores bares de Zanzibar e que já escreveu alguns contos negros com marinheiros desdentados e prostitutas que viram os vestidos subir, mês após mês, com a certeza de nunca mais verem os amantes que as deixaram assim, gordas de vida.

Um abraço grande (já to dou)
Maria


P.S.: Dou-te o texto agora, mas só o lês quando eu não estiver por perto.

1.5.05

InJAZZ


Bernardo Sassetti

Por onde começar? Talvez repetindo os agradecimentos de Sassetti: à CMA, ao Teatro Aveirense e sobretudo a Pedro Santos da ONC - Produções Culturais. Pedro Santos arriscou a iniciativa do InJazz num país onde tudo está centralizado..., houve um problema de público... mas por isso mesmo, porque é importante educar para a cultura, para a música, para o Jazz..., há que fazer uma aproximação, assim, em 6 cidades do país...

E depois, hoje. Não houve um problema com o público. A sala estava cheia. Bernardo Sassetti encheu a sala. E Mário Delgado, é claro.

Mas eu só ouvi o Sassetti. São coisas que não se devem contar. Mas foi tão bom, tão bom, ouvi-lo durante cerca de uma hora e meia, gostei tanto tanto daquele som que saiu de dentro do piano domesticado, que não quis ouvir mais nada. Quis manter a memória daquelas melodias intacta, sem interferências. Saí no intervalo e passei o bilhete a um amigo que assim pôde assistir à segunda parte do espectáculo com os Filactera Redux de Mário Delgado.

Sasseti tocou peças de Indigo (álbum lançado em finais de 2004) e mais umas tantas improvisações precisas - ele tem a certeza das notas que toca - que se inspiraram em John Coltrane, John Lennon e até José Afonso (belíssima a "revisitação criativa" das melodias do Zeca Afonso, desta vez sem Mário Laginha).

Os encores foram muitos, o pianista acedeu sempre, ofereceu inéditos (a banda sonora de um filme, mais uma) e bónus ao público.

Conhecerão o estilo. Intimista, emotivo, louco, contido, melódico. Virtuoso é claro, e mágico. Às vezes tinha a impressão de sonatas a quatro mãos, orquestra e coro. Mas era só ele, Bernardo Sassetti a solo.

Ahhhhhhhh, que bom que foi!

Nasci d'asas


Jeffrey Tautrim

Nasci d'asas
com asas
cortaram-me as guias
de pé no chão
vieram os filhos
cortaram-me os pés
cresceram as asas
sei só voar
sem pé em terra
sem pé no mar
tenho pé no ar
filho d'asas
sabe voar

Almada Negreiros


Beijos à mãe, da filha,
Beijos da mãe, às filhas.